Mostrando postagens com marcador Preconceito. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Preconceito. Mostrar todas as postagens

terça-feira

O pato e a coruja - Hanna Johansen


Era uma vez uma bétula que se erguia no meio de um prado.
Mesmo à beirinha do prado cintilava um charco onde um pato nadava em círculo, mergulhando o bico de vez em quando.
O pato subiu para terra, sacudiu-se e olhou para o cimo da árvore.
Após ter olhado algum tempo, gritou:
— Eh, tu, aí em cima!
— Uhm — resmungou uma voz lá em cima, na bétula.
— És uma coruja a sério? — pergunta o pato.
— Uhm.
— Ora chega cá abaixo — gritou o pato.
— Uhm — resmungou a coruja a bocejar. E esvoaçou para o chão.
— Oh! — disse o pato. — Nunca pensei que uma coruja tivesse asas tão bonitas.
— Uhm — tornou a coruja, contente por o pato achar bonitas as suas asas.
— Porque é que estás sempre a dizer Uhm? Não sabes dizer mais nada?
— Claro que sei — disse a coruja — mas não me apetece. Estava a dormir.
— Oh, meu Deus! — exclamou o pato. — Como é que tu consegues dormir em pleno dia? Ninguém consegue!
— Não percebo o que queres dizer — respondeu a coruja. — Durmo sempre de dia.
— Isso é esquisito — disse o pato. — De noite é que se dorme.
— Dormir de noite, dizes tu? De forma alguma! A noite é demasiado excitante para ser gasta a dormir. É quando está escuro, é quando se arregalam bem os olhos, e se espera que passe alguma coisa que se possa comer.
— Não estás boa da cabeça! — disse o pato. — A comida não passa. Tem de se nadar, mergulhar e procurar até encontrar.
— Que forma mais disparatada de comer! — murmurou a coruja.
O pato zangou-se.
— Não é nada disparatada, é o normal! — disse, furioso.
— Não estás bom da cabeça! — respondeu a coruja. — Normal é pairar às escuras no bosque sem fazer barulho. E, então, quando algum animalzinho se mexer nas folhas secas, caímos-lhe em cima rapidamente e comemo-lo.
— Que horror! — gritou o pato. — Só de pensar nisso fico logo enjoado.
— E tu, o que é que comes? — berrou a coruja, que também estava zangada. — Comes alpista para patos. Que nojo! Até fico enjoada! E como é que se consegue comer durante o dia!
O pato até assobiou de raiva.
— Fica a saber que é de dia que se come! Todos fazem isso!
— Ora, ninguém faz isso! — gritou a coruja. — Quando fica escuro é que se tem fome a sério.
— Isso é uma estupidez! — grasnou o pato — Estupidez, estupidez, estupidez!!
E ali estavam os dois no meio do prado a discutir.
A coruja abriu e fechou o bico um par de vezes como se estivesse a pensar, e depois sacudiu-se.
— Ó pato — perguntou a coruja — afinal porque é estamos a discutir? Ainda te lembras porque é que começámos?
— Claro — responde o pato. — Porque tu fazes tudo mal. É por isso…
— Não é verdade — disse a coruja. — Eu não faço nada errado. Faço é de maneira diferente, e, assim, também dá. Faço como fazem todas as corujas.
— E eu faço como fazem todos os patos. Tens razão. Não é preciso discutir por causa disso.
“Ah”, pensava a coruja para si, “por sinal, até gosto do pato. Tem uma maneira esquisita de ver as coisas, mas será que, apesar disso, não podemos ser amigos?…”
— Mas que pés esquisitos tu tens! — observou a coruja.
— Não são esquisitos — responde o pato — são práticos. São para nadar.
— Para nadar, talvez sejam bons — opinou a coruja. — Quando se gosta de nadar. E, vendo melhor, até os acho bonitos.
— A sério? — sussurrou o pato.
— Anda comigo — disse a coruja de seguida— já me doem as pernas de estar aqui em baixo. Vamos pôr-nos confortáveis, em cima da bétula.
— O quê? — perguntou o pato.
— Vamos voar lá para cima — responde a coruja. — Em cima das árvores está-se melhor.
O pato nunca na vida tinha pousado numa árvore, mas se isso dava alegria à coruja, quis experimentar.
— Como queiras — respondeu.
E voaram os dois lá para cima; instalaram-se num ramo de onde podiam ver tudo em redor.
— Aqui tem-se melhores vistas — disse a coruja satisfeita.
— Bem… — murmurou o pato.
Olhava para o prado e para o charco onde o sol reluzia. Não gostou mesmo nada de pousar tão alto em cima de uma árvore. Esteve o tempo todo com medo de cair.
— Isto aqui não é bom — disse ele para a coruja. — Vamos antes nadar para o lago.
— Deves ter ficado maluco, de certeza! — gritou a coruja. — Para a água? Mas tu queres matar-me?
— Não te exaltes! — disse o pato. — Se queres, sentamo-nos então outra vez na erva. Vocês, corujas, são demasiado estúpidas para nadarem.
— E vocês, patos, são tão estúpidos que nem sabem pousar numa árvore!
— Oh, meu Deus — disse o pato. — Lá estamos nós a discutir outra vez.
— É porque tu começas sempre — retorquiu a coruja.
— Isso não é verdade — berrou o pato, furioso. — Não fui eu, tu é que começaste!
— Não, foste tu! — gritou a coruja.
— Ei, porque é que estás a gritar assim? — disse o pato.
— Eu não estou a gritar, tu é que estás! — disse a coruja.
— Não, tu é que estás!
— Oh, meu Deus! — disse a coruja. — Basta! Porque é que só sabemos discutir um com o outro?
— Porque tu fazes tudo errado.
— Eu não! — disse a coruja. — Tu é que fazes!
— Não, tu é que fazes! — disse o pato.
— Mas isso não tem importância. — disse a coruja. — Não é preciso discutir por uma coisa dessas.
O pato pensou melhor e disse:
— Também acho, não é preciso discutir por isso. Mas, olha, quem é que começa sempre?
— Eu acho que és tu.
— Não deves estar boa da cabeça — disse o pato. — Tu é que começas sempre!
— Uhm — disse a coruja — às vezes começo eu e tu imitas-me em seguida.
— Eu? — gritou o pato e bateu as asas com força.
— Não faças tanto vento — disse a coruja. — Queres que eu caia daqui a baixo?
— Pronto, está bem — diz o pato. — Mas se queres que sejamos
amigos, tens de acabar com a discussão.
— Pára tu! — disse a coruja.
Então o pato começou a rir e disse:
— Basta! Além disso, estou a ficar com fome. E a fome deixa-me impaciente. Vou mas é procurar alguma coisa para comer.
— E eu estou cansada. E sempre que fico cansada, fico zangada. Agora vou mas é dormir.
O pato voou para baixo. Aterrou no lago, voltou-se, olhou para cima e gritou:
— Então adeus, coruja. Dorme bem.
— Uhm — respondeu a coruja, sonolenta. — Dorme tu também, pato.
Já tinha os olhos quase a fecharem-se.
— Ah, é verdade — disse de seguida — tu não dormes. Só dormes quando fizer escuro. Bom dia para ti, pato. E até à próxima!


Hanna Johansen
Die Ente und die Eule
Zürich, Nagel & Kimche, 1988
Adaptado

segunda-feira

Vermelhinho, Amarelinho, Pretinha e Branquinha - Brigitte Minne



Numa aldeia, existe um largo. Nesse largo há quatro casas. As mães que vivem no largo acham que é bom que os filhos brinquem ao ar livre.
— Vão brincar lá para fora — dizem. É por isso que Vermelhinho, Amarelinho, Pretinha e Branquinha brincam muitas vezes juntos.
Lá perto existe um parque com um lago para onde as crianças costumam ir. E não muito longe do lago, há uma árvore. Vermelhinho quer sempre ocupar o ramo mais alto para ver todo o lago. — Estou a ver uma mãe pata com os seus filhotes — exclama. Ou ainda: — Que pássaro magnífico! O bico parece uma colher!
Amarelinho, Pretinha e Branquinha gostariam de ver os patinhos bebés e o pássaro de bico em forma de colher, mas não têm autorização. São obrigados a ficar no seu ramo. Como se a árvore e o lago pertencessem só a Vermelhinho.
Naquela árvore, Vermelhinho, Amarelinho, Pretinha e Branquinha construíram uma cabana. Pintada de vermelho, está claro. É que Vermelhinho não quis ouvir falar de outra cor. De forma nenhuma!
De vez em quando, é preciso fazer limpeza à cabana. — Tu, tu limpas o chão! — grita Vermelhinho. E Branquinha lá se põe a esfregar. Amarelinho, esse, recebe ordens para lavar muito bem a porta com sabão. Enquanto Amarelinho, Branquinha e Pretinha andam numa roda-viva, Vermelhinho não faz nada.
É sempre a mesma coisa! Mas Amarelinho, Branquinha e Pretinha nunca se atrevem a resmungar.
Quando Pretinha joga a bola, Vermelhinho também quer jogar.
Quando Branquinha se senta na bola, Vermelhinho também quer lá sentar-se.
Quando Amarelinho quer brincar com o carrinho, Vermelhinho diz-lhe: — Dói-me a cabeça. Não faças barulho!
Não passa de uma mentira, mas ninguém se atreve a fazer frente a Vermelhinho.
Um dia, Vermelhinho grita: — A árvore é minha e todos os brinquedos também.
Pretinha vira-se para Amarelinho que se volta para Branquinha. — Não é justo — murmura escandalizada. — Não tens o direito de fazer isso!
— Sim, tenho, sua palerma de tranças! — grita Vermelhinho.
Pretinha não é idiota e sente-se muito orgulhosa das suas tranças. Sente uma raiva terrível subir por ela acima. — E tu és um tirano! — grita. — Estou farta da tua árvore, da tua cabana e dos teus brinquedos!
E vai-se embora.
“O que Pretinha teve a coragem de fazer, eu também tenho!”, pensou Branquinha.
— És um chato! — grita ela para Vermelhinho.
Depois, é a vez de Amarelinho se revoltar: — Palerma!
E os dois apoderam-se do barco vermelho e correm para junto de Pretinha, soltando gritos de alegria.
Vermelhinho fica só. — Não preciso de vocês! — ouvem-no resmungar.
Branquinha, Amarelinho e Pretinha depressa pintam de novo o barco. Amarelinho pinta o leme de amarelo, a cor dos chupas de limão e da flor do dente-de-leão. Pretinha pinta o casco de preto. — Negro como uma linda noite estrelada — acrescenta, orgulhosa. Branquinha pinta a cabine de branco. — É como a neve— exclama. O barco está magnífico.
Pretinha, Amarelinho e Branquinha estão doidos de alegria.
— Quem é o capitão? — pergunta Amarelinho. — Eu! — grita Pretinha que salta para dentro do barco e se agarra ao leme. Branquinha morde os lábios. — Eu também quero ser capitã — murmura com um bocadinho de inveja. — Tu não és a única — acrescenta Amarelinho.
Se Vermelhinho lá estivesse, as coisas seriam mais simples. — E se fôssemos à vez capitães? — propõe Pretinha. — Boa ideia — aprovam os outros dois.
Com Pretinha ao leme, o barco nem sequer avança um palmo. É com um certo alívio que entrega a direcção a Branquinha. Esta bem se agarrou ao leme, mas nada mudou. O barco só deslizou um bocadinho. Chega a vez de Amarelinho. De tanto baloiçar ficou enjoado e já não tem vontade de ser capitão!
Vermelhinho continua a brincar aos chefes. Como está sozinho, é obrigado a dar ordens a si mesmo:
— Limpa o chão! — diz muito alto. E limpa o chão até não poder mais.
— Não te esqueças de limpar os cantos! — grita.
Ao esfregar, tropeça na esfregona.
— Vê onde pões os pés, seu palerma! — Vermelhinho já não pode mais. Acaba por rebentar: — Palerma! Nem jeito tens para chefe!
De tão furioso que está, até dá bofetadas a si mesmo! Depois, desata a chorar e corre para a árvore. Vê Pretinha, Branquinha e Amarelinho lá longe, no barco.
Vermelhinho compreende finalmente o que custa ser chefe. Os chefes aborrecem-
-no. Pretinha, Branquinha e Amarelinho tiveram razão em ir embora. Vermelhinho já não tem amigos. Chora em silêncio. — Vou construir uma vela — pensa.
— Fiz uma vela para vocês — grita Vermelhinho.
Pretinha vira-se para Amarelinho que se volta para Branquinha. — Bem precisamos dela! — suspira Branquinha. Os três ajudam Vermelhinho a subir para dentro do barco. Vermelhinho mantém-se calmo, mas em breve o desejo de mandar volta a fazer-lhe comichão. — Posso ser o capitão? — pergunta. — Podes sê-lo, até regressarmos à nossa árvore — diz Amarelinho. Vermelhinho pega no leme e grita: — Icem a vela e limpem a ponte!
Algum tempo depois, Pretinha, Amarelinho e Branquinha largam escovas e vassouras. — O que se passa? — pergunta Vermelhinho muito admirado.
— Estamos quase a chegar — lembram-lhe os três amigos. Então, Vermelhinho abandona o leme…
A partir daquele dia, cada um dirige o barco à vez. Se vissem a velocidade a que ele vai!
Até se esquecem de voltar para casa!


Brigitte Minne et Carll Cneut
RougeJauneNoireBlanche
Paris, Ed. Pastel, l’école des loisirs, 2002
Tradução e adaptação

quarta-feira

A lei das leis - Gougaud

Nesse tempo reinava no país um velho rei. Era um pai amoroso, justo, um homem recto. Mas era cego. Um dia, mandou erigir à entrada do palácio um grande pilar decorado com figuras de antepassados e pequenos poemas. No topo, quis que colocassem um sino cuja corda penderia sobre a praça pública. Quando tal foi feito, mandou publicar um aviso: «Se alguém de entre nós sofrer alguma injustiça, que venha aqui tocar. O meu juiz virá cá fora e ditará o direito segundo a lei das leis.»
Aconteceu que uma serpente fez o seu ninho na erva, à beira de uma muralha. Num fim de tarde, quando se aquecia na borda do rio com as crias, um soldado cansado fez rolar uma pedra sobre a sua casa de palha e sentou-se para beber. Quando a serpente voltou, já não tinha abrigo. Esperou pela noite, foi até ao lugar onde a corda pendia, enrolou-se à volta dela e sacudiu-a tanto que o juiz, meio surdo, saiu cá para fora, na noite clara. Procurou aqui e ali quem pudesse ter tocado; apenas viu um cão a vaguear na rua deserta. Encolheu os ombros e deu meia-volta. Quando ia a entrar, a serpente endireitou-se de repente diante das suas pernas, ergueu a cabeça chata e disse com voz humana:
— Há pouco, um soldado destruiu o meu ninho. Segundo a lei das leis, isto será justo?
— Tremo com as tuas palavras — respondeu-lhe o juiz.
— Também eu, fica a saber. Será que por isso devemos perder a confiança no direito?
— Claro que não — disse o juiz. O diabo tem a sua casa, Deus e os homens também. Segundo a lei das leis, a tua casa vale tanto como a minha. Amanhã, levarei o teu pedido ao meu rei.
Na manhã seguinte, quando o juiz falou na câmara real, o rei cego colocou, para honrar o céu, umas lentes azuis, meditou um momento e disse:
— Que esse soldado dê à serpente o seu ninho. E que lá não falte o mais pequeno tufo de erva. Exijo expressamente que seja como era antes de ele o ter destruído.
Tal foi feito nesse mesmo dia.
O rei, nessa noite, deitou-se cedo. Ora, enquanto suspirava na sua almofada branca, a serpente introduziu-se no quarto pela janela aberta. Tinha na boca uma pedra brilhante. Um escudeiro apercebeu-se de que ela deslizava pelo solo. Convocou a guarda. Postaram-se à volta da cama.
— Deixem-na – disse a todos o Justo, sonolento. — Esse humilde animal conhece a lei das leis.
A serpente prontamente se ergueu sobre o leito. Subiu pelo edredão, chegou à face do rei, depôs na sua fronte a bela pedra cintilante e partiu apressadamente por entre os pés da gente.
O rei abriu os olhos. Já não era cego. Apagou o candeeiro e adormeceu contente.


Henri Gougaud
La Bible du Hibou
Paris, Ed. du Seuil, 1993

terça-feira

A aluna estrangeira - Evelyne Stein-Fischer


Chama-se Salima, a nova da turma.
Não é uma menina calada e tímida, como Gabi. Salima faz-se notada em todo o lado.
Fala mais alto do que os outros. Veste roupas mais garridas do que a maioria. E não deixa que lhe preguem partidas.
Por isso, as crianças tentam constantemente arreliá-la. Diverte-as enfurecerem Salima, ouvi-la gritar, vê-la debater-se à volta delas.
Troçam dos seus cabelos encarapinhados, das narinas grandes e da pele escura.
Salima é negra.
Fala bem alemão porque veio para a Europa com os pais quando ainda era bebé.
Gabi acha graça a tudo na nova menina.
Gosta dos olhos grandes, da voz gutural, da pele cor de chocolate.
Quando Salima ri, ri-se com o corpo todo.
Quando está furiosa, parece um vulcão, onde tudo ferve.
Gabi emprestou logo o seu caderno à nova aluna, para ela copiar as lições.
Com ela, Salima nunca é atrevida ou rude. Quando a deixam em paz, ela é igual aos outros.
Mal a menina estrangeira chegou à turma, há um mês, a escaramuça começou imediatamente:
— Uma preta! — disse Bettina bastante alto. Está sentada ao lado de Gabi e é a sua melhor amiga.
— É negra! — disse Georg arregalando os olhos.
A cozinheira negra já cá está… já, já, já…(1) — trauteou Inga baixinho, da penúltima carteira.
Infelizmente, a pior é Bettina. Tem sempre alguma coisa a apontar à nova menina. A culpada disso é a mãe. Até a proibiu de voltar da escola para casa com “a tal preta”. A mãe nem conhece a menina estrangeira mas, mesmo assim, não gosta dela.
— Não é de cá — diz. — Vê-se à distância de dez metros que é diferente de nós.
Bettina também acha.
Gabi não percebe. “Isso não é motivo para não se gostar de alguém”, pensa. “Até é feio excluir-se uma pessoa, só porque ela tem um aspecto diferente do nosso.”
Gabi sabe o que é não pertencer ao grupo, porque também já foi nova na turma e ainda não há muito tempo. A nova, com grandes dentes da frente e um nariz demasiado comprido. “Peixe Espada”, foi como lhe chamaram na altura. Precisou de um ano inteirinho até conseguir aguentar, sem chorar, a troça dos outros.
Mesmo assim, foi-lhe mais fácil do que o é agora para Salima. Porque Gabi é branca. Gradualmente, foi conseguindo ultrapassar o medo em relação aos outros.
Mas Salima nunca conseguiria esconder a sua pele escura.
Gabi gostava de dizer aos outros da classe que a nova só é atrevida porque tem de estar sempre a defender-se. Porque não a deixam em paz de uma vez por todas?
Só que Gabi tem medo de se pôr claramente do lado da menina estrangeira. Bem lhe quer mostrar que gosta dela, mas os outros não podem notar.
Não gostaria de vir a ter a maioria dos colegas contra ela, como antes, quando chegou como nova à turma.
Mesmo assim…
“Tenho de arranjar maneira de mostrar à Salima que estou do lado dela”, pensa Gabi. “E que gosto dela.”
Às vezes, no fim das aulas, depois dos outros já terem saído, Gabi atrasa-se de propósito para ficar mais um pouco com Salima, que demora sempre muito tempo a arrumar as coisas e a metê-las na pasta.
De repente, cai-lhe o estojo das mãos, e todos os lápis, os lápis de cor, duas borrachas e um pedaço de chocolate já mordido rolam para debaixo da carteira.
— Vá, eu ajudo-te — oferece-se Gabi.
Deitadas de barriga para baixo, tentam “pescar” o material escolar e o chocolate. Assim, ao tentarem chegar as duas ao mesmo lápis, chocam com os narizes uma na outra debaixo da carteira.
— Ai! Ui! — exclamam em coro, esfregando os narizes amachucados. E desatam a rir.
Salima diz de repente:
— Tu és simpática, sabes, mas os outros… —E faz um gesto de desprezo com a mão, que mais parece uma tentativa de nadar, porque Salima ainda está deitada. Gabi levanta-se e sacode o pó das calças.
Salima gatinha para fora da carteira mas fica sentada no chão.
— Sabes — diz, apontando para a sala vazia — se não lhes fizer frente desde o início, acabam comigo. Aprendi isto quando ainda era pequena e nos mudámos para cá. Algumas pessoas comportam-se de forma muito estúpida só porque tenho a pele escura. Acham que tenho de me sujeitar a tudo! — Salima levanta-se e mantém-se direita.
— Mas de mim não conseguem nada. De mim, não!
Por momentos, parece que vai chorar, mas não.
Gabi admira a menina estrangeira por ter a coragem de não se submeter. Ela própria tinha-se sempre escondido na sua casinha de caracol.
Encolhida, amedrontada, magoada nos seus sentimentos.
Salima, no entanto, é um pouco como um ouriço-cacheiro. Mal há sinal de perigo, fica logo eriçada. Ela até é bem-disposta e gosta de rir. “Só temos de afastar os picos um pouco para o lado e não a provocar,” pensa Gabi. “E também ser amáveis com ela. Porque é que a maioria não percebe isso?”
A maior parte dos meninos não se deu sequer ao trabalho de tentar compreender a nova colega. Pensam que podem ofendê-la. Ela grita, mas ri logo a seguir.
Podem pisá-la. Ela riposta, mas, quando vai para casa, já vai a cantar.
Aguenta muita coisa. Podem fazer-lhe sentir que é diferente. É mesmo bom que haja cá uma aluna como ela. Ao menos, há mais animação.
É sempre Bettina quem desafia a menina negra e quem provoca os outros. Como neste momento.
Bettina faz pontaria com a borracha às costas de Salima. A borracha faz ricochete e salta de novo para a mesa. A brincadeira repete-se quatro, cinco vezes.
Alguns riem.
— Palerma! — grita Salima, que já começa a ficar farta.
— Acalma-te — diz Paul, com uma voz zangada e dura, ele que nem tem nada a ver com o assunto.
— Deixa-a em paz! — mete-se Alexa, que está sentada ao lado de Salima.
Alexa tomou o partido de Salima. Pode dar-se ao luxo de dizer abertamente o que pensa.
“Como ela é querida por todos, pode admitir que gosta da nova”, pensa Gabi.
Com Gabi é mais do que “gostar”. Ela sente com Salima. Sabe, pelo que passou, o que Salima tem de aguentar. Tem pena dela. Lá por Salima, para quem vê de fora, reagir melhor do que ela reagiu, não quer dizer que não se sinta igualmente ferida.
“Tenho mesmo de fazer alguma coisa”, pensa Gabi. “Tenho de lhe provar que sou sua amiga.”
“A dois”, pensa Gabi, “dói tudo um pouquinho menos. A dois, pode-se partilhar a dor. Mas o que posso fazer sem pôr logo os outros contra mim?”
Gabi decide deitar-se na varanda todas as tardes depois da escola e “torrar” ao sol. Uma hora inteirinha até ficar cor de chocolate. Assim, Salima deixaria de ser a única com a pele escura. No Verão, a mãe está sempre a dizer a Gabi:
— Pareces uma negra!
Assim, a partir de hoje, Gabi tornar-se-ia negra.
— Que estupidez — diz em voz alta, afastando aquela ideia. — Uma pessoa não se torna negra só por se deitar umas horas ao sol. Não se fica, só por isso, com nariz largo, nem com lábios grossos, nem com carapinha. É preciso muito mais. E, principalmente, ter uma mãe ou um pai que sejam negros.
Gabi continua a magicar. Tem os cotovelos fincados na mesa e a cara apoiada nas mãos. Nem repara no que está a passar-se à sua volta. Tem o olhar fixo no padrão verde das costas do casaco de Salima.
De repente, um bico de lápis desliza para a frente, na diagonal. Pertence ao lápis que Bettina segura na mão.
— O que estás outra vez a fazer? — Gabi desvia Bettina com um toque.
— Deixa-me!
Bettina segura no lápis afiado de forma a apontar a mina à nuca de Salima. Estica o braço até quase lhe tocar.
— Será que ela sente? — segreda Bettina.
— Pára com isso!
Mas Bettina há muito que quer saber como é uma carapinha. Se é rija ou se é mole.
Bettina estica o braço um pouco mais para a frente. Alguns observam a brincadeira. De repente, Salima começa a balançar-se na cadeira. Dá lanço na beira da mesa, inclina-se com força para trás e acerta com a nuca no bico do lápis.
Um grito. Breve e cortante.
Com a mão direita na nuca, Salima dá umas voltas sobre si mesma. Com a esquerda, dá uma bofetada a Bettina.
— Estás maluca!! — grita Bettina — Não te fiz nada!
— Picaste-me!
— Não picou nada! — confirma Brigitte, que nem tinha prestado atenção ao que se passara.
Que pena a professora ainda não estar na sala. Podia ter acalmado a discussão.
— Vais pagar-me pela bofetada! — diz Bettina zangada.
Gabi estende o braço. Quer afagar a menina negra.
Mas Salima levantou-se de um salto e corre para a porta, a mão ainda na cabeça. Sobre a mão escorre um pouco de sangue. Antes de sair, Salima pára repentinamente. Devagar, muito devagarinho, vira-se para a turma, que a olha com curiosidade.
A menina estrangeira chora. Em silêncio. Só o subir e descer do corpo e o fungar baixinho revelam a intensidade do choro. Os grandes olhos parecem ainda maiores sob as lágrimas.
Fica por uns momentos parada, sem se mexer. Depois, fecha a porta com estrondo.
Silêncio aflitivo.
Salima chora. Já não ri. Não canta. Chora, como qualquer outra criança também teria chorado.
Gabi está como que pregada à carteira. Muda com o susto. As pernas estão pesadas como se tivesse chumbo nos pés. Porque não se levanta? Porque não corre atrás de Salima? Ela própria não percebe. Era precisamente agora que Salima mais precisava dela.
“Vocês são maus!”, quer gritar. Mas não lhe sai nada.
— Vocês são maus! — grita Michael em vez dela. Está sentado na primeira fila. — Ela não vos fez nada. Se fosse comigo, tinhas apanhado logo duas bofetadas, Bettina.
“Agora que Salima não está cá e não pode ouvir, é que ele diz isto”, pensa Gabi.
E ela própria, que tanto queria ter corrido atrás dela, que queria tê-la agarrado, protegido… não conseguiu!!
De repente começam todos a falar ao mesmo tempo.
— Ela não tem culpa de ser preta — diz Alexa novamente, que foi a primeira a defender a menina estrangeira. — Imaginem-se o único branco numa turma de pretos. Gostavam que vos acontecesse o mesmo?
— Salima pode não ter culpa de ser preta — diz Inga — mas no meu pão com fiambre é que nunca a deixaria trincar.
— Ugh! — diz Helga, arrepiando-se.
— Ugh! — diz Paul, arrepiando-se também.
— A ti é que ninguém te deixava trincá-lo, com tantas borbulhas — grita Martin.
— Saliva é saliva — diz Paul.
— Exactamente! E com Salima não é a mesma coisa? — Alex bate com o punho na mesa.
Gabi assusta-se. As vozes ressoam-lhe na cabeça. A pancada com o punho arrancou-a da confusão das palavras.
Há pouco, quando Salima estava a chorar à porta, Gabi tinha tido uma oportunidade. Podia ter mostrado que achava horrível a forma como os outros se comportavam. Especialmente Bettina. Em vez disso, tentou apenas acariciar a nova menina. Medrosamente, do seu lugar, de onde não precisava de se levantar nem de sentir a turma atrás das costas. Mas novamente a mesma sensação… Não.
O medo de tornar a ser ridicularizada é maior do que a ligação a Salima.
Mesmo assim, Gabi diz, muito baixinho:
— A Salima é querida. Porque é que és tão antipática com ela?
Bettina ouviu.
— Muito querida — diz, venenosa. — Mas cheira mal!
— Que estupidez! — grita Michael, que só ouviu as últimas palavras. — Já alguma vez estiveste sentada ao lado do Markus? Ele cheira tão mal que até as minhas meias fogem dele!
Markus, hoje, não veio às aulas. Por isso, a ofensa não o magoa. Se estivesse presente, ninguém teria dito aquilo.
Mas à menina estrangeira diz-se-lhe tudo na cara.
Bettina cala-se. A cara ainda está um pouco vermelha da bofetada. De repente, começa outra vez a barafustar:
— Anda vestida como um papagaio. Só lhe faltam as penas no rabo.
Risos abafados.
— Cala a boca de uma vez por todas! — diz Gabi, agora em voz alta.
A frase desapareceu na risota geral. Cada um grita à turma a sua opinião.
— Acabou! Acabou! Já chega! — Gabi grita agora mais alto do que os outros. Grita e tapa os ouvidos ao mesmo tempo. Ninguém repara que a porta da sala se abre.
Quando Salima se dirige em silêncio para o seu lugar, todos se calam de repente. Não olha para ninguém, tem os olhos pregados no chão e um grande penso na nuca.
Gabi levanta-se antes de Salima se sentar. É automático, o chumbo dos pés desapareceu. Gabi nem precisa de pensar. Vai direita a Salima e, em frente de toda a turma, põe-lhe carinhosamente o braço à volta dos ombros. Não custou nada.
— Lamentamos todos — diz Gabi em voz alta, de forma a que todos ouçam, especialmente Bettina.
Salima não diz nada.
Agora levantam-se também Alexa e Michael. Inga e Martina. Até Paul se chega à frente. O pequeno grupo cresce à volta de Bettina.
— Não fiz de propósito! — diz esta baixinho.
— Dói muito? — pergunta Gabi.
Salima levanta finalmente os olhos e olha para Gabi. Põe o braço à sua volta.
— Agora já não — diz.



(1) Canção infantil austríaca (N.T.)

Evelyne Stein-Fischer
13 Geschichten vom Liebhaben
München, DTV Junior, 1990
Tradução e adaptação


segunda-feira

Os três astronautas - Umberto Eco


Era uma vez a Terra.
E era uma vez Marte.
Ficavam muito longe um do outro, no meio do céu, e à volta havia milhões de planetas e de galáxias.
Os homens que estavam na Terra queriam ir a Marte e aos outros planetas: mas estavam tão longe!
Porém não descansaram. Primeiro lançaram satélites que andavam à roda da terra por dois dias e depois vinham de novo.
Depois lançaram foguetões que davam algumas voltas à Terra mas, em vez de regressarem, acabavam por escapar à atracção terrestre e seguiam para o espaço.
Primeiro, puseram cães nos foguetões: mas os cães não sabiam falar, e pela rádio só transmitiam “béu béu”. E os homens não percebiam o que eles tinham visto e até onde chegavam.
Por fim arranjaram homens corajosos que quiseram ser cosmonautas. Os cosmonautas tinham este nome porque iam explorar o cosmos, que é o espaço infinito com os planetas, as galáxias e tudo o que têm à sua volta.
Os cosmonautas partiam e não sabiam se voltariam ou não. Queriam conquistar as estrelas para que um dia todos pudessem viajar de um planeta para outro, porque a Terra se tornara demasiado apertada e os homens aumentavam de dia para dia.
Numa bela manhã, partiram da Terra três foguetões de três pontos diferentes.
No primeiro ia um americano, que, todo alegre, assobiava uma ária de jazz.
No segundo ia um russo que cantava com voz profunda Volga, Volga.
No terceiro ia um chinês, que cantava uma belíssima canção, que os outros dois achavam desafinada.
Cada um queria ser o primeiro a chegar a Marte, para mostrar que era o mais valente.
Na verdade, o americano não gostava do russo e o russo não gostava do americano, e o chinês desconfiava dos dois.
E isto, porque o americano, para dizer bom dia, dizia: how do you do, o russo dizia 3дpacтвyйte e o chinês dizia bom dia em chinês. Não se percebiam e julgavam-se diferentes.
Como os três eram todos valentes, chegaram a Marte quase no mesmo instante. Desceram das suas astronaves, de capacete e fato espacial... E descobriram uma paisagem maravilhosa e inquietante: o terreno era sulcado por longos canais cheios de uma água de cor verde-esmeralda. Havia estranhas árvores azuis com aves nunca vistas, de penas de cores estranhíssimas. Lá no horizonte viam-se montanhas vermelhas que emitiam estranhos brilhos.
Os cosmonautas olhavam a paisagem, olhavam uns para os outros, e mantinham-se afastados, cada um desconfiado dos outros. Depois veio a noite.
Havia à roda um estranho silêncio, e a Terra brilhava no céu como se fosse uma longínqua estrela.
Os cosmonautas sentiam-se tristes e perdidos e o americano, na escuridão, chamou pela mãe. Disse Mommy...
E o russo disse: Mama.
E o chinês disse: Ma-ma.
Mas compreenderam logo que estavam a dizer a mesma coisa e tinham os mesmos sentimentos. E sorriram, aproximaram-se, acenderam juntos uma bela fogueira, e cada um cantou canções do seu país.
Então encheram-se de coragem e, à espera da manhã, aprenderam a conhecer-se.
Por fim, veio a manhã e fazia muito frio. E, de repente, de um tufo de árvores saiu um marciano. Tinha um aspecto horrível! Era todo verde, tinha duas antenas no sítio das orelhas, uma tromba, e seis braços. Olhou para eles e disse: Grrr!
Na sua língua queria dizer: “Mãezinha, o que são estes seres horríveis?”
Mas os terrestres não o compreenderam e julgaram que era um rugido de guerra. Era tão diferente deles que não foram capazes de o compreender e de o amar. Os três sentiram-se logo iguais e uniram-se contra ele.
Perante aquele monstro, as suas pequenas diferenças desapareciam. Que importava se falavam uma linguagem diferente? Compreenderam que eram os três seres humanos. O outro não. Era demasiado feio, e os terrestres pensavam que quem é feio também é mau. Por isso resolveram matá-lo com os seus desintegradores atómicos.
Mas, de repente, na grande geada da manhã, um passarinho marciano, que, evidentemente, fugira do ninho, caiu no chão, tremendo de frio e de medo. Piava desesperadamente, mais ou menos como um passarinho terrestre. Fazia mesmo pena. O americano, o russo e o chinês olharam-no e não conseguiram reter uma lágrima de compaixão.
E então aconteceu uma coisa estranha. Também o marciano se aproximou do passarinho, olhou para ele, e deixou escapar da tromba dois fios de fumo.
E os terrestres, de repente, compreenderam que o marciano estava a chorar à sua maneira, como fazem os marcianos.
Depois viram-no baixar-se para o passarinho e segurá-lo nos seus seis braços, tentando aquecê-lo.
O chinês voltou-se então para os dois amigos terrestres.
— Compreenderam? — disse. — Nós julgávamos que este monstro era diferente de nós, e afinal ele também ama os animais, pode comover-se, tem um coração e certamente um cérebro! Ainda acham que devemos matá-lo?
Nem era pergunta que se fizesse.
Os terrestres agora tinham compreendido a lição: não basta que duas criaturas sejam diferentes para que tenham de ser inimigas.
Por isso aproximaram-se do marciano e estenderam-lhe as mãos. E ele, que tinha seis, apertou de uma vez só a mão aos três, enquanto com as mãos livres fazia gestos de saudação.
E, apontando para a Terra, lá em cima no céu, deu a entender que desejava fazer uma viagem para conhecer os outros habitantes e estudar com eles a maneira de fundar uma grande república espacial, em que todos vivessem com amor e concórdia.
Os terrestres disseram que sim, todos contentes. E para festejar o acontecimento, ofereceram-lhe uma garrafinha de água fresquíssima trazida da terra. O marciano, muito feliz, meteu o nariz na garrafa, aspirou e disse que gostara muito daquela bebida, se bem que lhe fizesse andar a cabeça à roda. Mas agora os terrestres já não se espantavam. Tinham concluído que na Terra, tal como nos outros planetas, cada um tem os seus gostos, e é só questão de se compreenderem uns aos outros.


Umberto Eco; Eugenio Cami
Os três astronautas
Lisboa, Quetzal Editores, 1989
adaptação

A ladeira - José Fanha


Era uma vez dois homens. Um era alto, outro baixo. Um era gordo, outro magro. Um moreno, o outro ruivo. Um tinha a voz muito grossa e outro uma borbulha na ponta do nariz. Um chamava-se Manuel Francisco e o outro Francisco Manuel. E muito mais coisas poderia dizer de cada um deles. Mas, o fundamental, é que eram muito diferentes um do outro. Só numa coisa se assemelhavam: ambos eram tremendamente teimosos.

Na terra onde viviam havia uma ladeira íngreme, inclinada, cheia de pedras e calhaus. Uma ladeira daquelas que a gente só sobe ou desce quando não pode deixar de ser.

Um dia, um dos homens ia a subir a ladeira quando o outro vinha a descê-la. Como é natural, encontraram-se a meio. Bem... A meio, a meio, exactamente a meio, não tenho a certeza se foi. Talvez tenha sido um bocadinho mais para cima ou um bocadinho mais para baixo. Para a nossa história esse pormenor não tem grande importância e, por isso, vamos fazer de conta que foi a meio.

Mais ou menos a meio da ladeira, os dois homens encontraram-se, pararam à frente um do outro e desataram a discutir. Um ia a subir e, por isso, achava que a ladeira era uma subida. O outro vinha a descer e, pelo contrário, garantia que se tratava de uma descida.

Sem chegar a acordo, sentaram-se ali mesmo no chão para tirar a questão a limpo. Quem os conhecesse, sabendo que eram homens de palavra fácil, capazes de inventar sólidas razões e grandes argumentos, logo via que aquela discussão ia demorar. E demorou.

Passaram-se sete dias e sete noites e a discussão não parava. Veio a Lua e foi-se o Sol, veio o Sol e foi-se a Lua e os dois homens a discutir. Nem o frio, nem o calor, nem a chuva, os distraiu. Continuavam na mesma. Para um, aquela ladeira era uma subida porque subia de baixo para cima. Para o outro, era uma descida porque descia de cima para baixo.

A discussão continuou e continuou. À sétima noite começou a soprar um vento muito forte. Um vento tão forte e violento que arrancava terras, árvores e pedras e as atirava de um sítio para outro. Um vento daqueles capazes de trabalhar lentamente, séculos e séculos a fio, para mudar a face da Terra e transformar montes em covas fundas e buracos de meter medo nas mais altas montanhas.

O tempo passou. O vento mexeu com tudo. Mudou a paisagem. Transformou o mundo. Só os dois homens continuavam sentados no meio da ladeira sem darem por nada do que acontecia à sua volta. Estavam tão preocupados, cada um, em ganhar a discussão que não sentiram nem a chuva na pele, nem o frio nos ossos, nem o sol na moleirinha.

Passaram-se sete mil noites e sete mil dias, os homens a discutir e o vento a trabalhar.

A ladeira, a pouco e pouco, ia ficando diferente. A parte mais alta cada vez menos alta, e a parte mais baixa a crescer sem parar à custa de entulho, areia, calhaus e pedrinhas que a tornavam cada vez menos baixa.

Um belo dia, a parte de baixo e a parte de cima da ladeira ficaram iguais, da mesma altura e, portanto, a ladeira desapareceu. A terra ficou direitinha, lisa, uma planície que se estendia até perder de vista.

O vento, sem mais nada que fazer ali, foi trabalhar para outro lado. Os dois homens que, como eu já disse, eram muito teimosos, continuavam a discutir se a ladeira era uma subida que se descia ou uma descida que se subia.

A certa altura, olharam em volta, para um lado e para outro, até onde a vista podia alcançar. Aperceberam-se então que a ladeira tinha desaparecido. Olharam um para o outro, levantaram-se, cumprimentaram-se e, cheios de orgulho, afastaram-se cada um em sua direcção, ambos seguros de que tinham ganho a discussão.

José Fanha
A noite em que a noite não chegou
Porto, Campo das Letras, 2001


O vírus do preconceito


A primeira vez que vi Mustafá foi no hospital onde acabava de fazer o meu trabalho de jornalista: entrevistar pessoas. A guerra terminara há pouco.

Entrou passo a passo na sala de reabilitação. Andava muito devagar, com dificuldade, e parecia bem mais velho do que os seus cinquenta anos.

Sentado em cima de um colchão de espuma, com as costas direitas, começou os exercícios: levantar acima da cabeça pequenos halteres de ferro fundido. O esforço era tão grande que os olhos se lhe enchiam de lágrimas. A respiração ofegante ressoava no silêncio da sala. Ao ver aquelas pernas rígidas e sem vida, como dois pedaços de madeira que faziam ângulo recto com o seu corpo, pensei numa marioneta desarticulada.
Apresentei-me e perguntei-lhe se aceitaria responder às minhas perguntas e dizer-me como tinha ido parar à ala dos deficientes motores do hospital Koševo de Sarajevo.

— Com certeza — respondeu-me a sorrir.

Eis o que me contou:

Antes da guerra, era lixeiro. Quando os bombardeamentos começaram, ficou desempregado. A administração municipal não funcionava e, embora os recipientes do lixo se amontoassem nas ruas da cidade sitiada, ele deixara de ter possibilidades de fazer o seu trabalho. Os combates intensificaram-se, e Mustafá passava a maior parte do seu tempo fechado em casa, com a mulher. Viviam no bairro do aeroporto, perto de uma linha da frente, onde a guerra estalara com uma violência muito particular. Para não arriscarem a vida, só saíam à noite.

Apesar dessas precauções, numa noite de Setembro de 1993, Mustafá foi atingido com uma bala nas costas à entrada do prédio. Tinha sido alvejado por um atirador.

— Tudo estava tão calmo — disse-me ele. — E de repente, pum! Deviam ser duas horas da manhã. O tipo que me fez isto tinha de certeza uma espingarda com infravermelhos. São práticas, permitem ver como em pleno dia. Acertou-me como se eu fosse um coelho, bem no meio das costas...

Voltei várias vezes ao hospital para ver Mustafá. Um dia, como lhe perguntasse o que tencionava fazer agora que a guerra terminara, olhou-me com ar incrédulo. A pergunta parecia-lhe absurda.

— A minha vida ficou estragada — respondeu-me. — A guerra deu cabo de mim.

Falava com uma voz monocórdica, como se fosse uma coisa evidente e não devesse inspirar nenhum tipo de compaixão.

Enquanto conversava com Mustafá, não parava de pensar na bala de espingarda que retirara da parede do meu apartamento. Um dia, de regresso a casa, fui encontrá-la cravada na parede. Por mero acaso não atingira o alvo: é que eu tinha saído. Tratava-se de um pequeno pedaço de metal brilhante e pontiagudo, exactamente igual àquele que se tinha alojado na coluna vertebral do meu interlocutor.

Voltei-me para a janela e olhei o céu cor de cinza. Respirei durante um bom momento e, antes de me virar para ele, retomei o meu ar de jornalista, o meu rosto profissional, como que talhado na pedra. Era todos os dias a mesma coisa: a tristeza das pessoas, a tragédia renovada das suas histórias pessoais. Nas ruas, os prédios conservavam as marcas, as cicatrizes do desastre que acabara de acontecer. E, pouco a pouco, apesar dos meus esforços, a tragédia dos outros infiltrava-se em mim, como por osmose. Os meus colegas ou amigos estrangeiros perguntavam-me com frequência: “Houve algum momento em que tenhas sentido medo?” Algum momento?... Não me lembro de um instante em que não tivesse tido medo. E, em certa medida, ainda hoje tenho.

Porque as perguntas que me fiz a mim próprio durante esta guerra não tinham quase nada a ver com a história da Jugoslávia, nem com a política internacional, que é, no entanto, a minha especialidade. A verdadeira pergunta, aquela que me obcecava, era a seguinte: como pode um ser humano fazer isto a outro ser humano?

Trata-se apenas de uma pergunta, e quem não conheceu o desastre e o horror da guerra poderá julgá-la ingénua. Porém, depois de tudo o que passei, afirmo que esta é a única questão que merece ser colocada.

Não temos necessidade de ler livros ou relatos sobre a história dos Balcãs para compreender o que se passou na Bósnia. Não temos necessidade de falar bósnio ou servo-croata. Basta, por exemplo, pensarmos em Mustafá e perguntarmo-nos: “Como é possível que, numa noite de Setembro, um atirador furtivo o tivesse atingido com uma bala nas costas?”

A resposta dá-se numa palavra: preconceito.

O preconceito, aquela paixão cega que pode transformar qualquer um de nós num assassino, é uma doença social que existe provavelmente desde a origem das sociedades. Será necessário enumerar as suas terríveis consequências? Os campos de concentração nazis, o genocídio dos arménios, as violências étnicas no Ruanda, a violência religiosa na Índia, na Irlanda, na Indonésia, a violência urbana diária nos Estados Unidos.

Por toda a parte, seres humanos massacram outros seres humanos sob o pretexto de que a língua destes, a cor da pele, a religião, são diferentes das suas. E os homens políticos bem podem proclamar “Nunca mais”, que o mal sempre regressa. Desta vez, na Bósnia. Este país – o meu país – fica doravante a fazer parte da lista daquelas regiões “malditas”, marcadas pelas devastações da guerra.

Vejo o preconceito como um vírus mortal que ameaça infectar todos os cérebros humanos deste planeta. O funcionamento do vírus é simples: precisa de um organismo onde possa desenvolver-se, e também precisa de vítimas.

Na Bósnia, as vítimas foram inumeráveis. O meu amigo Davor, por exemplo. Era estudante de medicina dentária quando o “vírus do preconceito” o atingiu. Era um bósnio croata, de religião católica. A família dele, tal como a minha, estava implantada em Sarajevo há quinhentos anos. A 8 de Outubro de 1994, soldados bósnio-sérvios dispararam tiros de metralhadora contra um eléctrico cheio de civis. Houve dois mortos e sete feridos, entre os quais Davor. Uma bala atravessou-lhe o braço direito, deixando-o paralisado e marcado com uma horrorosa cicatriz púrpura.

— Não percebi que estava ferido até ao momento em que vi a minha mão cheia de sangue — contava-me Davor. — E sabes uma coisa? Pior do que a dor, tinha uma pergunta a martelar-me a cabeça: porque é que eles me fizeram aquilo? Não estava no exército. Nem sequer os conhecia.

Ao evocarmos o fim da guerra, a “protecção” que a NATO tinha decidido conceder-nos, baixou a voz:

— Não tenho confiança nesta paz. Quero ir-me embora. Os meus pais recusam exilar-se, dizem que a nossa família se estabeleceu em Sarajevo há já muito tempo. Mas eu vou partir. Quero recomeçar a minha vida longe de tudo isto.

Não disse nada a Davor, mas perguntei-me se seria de facto possível encontrar uma terra prometida onde escapar ao “vírus do preconceito”. Recordo-me bem demais das minhas viagens ao estrangeiro. Daquele amigo australiano instalado em Londres, que me dizia: – Se vir um negro pôr um pé no meu relvado, dou-lhe um tiro. Ou daquela cena que testemunhei numa rua de Toulouse: dois rapazitos negros a perseguirem uma jovem, chamando-lhe branca mal-cheirosa... Por toda a Europa, a linguagem está contaminada pelo preconceito. Há o “negro”, a “mal-cheirosa”, o “judeu”, o “árabe nojento” ou o “chinoca”.

Antes da guerra, costumava encolher os ombros quando ouvia esta linguagem injuriosa. Dizia para comigo que as coisas eram assim mesmo, que muitas vezes as palavras ultrapassavam o pensamento, mas que, pelo menos na Europa, a situação nunca poderia degenerar. Mas pôde. Chegou até nós, na Bósnia, e também àquela pequena região que, não há muito, fazia parte do meu país: o Kosovo.

A guerra dos preconceitos faz vítimas em todo o lado. Deixa atrás de si feridos, estropiados para o resto da vida, e deixa também aqueles a quem se dá o nome de “refugiados”, um termo que se vulgarizou, e é usado para descrever o drama das pessoas que nunca mais poderão voltar para casa.

Lembro-me de Sandra, aquela jovem habitante de Sarajevo, de origem sérvia, que recusava todos os nacionalismos. Durante a guerra, os pais tinham deixado o apartamento deles no centro da cidade para se refugiarem no bairro de Grbavica, dominado pelo exército bósnio-sérvio, na esperança de escaparem às balas e aos obuses. Parece que estou a vê-la naqueles últimos dias de guerra, a tremer dentro de um velho casaco do exército, à espera de ser revistada pelos militares, para entrar no centro de Sarajevo e visitar os amigos do liceu que não via há três anos. Mal sabia o que o futuro lhe reservava. A família não podia ir viver para a Sérvia: sem dinheiro, sem parentes que os acolhessem, estavam condenados à errância.

— Hoje em dia, em Grbavica, as pessoas estão com medo — dizia-me. — Sentem-se ameaçadas. Não acreditam que o governo muçulmano vá protegê-las. Toda a gente está a fugir para as montanhas... Não sei o que fazer.

No dia seguinte, soube da notícia: os residentes sérvios de Grbavica tinham sido atacados por milícias sérvias nacionalistas, que lhes ordenaram que deixassem a cidade antes do governo bósnio voltar a tomar posse daquele bairro. Incendiavam os apartamentos e, sob a ameaça das armas, forçavam, uma vez mais, as famílias a exilar-se. O preconceito, nascido do medo e do pretexto de defender os interesses de um determinado grupo, estava a virar-se contra os seus próprios princípios! Nacionalistas sérvios destruíam casas sérvias e agrediam cidadãos sérvios para os “proteger”... de quê, na verdade? Do mal que lhes poderia fazer um governo de predominância muçulmana?

Julgo que aquele momento foi um summum de estupidez no meio de toda aquela loucura assassina...

Ainda hoje, a paisagem conserva as marcas: casas demolidas, aldeias inteiras riscadas do mapa, terras até há pouco cultivadas e de ora em diante desertas, campos fantasmas, infra-estruturas destruídas... O nosso país ficou mutilado como um ferido de guerra. Foi destruído, não por um ciclone ou um tremor de terra, mas pelo ódio dos homens.

E não consigo deixar de pensar em Mustafá.

Não tinha ligações políticas. Apesar da sua origem muçulmana, e tal como muitos muçulmanos da Bósnia, nem praticante era. Era apenas um lixeiro da Jugoslávia socialista que, depois da Bósnia ter proclamado a sua independência, estava prestes a ser um lixeiro da República da Bósnia.

Mas, um belo dia, um atirador cego pelo preconceito, transtornado pela ideia de que a identidade ou a fé do outro pudessem ameaçar a sua causa nacionalista, fez bascular o destino. Empunhou a arma, disparou e transformou Mustafá num enfermo.

No momento em que escrevo estas linhas, Mustafá deve estar a dormir na sua cama de hospital. Acordará amanhã de manhã, para fazer, como todos os dias, os seus dolorosos exercícios de reeducação. Mas, apesar de todos os esforços, nunca mais voltará a andar. Ficou paralítico para toda a vida.

Outra vítima de uma nação, mais uma, atingida pelo vírus do preconceito.
S. K.

Traduzido do inglês por Marianne Costa.

Atelier Post-Scriptum
Une guerre en Europe
Paris, Hachette Jeunesse, 1999
Tradução e adaptação

O baile das flores - Sigrid Laube

— Hoje vou ao baile das flores — anunciou o repolho. — Quem quer vir comigo?
— Ao baile das flores? — sussurrou a cebola, horrorizada. — Para que é que temos o nosso Baile da Salada Russa? É muito mais divertido!
— Tu ficas bem entre iguais — disse a alface. — O teu lugar é aqui e tudo mantém a sua devida ordem.
O pepino anuiu sabiamente com a cabeça.
— Cautela com as flores do jardim do outro lado da cerca — continuou a alface. — Andam de nariz levantado e olham-nos de cima para baixo. Não passam de ervas sentadas em vasos!
— Não queremos ter nada a ver com elas — disseram as ervilhas. Um arrepio percorreu-lhes as vagens e tilintaram, venenosas:
— Aquelas perfumadas da horta não passam de umas campainhas de enfeite…
— Mas o que é que vocês todos têm contra as flores? — suspirou o repolho tristemente. — Eu gostava muito de ir ao baile delas mas, sozinho, não me atrevo.
— Eu não tenho nada contra as flores. Só têm um aspecto diferente do nosso e às vezes não cheiram tão bem como nós — disse a cenoura pensativa. E calou-se por um momento.
— Sabes que mais? Também vou contigo — decidiu, com um estremecimento da raiz à ponta das folhas.
— Óptimo!
O repolho limpou as folhas e enfeitou-se com uma peninha. A cenoura encontrou uma linda máscara para si.
— Mas que bonitos que vocês estão! — elogiaram os rabanetes e, de repente, deixaram de ter caras coradas e alegres.
O repolho empertigou-se e ofereceu à cenoura um braço forte.
— A menina vem?
Ela acenou com a cabeça, animada, e, de pé leve, deixaram a horta.
No baile, a animação já tinha começado. As flores tinham pedido ajuda ao galo, às galinhas e ao salgueiro. Os grilos cantavam com afinco e os pardais chilreavam ritmos quentes. A água espumava e borbulhava. Alguém tinha aberto a pipa da água da chuva e o escaravelho servia-a aos convidados.
Sentado à entrada, o cão de guarda meneava a cabeça. — Os convidados já estão um bocadinho tocados!…
Repolho e cenoura passeavam pelo baile e iam cumprimentando à direita e à esquerda.
— Quem são estes? — cochichava um cravo a uma tulipa mais velha.
Esta olhou por cima dos óculos e torceu o nariz.
— Legumes, diria eu…
O cravo ficou sem poder respirar e coçava as pétalas, atónito.
— Mas que horror! — exclamou. — Legumes crus no nosso baile. Que indecência!
— Mas o que é que eles têm de vir aqui fazer? Foram ao menos convidados? — queria saber uma rosa.
— Mas que gente tão simplória, não acha, minha querida?
O rosmaninho fez uma vénia perfeita em frente da rosa e levou-a para a pista de dança. Ela ainda era jovem e vermelha.
— Devíamos pô-los daqui para fora. Onde é que já se viu, legumes desconhecidos no nosso baile! — a rosa canina endireitava-se, pronta a picar. — Que gentinha miserável, que ervas insignificantes!
— Nem mais! Não passam de mergulhadores de sopa sem graça, e de pastéis mal-cheirosos — um malmequer arrepiava-se todo, já meio enjoado.
O repolho ouvia o falatório e os cochichos, e reparava como as rosas se encolhiam, os cravos tremiam de indignação e um amor-perfeito até tivera um ataque de soluços.
— Parece eles não gostam de nós — disse à cenoura.
— É pena. A música deles é tão bonita — respondeu a cenoura, sonhadora. Cheirou o ar à sua volta. — E há um perfume no ar. É fantástico!
Pensou um pouco.
— Fizemos-lhes algum mal? — perguntou ao repolho.
— Não. Fizeram-nos eles algum mal? — perguntou ele.
— Não — respondeu a cenoura.
— Então pronto, ninguém tem razões para estar zangado.
O repolho sentiu-se mais tranquilo e confiante. Compôs a pena e fez uma vénia à cenoura.
— Estou tão só, menina — disse. — Dá-me a honra?
A cenoura sentiu-se feliz. A noite estava morna, a luz era suave e os pirilampos estavam bem-dispostos. A lua rolou no céu e apareceram estrelas, curiosas. Era uma noite perfeita.
A cenoura piscou-lhe um olho através da máscara. — Será um prazer — disse, estendendo-lhe uma folha delicada.
Misturaram-se com os bailarinos. Um gladíolo recuou quando os viu, e chegaram a pisar os pés de uma dália.
— Se ao menos fossem ervas daninhas — suspirou uma glicínia — ainda floriam quase como nós — mas calou-se, admirada.
O repolho tinha agarrado a cenoura pela cintura e dançavam uma animada rumba-feijoca. Em seguida, deslizaram um maravilhoso tango-pepino e, por fim, saltaram ainda um elegante cha-cha-cha-piri-piri. A cenoura ia ficando sem fôlego, mas seguiu-o corajosamente e não caiu uma única vez. Os dois formavam um par bonito de se ver e as flores aplaudiram, a contra-gosto.
Depois de ver isto, lírio ousou por fim dirigir-se à cenoura e o repolho convidou uma margarida para dançar. Tocou-se uma valsa encantadora. Depois, a cenoura dançou um galope com um manjerico e o repolho foi buscar a gerbera para uma animada polca.
Foi uma bela noite.
Todos puderam conversar, conhecer-se e cheirar-se.
— Nós vamos convidar-vos para a nossa Salada Russa — prometeu o repolho ao despedir-se.
— E vocês voltam no próximo baile, não é? — perguntou o lírio diligente, que tinha deitado uns olhinhos à cenoura.
Os dois entraram em casa em bicos de pés. Estavam felizes, muito cansados e não queriam acordar ninguém.
Quando o repolho estava quase a adormecer murmurou:
— Quem diria? Tenho de escrever a história desta noite para nunca a esquecer.
— E eu desenho-te algumas imagens — sussurrou a cenoura — e ficamos com um livro.
Os olhos fecharam-se-lhe. — E um dia mais tarde havemos de lê-lo aos nossos netos.
E começou a ressonar baixinho.




Sigrid Laube; Silke Leffler
Der Blumenball
Wien, Annette Betz Verlag, 2005

Texto adaptado

O Macarronete - Willi Fährmann


A Sr.ª Joana estava de vigia durante o intervalo grande.
Da zona dos quartos de banho, soava em coro:
“Tónio Macarronete tem lêndeas e uma pulga no barrete.”
Correu para o magote de crianças que se acotovelavam num círculo fechado à volta de Tónio Zuccarelli.
Tónio tinha as mãos enfiadas nos bolsos das calças, a cabeça encolhida e os olhos pregados no chão. Era um palmo mais alto do que as restantes crianças da terceira classe.
— “Tónio Macarronete…” — recomeçava Carlos Blum a cantar.
— Acabou! — gritou a Sr.ª Joana, separando as crianças. — É muito feio andarem sempre a aborrecer o Tónio — ralha à sua classe.
— Ele é engraçado quando fica furioso — diz Carlos Blum.
— Fica parecido com um cão que farejou um gato — grita Sílvia.
— Calados! Ninguém se parece com um cão.
— Quando Tónio se enfurece, fica parecido com o nosso cão. —replica Sílvia.
— É isso mesmo! — confirma Carlos, embora nunca tenha visto o cão de Sílvia.
Carlos está zangado com Tónio. Antes do Italianito ter vindo para a turma, Carlos era o mais forte. Mas Tónio suplantou-o. E o Sr. Blum também dizia: “ Os Esparguetes aqui só nos tiram os postos de trabalho.”
Por que é que a Sr.ª Joana tinha de ter sentado o Italianito precisamente na mesa de Carlos? O pai também tinha dito: “Nem deviam deixar os estrangeiros frequentar as escolas alemãs.”
Depois do intervalo, a Sr.ª Joana faz uma proposta:
— Como estamos no Advento, vamos fazer um jogo bonito — diz.
— Escrevi o vosso nome em papelinhos. Cada um vai tirar um nome mas ninguém deve dizer o que lhe saiu.
— Não se pode dizer a ninguém? — pergunta Sílvia.
— A ninguém. Depois cada um de vocês vai fazer as vezes de gnomo para aquele menino cujo nome lhe saiu.
— Gnomo? Que disparate! O que é isso? — gritam as crianças numa grande confusão.
— Eu não inventei o nome nem o jogo — diz a Sr.ª Joana. — Mas posso explicar-vos o que é. Cada gnomo deve pensar, para cada dia, como fazer uma surpresa ao outro. Tudo tem de ser feito em segredo. Ninguém deve dizer a quem é que vai fazer essa surpresa durante o Advento.
— Disparate — diz Carlos. — Gnomices, mas que disparate!
— Não é disparate nenhum — retorquiu a Sr.ª Joana. — A alegria é muito mais bonita quando é proporcionada a outro.
— E se eu tirar o nome deste aqui? Vou ter então de lhe dar alguma coisa todos os dias? — Carlos aponta para Tónio.
“Isso é que seria óptimo para o Carlos!”, pensa a Sr.ª Joana.
Mas Carlos não tirou o nome de Tónio. No seu papel estava escrito Miguel.
No primeiro dia, Carlos encontrou no bolso do anoraque uma bolachinha de canela. Quem é que sabia que bolachas de canela eram as suas preferidas? Teria sido o seu amigo João que lhas oferecera?
No segundo dia encontrou no estojo um cromo de colecção do famoso futebolista brasileiro Pelé. Era mesmo aquele que lhe faltava. O gnomo parecia conhecer Carlos muito bem. Mas quem seria?
Nos dias seguintes, recebeu imensas coisinhas que já há muito tempo queria ter: um pequeno aguça em forma de globo, uma pastilha elástica enorme, um berlinde minúsculo, um anzol e, de uma vez, até uma coisa com a qual toda a turma se admirou. Carlos metera muito naturalmente a mão à pasta e retirou-a logo, assustado. Alguma coisa se mexia lá dentro. Com cuidado, tira então um pequenino novelo castanho que era afinal um ratinho hamster.
Talvez Carlos descobrisse agora quem lho teria oferecido. Quem é que tinha em casa um goldhamster? Mas por mais que investigasse, não foi muito longe. Embora João tivesse um goldhamster, onde já se viu um hamster macho ter filhotes?
No último dia de aulas antes das férias de Natal, a maior parte dos alunos já adivinhara quem tinha sido o seu gnomo.
Fora uma bonita época de adivinhas e surpresas. Só Carlos não fazia a menor ideia de quem lhe tinha dado os presentes. Até que encontrou no caderno, depois do intervalo grande, uma magnífica série de selos italianos. Selos? Italianos? Carlos olhou Tónio com um olhar duvidoso.
Este olhou-o com medo.
— Tu, Macarr…? — Carlos engoliu em seco. — Foste tu, Tónio?
Tónio acenou com a cabeça.
— Eh, pá! — disse Carlos, dando-se conta de como tinha sido mau.
— Obrigado!
— Foi bonito — respondeu Tónio.
Na noite de Natal, o carteiro trouxe um postal de boas festas gigante para o aluno Tónio Zuccarelli, onde estava escrito:

Querido Tónio, desejo de todo o coração que tenhas um Feliz Natal.

Carlos

Tónio pregou o postal por cima da cama.

Willi Fährmann

Jutta Modler (org.)
Frieden fängt zu Hause an
Munique, DTV, 1989
Tradução e adaptação

Recordar para não esquecer - Norman H. Finkelstein

Jerusalém, Israel. É Primavera. Visitantes de todos os credos, vindos de vários países do mundo, acorreram a esta cidade santa para celebrar a Páscoa cristã e a Páscoa judaica. Um homem alto e bem parecido entra numa loja de lembranças na Rua de Jaffa. A loja está cheia de clientes. O homem aproxima-se do dono, um senhor idoso, e pergunta-lhe:
— Fala alemão?
O velho responde, num alemão impecável:
— Falo, sim. Seja bem-vindo à minha loja. Está a gostar do nosso país?
— Estou a gostar muito — responde o turista. — Procuro um daqueles candelabros judaicos, que são como que um símbolo do vosso país. Gostaria de levar um comigo, como recordação da minha visita.
— Ah, quer um menorah. — Claro que tenho. Venha ver alguns.
Depois de o jovem alemão ter escolhido um candelabro e de o ter pago, o lojista apertou-lhe a mão e desejou-lhe uma boa viagem de regresso. Quando o homem esticou o braço, viu-se neste um número púrpura tatuado, sinal de que o homem tinha sido condenado à morte por alemães, num tempo não muito remoto.
Entre 1933 e 1945 seis milhões de judeus, homens, mulheres e crianças, foram assassinados na Alemanha e noutros países europeus.
Embora a maioria tenha morrido durante a Segunda Guerra Mundial, não morreram no campo de batalha como soldados. Também não eram culpados de crime algum. Morreram pela simples razão de que eram judeus.
Como pôde isto acontecer? Para responder a esta pergunta, temos de recuar na história.
Há dois mil anos os judeus viviam na sua terra. No ano 70 da era cristã, Jerusalém, a capital do país, foi atacada e destruída e os judeus foram forçados a abandonar as suas casas e o seu país. Durante os dois mil anos que se seguiram, os judeus viveram como nómadas e estrangeiros em muitos países do mundo. E durante séculos, o mundo assistiu ao eclodir de uma nova doença: o anti-semitismo.
Anti-semitismo significa ódio pelos judeus, pela sua religião e pela sua cultura. As suas causas são o medo e a falta de compreensão. Os seus sintomas são os insultos, a discriminação e a violência. Mesmo quando a doença do anti-semitismo parece curada, os sintomas podem irromper a qualquer momento.
Nos países onde viviam, como estrangeiros que eram, os judeus funcionavam facilmente como bodes expiatórios para tudo o que corria mal. Problemas como a doença, a fome, a guerra e o desemprego eram todos imputados aos judeus.
Durante dois mil anos, os judeus rezaram pela paz e pelo direito de voltarem a viver em liberdade. A nível exterior, tiveram de suportar a solidão, o medo e o ódio. A nível interior, reconfortavam-se com o seu orgulho, as suas tradições e a sua religião.
Entre 1933 e 1945, o anti-semitismo funcionou como lei oficial na Alemanha e nos países europeus conquistados pela Alemanha. Sob o lema “Os judeus são a causa do nosso infortúnio”, Adolf Hitler e o seu Partido Nazi delinearam uma série de planos destinados a erradicar o que eles chamavam de “problema judeu”.
Primeiro vieram as humilhações e as expulsões.
Os judeus deixaram de ser considerados como cidadãos. Os seus negócios foram boicotados e não lhes era permitido exercer as suas profissões ou ofícios. As crianças judias deixaram de poder ir à escola pública e todos os judeus foram forçados a usar em público uma estrela amarela simbólica.
Os judeus viviam na Alemanha há centenas de anos e tinham-se tornado participantes activos em todos os sectores da sociedade. Fossem soldados, advogados, homens de negócios ou professores, os judeus consideravam-se, em primeiro lugar, cidadãos alemães.
Embora sempre tenha havido uma vertente anti-semita na sociedade alemã, quando os nazis conquistaram o poder e começaram a ameaçar abertamente os judeus, estes não acreditavam que algum mal pudesse acontecer-lhes. Quando foram promulgadas leis anti-semitas, alguns judeus reconheceram os sinais de perigo e fugiram da Alemanha. Mas muitos outros ficaram para trás. Quando o perigo se tornou real, era demasiado tarde para fugirem.
Depois das humilhações, multiplicaram-se as cenas de violência contra os judeus e contra os seus bens.
Em 1938, durante dois dias em Novembro, foram presos trinta mil judeus. As sinagogas, os edifícios e todas as lojas pertencentes a judeus foram destruídas. Chamou-se a este período Kristallnacht ou “Noite de Cristal”, por causa dos vidros partidos que, no dia seguinte, havia em todas as ruas da Alemanha. Aconteceu o mesmo por toda a Europa, à medida que o exército nazi ia anexando países.
Mas a discriminação e a violência eram apenas o começo; os guetos e os campos de concentração seguiram-se logo depois.
Os nazis construíram uma série de cidades-prisão chamadas campos de concentração, para onde as pessoas que fossem declaradas “inimigas do Estado” eram enviadas. Mas ser judeu apenas era suficiente para se ser enviado para Buchenwald, Auschwitz ou Treblinka.
Para lhes tornarem a vida ainda mais insuportável, os nazis obrigaram os judeus a saírem das suas casas e aldeias e a concentrarem-se em zonas de grandes cidades rodeadas de muros, arame farpado e soldados. Estas áreas vigiadas eram conhecidas como “guetos”. Aí, em condições de higiene deploráveis, os judeus tentavam manter-se vivos e conservar a sua dignidade.
Aqueles que não morreram de fome ou de doença foram condenados à morte nos campos de concentração, que se transformaram nos palcos da morte de seis milhões de judeus e de milhões de vítimas inocentes dos nazis.
Poucos escaparam.
Não importava se se era rico ou pobre, novo ou velho, crente ou ateu, ignorante ou instruído ─ se se fosse judeu, estava-se condenado à morte.
À medida que os nazis conquistavam a Europa, forças especiais do exército prendiam os judeus e levavam-nos para matas ou valas, onde os matavam a sangue-frio. Mais tarde, não satisfeitos com a rapidez das execuções, introduziram o uso do gás venenoso e aumentaram o tamanho dos campos de concentração, a fim de receberem o cada vez maior número de judeus presos por toda a Europa. Conceberam assim um método inédito na história da humanidade ─ a destruição de um povo inteiro através de um plano de extermínio extensivo e preciso.
Quando terminou a Segunda Guerra Mundial, mais de dois terços dos judeus europeus estavam mortos, e o mundo, chocado, perguntava-se como tal podia ter acontecido. Foi uma tragédia inconcebível e medonha. Foi um incêndio selvagem de uma intensidade devastadora ─ um Holocausto.
Algumas pessoas acreditam que a passagem do tempo é, em si mesma, uma forma de curar o sofrimento. A longa história do povo judeu comporta muitos episódios dolorosos. Embora o passar do tempo possa amortecer alguma da dor original, os judeus nunca permitirão que a recordação destas tragédias iniciais se apague. Da mesma forma, nunca esquecerão o Holocausto.
Em 1948, nasceu o Estado de Israel. Ao fim de dois mil anos, os judeus recuperaram a sua terra. Muitos dos que regressaram a Israel eram sobreviventes do Holocausto. Embora fossem estes que carregavam pessoalmente as cicatrizes profundas do sofrimento, muitos outros judeus espalhados pelo mundo compartilhavam a sua dor.
Às vezes, é difícil exprimir publicamente os nossos sentimentos mais íntimos. Queremos poupar aqueles que amamos ao sofrimento, à dor e à vergonha. A tragédia do Holocausto foi tão grande que algumas pessoas não quiseram falar sobre ela ou sequer lembrarem-se do que vivenciaram durante aqueles anos trágicos.
Mas outros sentiram a necessidade de manter viva a memória do Holocausto para impedir que algo de semelhante pudesse voltar a acontecer. Nos últimos dez anos, o Holocausto tem vindo a ser estudado nas escolas e nas universidades. Muitos livros e artigos de revista foram escritos, muitos filmes e documentários produzidos, para darem testemunho das experiências de muitas pessoas que viveram o Holocausto.
Em 1953, uma lei especial aprovada no Knesset, o parlamento israelita, criou uma instituição nacional chamada Yad Vashem, consagrada a estudos e pesquisas sobre o Holocausto.
A tarefa principal do Yad Vashem é documentar todos os acontecimentos do Holocausto, em especial a luta pela vida que os judeus empreenderam por toda a Europa. Os arquivos e a biblioteca do Yad Vashem contêm os arquivos da luta infrutífera travada por milhões de judeus, homens, mulheres e crianças. Fora do edifício, existe um caminho bordejado de árvores, para honrar aqueles que, não sendo judeus, arriscaram as suas vidas para salvar os seus vizinhos judeus.
Desde o fim da Segunda Guerra Mundial, têm-se realizado diversos eventos e programas para honrar os mortos. Só faltava uma data simbólica para que a importância do Holocausto fosse reconhecida e para que a memória dos milhões de pessoas que morreram fosse honrada.
Em 1959 o parlamento israelita promulgou uma lei que criou o Yom Hashoa, o Dia do Holocausto, que se celebra no dia 27 do mês de Nisan, de acordo com o calendário judaico. Esta data coincide com a revolta heróica ocorrida no Gueto de Varsóvia em 1943, que opôs judeus a nazis. Geralmente, tem lugar em Abril.
A comunidade judaica internacional seguiu o exemplo de Israel e, agora, as comunidades judaicas espalhadas pelo mundo celebram essa data para honrar a memória de seis milhões de judeus mortos.
A forma de a comemorar varia de comunidade para comunidade. Em Israel faz-se uma celebração nacional no enorme pátio do Yad Vashem. Às oito horas da manhã, as sirenes de alarme aéreo tocam por todo o país. Todos interrompem as suas actividades para observarem dois minutos de silêncio em memória dos que morreram.
Noutros países, incluindo os Estados Unidos, o dia é assinalado com acontecimentos especiais e com serviços religiosos. Estes podem ser ao ar livre, se o público for numeroso, ou em pequenas sinagogas. Sobreviventes do Holocausto participam com frequência como convidados de honra.
À medida que os anos passam, aqueles que conseguiram sobreviver à brutalidade nazi vão envelhecendo e morrendo. Em breve, não haverá mais ninguém vivo que tenha experimentado pessoalmente o Holocausto. Por isso se torna cada vez mais importante lembrar não só aqueles anos terríveis e a forma como começaram, mas também como a crueldade, o ódio e a discriminação conduziram à violência, à morte e à destruição.
Todos os anos, no Yom Hashoa, judeus de todo o mundo pararão para se lembrarem… de recordar para não esquecer.



Norman H. Finkelstein
Remember Not To Forget
Philadelphia, The Jewish Publication Society, 2004
Tradução e adaptação

O rapaz e o preconceito - Elisabeth Alexander


A cabine telefónica estava temporariamente fora de serviço. Zangado, o rapaz deu um pontapé à porta e gostou de ouvir o barulho que provocou. Chovia a cântaros e o anoraque estava encharcado.

Voltou a montar na bicicleta e foi à procura da cabine mais próxima. Estava alguém lá dentro. Assim que chegou mais perto, viu que era um imigrante. Deu-lhe mais dois minutos e depois bateu à porta.

Só que o imigrante não fez menção de parar o seu telefonema. Abriu um pouco a porta e fez sinal ao rapaz para entrar.

O rapaz encostou a bicicleta à parede amarela, ao lado, e entrou. Não estava com medo nenhum do imigrante. Eles, os imigrantes, é que podiam ter medo dele. Afinal, era um ginasta de primeira classe e também sabia boxe. Além do mais, tinha um canivete. Não era grande nem aguçado, mas quando brilhava, metia medo.

O rapaz não conseguia perceber em que língua o homem falava. Talvez turco, talvez servo-croata. O homem falava muito depressa. O rapaz estava admirado que alguém conseguisse falar assim tão rápido, mas provavelmente só soava rápido aos ouvidos dele.

O homem afastou o cabelo da testa do rapaz e estendeu-lhe um lenço que tirou do bolso interior. O rapaz pegou mesmo no lenço e secou a cara e as mãos. O estrangeiro exalava um cheiro agradável.

Por acaso, ele fazia outra ideia dos emigrantes.

Elisabeth Alexander


Hans-Joachim Gelberg
Die Erde ist mein Haus
Weinheim, Belz Verlag, 1988


Tradução e adaptação

A ponte - N. Oettli


Max e Pedro eram alunos da terceira classe. Moravam em frente um do outro, na mesma rua de uma pequena cidade. Já tinham sido grandes amigos, mas, por um motivo qualquer, tiveram um dia uma discussão e passaram a odiar-se.
Quando Max saía da porta do pátio, gritava para o outro lado da rua:
— Ó palerma! — E mostrava o punho ao ex-amigo.
Pedro respondia:
— Quantos escaravelhos como tu são precisos para fazer um quilo? — E ameaçava-o também com o punho.
Os colegas da turma tinham já tentado reconciliá-los por várias vezes, mas todos os esforços haviam sido vãos. Eram mesmo dois teimosos! Da última vez, acabaram a atirar bolas de lama um ao outro.
Um dia, tinha chovido muito. Depois, as nuvens afastaram-se e o sol voltou a brilhar, mas a rua ficara inundada. Quem queria atravessar tentava, a medo, medir a profundidade da água com a ponta do pé, e recuava.
Max saiu de casa, parou na frente do pátio e olhou satisfeito à sua volta. Tudo fresco e lavado pela chuva, brilhava agora ao sol. De repente, o seu rosto tornou-se sombrio. Do outro lado da rua, estava Pedro parado à porta de casa. E Max reparou que ele tinha na mão uma grande pedra.
“Ah!”, pensou Max. “Então queres atirar-me com uma pedra! Isso também eu sei fazer!”
Correu novamente em direcção ao pátio, procurou um tijolo e voltou para a rua, pronto para se defender.
Mas Pedro não lhe atirou a pedra. Baixou-se na beira do passeio e depô-la na água com cuidado. Depois, experimentou com o pé para ver se oscilava, e desapareceu.
A pedra parecia uma pequena ilha.
“Ah!”, pensou Max. “Isso também eu sei fazer!” E colocou o seu tijolo na água.
Pedro voltou a aparecer, carregando uma segunda pedra. Pôs o pé com cuidado em cima da primeira e colocou a segunda pedra na água, alinhada com o tijolo do seu inimigo. Max trouxe então três tijolos de uma só vez.
E assim foram construindo uma passagem sobre a água.
Nos dois lados da rua, as pessoas observavam-nos e esperavam. Por fim, ficou apenas a distância de um passo entre o último tijolo e a última pedra. Max e Pedro estavam em frente um do outro. Era a primeira vez, desde há muito tempo, que se olhavam novamente nos olhos.
— Tenho uma tartaruga no meu pátio — diz Max. — Queres vir vê-la?
N. Oettli

Jutta Modler (org.)
Brücken Bauen
Wien, Herder, 1987

sexta-feira

Os conquistadores - David McKee

Era uma vez um vasto país governado por um General.
Os habitantes acreditavam que o seu modo de vida era o melhor.
Tinham um exército muito forte e dispunham de canhões.
De tempos a tempos, o General reunia o exército e atacava um país vizinho.
“É para o bem deles,”dizia. “Para que possam ser como nós.”
Os outros países resistiam, mas acabavam sempre por ser conquistados.
Com o tempo, o General acabou por dominar todos os países. Todos, excepto um…
Tratava-se de um país tão pequeno que o General nunca se tinha dado ao incómodo de o invadir. Só que agora era o único que restava. Assim, o General e o seu exército puseram-se a caminho.
O pequeno país surpreendeu o General.
Não tinha exército nem ofereceu resistência.
As pessoas saudaram os soldados invasores como se fossem convidados bem-vindos.
O General instalou-se na casa mais confortável do país e os soldados ficaram em casa dos habitantes.
Todas as manhãs, o General levava os soldados para a parada e, depois, escrevia cartas à mulher e ao filho.
Os soldados falavam com as pessoas, jogavam com elas, escutavam as suas histórias, cantavam as suas canções e riam-se das suas piadas.
A comida era diferente da deles.
Viam-na a ser preparada e depois comiam-na. Era deliciosa.
Como não tinham mais nada que fazer, ajudavam as pessoas no seu trabalho.
Quando o General se apercebeu do que se estava a passar, ficou furioso.
Mandou os soldados para casa e substituiu-os por outros.
Mas os novos soldados comportaram-se como os outros o tinham feito.
O General percebeu que não precisava de um grande exército.
Decidiu regressar a casa e deixar apenas alguns soldados a ocupar o país.
Logo que o General partiu, os soldados penduraram os uniformes e juntaram-se à população nas tarefas do quotidiano.
O General regressou triunfante a casa, com os soldados a cantarem, como era hábito:
Somos os conquistadores.
Somos os conquistadores.
O General estava contente por ter regressado, embora sentisse que algo mudara.
Os cozinhados cheiravam aos cozinhados do pequeno país.
As pessoas jogavam os jogos do pequeno país.
Até algumas roupas eram iguais às roupas do pequeno país.
Sorriu e pensou: “Ah! Os despojos da guerra.”
Nessa noite, quando foi deitar o filho, o menino pediu-lhe que cantasse para ele.
O General cantou-lhe as únicas canções de que se lembrava.
Eram as canções do pequeno país.
O pequeno país que ele conquistara.

David McKee
The Conquerors
London, Anderson Press, 2004
tradução e adaptação


Texto retirado com autorização do blogue Violência, que futuro para a humanidade?

A verdadeira e maravilhosa história do dragão Samuel - José Fanha


Para lá das montanhas onde o dia acaba, por trás da noite e do escuro, num sítio escuro e muito perigoso, fica o terrível país dos dragões.

Foi aí que nasceu o pequeno Samuel, que logo revelou ser um dragão muito especial, embora quem o visse pela primeira vez o achasse igualzinho a todos os outros dragões.

Na aparência geral, Samuel era um bebé lindo e sem nenhum defeito. Muito verde, tinha umas lindas escamas a cobrirem-lhe o corpo, uns olhos enormes, vermelhos e flamejantes, e sete cabeças enormes como é normal entre os dragões.

Quando começou a crescer é que as coisas se tornaram muito complicadas para o nosso pobre Samuel.

Como nós sabemos, desde pequeninos que os dragões aprendem a meter medo às pessoas e aos outros animais. E para isso não lhes basta ser verdes e horrendos. Todos os dias têm de comer enormes quantidades de carvão para, depois, deitarem pela boca grandes labaredas que queimam tudo em redor e mantêm à distância os homens e todos os outros animais.

Todos os dragões eram assim. Todos menos o Samuel. O nosso pequeno dragãozinho era igual aos outros dragões em tudo menos numa coisa. Não era capaz de comer carvão. Nem de o cheirar. Mal lhe chegava à boca tinha vómitos e tonturas. Samuel, o pequeno dragãozinho só gostava de comer nuvens.

A princípio ninguém deu grande importância ao assunto. Mas, quando chegou à idade de aprender a deitar labaredas pela boca, foi com grande espanto que os pais e todos os outros dragões se aperceberam de que o Samuel, em vez de fogo, deitava rios e rios de água pela boca.

O pobre do Samuel tornou-se alvo da risota de todos os outros dragõezinhos da sua idade. Todos se riam dele e o empurravam e diziam que ele nunca havia de ser um dragão como deve ser.

Samuel, o pequeno dragãozinho, vivia muito infeliz. Queria ser igual aos outros e deitar fogo e queimar tudo em redor como faziam os seus camaradas de escola. Mas não era capaz. Só sabia deitar água pela boca. Um fiozinho fino e delicado de água que em vez de assustar as árvores e os arbustos só lhes dava alegria e felicidade.

Definitivamente, Samuel não era um dragão como todos os outros.

Um dia, o Conselho dos Velhos Dragões resolveu mandar chamá-lo. Samuel apresentou-se cheio de medo perante aquele friso solene de velhos dragões onde pontuavam os mais sábios, os mais valentes e os mais fortes de todos os dragões.

O mais velho olhou para ele e com a sua voz de trovão ribombante perguntou-lhe severamente: — É verdade que tu, em vez de fogo, deitas água pela boca?

— É sim... — respondeu Samuel, que não era capaz de mentir mas sentia as pernas a tremer e o chão a tremer e o céu parecia mesmo que ia cair-lhe em cima da cabeça.

Os velhos dragões olharam uns para os outros, desataram a falar baixinho e depressa, e tomaram uma terrível decisão: resolveram expulsá-lo para sempre do país dos dragões.

Triste e muito solitário, o pobre dragãozinho Samuel teve de abandonar a sua terra e foi pelo mundo fora sem ter casa para onde voltar, nem cama onde dormir nem sopa quente que o esperasse à noite.

Correndo mundo, passaram muitos anos. Samuel vagueava por montes e florestas sem meter medo a ninguém, comendo uma nuvem aqui, outra acolá, deitando água pela boca e tornando-se no amigo preferido das gazelas, dos patos, dos peixes e de todos os animais que vivem ao pé da água.

Entretanto, na terra de onde tinha vindo Samuel, os dragões continuavam a comer carvão e a deitar labaredas pela boca. E tanto carvão comeram, e tanto fogo espalharam à sua volta que, a pouco e pouco, acabaram por queimar tudo em seu redor. As flores murcharam, árvores morreram, os rios secaram e o país dos dragões tornou-se num deserto.

Sem flores, nem árvores, nem rios, os dragões perceberam que iam acabar por morrer.

O seu fim aproximava-se a passos largos e o desespero era já muito grande quando um dos dragões mais velhos e mais sábios se lembrou do Samuel, o dragão que deitava água pela boca e que por isso mesmo tinha sido expulso para sempre daquela terra. Só ele é que podia salvar os dragões.

Partiram vários emissários que correram montes e montanhas, vales e florestas até que encontraram o dragão Samuel.
Não foram precisos muitos pedidos para fazer o dragão Samuel voltar. É verdade que sentiu uma dor no peito quando encontrou de novo aqueles que o tinham expulsado da sua terra. Mas, como não era capaz de guardar raiva no coração, dispôs-se a ajudar os seus irmãos.

O dragão Samuel desatou a comer nuvens e a deitar água pela boca. E, num ápice, inundou de água o país dos dragões. Os lagos voltaram a encher-se, os rios voltaram a correr caudalosos, as árvores voltaram a crescer grandes e frondosas, as flores voltaram a sorrir ao orvalho da manhã.

Os dragões não tinham ficado muito diferentes. Continuavam a deitar fogo pela boca. Se não o fizessem não eram dragões. Mas aprenderam a não queimar mais árvores do que aquelas que eram necessárias e, assim, não deixar a água chegar ao fim.

Encontrado o equilíbrio, os dragões viveram de novo felizes e, no meio de um lago redondo, ergueram uma estátua de homenagem ao dragão Samuel. Da boca da estátua sai um fio de água que está sempre a correr, e aos domingos todos os dragões vão atirar bolinhas de pão aos peixes vermelhos que nadam em redor muito satisfeitos.


José Fanha
A noite em que a noite não chegou
Porto, Campo das Letras, 2001

A cerca - Wilhelm Meissel

A Sr.ª Vitória vivia nos arrabaldes da cidade. À volta da sua pequena casa havia um jardim com árvores de fruto e canteiros de flores e legumes. Não morava sozinha. Tinha um cão, um Schnauzer preto e cinzento que, quando ladrava, mais parecia um barril de metal cheio de pedras a rolar por uma encosta. Chamava-se Tasso, e era com ele que a Sr.ª Vitória falava quando estava só, o que, aliás, acontecia muitas vezes. Não tinha filhos nem demais família, e já era tão idosa que dificilmente poderia fazer novos amigos. Só tinha o seu Tasso, a quem adorava. Ai de quem dissesse mal do Tasso! A fúria trazia-lhe à boca palavras feias e a ira subia-lhe aos olhos.

A Sr.ª Maria morava também nos arrabaldes da cidade. À volta de casa havia igualmente um lindo jardim bem arranjado, com relva e abetos brancos, bétulas e salgueiros. A Sr.ª Maria tinha filhos, filhas e netos, mas estes não se preocupavam com ela, porque era idosa e tristonha, e não possuía bens. E, tal como a Sr.ª Vitória, tinha também um cão, um baixote a que dera o nome de Niki. Quando Niki ladrava, parecia que cem garotos traquinas estavam a brincar com apitos… todos ao mesmo tempo! Mas, para a Sr.ª Maria, o ladrar do seu cãozinho era maravilhoso e os olhos brilhavam-lhe quando ele, com o focinho cheio de terra, parava a ladrar em frente de algum buraco de ratos.

A Sr.ª Vitória e a Sr.ª Maria eram vizinhas. Os jardins estavam separados por uma cerca de ripas de madeira, mas nem a Sr.ª Vitória nem a Sr.ª Maria se aproximavam dela, se a outra estivesse no fundo do jardim. Não gostavam uma da outra. Nunca tinham tentado trocar uma palavra, e os culpados disso eram Tasso e Niki.

Todas as manhãs, mal as portas das duas casas se abriam, Tasso e Niki precipitavam-se para o jardim, corriam para a cerca e, de dentes arreganhados, corriam de um lado para o outro, para cima e para baixo ao longo da cerca, latindo furiosamente: o barril de metal rouco e o apito estridente. Com o pêlo eriçado e os beiços a espumar, prontos a saltar ao pescoço um do outro a qualquer momento. E, todas as manhãs, a Sr.ª Vitória e a Sr.ª Maria apareciam à porta com má cara e de mãos trémulas, a chamar os seus queridos.

— Tasso! Tasso! Querido! Já aqui! Deixa esse cão mau — chamava a Sr.ª Vitória indignada.

— Niki, Niki! Já para aqui! Vem comer a tua carninha. Deixa esse selvagem! — gritava a Sr.ª Maria, fora de si.

Quando os cães se separavam e voltavam para as donas, eram recebidos com muita efusão, acariciados e conduzidos às tigelas da comida. As portas fechavam-se com estrondo, e a Sr.ª Maria e a Sr.ª Vitória voltavam a ficar a sós com os seus cães.

— És um cão muito bonito — dizia a Sr.ª Vitória ao seu Tasso, enquanto lhe passava a mão pelo pêlo. — Isso! Ralha àquele cão mau! Tem um ladrar tão feio! Tu não! Tu és um bom cão, um cão muito bonito.

Do outro lado da cerca, a conversa era a mesma:

— Anda, Nikinho, aqui tens a tua carninha. É assim mesmo! Mostra àquele feio que aqui não há-de fazer o que quer. Um selvagem daqueles! — dizia a Sr.ª Maria ao seu cão.

A Sr.ª Maria ia em seguida ao quarto de banho, fingia que sacudia as cortinas e espreitava para o jardim. A Sr.ª Vitória ia igualmente ao quarto de banho, subia a um banquinho e, com cautela, deitava uma olhadela por cima da cerca. Depois, as duas senhoras abandonavam os seus postos de observação e ficavam satisfeitas quando não viam ninguém no jardim.

Certa noite, uma tempestade passou por aquela zona, lançou rajadas de vento sobre o jardim, sacudiu as árvores e os arbustos, abanou a velha cerca e partiu-lhe um pedaço.

O dia seguinte amanheceu calmo e sereno. Só a chilreada dos pássaros era a do costume, e assim esteve, até as portas das duas casas se abrirem e Tasso e Niki se precipitarem para fora.

Atiçaram-se um ao outro, lançaram-se contra a cerca, ladraram, espumaram, arreganharam os dentes, correram ofegantes ao longo da cerca tentando apanhar-se, voltaram para trás e voltaram a correr até à outra ponta. Até ao local onde a tempestade a tinha derrubado.

Os cães pararam. O ladrar morreu. De um momento para o outro, encontravam-se frente a frente, sem a cerca a separá-los, assustados, surpreendidos, quietos. Durante uns segundos, olharam-‑se, desconfiados, sem se mexerem, até que, aos poucos, as orelhas caídas se foram levantando, o pêlo eriçado se acalmou, as caudas começaram a mexer-se e a abanar. Depois, tocaram-se levemente nos focinhos, farejaram-se e começaram a andar em círculo, cada vez mais depressa, até que Tasso entrou a correr pelo jardim de Niki, com este atrás. Desataram a correr à volta da casa, de início sem fazerem barulho, tentando apanhar-se um ao outro, e passaram para o jardim de Tasso. Empurravam-se, davam cambalhotas, rolavam na relva, latiam baixinho de prazer e alegria para depois continuarem naquela perseguição desenfreada.

Quando chegou à porta, a Sr.ª Vitória estranhou o silêncio. A Sr.ª Maria, quando se preparava para chamar o seu queridinho, também abriu a boca de admiração não pelo silêncio em que o jardim se encontrava, mas por ver dois cães com a língua de fora, a correr em círculo à volta das bétulas e dos salgueiros.

— Niki! — gritou indignada a Sr.ª Maria.

Os dois cães correram até junto dela, deitaram-se aos seus pés, rodearam-na, roçaram-se-lhe nas pernas, lamberam-lhe as mãos. Dispersaram em seguida, voltaram a para correr à volta da casa e passaram para o outro jardim, subindo os degraus da porta das traseiras, de onde a Sr.ª Vitória, decepcionada, assistia àquela correria desenfreada. Confusa, desceu ao jardim, e foi imediatamente cercada pelos cães, que corriam à sua volta, saltando e latindo, rebolando-se e batendo com o focinho nas mãos dela. Depois afastaram-se. Tasso procurou a maior macieira, no tronco da qual levantou a pata, e correu para o seu jardim, seguido por Niki, que escolheu o salgueiro do jardim da Sr.ª Maria para deixar a sua marca.

A Sr.ª Vitória aproximou-se devagar da cerca do jardim, para ver os estragos provocados pela tempestade.

A Sr.ª Maria apareceu à esquina da casa e parou, mas lá se foi aproximando da cerca, hesitante.

— A trovoada desta noite… — disse a Sr.ª Vitória.

A Sr.ª Maria assentiu.

— A tempestade — acrescentou.

— Foi uma sorte não ter havido mais estragos — disse a Sr.ª Vitória.

— E não terem caído árvores, graças a Deus — disse a Sr.ª Maria.

— E não se terem estragado telhados — acrescentou a Sr.ª Vitória.

Depois olharam à sua volta.

— Mas onde é que estão os cães? — perguntou a Sr.ª Vitória.

— Talvez em minha casa. Deixei a porta aberta — disse a Sr.ª Maria, dirigindo-se rapidamente para casa.

A Sr.ª Vitória também queria segui-la para ir buscar o seu Tasso, mas não se atrevia a passar a cerca. Ficou a olhar para a vizinha, que se afastava. A Sr.ª Maria virou-se de repente.

— Venha — disse. — Vamos procurar os cães!

A Sr.ª Vitória passou a cerca estragada. Estava com uma sensação esquisita. Era como se estivesse a penetrar num mundo totalmente estranho e desconhecido.

Os cães estavam de facto em casa, em frente de um prato com carne, onde comiam ambos, um ao lado do outro. As duas senhoras pararam atrás e observavam, caladas.

— Bem, mas agora já chega! — disse a Sr.ª Vitória a Tasso, algum tempo depois. — Não vais comer tudo ao Niki! Além disso, tens de o convidar para vir a nossa casa!

Agarrou-lhe na coleira e levou-o. A Sr.ª Maria acompanhou-a até ao buraco na vedação.

— Já que sou eu a responsável pela vedação — disse — vou mandar arranjá-la.

— Isso vai custar muito dinheiro — disse a Sr.ª Maria.

— O que tem de ser, tem de ser — respondeu a Sr.ª Vitória.

Niki saiu de casa a correr em direcção ao jardim da Sr.ª Vitória.

— Estes cães não respeitam fronteiras nenhumas — disse a Sr.ª Maria, sorrindo, embaraçada. — Por mim, não precisa de mandar já compor a cerca.

— Está bem, mas o que é que eu faço com ela?

— Está tão podre. Deixe-a lá!

— Os cães iam gostar… — disse a Sr.ª Vitória.

— Hum… já deixaram de ladrar. E as fronteiras não tornam maus só os animais — disse a Sr.ª Maria.

Por uns instantes, a Sr.ª Vitória olhou em volta, e depois perguntou:

— Já tomou o pequeno-almoço?

— Eu não, só o cão — respondeu a Sr.ª Maria.

— Então venha! O meu café ainda está quente.

Wilhelm Meissel

Jutta Modler (org.)
Brücken Bauen
Wien, Herder, 1987