Mostrando postagens com marcador anti-semitismo. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador anti-semitismo. Mostrar todas as postagens

quinta-feira

Campos de lágrimas - J. J. Letria

A VIAGEM E A MEMÓRIA


Francisco nada quis deixar ao acaso na preparação daquela viagem de Verão. Fazendo-a, queria festejar o 14.° aniversário de Sofia, a filha mais velha, e ter uma oportunidade de falar com ela e com João, o filho, sobre a Europa, sobre a paz e sobre a guerra e ainda sobre a memória muito longínqua de um avô que não chegara a conhecer o que sempre fora uma referência de dignidade e de coragem para a sua família.
O avô fora sempre um homem de sonhos e de ideias. Tinha combatido do lado republicano na Guerra Civil de Espanha. Derrotados os republicanos pelas tropas do general Franco, que contava com o apoio dos fascistas de Itália, Alemanha e Portugal, partiu para França, onde acabou por ser capturado pela Gestapo, polícia política do Partido Nazi, e levado para um campo de concentração, onde acabou por morrer. As últimas notícias que os seus pais tiveram dele davam-no como prisioneiro no campo de Buchenwald, na Turíngia, Alemanha, embora nunca se tenha encontrado registo que confirmasse a sua morte naquele local de horror e miséria humana. Queriam agora reencontrar o espaço que evocasse a sua memória.
— É preciso irmos tão longe só para podermos falar do que foi a guerra? — perguntou Sofia ao pai no dia em que ele anunciou o programa da viagem. E o pai respondeu-lhe:
— É preciso irmos até onde as coisas aconteceram para sentirmos melhor o seu significado e as suas causas.
Como Sofia e João gostavam muito de viajar, não viram qualquer inconveniente na escolha e até demonstraram grande entusiasmo por terem a possibilidade de, no recomeço das aulas, poderem falar aos colegas e amigos de uma experiência que, por certo, nenhum outro teria tido até esse momento. Joana, a mulher de Francisco, apoiou-o desde o princípio na opção que fizera. Iriam visitar, na Alemanha, um local que trazia à família memórias pouco agradáveis, mas que seria um pretexto para falarem de assuntos importantes para quem estava a crescer e se esforçava por compreender o mundo em toda a sua complexidade. A de ontem e a de hoje.
Em finais de Agosto apanharam, em Lisboa, um avião para Frankfurt e depois seguiram de comboio até Weimar, uma cidade famosa na história cultural da Europa. Apesar de ser uma cidade pequena, ainda hoje com cerca de 50 mil habitantes, nela viveram e escreveram grandes escritores como Goethe e Schiller, considerados dos maiores poetas e dramaturgos de toda a história da literatura ocidental.
Durante a viagem de comboio a caminho de Weimar, Sofia e João não escondiam a curiosidade e o interesse por aquilo que iam visitar. Da história do século XX ainda sabiam muito pouco, mas tinham vontade de saber muito mais, principalmente acerca daquele bisavô de quem já tinham ouvido falar muitas vezes com muito respeito e admiração e do qual se sabia pouco. Algumas fotografias já amarelecidas pelo tempo mostravam-no em plena juventude, ao ar livre, vestindo roupa leve e deixando que o sorriso confiante deixasse transparecer tudo aquilo que esperava da vida e toda a esperança que tinha no futuro do mundo. Infelizmente, não viveu o tempo suficiente para ver confirmado nada daquilo com que sonhara, mas ficara a sua memória para mostrar que não fora em vão o seu esforço e o seu sacrifício. A memória tem essa vantagem.
Ao chegar à estação de Weimar, a família juntou as bagagens e preparou-se para apanhar um táxi que a levasse até um hotel no centro da cidade, instalado numa velha casa recuperada. Nessa casa, segundo informação que Francisco obteve num folheto fornecido pela agência de viagens, vivera um nome importante da cultura alemã. Era apenas uma das muitas casas com história e memória cultural, numa cidade por onde passaram, onde viveram e trabalharam escritores, cientistas, dramaturgos e pintores e onde nasceram também algumas das piores formas de terror praticadas pelos nazis durante os anos trinta e até 1945. Era a esta estação de caminhos-de-ferro — explicou Francisco à mulher e aos filhos — que chegavam os prisioneiros que depois eram transportados para o campo de concentração de Buchenwald, que fica apenas a oito quilómetros da cidade.
— Então as pessoas viam e não faziam nada? — quis saber Sofia.
— Tanto quanto se sabe — disse o pai — parece que, era de facto, assim, e esse foi um dos grandes problemas desses anos de terror. É que muita gente sabia o tipo de crimes que se cometiam e nada fazia para os evitar.
— Devia ser terrível — comentou a mãe,
— Eu nem quero acreditar que isso pudesse acontecer — acrescentou João.
— De facto — declarou Francisco — pelo menos aqui em Weimar, os prisioneiros, fossem eles judeus, políticos, ciganos ou outros, desembarcavam na estação de caminhos-de-ferro da cidade, pois não havia linha férrea até ao campo de concentração, onde muitos milhares acabaram os seus dias no meio do maior sofrimento físico e moral.
— Mas é terrível pensar — comentou Sofia — que perto de uma cidade onde se fez tanta cultura também foi possível cometer tantos crimes.
— Tens razão, Sofia — respondeu o pai — e não podemos deixar de relacionar uma coisa com outra e de fazer esta pergunta: como foi possível ter, de um lado, a memória de homens como Goethe, um escritor que sempre defendeu a liberdade, e, do outro, a mais terrível falta de respeito pelos seres humanos e pelos seus direitos.
— Nós, se tivéssemos vivido nessa altura, também cá podíamos ter vindo parar? — perguntou João, tentando disfarçar o arrepio que lhe percorreu a espinha.
— Não é muito provável — respondeu o pai — porque não somos judeus, porque não pertencemos a um país que os nazis tenham ocupado e porque nessa época não devíamos ter nenhuma actividade que nos pusesse em risco. De qualquer modo, nunca se sabe, e o melhor é pensarmos sempre que o pior pode voltar a acontecer, se as pessoas, onde quer que estejam e façam o que fizerem na vida, não lutarem pela defesa da liberdade e dos direitos dos seres humanos
— E pensarmos nós que o nosso bisavô veio para aqui, que desembarcou na mesma estação em que nós desembarcámos e que pode ter morrido no campo de concentração que nós vamos visitar!
Francisco teve dificuldade em acrescentar o que quer que fosse às palavras da filha, pois também ele, nesse momento, pensava nessa repetição de itinerários, em condições tão diferentes e com quase sessenta anos de intervalo. Teve a tentação de imaginar o avô numa longa fila de homens e mulheres magros e tristes, alinhados sob a ameaça das armas dos soldados, que não hesitavam em matar quem tentasse fugir, ou mesmo quem se limitasse a protestar contra a forma como estavam a ser tratados, mas evitou fazê-lo, guardando as emoções maiores, as mais intensas, para a visita que iriam fazer, com tempo, ao campo de concentração de Buchenwald.


O LUGAR DO HORROR

Francisco, a mulher e os filhos chegaram ao campo de Buchenwald na manhã seguinte, com tempo suficiente para verem tudo com atenção. Como guia para a visita coube-lhes uma jovem de origem judaica, vinda de um país da América Latina. Tiveram sorte porque ela falava espanhol e assim Sofia e João eram capazes de perceber o fundamental das explicações. Ficaram impressionados com o aspecto exterior do campo, com os seus edifícios sombrios, com a pequena torre do relógio que devia marcar o momento em que o tempo parava para todos quantos ali entravam e com o profundo silêncio que envolvia o local, interrompido aqui e acolá por um riso de criança ou pelo canto de um pássaro.
O campo, foi-lhes explicado, abriu as suas portas em Julho de 1937. Junto do campo foram construídos vários edifícios para instalar os homens das SS, tropa de choque do regime nazi e de muitos dos seus dirigentes.
No princípio, antes do começo da Segunda Guerra Mundial, foram para ali levados presos políticos, criminosos de delito comum e testemunhas de Jeová. A primeira grande onda de judeus, as principais vítimas do terror dos campos, chegaria em meados de 1938. Eram cerca de 13 mil e vinham de vários pontos da Alemanha e também da Áustria, que entretanto Hitler, que era austríaco, mandara anexar à Alemanha, fazendo-a deixar de existir como país independente e soberano.
— A primeira medida que os carrascos adoptavam — explicou Iolanda, a guia da visita — era a eliminação de qualquer elemento ou aspecto que garantisse a individualidade ou personalidade dos detidos As pessoas deixavam de ser conhecidas pelos nomes e pelas nacionalidades e passavam a ser conhecidas apenas pelos números que lhes eram atribuídos e pelos triângulos coloridos que lhes eram colocados nos fardamentos e que correspondiam aos “crimes” que era suposto terem cometido. Essa humilhação começava, aliás, dentro dos vagões que os levavam até à estrada de Weimar. Eram obrigadas a viajar amontoadas durante dias, sem quaisquer condições de higiene, como se fossem cabeças de gado. Tudo isto como se fossem autores de crimes graves.
— E que crimes eram esses? — quis saber Sofia.
— Na verdade — respondeu Iolanda — não eram crimes. O seu crime era serem judeus, comunistas ou socialistas, ciganos, homossexuais ou testemunhas de Jeová. Só por isso teriam que ser presos ou destruídos fisicamente. E entre os presos políticos havia muitas pessoas que tinham combatido na Guerra Civil de Espanha e em França, logo no princípio da Segunda Guerra Mundial.
Ao ouvirem estas palavras, Francisco e a família não puderam deixar de sentir um sobressalto, recordando-se do familiar que supunham ter perdido naquele campo de horror.
— Os guardas dos campos — continuou Iolanda — usavam todos os mesmos métodos, tentando torná-los iguais pela fome, pela humilhação, pela pancada, pela tortura e pelo medo e pela falta de condições mínimas de higiene. Desse modo transformavam, ou, pelo menos, tentavam transformar seres humanos em animais. Para que o terror não tivesse pausas, os prisioneiros eram constantemente chamados para a parada do campo, muitas vezes com temperaturas negativas, para se proceder à sua contagem e recontagem. Isso tanto podia acontecer a meio do dia como durante a madrugada. No princípio, Buchenwald destinava-se a funcionar como um campo de trabalhos forcados, mas, na realidade, era um campo de extermínio.
Sofia e João chamaram a atenção do pai para o contraste que havia entre as condições de vida dentro das vedações electrificadas do campo e os edifícios onde viviam as SS. E foi Sofia que reparou numa pequena gruta com uma entrada protegida por um gradeamento de jaula, perguntando à guia do que se tratava.
— Aqui — explicou Iolanda — funcionava um jardim zoológico mandado construir por um dos comandantes do campo. Tinha várias espécies animais e servia para os filhos dos guardas e das tropas das SS se divertirem, vendo os ursos, os veados, as raposas e outros animais, que eram excepcionalmente bem tratados e bem alimentados.
— Certamente muito melhor que os prisioneiros — comentou Francisco.
— Claro que sim! — confirmou Iolanda — porque era disso mesmo que se tratava: dava-se aos animais melhor tratamento que aos humanos para os humilhar ainda mais. Sabe-se mesmo que, um dia, o comandante do campo mandou castigar dois soldados por terem tratado mal um veado do jardim zoológico.
O número de detidos no campo nunca parou de aumentar, até atingir cerca de 110 mil (85 mil homens e 25 mil mulheres) em 1945. Ao todo terão morrido no campo quase 60 mil pessoas de várias nacionalidades, entre as quais portugueses. Quando as tropas norte-americanas ali chegaram a 11 de Abril de 1945, ainda havia no campo 21 mil prisioneiros, muitos dos quais morreram nos dias seguintes, de tal modo grave era o seu estado de saúde, sempre agravado por epidemias, subnutrição e terríveis experiências médicas feitas pelos nazis. À medida que se iam aproximando as forças dos Aliados, os carrascos aumentaram o ritmo da destruição dos detidos. Nos primeiros meses de 1945 foram assassinadas 13 mil pessoas.
— Uma das experiências mais terríveis aqui realizadas — contou Iolanda, incapaz de disfarçar a emoção que continuava a sentir, apesar de realizar aquele trabalho diariamente — foi a de se concentrarem 100 pessoas dentro de uma vedação, deixando-as morrer à fome e à sede para os médicos poderem observar os diferentes graus de resistência, consoante a idade, a raça c o estado de saúde. Também havia crianças nesse grupo mártir e sabe-se que, no máximo, os últimos conseguiram viver 18 dias ao frio, sem qualquer tipo de alimento. E esta foi apenas uma das numerosas experiências médicas que foram feitas neste campo. Muitas dessas experiências eram subsidiadas por uma grande empresa de produtos farmacêuticos alemã, a IG Farben.
Além de serem humilhados, torturados e assassinados, os prisioneiros serviam também de cobaias para terríveis experiências médicas. Alguns sobreviveram, mas ficaram fisicamente destruídos para o resto das suas vidas.
Joana não conseguiu conter as lágrimas. Sofia e João abraçaram a mãe, sentindo uma emoção igual à sua e sobretudo o peso desta terrível pergunta: como é possível que seres humanos de um país civilizado e culto façam isto a outros seres humanos?
— Que tipo de alimentação tinham os prisioneiros? — perguntou Francisco a Iolanda.
— Inicialmente, recebiam por dia entre 300 a 500 gramas de pão e um litro de sopa, muitas vezes azeda. Na fase final, a ração não ultrapassava 100 ou 200 gramas de pão e cerca de meio litro de sopa, que não passava de um caldo aquoso do qual eram retiradas as couves e as batatas. Por isso, quase todos os detidos sofriam de graves problemas intestinais. Mesmo subnutridos, eram obrigados a trabalhar durante 10 horas e mais, por dia, como animais de carga. Ao fim de cada jornada de trabalho, muitos já não regressavam aos abarracamentos, derrotados pela fadiga e pela doença.
Francisco, por mais que tentasse, não conseguia deixar de imaginar o avô no meio de todo aquele horror, tentando sobreviver, muito magro e angustiado. Era a paga que tinha por ter passado a vida toda a lutar pela liberdade e pela tolerância, primeiro em Portugal, depois em Espanha e, por último, em França.
Um dos momentos mais dramáticos da visita ao campo, num belíssimo dia de sol, com a floresta em redor mostrando as suas cores mais vivas e contrastantes, foi o da passagem pela zona dos fornos crematórios, pela sala das experiências médicas e pela cave onde se fuzilavam prisioneiros. Francisco hesitou quanto ao interesse e à oportunidade de deixar Sofia e João entrarem naqueles locais, mas a verdade é que, se estavam ali, com a memória do seu avô tão presente, deveriam ver tudo, sem nada ficar escondido ou esquecido. Nos grupos de visitantes de outros países também havia adolescentes, e Francisco percebeu que alguns deles pertenciam a famílias cuja história também tinha passado, mais de 50 anos antes, por aquele local de horror ilimitado.
Durante a visita só se ouvia a voz da guia e as perguntas feitas, num quase sussuro, pelos visitantes. Tudo o mais era recolhimento e comoção. Não fazia qualquer sentido que ali houvesse comentários ou pessoas a conversar fora dos grupos organizados. As pessoas estavam naquele local a lidar com os mais terríveis sinais da tragédia humana e encontravam-se, sem excepção, à beira das lágrimas, sentindo também uma grande revolta e repetindo sem cessar a pergunta: como podem seres humanos ter feito isto a outros seres humanos? Cada um teria que encontrar a sua resposta ou ficar apenas com a tristeza da pergunta.
Quando saíam da zona dos fornos crematórios, passou por eles um grupo de jovens alemães falando e rindo alto. Todos ficaram indignados.
— São alemães, não são? Como podem proceder aqui desta maneira? — perguntou um francês de meia-idade que seguia integrado no grupo. E Iolanda respondeu:
— Esse é um dos grandes problemas da Alemanha de hoje. É que há pessoas em Weimar e noutros cantos do país que continuam a dizer que foi tudo mentira e que os campos foram uma mera invenção dos Aliados. Muitas outras pessoas, conscientes da responsabilidade da Alemanha, entendem que isto não só aconteceu, como deve ser mostrado ao mundo para que não se repita. E, depois, há grupos de jovens neonazis que dizem que, de facto, houve os campos de concentração e que ainda bem que houve, pois podem ainda servir para se meterem lá os emigrantes turcos e de outras nacionalidades. Isso é terrível. Estes jovens que aqui passaram a rir e a falar em voz alta devem ser dos que pensam dessa maneira.
Todos ouviram com verdadeira estupefacção estas palavras, não querendo acreditar que, perante os testemunhos vivos do horror, algum ser humano possa pensar ou proceder dessa maneira.
Já no final da visita, os elementos do grupo, onde havia pessoas de várias nacionalidades, concentraram-se junto de uma placa de homenagem às vítimas do terror nazi. Era uma placa metálica incrustada numa outra mais larga feita de granito. Nela liam-se somente as nacionalidades das vítimas. Uma delas era a portuguesa. Em redor da placa havia dezenas de ramos de flores. Sofia perguntou ao pai se podia depositar ali o ramo de dálias que tinham comprado numa florista à saída do hotel. O pai respondeu-lhe que sim e ela acocorou-se junto da placa e deixou ali as flores. Segundo o pai lhe dissera, eram as predilectas do seu bisavô.
Nessa altura, Iolanda disse aos membros do grupo:
— Se quiserem prestar uma última homenagem às vítimas deste campo de concentração, por favor ponham a palma da mão sobre a placa metálica. As pessoas formaram uma pequena fila e corresponderam à sugestão.
— Quando tocarem na placa, perceberão a mensagem final do campo de Buchenwald.
Sofia escondeu a estranheza que sentia, dizendo para o pai:
— A placa está morna. Parece que tem alguma coisa lá dentro a aquecê-la.
Iolanda, sensibilizada com a reacção da jovem visitante, explicou:
— É precisamente essa mensagem que nós queremos que tu leves daqui.
Esta placa metálica que homenageia todos aqueles que aqui morreram, tem uma temperatura constante de 37 graus centígrados.
— Mas porquê essa temperatura? — quis saber Sofia.
— Porque é a temperatura do corpo humano e isso é que nos torna a todos iguais. Podemos falar línguas diferentes, ter diferentes grupos sanguíneos, vir de vários continentes e ter diferentes cores de pele. Mas uma coisa é certa: todos temos uma temperatura média do corpo igual a esta e é isso que também nos define como seres humanos. Se nos lembrarmos sempre desta mensagem, nunca deixaremos que nada se sobreponha à nossa condição de humanos.
As palavras de Iolanda foram muito mais do que a grande lição daquele dia de Agosto, numa visita ao campo de concentração de Buchenwald. Foram a lição de uma vida, daquelas que o tempo nunca apaga na memória.


WEIMAR: ENTRE A CULTURA E O TERROR

No dia seguinte, por mais que se falasse de grandes escritores como Goethe ou Schiller, nomes sem os quais não pode ser contada a história de Weimar, não saíam da cabeça de Sofia e de João as palavras de Iolanda sobre o campo de concentração que tanta impressão lhes causara. Contudo, evitaram falar do assunto, já que o programa estabelecido pelo pai previa que visitassem a cidade, com tempo e com paciência para aprenderem coisas novas sobre os movimentos artísticos que ali tinham nascido ou desenvolvido.
Todos acharam a cidade bonita, limpa, monumental, apesar da sua dimensão reduzida, e ficaram espantados com o facto de quase em cada esquina existir uma estátua de um escritor, de um músico ou de um poeta famoso. Era como se todos os génios de várias épocas tivessem feito questão de passar por Weimar ou de ali viver. Aquela pequena cidade alemã do Estado da Turíngia mais parecia um museu vivo, uma enciclopédia que, aberta numa página ao acaso, teria sempre revelações surpreendentes para fazer.
Quando, passeando despreocupadamente a conversar e a comer gelados, passaram perto da estação da cidade, fez-se um grande silêncio. Não puderam deixar de se lembrar das palavras da guia de Buchenwald quando lhes explicou que, durante bastante tempo, era ali que os presos era desembarcados e encaminhados para o campo de concentração, e deviam ser muito poucas as pessoas na cidade que desconheciam o seu trágico destino antes e durante a Segunda Guerra Mundial.
Decidiram, porém, não falar do assunto, pois iriam ter muito tempo para reflectir sobre ele quando voltassem a Portugal. O problema é que a visão do campo teimava em não lhes sair do espírito.
Durante todo o dia ninguém falou de Buchenwald, mas as imagens trágicas da visita feita na véspera não saíam da memória da família, porque, ao recordarem-nas, pensavam, inevitavelmente, no parente chegado que ali tinha acabado os seus dias de forma trágica.
Durante o jantar, Sofia, sempre com grande perspicácia, perguntou aos pais:
— Como é possível que quase ao lado de uma cidade toda ela feita de cultura tenha existido um campo de concentração onde morreu tanta gente inocente?
— Essa — disse a mãe — é uma pergunta para a qual é muito difícil encontrar uma resposta aceitável. A cultura deve tornar as pessoas mais sensíveis e mais humanas e, por isso, não faz muito sentido esta vizinhança.
E o pai, que há muito tempo reflectia sobre o assunto, acrescentou:
— Quem tem que tornar a vida dos seres humanos melhor não é a cultura, é o próprio ser humano, e o ser humano é uma criatura muito complexa, capaz de fazer as coisas mais belas e geniais e, ao mesmo tempo, as coisas mais terríveis e brutais. É assim mesmo a natureza humana. Weimar e Buchenwald são um bom exemplo dessa grande contradição.
— Mas há uma coisa que eu ainda não consegui perceber — disse João. — Que mal fizeram, afinal, aquelas pessoas para serem tratadas como foram e morrerem como morreram?
— Essa — respondeu o pai — é outra das perguntas para as quais não é fácil encontrar resposta satisfatória. Em primeiro lugar, nenhuma delas cometeu crimes de qualquer espécie. O único “crime” que podem ter cometido foi o de serem diferentes, o de serem judeus, ciganos ou apenas homens e mulheres que lutavam pela liberdade contra a tirania.
— Mas isso, que eu saiba, não foi nem nunca pode ser considerado um crime — observou Sofia.
— Claro que não! — concordou a mãe.— Isso só pode ser entendido como um crime quando estão no poder loucos e criminosos, que foi o que aconteceu aqui na Alemanha entre 1933 e 1945. Foram 12 anos de grande sofrimento para milhares de pessoas.
— E os que viviam aqui nesta cidade não podiam fazer nada para evitar que isto acontecesse? — quis saber João.
— A esta distância — explicou o pai — tudo parece muito simples e até podemos pensar que as respostas que damos são as mais correctas e definitivas. Mas o problema é que tem que se ver o que aconteceu, à luz da maneira como os alemães pensavam nessa época. Eles tinham sido derrotados e humilhados na Primeira Grande Guerra e Hitler e os nazis prometeram devolver ao país a grandeza e a glória perdidas.
— Mesmo assim... — limitou-se Sofia a comentar, insatisfeita com a resposta.
— Tens toda a razão em fazer esse comentário, porque não há nada que explique o silêncio cúmplice de grande parte de um povo ao ver assassinar milhares de pessoas da mesma nacionalidade e de outras nacionalidades sem razão aparente. E a verdade é que houve muitos milhares de alemães que colaboraram dia a dia com esta máquina de terror e destruição.
— Como, pai? — perguntou João.
— Tínhamos combinado que hoje não voltávamos a este assunto, mas já que estamos a falar nele, não vale a pena adiar a resposta. Calcula-se que cerca de 100 mil alemães podem ter estado ligados a esta indústria de terror, mesmo não sendo militares.
— Se não eram militares, o que é que faziam nos campos de concentração? — quis saber Sofia.
— Uns eram guardas dos campos, e os guardas eram homens e mulheres. Depois, havia gente que trabalhava nas fábricas onde se faziam os produtos usados para assassinar pessoas nos campos e, espero que não se impressionem com o que vos vou dizer: havia muitos homens e mulheres em fábricas e oficinas a fazer travesseiros e cabeleiras postiças com os cabelos que eram cortados rentes àqueles que entravam nos campos, e havia ainda muita gente a negociar com esta mão-de-obra que não custava nada e que dava muito lucro. Isso acontece nos países onde havia campos, e eles existiam na Alemanha, na Polónia, na Checoslováquia e outros mais pequenos nos vários países e os nazis ocupavam. No fundo, existia uma verdadeira economia do horror a girar à volta desta máquina de torturar e de matar. Ainda hoje é difícil percebermos como tudo isto foi possível.
Sofia mordeu o lábio, revoltada com o que acabara de ouvir, e depois perguntou ao pai:
— E as pessoas aqui desta cidade não faziam nada para ajudar os presos?
— Não — respondeu Francisco. — Que se saiba, não faziam. Mantinham aquilo a que eu chamei um silêncio cúmplice. Claro que havia pessoas que não concordavam, mas, se o dissessem publicamente, podiam acabar os seus dias num campo ou noutra qualquer prisão do regime de Hitler. Parece também que muita gente tirava vantagens da proximidade do campo.
— Mas como? — perguntou o João.
— Utilizavam os presos e presas como jardineiros, como cozinheiras, “como costureiras e até como amas de crianças, não pagando nada pelo serviço, ou pagando alguma coisa aos guardas do campo que alinhavam neste tipo de negócio e que até enriqueciam à custa dele.
— Que horror! — exclamou Sofia.
Francisco achou que seria melhor, pelo menos naquela noite, pôr um ponto final no assunto, mas os filhos insistiram para que ele o não fizesse porque queriam saber mais e, sobretudo, conhecer melhor os culpados e a lógica de um terror que não conseguiam justificar.
— Os piores campos — explicou o pai — eram aqueles que existiam sobretudo para matar os prisioneiros. O maior e o pior de todos foi o de Auschwitz, na Polónia. Foi ali que se internaram mais pessoas e que mais pessoas foram mortas. Era um campo enorme. Embora fosse um campo de extermínio, foi, durante quase todo o tempo em que funcionou, um campo de trabalho. Subalimentadas e gravemente doentes, as pessoas, independentemente da idade, tinham que produzir, tinham que render como animais de carga. Ninguém respeitava a sua dignidade nem a sua identidade, e era por isso que eram tratadas somente pelos números que lhes eram tatuados na pele da parte interior do antebraço. Os trabalhos mais pesados e mais brutais estavam reservados para elas, porque era como se tivessem escrito na testa a palavra “culpado”.Embora ninguém soubesse ao certo qual era a natureza dessa culpa. E todos morreram sem resposta para esta pergunta.
— E só judeus terão sido seis milhões a morrer nos vários campos de concentração — acrescentou a mãe, sugerindo que, depois de um dia tão cansativo, fossem todos dormir. A conversa, tão terrível como interessante, podia continuar no dia seguinte.
Antes de adormecer. João olhou para a janela e pareceu-lhe ver uma lágrima muito brilhante a deslizar pela face da lua. Talvez fosse uma lágrima de tristeza por todos os inocentes mortos nos campos de concentração ao longo daqueles anos.

UMA HISTÓRIA PARA LEMBRAR E PARA CONTAR

Os dias de férias que ainda lhes restavam na Alemanha foram reservados para conhecerem melhor Weimar e a região da Turíngia. Visitaram museus e exposições, almoçaram em esplanadas escutando música de qualidade a ser tocada ao ar livre e compraram presentes para trazerem aos amigos, desde as tradicionais canecas de cerveja trabalhadas e pintadas à mão, até caixas de bombons com os rostos de Mozart, Beethoven e Bach pintados nas capas.
Francisco contou aos filhos tudo o que sabia sobre a literatura e a música alemãs, numa linguagem adequada às suas idades e ficou disponível para conversar sobre todos os assuntos que lhes interessassem. Porém, o que continuava a suscitar sempre novas perguntas eram os campos de concentração. Não se lhes podia censurar essa curiosidade.
Sofia, numa dessas conversas, lembrou-se do nome de Anne Frank e do facto de ela e a irmã terem morrido num campo de concentração.
— Tens razão, Sofia — confirmou a mãe — Anne Frank, de quem tu já leste o diário, morreu no campo de concentração de Bergen-Belsen, depois de ter passado dois anos num sótão de Amesterdão, cidade para onde a sua família, que era alemã, fugiu para escapar à perseguição dos nazis. Se tivesse conseguido resistir um pouco mais, teria sido libertada e talvez tivesse feito a grande carreira de escritora com que tanto sonhou enquanto escrevia os seus textos sem poder fazer barulho para que a família e as outras pessoas que viviam naquele espaço apertado e quase irrespirável não fossem denunciadas à Gestapo.
O pai aproveitou então para explicar que, para além de Buchenwalde, Auschwitz, de que já tinham falado, existiram outros campos igualmente terríveis, citando Dachau, Mauthausen, Treblinka, Maidanek, Chelmno, Ravensbruck e Sachesenhausen, ficando muito longe de esgotar a lista.
Nesses campos foram assassinados, desde meados dos anos trinta e até praticamente ao fim da guerra, em 1945, milhões de judeus, de ciganos, de comunistas, de socialistas, de padres, de testemunhas de Jeová e ainda dezenas de milhares de doentes mentais. A cada um destes grupos correspondia uma estrela ou um pedaço de pano de outra forma, sempre com cores diferentes. A dos judeus era a amarela. Eles já sabiam que essa cor tinha, naquela situação, um significado trágico.
Quase ao mesmo tempo, João e Sofia perguntaram aos pais se foi logo no princípio da guerra que Hitler decidiu exterminar os judeus.
— Não — respondeu Francisco — embora já houvesse muitos internados nos campos, a sua eliminação sistemática começou em meados de 1941 e, no dia 20 de Janeiro de 1942, em Wannsee, nos arredores de Berlim, foi aprovado o que ficou tragicamente conhecido como “A Solução Final”, ou seja, o programa de extermínio em massa dos judeus.
— É então a isso que se chama Holocausto? — quis saber Sofia.
— Holocausto — respondeu Joana, tentando satisfazer a curiosidade da filha — quer dizer “sacrifício pelo fogo” e tornou-se uma expressão usada sobretudo pelos judeus norte-americanos. Há quem prefira chamar-lhe “genocídio; pois foi o extermínio sistemático de uma raça e há quem use o termo hebraico “shoah”, que é outra forma de dizer a mesma coisa, ou seja, de falar no genocídio.
— E porquê este ódio aos judeus? Que mal é que eles fizeram exactamente? — perguntou João, cada vez mais espantado com o absurdo de uma situação para a qual não conseguia encontrar uma explicação lógica. E Francisco respondeu-lhe:
— O ódio aos judeus não era uma coisa nova na Europa. Eles, historicamente, foram sempre vistos como responsáveis pela morte de Jesus Cristo. Essa perseguição que teve na Igreja Católica a sua principal base, manteve-se durante séculos. Os nazis retomaram-na com muito maior violência, tentando fazer dela uma causa nacional capaz de unir os alemães a quem tinha sido feita uma promessa de retorno à glória e à prosperidade.
Os principais inimigos públicos dos nazis eram os judeus e os comunistas e, à volta desse ódio, foi feita uma imensa campanha de propaganda para aumentar a intolerância e justificar o genocídio. Portanto, os judeus não eram culpados de nada em concreto. Eram apenas um pretexto para uma campanha de extermínio sem paralelo na história da Humanidade.
— Mas então — interrompeu João — os judeus não resistiram a essa perseguição?
— Houve muitos — explicou a mãe — que resistiram, integrando-se nos grupos de resistência e de guerrilha que se opunham ao terror nazi, mas não se pode falar de um exército clandestino judaico, organizado para o combate. Por exemplo, muitos dos judeus que resistiram ao terror eram comunistas, para além de serem judeus. Quanto aos campos de concentração, como já vos disse, não os vejam apenas como campos de extermínio, mas também como campos de trabalhos forçados que ajudavam a manter, sem quaisquer custos para os nazis, uma economia de guerra que tinha que produzir armamento e outros bens a um ritmo infernal.
Francisco aproveitou para falar aos filhos, de escritores importantes como o italiano Primo Levi, detido em Auschwitz, ou o espanhol Jorge Semprún, que sobreviveram e escreveram livros impressionantes dando testemunho do que foi essa experiência nas suas vidas de homens ainda muito jovens. Primo Levi acabou por se suicidar, já depois de ter completado 70 anos, por não poder continuar a viver com essa memória que nunca mais lhe deu paz.
Durante a conversa, que se prolongaria sobre o tema, já em Portugal, nas semanas seguintes, também se falou da existência de guetos como o de Varsóvia, onde viviam em condições inqualificáveis dezenas de milhares de judeus, completamente à margem do resto da sociedade. Aí chegou mesmo a haver uma revolta que os nazis conseguiram prontamente abafar.
Como tinham visto no cinema o filme de Steven Spielberg “A Lista de Schindler”, Sofia e João perguntaram aos pais se tinha havido mais pessoas a ajudarem os judeus a escapar ao seu destino trágico. O pai esclareceu-os:
— Houve muito mais pessoas do que se pode imaginar. Para além de Schindler, que o cinema tornou famoso, houve o sueco Raoul Wallenberg e muitos diplomatas, com destaque para o cônsul português Aristides de Sousa Mendes que, em Bordéus e Bayonne, conseguiu, contra a vontade de Salazar e do regime fascista em Portugal, emitir vistos que permitiram salvar a vida a mais de 30 mil judeus. Infelizmente, não há ainda um filme sobre esse herói português do século XX, que foi afastado da carreira diplomática e morreu na miséria em Portugal. Ele obedeceu à sua consciência de ser humano com regras morais e salvou milhares de vidas.
Essas pessoas que ajudaram a salvar milhares de judeus são hoje recordadas no museu Yad Vashem, também conhecido como Museu do Holocausto, em Jerusalém, onde cada uma delas é lembrada com uma árvore e com uma placa recordando o seu contributo para a salvação dos judeus.
Durante a conversa, a pergunta inevitável acabou por surgir:
— E não existe o perigo de uma coisa assim voltar a acontecer? Joana achou que esta poderia ser a melhor das respostas:
— Em princípio não voltará a acontecer, mas como o ser humano é complexo e difícil de prever, nunca se sabe e, por isso, o melhor é estar atento e evitar, por todos os meios ao nosso alcance, que uma situação tão trágica se repita. E há casos recentes preocupantes na ex-Jugoslávia, no Ruanda ou na perseguição ao povo curdo. Depois, há que pensar que existem muitos grupos de neonazis em vários pontos do mundo, a começar pela Alemanha, que admiram Hitler, a Cruz Suástica e as teorias do ódio racial.
Na Áustria, onde Hitler nasceu, há um partido que defende as suas ideias e que é chefiado por um tal Georg Haider. Já faz parte do governo, o que provocou uma forte e justa reacção da União Europeia, dos Estados Unidos e de Israel. Enquanto houver situações dessas, o perigo continuará a existir. Muitos desses grupos utilizam já hoje a Internet para divulgar as suas ideias e as suas acções.
Mesmo em França, existe um partido chamado Frente Nacional que defende ideias contra os estrangeiros que vivem e trabalham naquele país, muito parecidas com as dos nazis. Por isso, toda a vigilância é pouca, na escola, nos sítios onde trabalhamos ou nas cidades onde vivemos.
E também é bom não esquecer que os israelitas, herdeiros e descendentes dos judeus assassinados nos campos de concentração, têm utilizado com os palestinianos métodos que por vezes se assemelham aos que os nazis usaram contra o povo judeu, o que faz com que naquela zona do Médio Oriente se mantenha um clima de guerra que parece não ter fim à vista.
O que uns sofreram não pode justificar o mal que fazem aos outros. A vingança nunca é o caminho.
Tanto Francisco como Joana lembraram aos filhos que a primeira coisa que os nazis tiravam aos presos dos campos, antes mesmo da vida, era a dignidade humana, substituindo-lhes os nomes por números, rapando-os, separando pais de filhos, jovens de idosos, e enviando directamente para os campos de gás os considerados inaptos para o trabalho. Essa foi uma das maiores tragédias de toda a história da Humanidade e, seguramente, a vergonha maior do século XX.
Uma vergonha que ninguém pode ou deve esquecer, sob pena de permitir que ela se repita. Antes de deixarem Weimar, de comboio, rumo a Frankfurt, onde apanharam o avião de regresso a Lisboa, tiveram oportunidade de ver que num país onde a cultura nunca deixou de ter força e uma presença constante na vida das pessoas também houve lugar para o horror, para o extermínio e para a destruição física e moral de milhões de pessoas.
A ideia de terem perdido em Buchenwald alguém que a família nunca deixou de amar e de estimar fazia com que aquela terra distante onde trabalham muitos emigrantes portugueses passasse também a fazer parte das suas memórias e das suas vidas.
Sofia pediu ao pai que, no regresso, a deixasse ler as cartas do bisavô Francisco. E ele prometeu que o faria e que organizaria a sua vida para publicar o livro com essas cartas que tanto o tinham comovido. Tentaria honrar esse compromisso.
Sem se darem conta disso, Sofia e João voltaram mais crescidos e mais maduros daquela viagem de Verão, feita em nome da memória, no final de um século em que aconteceram coisas muito belas e outras assustadoras e tremendas.
Durante a viagem de regresso, o pai leu-lhes um fragmento de um poema escrito por um prisioneiro de um campo de concentração que dizia: Levantei a cabeça / as árvores estão em flor / pela primeira vez desde há trinta meses / chorei.Antes de partir, lembrando o avô e bisavô Francisco e a tragédia de Buchenwald, também eles, olhando as árvores floridas e as estátuas do poeta e ouvindo na rua a música de Mozart, tiveram também vontade de chorar, num misto de alegria e de tristeza que marcaria para sempre as suas vidas.
Quem visita um campo de lágrimas, mas que foi habitado por uma dor sem nome, passa a conhecer melhor a condição humana. As palavras da guia Iolanda nunca mais lhes saíram da cabeça, nem a placa com uma temperatura permanente de 37 graus, que é a do corpo humano, seja de que raça for. Aquela lição foi a maior das suas ainda curtas vidas.
Voltavam agora a Portugal com tanta coisa nova para contar e não iam faltar amigos para escutarem o relato da viagem. Ficou assente que iriam ver no cinema ou em vídeo o filme “A Vida é Bela” de Roberto Benigni, uma obra muito bela sobre os anos de tragédia e resistência, na Segunda Guerra Mundial.

Era uma vez um português que, por ter lutado pela liberdade, deixou a mulher e um filho pequeno e acabou por morrer num campo de horrores onde as pessoas eram conhecidas por números e sabiam que cada dia podia ser o último das suas amargas vidas...

Este bem podia ser, em poucas palavras, o princípio da história que traziam para contar. Uma história que se demora na memória como uma chama que o tempo e o vento não são capazes de apagar.


José Jorge Letria
Campos de Lágrimas
Porto, Ambar, 2001

segunda-feira

História de Robert - Jean-Pierre Guéno


Nasci no dia 11 de Novembro de 1929, onze anos após o dia oficial do fim da Primeira Guerra Mundial. A Segunda Guerra Mundial foi declarada quando eu ainda não tinha 10 anos e morava na cidade de Metz com os meus pais polacos, os meus dois irmãos e a minha irmã. O meu pai era caixeiro-viajante e a minha mãe cuidava dos quatro filhos. Em Metz, o nosso apartamento de cinco divisões não ficava situado no bairro judeu. Sempre que os habitantes de Metz falavam deste bairro, faziam-no de forma negativa.

Quando voltava de viagem, o meu pai trazia-nos drageias de chocolate Meunier. Curiosamente, não guardo nenhuma lembrança de gestos de ternura por parte da minha mãe. Não a revejo a inclinar-se para mim, não a revejo a dar-me alguma coisa, nem a partilhar comigo aqueles segredos que as mães partilham com os filhos. Mas sei que fui muito amado.

Em Outubro de 1939, Metz foi evacuada e toda a comunidade judaica, os praticantes e aqueles que não o eram, partiram. Embarcaram todos no mesmo comboio e cada um recebeu um queijo camembert e 5 francos. Passámos por Paris para irmos para La Rochelle. A nossa família reencontrou‑se em Royan, onde ficámos onze meses. Depois da chegada dos alemães em Junho de 1940, fui tradutor nos grandes armazéns da cidade. Um dia, um nazi magro de óculos e rosto emaciado perguntou-me «onde tinha aprendido alemão». Respondi-lhe que era loreno. Ele disse-me: — És judeu.

Fugi e fiquei com muito medo.

Num outro dia, a polícia francesa disse-nos, como a todas as famílias judaicas da cidade, para juntarmos as nossas coisas e irmos para a estação. Fomos agrupados com outros judeus e enviados para a Dordogne com termo de residência.

A nossa família foi alojada numa quinta abandonada desde 1914, sem água, sem electricidade, sem casa de banho.

Recordo-me de ter vivido nesta aldeia da Dordogne os dois anos mais belos da minha infância, a partir de Outubro de 1940. Descobria a natureza, os animais, a vida simples. A água do poço estava sempre fresca e límpida. Pouco a pouco, o meu pai tornou-se camponês. Começou a revolver a terra diante da casa, plantou batatas, cenouras e alhos franceses. Eu ia à escola e ajudava-o na quinta. Havia árvores de fruto, flores, lilases; havia galinhas, patos e gansos a esgaravatar… Os meus pais eram pouco praticantes, mas rezavam.

A partir de 1942, era preciso usar a estrela amarela… À excepção de duas raparigas que me perguntaram «o que os judeus tinham vindo cá fazer», a estrela não causava nenhuma reacção nos camponeses ou nos seus filhos. Muitos não compreendiam o que se passava. Nós morávamos dois quilómetros a norte da linha de demarcação[1]. Numa noite de Outubro de 1942, às duas da manhã, a polícia veio dizer-nos que tínhamos três horas para prepararmos as nossas trouxas e que uma camioneta viria buscar-nos. Todas as famílias judaicas foram exemplarmente dóceis.

Chegados a Angoulême, juntaram 400 pessoas numa grande sala cujo chão estava coberto de palha. Ficámos ali quatro ou cinco dias. Alemães vestidos à civil recolhiam diariamente as nossas jóias, o nosso dinheiro, os nossos documentos, as nossas senhas de racionamento.

Uma noite, os alemães informaram-nos de que as crianças que tinham sido declaradas francesas deveriam ser separadas das outras na manhã do dia seguinte. Eu era o único da minha família nessa situação. O meu pai entregou-‑me um porta-moedas com o seu relógio de bolso, o relógio da minha mãe, as alianças deles, o canivete e todo o dinheiro que tinha com ele: 700 francos.

Chegou a manhã da separação. Éramos uma dezena de crianças de nacionalidade francesa. Curiosamente, os meus pais não tinham declarado os meus irmãos e irmã, que, ao que parece, não podiam ser salvos… Quis voltar para o meu pai, mas um tipo trajado à civil que gritava muito alto deu-me um violento pontapé no traseiro e disse: — Fica aí, porco judeu!

O meu pai chorava. Abriu os braços para mim… Gritou: — Robert, nunca te esqueças de que és judeu…

E eu comecei a rir. Porque nunca tinha visto o meu pai a chorar… Porque não me sentia nada bem… Hoje, sei que era um riso nervoso, mas sempre me perguntei se o meu pai teria visto aquele riso e percebido que não era bem um riso. E esta pergunta persegue-me. Pergunto-me que imagem guardou ele de mim… E a minha pergunta nunca terá resposta. Eu tinha treze anos. A minha irmã oito, os meus irmãos, quatro e seis anos. E nunca mais voltei a ver o meu pai, a minha mãe, a minha irmã ou os meus irmãozinhos.

Ainda conservo os 700 francos do meu pai; nunca lhes toquei. As duas alianças dos meus pais serviram para o meu casamento e, quando as coisas não correm bem, olho para a da minha mãe. Guardei o porta-moedas, mas há vinte e cinco anos que não o abro. Tenho a fotografia dos meus pais no dia do casamento e uma foto de passe do meu pai na época em que nos separámos. Ele tinha 49 anos… Mas não tenho nenhuma recordação da cara da minha mãe nessa altura.

Um pároco olhava pelas dez crianças que, como eu, tinham sido separadas dos pais. Recordo-me da minha pergunta: — Mas por que é que nos levam? Quando é que vamos voltar a vê-los?
E o pároco dizia-nos: — Vocês voltarão a vê-los, não se preocupem. Agora vão comigo porque me pediram que vos alojasse…

Fomos então com ele. Era um padre que se ocupava de casos sociais, de crianças cuja mãe falecera, ou cujo pai estava preso: crianças, todas elas, com histórias familiares difíceis. Tínhamos entre os 4 e os 15 anos.

Lembro-me de uma longa caminhada para chegarmos a umas barracas nos subúrbios de Angoulême. Levávamos as nossas roupas numa carreta. Eu andava com um saco às costas e guardava no bolso o porta‑moedas do meu pai. Lembro-me de um conjunto de barracas que parecia um campo, onde havia irmãs trajadas à civil. O padre Le Bideau mostrou-nos o lugar onde íamos dormir e, de seguida, encontrámo-nos no refeitório. Recordo uma cena engraçada quando todas as crianças se levantaram à chegada do padre. Devíamos ser uns cinquenta ou sessenta e ouvi: «Bom dia, meu pai![2]». Virei-me e disse para comigo: «Mas o que é que o meu pai tem a ver com isto?» Nunca tinha frequentado ambientes cristãos… Tínhamos de rezar antes das refeições e levantávamo‑nos todos de manhã à mesma hora, para irmos à missa numa pequena capela improvisada.

Um dia, recebi uma carta dos meus pais. Já não tinha notícias deles há um mês… Na carta, que me entregaram já aberta, a minha mãe manifestava a sua indignação: Robert! Como é possível? Deixámos-te dinheiro, estamos aqui neste campo, a passar fome (era em Drancy[3]), mandei-te três cartas com três vales de encomendas! Os teus irmãos não têm que comer. Choram todo o dia. Porque é que não nos mandaste as encomendas com o dinheiro que o teu pai te deixou? Uma carta atroz. E no mesmo envelope vinha uma borboleta dactilografada: Partiram para endereço desconhecido, não enviar nem cartas, nem encomendas. Lembro-me de que senti algo em mim, como quando vamos vomitar. Como se o sangue deixasse de afluir à cabeça. Pus-me a gritar com o padre Le Bideau:

— Porque é que não me entregou as cartas e os vales? Tem consciência do que fez?

E ele disse-me:

— Mas nós nunca recebemos essas cartas.

Penso que ele não estava a dizer-me a verdade… Ainda hoje o responsabilizo por isso. Nas quarenta e oito horas seguintes fiquei com icterícia. Passei quase três semanas sem comer. Foi um grande choque. Recebi, pouco tempo depois, uma última carta da minha mãe: era um pequenino cartão de visita num envelope. Ela tinha-o atirado de um vagão, e alguém o tinha apanhado e posto no correio… Neste cartão tinha escrito com uma letra minúscula: Boubi, com a ajuda de Deus, espero que voltemos a ver-nos em breve. Não sabemos para onde vamos. Estamos com saúde, esperamos reencontrar-nos em breve. Depois disto, nunca mais recebi nada.

O padre fazia-nos participar cada vez mais na vida religiosa da colectividade, até ao dia em que pegou em nós, nas dez crianças judias, e nos obrigou a confessar-nos. Fiquei em pânico…

Entre as coisas que o meu pai me tinha confiado, estava a morada do rabino Bloch, o famoso rabino que tinha organizado a nossa partida de Metz, e que era o que os rabinos costumam ser nas pequenas comunidades: um verdadeiro deus que tudo conseguia, tudo sabia, que para tudo tinha resposta… O meu pai tinha-me dito:

— No dia em que alguma coisa não correr bem, escreve ao rabino.

Escrevi então ao rabino Bloch, que morava em Poitiers. Quarenta e oito horas depois, chegou a secretária dele e levou-nos a todos, às dez crianças judias. Fomos para Poitiers e distribuíram-nos por famílias judias.

Mandaram-me para uma primeira família em Châtellerault. Fiquei lá relativamente pouco tempo, porque era muito infeliz. No entanto, eram pessoas óptimas, que me acolheram muito cordialmente. Mas o filho deles não suportou a minha presença. Obrigou-me a dormir no chão, escondeu as minhas coisas, disse-me que fizera chichi na minha escova de dentes… Escrevi imediatamente ao rabino Bloch, dizendo-lhe que não podia ficar mais nessa família e que, se não viessem buscar-me, não sabia o que poderia acontecer-me. Quarenta oito horas depois, chegava a secretária, que me tirou daquela casa e me levou para outra família judia da qual o marido tinha sido levado, ao sair de casa, por não trazer a estrela. A senhora era cardíaca, uma pessoa extraordinária, muito calorosa, mas entrevada. Era uma das famílias mais ricas de Châtellerault, uma família de peleiros, com muitos criados. Fiquei lá com outra criança, Eva Nadel.

Estávamos no Paraíso… Pus-me a estudar como um louco e a fazer os trabalhos de casa para recuperar o tempo perdido. No espaço de dois meses, acho que avancei dois anos. Era amigo de um outro rapaz judeu. Levávamos a estrela quando íamos para o liceu e vivemos juntos uma cena absolutamente incrível. Havia uma praça em Châtellerault que os judeus não podiam atravessar; para irmos para o liceu, tínhamos de fazer um desvio enorme, porque o liceu ficava do outro lado… Ficávamos muitas vezes num dos passeios em frente à praça e olhávamos para os carrocéis, encostados à montra de uma confeitaria… Um dia, passa uma senhora com um rapazinho, entra na confeitaria, sai e faz-nos sinal para a seguirmos…

Seguimo-la: levou-nos até uma ruela e deu um bolinho a cada um, dizendo:

— Comam depressa e deitem fora os papéis.

Ficámos tão estupefactos que nem lhe agradecemos. Só depois é que corri atrás dela para lhe agradecer…

Fiquei em Châtellerault, nesta segunda família, durante seis meses. Um dia, a polícia francesa veio buscar todas as crianças cujos pais tinham sido deportados, e transferiram-nas para o campo de Poitiers. Era um campo de reagrupamento… Passámos lá uns dias totalmente surpreendentes: éramos cerca de sessenta crianças judias que vinham de toda a parte… Nunca como naquele lugar brinquei tanto com os meus pequenos companheiros. Dormíamos em barracas imensas; comíamos muito mal, mas a Cruz Vermelha enviou-nos uns pacotes, nomeadamente, um barril de bombons. Estes bombons, sem papel, estavam todos colados uns aos outros. No princípio, conseguíamos raspá-los e comê-los; juntávamo-nos à volta do barril; mas, no fim, era preciso ir para dentro dele a fim de chegar aos do fundo. Recordo-me de ter entrado na pipa e de não ter conseguido sair até me puxarem pelos pés.

Juntaram-nos, de novo, alguns dias depois; meteram-nos em comboios e mandaram-nos para Paris, onde fomos acolhidos por responsáveis da UGIF[4]. Todo o grupo foi levado para um lar de crianças, em Lamarck. A rua Lamarck era óptima. É um facto que nos raparam o cabelo porque tínhamos piolhos, mas comia-se maravilhosamente bem; e a disciplina não era muito severa… Encontrei lá amigos da minha idade que tinha conhecido na Dordogne. Fiquei três ou quatro dias. Em seguida, como tinha mais de 13 anos, tive de partir, e mandaram-me para a escola profissional, no nº 4 bis, da rua de Rosiers. Guardo desta escola uma recordação horrível. Fui muito infeliz lá. Era um dos mais novos e os meus congéneres eram todos casos sociais. Alguns tinham roubado, outros tinham grandes dificuldades familiares. Juntavam assim os jovens a quem não sabiam o que fazer…

De manhã, havia aulas do curso geral e, de tarde, ensino profissional. Eu tinha escolhido a carpintaria. Vivi neste lar onde não havia calor humano algum, onde estavam sempre a ameaçar-nos que nos batiam e que iam deportar-nos…

Saí em 1944, nove meses mais tarde. Aprendi a lutar pela minha comida e pelo meu pão… Era uma luta permanente… A recordação que guardo deste período é a de uma espécie de nó no estômago, de um enorme vazio afectivo e de um sentimento de insegurança permanente.

Em Fevereiro de 1944, um senhor misterioso que pertencia a uma rede clandestina tomou conta de mim. Tinha marcado encontro comigo num outro lar de crianças e disse-me:

— Já não voltas à escola profissional; é demasiado perigoso. Vais sair do circuito judeu, mudar de nome, ter novas senhas de racionamento e estudar. Mas, durante algum tempo, virei visitar-te regularmente para te informar do que vai acontecer-te.

Era um lar de crianças protestantes de que não guardo nenhuma recordação em particular… Comia-se bem, lavavam a nossa roupa. Fiquei um mês. Um belo dia, o mesmo senhor voltou e disse-me:

— Vens comigo, vou levar-te para uma nova escola, mas é preciso que saibas desde já que não te chamas Robert Frank, mas Robert François, e que nasceste em tal dia e em tal sítio.

Explicou-me que era uma câmara cujos arquivos tinham sido destruídos pelos bombardeamentos…

Não deveria dizer a ninguém o meu verdadeiro nome…

Entrei para o Instituto Voltaire.

Fui acolhido pela Sra. Vallon, a directora, juntamente com um outro rapaz judeu, também escondido. Quem tomou conta de nós foi uma organização clandestina, dirigida pelo doutor Milhaud e a mulher, que conseguiu salvar uma dezena de crianças que estavam comigo na escola…

A Sra. Vallon tomou-nos sob a sua protecção. Como era a directora da instituição, fomos normalmente às aulas até à Libertação. Em casa dela, continuei a chamar-me Robert François: não digo que ela tenha sido uma substituta da minha mãe, mas foi uma mulher de quem gostei muito; tinha um excelente coração; ligou-se muito a nós, e vivi com Georges Miliband em casa dela, como se fôssemos dois irmãos. Estávamos sob a sua protecção, ela velava por nós.

Tinha uma casa em Raincy onde organizava colónias de férias. Georges tinha-lhe sido confiado em Julho de 1942 para participar numa dessas colónias. De volta a Paris no final de Julho, não conseguiu encontrar a mãe e as duas irmãs, presas na altura do Vel d’Hiv[5]. O pai dele tinha morrido antes da guerra. Foi então que a Sra. Vallon o acolheu. Eu não saberia dizer quantas crianças judias lhe passaram clandestinamente pelas mãos; corria um enorme risco, e fazia-o de forma totalmente consciente…

Para mim, o facto de ter um nome que não era o meu foi, no início, uma espécie de jogo. Não sendo Robert Frank mas Robert François, achava que conseguiria esconder-me facilmente, que conseguiria esconder o que era, ou seja, mascarar as minhas dificuldades, a minha angústia, o meu vazio afectivo em relação aos outros. Este período não me permitiu, de forma alguma, expandir-me, mas apenas preservar-me tal como queria ser, Robert Frank, ou seja, o filho do meu pai e da minha mãe, guardando para mim a minha história dolorosa… Nunca falei disso na altura, e a minha máscara deu-me uma espécie de força, que perdi após a Libertação, sobretudo depois do fim da guerra, em 1945, quando foi necessário retomarmos os nossos verdadeiros nomes e ir à estação de Est acolher os que regressavam.

Foi aí que voltei a sentir esperança: voltava a ser Robert Frank; esperava por Max Frank, o meu pai, Betty Frank, a minha mãe, e pelos meus irmãos e irmã… Não sabia o que lhes tinha acontecido. Não se sabia nada de Auschwitz[6], dos fornos crematórios… E eu esperava, ia à estação e dizia para mim próprio: «Um dia destes, vou vê-los chegar.»

Para mim, eles eram apenas prisioneiros. E os primeiros deportados chegaram… Foi então que a espera se tornou angustiante. Um dia, vi chegar Sylvain Kaufman, que vinha de Auschwitz. Era o filho do patrão do meu pai em Metz e conhecia toda a minha família. Não sei o que fez em Auschwitz, nem procurei saber, mas ele perguntou-me:

— Queres saber o que aconteceu à tua família?

Eu respondi:

— Claro que sim.

Disse-me que, à chegada, o meu pai tinha sido mandado para um lado e a minha mãe para outro. A minha mãe, os meus irmãos e irmã, foram directamente para a câmara de gás; o meu pai sobreviveu durante três meses, trabalhando arduamente. E um dia, como as suas pernas já não aguentavam, Sylvain Kaufman levou-o à câmara de gás juntamente com um grupo de pessoas… Não consegui acreditar nesta história; pensei que ele não queria dizer-me o quanto tinha sido mais terrível ainda. Não conseguia aceitar que eles tivessem morrido; conseguia aceitar a doença deles, o seu sofrimento, mas não o seu desaparecimento…

Muitos anos depois da guerra, eu ia ainda atrás de pessoas em quem pensava reconhecer o meu pai. O momento mais dramático, vivi-o em 1947, dois anos depois do fim da guerra, quando, tendo obtido o diploma da escola básica, a Sra. Vallon me disse:

— Como recompensa, vou oferecer-te uma viagem a Metz.

Era um desejo que eu tinha manifestado.

Fui a Metz sozinho, e dirigi-me à rua onde morávamos; vi o prédio, o apartamento no quarto andar, não me atrevi a subir; passeei nos lugares que me eram familiares; sem pensar, fui ter ao lugar onde moravam os melhores amigos dos meus pais, a família Wiederspiel. Vi o nome deles na campainha de um prédio; louco de felicidade, toquei, mas ninguém respondeu. Deviam ser três horas da tarde; disse para comigo: «Vou dar um passeio, de certeza que foram a qualquer lado, e venho tocar de vez em quando.» E fui dar uma volta. A dado momento, deparei com uma campainha com o nome Frank. Pareceu-me reconhecer a letra do meu pai. Fiquei possesso e disse para comigo: «Não é possível que ele tenha voltado e não me tenha procurado! Como é possível ter voltado a Metz e ter-me deixado sozinho?» Toquei; ninguém respondeu. Voltei ao edifício dos Wiederspiel. Abriram-me a porta. Reconheceram-me e levaram algum tempo a convencer-me de que os Frank do bairro não tinham nada a ver com a minha família…

Levei muitos e longos anos até ficar convencido do desaparecimento dos meus pais… E foi um sonho que me libertou. Em 1957, estava já casado, levantei-me da cama em sobressalto; acordei a minha mulher e disse-lhe: — Olha, acabei de enterrar os meus pais. Sonhei que estava em Festalemps, naquela aldeia onde vivemos juntos os últimos momentos, e no pátio, entre o portão e a quinta, vi cinco círculos, cinco grandes círculos, com uma cúpula por cima. E acordei nessa altura, dizendo a mim próprio: «O que quererá isto dizer?»

Compreendi que o número cinco representava o meu pai, a minha mãe, o meu irmão, o meu outro irmão e a minha irmã. Tinha sofrido muito por não ter um túmulo para eles. Para mim, Auschwitz não fazia sentido. Morrer nos fornos crematórios é partir em fumo, enquanto que, no meu sonho, os tinha colocado num lugar que me era querido… E isso libertou-me, fez-me bem, porque, de seguida, senti-me bem, distendido, até recomeçar a colocar-me outras questões.

Nos meses que se seguiram à guerra, tornei-me órfão de guerra; tomaram conta de mim financeiramente, a nível de alojamento, estudos, roupa. Materialmente, deixei de ter problemas. Restava o problema afectivo, bem mais difícil de aliviar…

Penso que a história dos filhos dos deportados traz consigo uma dor terrível. É dramático perder os pais; horrível perder os irmãos e as irmãs. Quando se perdem por doença, por acidente, é terrível. Mas perdê-los da forma como nós os perdemos, brutalmente, de um dia para outro, sem entender porquê nem como, sem certezas, é medonho. Já não tinha tios ou tias; sentia-me completamente só. Estava furioso com os meus pais. Primeiro, senti-me abandonado. Depois, senti-me culpado por estar vivo; restava-me acusá-los por me terem abandonado. Hoje, compreendo que era uma forma de me defender da dor da separação. Pouco a pouco, compreendi que eles não tinham culpa nenhuma. Quando retomei os estudos, fiquei durante muito tempo ensimesmado, sem falar, sem contactar com ninguém; sentia-me desinteressante, como alguém que não podia ser «reconhecido».

Passei os meus dois exames de admissão à Faculdade. Nunca fui um aluno brilhante mas consegui desenvencilhar-me. Decidi tornar-me médico. Na altura das inscrições, conheci um rapaz que me propôs, alguns meses mais tarde, trabalhar em parceria com ele. Pouco tempo depois, apresentou-me à mãe; disse-lhe que tinha estado em Châtellerault durante a guerra e ela contou-me então a seguinte história: — Um dia, em 1943, estava eu num passeio com o meu filho, quando vimos dois rapazes com a estrela de David. Entrei com o meu filho numa confeitaria, comprei alguns bolos e disse aos dois rapazes judeus que me seguissem e dei-lhes dois bolos…

A coincidência era impensável!... É claro que me tornei para ela mais um filho…

No final dos meus estudos, tornei-me dentista. Conheci a minha mulher em 1952 e casámos em 1954. Casei com uma mulher judia, psicóloga, e retomei, de alguma forma, uma vida em família.
Não posso dizer que seja uma pessoa fácil. Andei muito tempo deprimido, e ficava, por vezes, muitos dias sem abrir a boca, totalmente centrado em mim mesmo. Mas a minha mulher conseguiu fazer de mim aquilo que hoje sou. Quando me dizem demasiadas vezes que me amam, tenho alguma dificuldade de aceitar que isso seja verdade ou que tal se justifique. Além disso – e não estou agora a falar da minha mulher, falo sobretudo de todas as pessoas que me rodearam, que me ajudaram ou quiseram-me fazer bem – sempre tive um movimento de rejeição em relação às pessoas que foram boas comigo.

Hoje, sinto mágoa em relação a isso, porque foram pessoas que, espontaneamente, quiseram exprimir a sua compreensão e a sua afeição. Mas bastava que isso fosse um pouco em demasia para me tornar agressivo e me retirar, cortando qualquer relação.

Outras crianças escondidas conheceram as mesmas dificuldades: logo que alguém nos dava amor, logo que isso se tornava demasiado forte, a nossa forma de reagir era a ruptura. E a ruptura total. Evidentemente que hoje me penalizo muito por isso, mas é já demasiado tarde.

Tive duas filhas maravilhosas com a minha mulher; durante muito tempo, pouco falei com elas; é escasso o que sabem a respeito do meu passado; apenas os grandes momentos, os momentos importantes…

O meu sofrimento actual é de uma outra ordem. Tento imaginar o que os meus pais terão sentido antes de morrer… Não me atrevi, durante muito tempo, a imaginar aquilo que a minha família terá passado depois de nos termos separado. Tentei imaginar como teriam vivido a viagem até Auschwitz, através de tudo o que li sobre estes comboios e a descida dos vagões. Sei que estavam todos vivos quando desceram. Imagino os gritos dos SS[7] e a cara da minha mãe, dos meus irmãos e da minha irmã; estava frio; era em Novembro de 1942. Imagino os cães, os uivos, a selecção. «Tu, para ali! Tu, para acolá!» Creio que o meu pai já não devia pensar muito em mim naquela altura, ao ver a mulher e os filhos ali, do outro lado. Imagino-os a despir-se. Imagino os meus irmãos e a minha irmã de pé, nus, indo para o duche. Vi o filme Shoah, vi como contaram as diferentes etapas, imaginei o meu pai nas barracas onde a mulher e os filhos desapareceram; é tenebroso. Imagino-o a trabalhar. Imagino-o a dizer para si mesmo: «Para quem, para quê?» Talvez para mim, Robert… Imagino-o a morrer de fome, de frio. Um dia, não se aguentando mais de pé, vejo-o a ser levado num carrinho de mão, não consigo imaginar os golpes, vejo-o, sabendo onde vai; é tudo. E tudo isto é novo. Neste momento, recordo esta trajectória quase todas as noites.

Robert

Jean-Pierre Guéno
Les enfants du silence. Mémoires d’enfants cachés 1939-1945
Toulouse, Ed. Milan, 2003
texto traduzido e adaptado

[1] Até Novembro de 1942, esta linha – que ia de Bayonne à Suiça – dividia a França livre, onde se exercia a autoridade do governo de Vichy, da França ocupada pelos Alemães. Só podia ser atravessada com uma autorização das autoridades alemãs. Em Novembro de 1942, os Alemães invadiram a «zona livre»…

[2] Em francês, no original, père tanto significa pai como padre. Apesar de não ser tão frequente, é também possível chamar-se pai a um padre, em português. Por isso, a opção tradutiva respeita a duplicidade do vocábulo. (N.T.)

[3] Campo de internamento do governo de Vichy que funcionou como principal ponto de partida para os campos de concentração nazis: 67 dos 79 comboios de deportados judeus partirão de Drancy, cujo sobrenome era «antecâmara da morte».

[4] A Union générale des israélites de France foi um organismo criado pelo governo de Vichy, sob pressão dos nazis, para reagrupar numa única organização as obras de ajuda e assistência aos judeus.

[5] Abreviatura de Vélodrome d’Hiver, um estádio de competições de ciclismo, usado pela polícia francesa para juntar os 12 884 judeus presos na noite de 16 de Julho de 1942, em Paris e na região parisiense, e depois conduzidos para os campos de Drancy, Pithiviers e Beaune-la-Rolande, antes de serem deportados para Auschwitz.

[6] O mais conhecido dos campos de concentração criados pelos nazis, localizado a 60 Km de Cracóvia, na Polónia, e aberto em Junho de 1940. Três milhões de pessoas morreram aí: dois milhões e meio gaseadas e 500 000 de fome ou esgotamento. A partir de 1942, as câmaras de gás chegaram a matar 6000 pessoas por dia, essencialmente judeus.

[7] Abreviatura de Schutzstaffel: secção de protecção. Na origem, a guarda pessoal de Hitler; depois, tropas de elite fanáticas, dedicadas à guarda dos campos, ao extermínio e à «depuração» praticados pelo exército alemão.

A estrela de Erika - Ruth Vander Zej


Nota da autora

Em 1995, cinquenta anos depois do fim da Segunda Guerra Mundial, encontrei a mulher de que fala esta história. O meu marido e eu estávamos sentados na beira de um passeio em Rothenburg, na Alemanha. Observávamos uns trabalhadores a limparem as ruínas do telhado da Câmara. Na noite anterior, um tornado tinha-se abatido sobre esta bonita aldeia medieval. Havia entulho um pouco por todo o lado. Um velho comerciante disse-nos que os estragos causados por este tornado se assemelhavam aos da última ofensiva dos Aliados durante a guerra. O comerciante entrou na sua loja, e uma senhora, sentada perto de nós, apresentou-se como sendo Erika.

Perguntou-nos se tínhamos vindo fazer turismo naquela região. Quando lhe disse que vínhamos de Jerusalém, onde passáramos duas semanas a fazer pesquisas, confessou-nos, com um suspiro, que desejava muito lá ir mas que não tinha dinheiro para a viagem. Ao ver uma estrela de David pendurada ao seu pescoço, disse-lhe que, no regresso de Israel, tínhamos passado pelo campo de concentração de Mauthausen, na Áustria. Erika confessou-nos que, um dia, tinha tentado visitar o campo de Dachau, mas que não conseguira franquear a porta.

Depois, contou-nos a sua história…



Entre 1933 e 1945, seis milhões de homens e mulheres do meu povo foram mortos. Muitos foram fuzilados. Muitos morreram de fome. Muitos foram incinerados nos fornos ou asfixiados nas câmaras de gás. Eu escapei.

Nasci em 1944.

Não sei o dia.

Não sei como me chamava ao nascer.

Não sei em que cidade nem em que país nasci.

Não sei se tive irmãos ou irmãs.
O que sei é que, apenas com alguns meses, escapei ao Holocausto.

Imagino muitas vezes como seria a vida dos membros da minha família durante as últimas semanas que passámos juntos. Imagino o meu pai e a minha mãe, despojados de todos os seus bens, forçados a abandonar a sua casa, enviados para o gueto.

Talvez depois tenhamos sido expulsos do gueto. De certeza que os meus pais tinham pressa de deixar o bairro rodeado de arame farpado para onde tinham sido relegados, de escapar ao tifo, ao excesso de pessoas, à imundície e à fome. Mas teriam alguma ideia do local para onde estavam a ser enviados? Ter-lhes-iam dito que iam para um local mais acolhedor, onde teriam comida e trabalho? Terão chegado até eles os rumores sobre os campos da morte?

Pergunto-me o que terão sentido quando os conduziram à estação, juntamente com centenas de outros judeus. Amontoados num vagão de transporte de animais. De pé, uns contra os outros, por falta de espaço. Terão entrado em pânico quando ouviram correr os ferrolhos?

De aldeia em aldeia, o comboio deve ter atravessado paisagens campestres estranhamente poupadas ao terror. Durante quantos dias ficámos naquele comboio? Quantas horas os meus pais passaram apertados um contra o outro?

Imagino que a minha mãe devia ter-me bem encostada a ela para me proteger dos maus cheiros, dos gritos, do medo, que reinavam neste vagão lotado. Tinha de certeza compreendido que não íamos para um lugar seguro.

Pergunto-me onde estaria exactamente. No meio do vagão? O meu pai estaria junto dela? Ter-lhe-á dito que fosse corajosa? Terão falado do que iam fazer?

Quando teriam tomado aquela decisão? Será que a minha mãe disse “Desculpa. Desculpa. Desculpa.”? Terá aberto a custo um caminho por entre aquela mole humana até à janela do vagão? Terá murmurado o meu nome ao embrulhar-me num cobertor bem quente? Terá coberto a minha cara de beijos e dito que me amava? Terá chorado? Rezado?

Logo que o comboio abrandou, ao atravessar uma aldeia, a minha mãe deve ter espreitado pela fresta do vagão. Ajudada pelo meu pai, deve ter afastado o arame farpado que ocultava a abertura. Deve ter esticado os braços para a luz pálida do dia. A única coisa que sei com certeza foi o que aconteceu a seguir.

A minha mãe atirou-me pela janela do comboio.

Atirou-me para cima de um pequeno quadrado de relva, junto de uma passagem de nível. Havia pessoas à espera de que o comboio passasse; viram-me cair do vagão de carga. No caminho que conduzia à morte, a minha mãe lançou-me à vida.
Alguém pegou em mim e levou-me para casa de uma mulher que se ocupou de mim. Que arriscou a vida por mim. Calculou a minha idade e atribuiu-me uma data de nascimento. Decidiu que me chamaria Erika. Deu-me um lar. Alimentou-me, vestiu-me, mandou‑me à escola. Fez tudo por mim.

Casei aos vinte e um anos com um homem maravilhoso. Ele aliviou muita da tristeza que me assaltava com frequência, percebeu o meu desejo de pertencer a uma família. Tivemos três filhos, que hoje têm os seus filhos também. No rosto deles, reconheço o meu.

Dizia-se outrora que o meu povo seria um dia tão numeroso como as estrelas do céu. Entre 1933 e 1945 caíram seis milhões de estrelas do céu. Cada uma delas corresponde a um membro do meu povo, cuja vida foi rasgada, cuja árvore genealógica foi arrancada.

A minha árvore lançou raízes.
A minha estrela ainda brilha.



Ruth Vander Zej ;Roberto Innocenti
L’étoile d’Erika
Toulouse, Milan Jeunesse, 2003

tradução e adaptação

Retirado com autorização do blogue Violência, que futuro para a humanidade?


Anne Frank - Josephine Poole


Segunda-feira, à noite, 8 de Novembro de 1943

Querida Kitti

[…]

Vejo-nos aos oito, aqui no anexo, como se fôssemos um pedaço de céu azul rodeado por ameaçadoras nuvens negras. O local perfeitamente circular onde nos encontramos ainda é seguro, mas as nuvens estão a avançar sobre nós, e o anel que nos separa do perigo que se aproxima é cada vez mais estreito. Estamos rodeados por escuridão e perigo e, na nossa busca desesperada de uma saída, vamos constantemente de encontro uns aos outros. Olhamos para a guerra por baixo de nós e para a paz e beleza por cima. Entretanto fomos isolados pela massa escura de nuvens e não podemos subir nem descer. Esta ergue-se à nossa frente como uma parede impenetrável, tentando esmagar-nos, mas ainda sem o conseguir. Posso apenas gritar e implorar:

– Oh, anel, anel, abre-te e deixa-nos sair!

Tua, Anne



Diário de Anne Frank, versão portuguesa definitiva de Livros do Brasil, p. 199, Lisboa, 2004


A história da Anne Frank começa por nos apresentar uma menina vulgar – alguém que tu podias encontrar a teu lado, na sala de aulas. A Anne tinha uns olhos largos, expressivos, e cabelos escuros, encaracolados.

Em geral, sentia-se como quem está no melhor dos mundos. Mas, por vezes, tinha medo. E havia uma razão, bem forte, para tal: Adolf Hitler governava a Alemanha naquela época e tinha jurado que iria acabar com os Judeus.

Ora a Anne Frank era judia, de origem alemã.


*


A Anne Frank nasceu na Alemanha, na cidade de Francoforte – Frankfurt, em alemão – a 12 de Junho de 1929. Ainda muito pequena, já queria comunicar com todos, de modo expressivo. Assim, chorava muito. Mas, se Margot, a irmãzinha, lhe lançava um olhar, quando a Anne estava no berço, então esta ria-se muito. Em bebé, a Anne tinha cabelo escuro e orelhas espetadas como as de um duende.

A família da Anne Frank tinha sorte. Era abastada. E o pai da Anne possuía uma pequena empresa. Mas, para muita gente, na Alemanha dessa época (desde que os nazis chegaram ao poder, em Janeiro de 1933), a vida era muito difícil.

Quando a Primeira Guerra Mundial acabou, em 1918, a Alemanha foi acusada de ter sido responsável por essa terrível guerra e foi obrigada a pagar uma enorme indemnização para compensar as destruições e as mortes que causou. Foi um castigo violento e, dez anos depois de ter sido restabelecida a paz, a Alemanha encontrava-se numa situação de extrema pobreza. Muitos alemães não tinham emprego. Muita gente passava fome. Mas todos sabiam que a Alemanha, antes da guerra, era um país rico e poderoso. Era mesmo uma das nações mais importantes. Deste modo, os Alemães sentiam-se cada vez mais revoltados e infelizes. E muitos deles pensavam que alguém tinha a culpa de tudo isso: foi então que tudo começou a mudar, em especial e de modo assustador, para os Judeus. Havia um homem que se tornara muito conhecido. Chamava-se Hitler, era baixo, muito rígido e usava um pequeno bigode. Falava muito e fazia grandes promessas. Conseguia reunir multidões à sua volta, em especial pessoas sem emprego e sem esperança. Portanto, não era de admirar que elas aplaudissem, quando ele prometia tornar a Alemanha novamente rica e forte.

Hitler odiava os Judeus e não se preocupava com as enormes mentiras que dizia acerca deles. Quem é que era responsável por todos os males que afligiam a Alemanha? Hitler tinha a resposta. Acusava os Judeus: eram eles que arranjavam os melhores empregos, que tiravam o pão da boca dos trabalhadores. Isso não era justo, porque os Alemães eram especiais: eram a melhor raça do mundo!

Assim, aparecia cada vez mais gente a escutar os seus discursos e a votar pelo partido de Hitler – o Partido Nazi. A princípio, não era uma grande ameaça, era apenas uma faísca. Mas esta faísca iria transformar-se numa chama e esta chama num incêndio. E este incêndio iria consumir quase toda a Europa, antes de ser extinto.

Havia muitas maneiras de fazer sentir aos Judeus que eram indesejáveis, e de os aterrorizar. Mesmo quando eram ainda muito novos. Na escola, as crianças começavam a perceber o que era ser judeu. Alguns e algumas, dentre os colegas, faziam troça dos alunos judeus e até os perseguiam. Era muito duro para uma criança de origem judaica ser alvo da agressividade física ou verbal de colegas que deixaram de ser seus amigos. E não tardou que os alunos judeus tivessem de ficar sentados à parte, na sala de aulas.

Mas era pior no mundo dos adultos. As pessoas deixavam de falar aos vizinhos judeus. As lojas que pertenciam a judeus eram saqueadas. E qualquer judeu podia ser hostilizado e até agredido na rua por jovens ou adultos vestidos com a farda das «tropas de assalto» nazis – como lhes chamava o próprio Hitler. E se algum judeu tentava defender-se, logo era escorraçado.

No começo, os Judeus ficavam desorientados com todo este ódio. Mas, em breve, ficaram amedrontados. Muitos abandonaram a Alemanha. E o Sr. Frank estava preocupado com a família. Foi assim que conseguiu arranjar trabalho na Holanda, na cidade de Amesterdão, onde alugou uma casa, não muito cara, para toda a família.

A Anne ficou com a avó, durante a mudança para Amesterdão. Acabou por se juntar à família, no dia em que a sua irmã, Margot, fez oito anos. Que surpresa! Lá estava a pequena Anne: parecia um gnomo encarrapitado nos presentes da Margot!

A casa onde vivia a família Frank tinha um jardim. Todas as crianças do quarteirão brincavam lá, quando o tempo estava bom: faziam o pino, escondiam-se atrás dos arbustos, patinavam e saltavam à corda ao longo do passeio. Quando estavam na rua e queriam chamar os amigos, não batiam às portas nem tocavam às campainhas. Assobiavam, de um modo especial – só a Anne é que não conseguia assobiar. Por isso, tinha de cantar.

Numa manhã invernosa, levaram-na ao escritório do pai, onde ficou a conhecer uma senhora, a Miep, que trabalhava lá. A Miep ajudou a Anne a tirar o casaco branco, de peles, e deu-lhe um copo de leite. E ensinou-lhe a escrever à máquina. A Anne era exactamente o tipo de menina inteligente que a própria Miep gostava de ter como filha!

A Miep não imaginava que, um dia, iria ficar entre a vida e a morte por causa da família Frank, mas logo ficou a gostar muito da Anne.

A Anne e a Margot foram para escolas diferentes. Isso era bom, porque a Anne não se portava muito bem nas aulas. Não era nada parecida com a irmã, que era uma aluna aplicada. Gostava era de contar anedotas e de fazer caretas, de tal maneira que toda a gente, incluindo os próprios professores, desatava a rir.

Os amigos das duas irmãs adoravam regressar a casa com elas, porque a Sr.ª Frank fazia deliciosas merendas. Mas, quando se juntava à festa, o Sr. Frank tornava-se o centro da atenção. Tinha sempre uma história gira para contar ou então um jogo que acabara de inventar. Era adorado por todas as crianças.

Todavia, ninguém conseguia esquecer-se da campanha de ódio lançada por Hitler contra os Judeus. Nesta época, muitos judeus alemães já tinham fugido para Amesterdão, e o Sr. e a Sr.ª Frank escutavam, com ansiedade, as terríveis histórias que eles tinham para contar: impiedosas intimidações, campos de concentração onde aprisionavam as pessoas, sem haver qualquer justificação, e trabalho obrigatório e gratuito para os nazis.

Mas agora os poderosos exércitos de Hitler estavam em marcha.

A Grã-Bretanha e a França declararam guerra à Alemanha nazi. No entanto, as tropas alemãs continuavam a arrasar tudo. E, pouco tempo depois, os próprios Holandeses assistiam, impotentes, à entrada de soldados alemães em Amesterdão.

Uma vez mais, os Judeus eram perseguidos implacavelmente e os Holandeses depressa aprenderam que era perigoso fazer algo em sua defesa.

Todo o judeu com mais de seis anos era obrigado a usar uma estrela amarela com a palavra Jood (Judeu, em holandês). Até as crianças podiam ser impedidas de entrar em lugares públicos, como os parques, os cinemas e as piscinas.

A Anne gostava muito de ir ao cinema. Deste modo, porém, já não a deixavam entrar. E não era fácil continuar a coleccionar bilhetes-postais e recortes de jornais e revistas com as suas «estrelas» preferidas. Infelizmente, já era demasiado tarde para fugir para outro país. E tudo podia ainda piorar.

O Sr. Frank trabalhava num prédio, alto e já velho, junto de um dos canais de Amesterdão. No último andar, havia algumas assoalhadas vazias, na parte das traseiras. Pouco a pouco, com todo o cuidado, secretamente, o Sr. Frank foi mudando para lá peças de mobília e alimentos, fazendo aí um anexo que também tinha lavatório e sanita. Se os nazis descobrissem o esconderijo, a família Frank e os corajosos amigos holandeses que os ajudavam teriam um trágico fim.

Mas tudo tinha corrido bem, até aqui. Tudo estava preparado para uma emergência, que não tardou.

A Margot já tinha dezasseis anos. Num dia do Verão de 1942, recebeu uma carta com ordem de se apresentar no serviço de trabalho obrigatório – o que queria dizer que tinha de ir trabalhar para os Alemães. Provavelmente, a sua família nunca mais a veria.

Assim, todos tinham de desaparecer, depressa. Os pais disseram à Anne e à Margot que podiam meter nas malas alguns dos seus «tesouros» pessoais que não quisessem perder. Com o coração a bater, a Anne atafulhou a sacola com os seus objectos mais «preciosos»: livros da escola, cartas, um pente, rolinhos para o cabelo e, acima de tudo, o diário que lhe ofereceram no dia de anos. Comprimiu tudo com as mãos a tremerem, numa série de movimentos desajeitados.

No dia seguinte, de manhã cedo, esforçou-se por vestir alguns casacos sem mangas e umas calças, uns pares de meias, um vestido, uma saia, um colete, um impermeável, uns sapatos resistentes, um gorro e um cachecol. Era esta a única maneira de transportar roupa: qualquer judeu, de mala na mão, se tornava logo suspeito.

Saíram de casa, deixando as camas em desordem e os pratos sujos no lava-louça. E também um pedaço de papel com o sarrabisco de uma morada falsa, para enganar os vizinhos. A Anne teve de despedir-se do Moortje – o gato que ela adorava. Chorou amargamente, pois sabia lá se voltariam a encontrar-se?

A Miep estava à espera deles, no escritório do Sr. Frank. Rapidamente, mas em silêncio, seguiram-na através de um corredor estreito que conduzia a uma escada de madeira, por onde se chegava ao sótão – o anexo secreto.

Espantada, a Anne olhou à volta. O pai tinha organizado tudo, tinha pensado em tudo, mas sem nunca dizer uma palavra que fosse! Mas que grande confusão! Caixas e caixotes, pilhas e montes de coisas! A Sr.ª Frank e a Margot sentiram-se incapazes de fazer alguma coisa, perante aquele cenário: estavam simplesmente aterradas e excitadas. Portanto, a Anne e o pai é que tiveram de pôr tudo aquilo em ordem.

Desde aquela manhã, dia após dia, semana após semana, eles os dois não podiam fazer ruídos durante as horas de trabalho no prédio. Tinham de permanecer, no anexo, calados como ratos. Não podiam sequer abrir uma torneira ou puxar o autoclismo. Estavam sempre a correr o risco de serem localizados e denunciados à polícia. Esperavam, com grande ansiedade, pela chegada da Miep, logo após a saída dos empregados da empresa. Ela aparecia sempre com um ar alegre e trazia papel e livros para os ajudar a passar o tempo. E também trazia as notícias do dia, além de pequenas compras.

Ter de ficar calada todo o dia – isso é que era quase insuportável para alguém como a Anne!

O relógio da igreja vizinha dava-lhe algum alento, pois batia as horas cada quarto de hora, lembrando-lhe que ainda havia lá fora um mundo em que as crianças iam à escola, brincavam umas com as outras e não ficavam aterrorizadas com o medo de serem vistas ou ouvidas.

Juntou-se a nós um outro casal mais o respectivo filho, o Peter. Então, éramos sete pessoas a viver escondidas, num anexo tão acanhado. Não era de admirar que as pessoas se enervassem umas com as outras! (E ainda veio uma oitava pessoa – o Dr. Dussel, dentista!)

A Anne era a mais nova e quem mais sofria com a situação. Era inteligente e imaginativa, inquieta e o seu crescimento não estava a ser fácil. Achava que era culpada de tudo o que corria mal, e ninguém criticava a Margot. Amava o pai, mais do que qualquer outra pessoa, mas até ele, por vezes, a criticava – coisa que ela não conseguia suportar. Às vezes, de noite, quando já estava deitada, chegava a chorar.

Precisava desesperadamente de alguém com quem pudesse falar, de alguém que a compreendesse. Não a Margot e também não o Peter, que era preguiçoso e mimado – no princípio, não gostava nada dele. Voltou-se então para o seu diário, no qual escrevia cartas à Querida Kitty, uma rapariga que tinha conhecido, havia já muito tempo. Agora, escrevia no diário até os seus pensamentos mais íntimos, porque a verdadeira Kitty jamais iria lê-los. Assim, não precisava de inventar histórias. E aquele pequeno livro era o mais escondido de todos os segredos.

A Anne escrevia nele a vida no anexo, as discussões e os dramas. Escrevia também acerca do seu amor pela natureza – que, para ela, era apenas uma nesga de céu e o topo do castanheiro que via através da janela do sótão. Além de escrever acerca do terror, do medo que provocava pânico.

Mas os seus sentimentos em relação ao Peter mudaram com o tempo. Começou a compreendê-lo. E, à medida que passaram a gostar um do outro, a Anne ia escrevendo também sobre o amor e a esperança.

Quando o diário chegou à última página, a Miep trouxe-lhe mais papel.

Todas as noites, os habitantes do anexo desciam, com o máximo cuidado, até ao velho escritório do Sr. Frank, para ouvirem a rádio. Às vezes, a Anne aproximava-se da janela e espreitava, por entre as cortinas. Era estranho ver assim as pessoas na rua, como se ela fosse invisível e estivesse vestida com um manto de conto de fadas. As pessoas pareciam apressadas, preocupadas e mal-vestidas. Silenciosa, a Anne – ela própria vestida como se fosse um espantalho – sentia que nada podia fazer em relação a toda aquela realidade.

A Alemanha estava a perder a guerra. Após anoitecer, passavam lá no alto vagas de aviões bombardeiros britânicos e americanos que iam destruir as cidades alemãs. O céu escuro da noite vibrava com o lúgubre rugido que eles faziam. Se o anexo fosse bombardeado, todos morreriam.
Nesta época, a Anne estava – quase – apaixonada pelo Peter. Sentia-se feliz, quando se sentava a seu lado no sótão e sentia o conforto do braço dele nas suas costas. Falavam então daquilo que iriam fazer, depois da guerra; noutras ocasiões, permaneciam sentados, silenciosamente, enquanto o tempo ia passando, até chegar o amanhecer. Era um amor cheio de suavidade, mas também de fragilidade – tal como as flores do castanheiro, do outro lado da janela.

Agora que a guerra estava quase a acabar, talvez as pessoas do anexo já não fossem tão cuidadosas como anteriormente: alguém se apercebeu de que havia gente escondida naquela casa, alguém que foi a correr fazer a denúncia às autoridades alemãs que ocupavam a Holanda e pagavam uma recompensa a quem denunciasse judeus.

E foi assim que o pesadelo começou.

De repente, o estrondo de portas que rebentam, de coisas estilhaçadas, desfeitas. Ruído de botas nas escadas, homens fardados, rudes e de pistola na mão. As pessoas do anexo não tinham para onde fugir, não havia qualquer outra hipótese de esconderijo.

Depressa aquele espaço, aquela luz e aquele ar do anexo se tornaram um horror para aquelas pessoas, ali encerradas durante mais de dois anos.

Foi a 4 de Agosto de 1944: os oito clandestinos foram presos. O anexo foi assaltado e saqueado.

Quando a Miep subiu as escadas, nesse terrível entardecer, tudo era um autêntico caos. Como o diário da Anne estava espalhado pelo chão, então a Miep recolheu e juntou as páginas todas e escondeu o diário numa gaveta, na quase impossível esperança de que aquela família de judeus um dia voltasse.

Mas, de todos, o Sr. Frank foi o único que de facto voltou, no fim da guerra. Tinha sido separado da mulher e das filhas. Sabia que a mulher tinha morrido e rezava para ter boas notícias sobre a Anne e a Margot.

Infelizmente, ambas tinham morrido, de tifo, num campo de concentração alemão. Quando chegou a má notícia, o Sr. Frank foi ao escritório e sentou-se à sua secretária. Sentia-se absolutamente só. Já nada lhe restava na vida.

Mas a Miep lembrava-se do diário. Encontrou-o e entregou-o ao Sr. Frank, dizendo:

— Isto é para si! Era da sua filha Anne!

A Anne Frank era apenas uma rapariga, mas a sua vida, tão curta, tinha chegado ao fim.

No entanto, a sua história estava ainda a começar.


* *



O que aconteceu, depois da guerra, ao diário de Anne Frank?

Otto Frank foi incitado por alguns amigos a publicar o diário da filha. A primeira edição, de 1500 exemplares apenas, foi publicada, em Amesterdão e em holandês, pela editora Contact, em 1947. A primeira tradução saiu na Alemanha em 1950. Sucessivamente, o livro foi traduzido para mais de sessenta línguas, atingindo assim uma cobertura mundial – mais de 25 milhões de exemplares vendidos. Teve uma adaptação teatral em 1955 e uma primeira adaptação cinematográfica em 1959.

A casa em que Anne Frank viveu escondida, durante mais de dois anos, foi transformada em museu e como tal abriu ao público em 1960. É lá que o diário está exposto permanentemente. Esta casa-museu, conhecida pelo seu nome inglês de Anne Frank House, recebe cerca de um milhão de visitantes por ano. Pode ser visitada todos os dias – a entrada faz-se pelo nº 267 da rua Prinsengracht, em Amesterdão.




Josephine Poole/Angela Barret
Anne Frank
Lisboa, Terramar, 2005


Recordar para não esquecer - Norman H. Finkelstein

Jerusalém, Israel. É Primavera. Visitantes de todos os credos, vindos de vários países do mundo, acorreram a esta cidade santa para celebrar a Páscoa cristã e a Páscoa judaica. Um homem alto e bem parecido entra numa loja de lembranças na Rua de Jaffa. A loja está cheia de clientes. O homem aproxima-se do dono, um senhor idoso, e pergunta-lhe:
— Fala alemão?
O velho responde, num alemão impecável:
— Falo, sim. Seja bem-vindo à minha loja. Está a gostar do nosso país?
— Estou a gostar muito — responde o turista. — Procuro um daqueles candelabros judaicos, que são como que um símbolo do vosso país. Gostaria de levar um comigo, como recordação da minha visita.
— Ah, quer um menorah. — Claro que tenho. Venha ver alguns.
Depois de o jovem alemão ter escolhido um candelabro e de o ter pago, o lojista apertou-lhe a mão e desejou-lhe uma boa viagem de regresso. Quando o homem esticou o braço, viu-se neste um número púrpura tatuado, sinal de que o homem tinha sido condenado à morte por alemães, num tempo não muito remoto.
Entre 1933 e 1945 seis milhões de judeus, homens, mulheres e crianças, foram assassinados na Alemanha e noutros países europeus.
Embora a maioria tenha morrido durante a Segunda Guerra Mundial, não morreram no campo de batalha como soldados. Também não eram culpados de crime algum. Morreram pela simples razão de que eram judeus.
Como pôde isto acontecer? Para responder a esta pergunta, temos de recuar na história.
Há dois mil anos os judeus viviam na sua terra. No ano 70 da era cristã, Jerusalém, a capital do país, foi atacada e destruída e os judeus foram forçados a abandonar as suas casas e o seu país. Durante os dois mil anos que se seguiram, os judeus viveram como nómadas e estrangeiros em muitos países do mundo. E durante séculos, o mundo assistiu ao eclodir de uma nova doença: o anti-semitismo.
Anti-semitismo significa ódio pelos judeus, pela sua religião e pela sua cultura. As suas causas são o medo e a falta de compreensão. Os seus sintomas são os insultos, a discriminação e a violência. Mesmo quando a doença do anti-semitismo parece curada, os sintomas podem irromper a qualquer momento.
Nos países onde viviam, como estrangeiros que eram, os judeus funcionavam facilmente como bodes expiatórios para tudo o que corria mal. Problemas como a doença, a fome, a guerra e o desemprego eram todos imputados aos judeus.
Durante dois mil anos, os judeus rezaram pela paz e pelo direito de voltarem a viver em liberdade. A nível exterior, tiveram de suportar a solidão, o medo e o ódio. A nível interior, reconfortavam-se com o seu orgulho, as suas tradições e a sua religião.
Entre 1933 e 1945, o anti-semitismo funcionou como lei oficial na Alemanha e nos países europeus conquistados pela Alemanha. Sob o lema “Os judeus são a causa do nosso infortúnio”, Adolf Hitler e o seu Partido Nazi delinearam uma série de planos destinados a erradicar o que eles chamavam de “problema judeu”.
Primeiro vieram as humilhações e as expulsões.
Os judeus deixaram de ser considerados como cidadãos. Os seus negócios foram boicotados e não lhes era permitido exercer as suas profissões ou ofícios. As crianças judias deixaram de poder ir à escola pública e todos os judeus foram forçados a usar em público uma estrela amarela simbólica.
Os judeus viviam na Alemanha há centenas de anos e tinham-se tornado participantes activos em todos os sectores da sociedade. Fossem soldados, advogados, homens de negócios ou professores, os judeus consideravam-se, em primeiro lugar, cidadãos alemães.
Embora sempre tenha havido uma vertente anti-semita na sociedade alemã, quando os nazis conquistaram o poder e começaram a ameaçar abertamente os judeus, estes não acreditavam que algum mal pudesse acontecer-lhes. Quando foram promulgadas leis anti-semitas, alguns judeus reconheceram os sinais de perigo e fugiram da Alemanha. Mas muitos outros ficaram para trás. Quando o perigo se tornou real, era demasiado tarde para fugirem.
Depois das humilhações, multiplicaram-se as cenas de violência contra os judeus e contra os seus bens.
Em 1938, durante dois dias em Novembro, foram presos trinta mil judeus. As sinagogas, os edifícios e todas as lojas pertencentes a judeus foram destruídas. Chamou-se a este período Kristallnacht ou “Noite de Cristal”, por causa dos vidros partidos que, no dia seguinte, havia em todas as ruas da Alemanha. Aconteceu o mesmo por toda a Europa, à medida que o exército nazi ia anexando países.
Mas a discriminação e a violência eram apenas o começo; os guetos e os campos de concentração seguiram-se logo depois.
Os nazis construíram uma série de cidades-prisão chamadas campos de concentração, para onde as pessoas que fossem declaradas “inimigas do Estado” eram enviadas. Mas ser judeu apenas era suficiente para se ser enviado para Buchenwald, Auschwitz ou Treblinka.
Para lhes tornarem a vida ainda mais insuportável, os nazis obrigaram os judeus a saírem das suas casas e aldeias e a concentrarem-se em zonas de grandes cidades rodeadas de muros, arame farpado e soldados. Estas áreas vigiadas eram conhecidas como “guetos”. Aí, em condições de higiene deploráveis, os judeus tentavam manter-se vivos e conservar a sua dignidade.
Aqueles que não morreram de fome ou de doença foram condenados à morte nos campos de concentração, que se transformaram nos palcos da morte de seis milhões de judeus e de milhões de vítimas inocentes dos nazis.
Poucos escaparam.
Não importava se se era rico ou pobre, novo ou velho, crente ou ateu, ignorante ou instruído ─ se se fosse judeu, estava-se condenado à morte.
À medida que os nazis conquistavam a Europa, forças especiais do exército prendiam os judeus e levavam-nos para matas ou valas, onde os matavam a sangue-frio. Mais tarde, não satisfeitos com a rapidez das execuções, introduziram o uso do gás venenoso e aumentaram o tamanho dos campos de concentração, a fim de receberem o cada vez maior número de judeus presos por toda a Europa. Conceberam assim um método inédito na história da humanidade ─ a destruição de um povo inteiro através de um plano de extermínio extensivo e preciso.
Quando terminou a Segunda Guerra Mundial, mais de dois terços dos judeus europeus estavam mortos, e o mundo, chocado, perguntava-se como tal podia ter acontecido. Foi uma tragédia inconcebível e medonha. Foi um incêndio selvagem de uma intensidade devastadora ─ um Holocausto.
Algumas pessoas acreditam que a passagem do tempo é, em si mesma, uma forma de curar o sofrimento. A longa história do povo judeu comporta muitos episódios dolorosos. Embora o passar do tempo possa amortecer alguma da dor original, os judeus nunca permitirão que a recordação destas tragédias iniciais se apague. Da mesma forma, nunca esquecerão o Holocausto.
Em 1948, nasceu o Estado de Israel. Ao fim de dois mil anos, os judeus recuperaram a sua terra. Muitos dos que regressaram a Israel eram sobreviventes do Holocausto. Embora fossem estes que carregavam pessoalmente as cicatrizes profundas do sofrimento, muitos outros judeus espalhados pelo mundo compartilhavam a sua dor.
Às vezes, é difícil exprimir publicamente os nossos sentimentos mais íntimos. Queremos poupar aqueles que amamos ao sofrimento, à dor e à vergonha. A tragédia do Holocausto foi tão grande que algumas pessoas não quiseram falar sobre ela ou sequer lembrarem-se do que vivenciaram durante aqueles anos trágicos.
Mas outros sentiram a necessidade de manter viva a memória do Holocausto para impedir que algo de semelhante pudesse voltar a acontecer. Nos últimos dez anos, o Holocausto tem vindo a ser estudado nas escolas e nas universidades. Muitos livros e artigos de revista foram escritos, muitos filmes e documentários produzidos, para darem testemunho das experiências de muitas pessoas que viveram o Holocausto.
Em 1953, uma lei especial aprovada no Knesset, o parlamento israelita, criou uma instituição nacional chamada Yad Vashem, consagrada a estudos e pesquisas sobre o Holocausto.
A tarefa principal do Yad Vashem é documentar todos os acontecimentos do Holocausto, em especial a luta pela vida que os judeus empreenderam por toda a Europa. Os arquivos e a biblioteca do Yad Vashem contêm os arquivos da luta infrutífera travada por milhões de judeus, homens, mulheres e crianças. Fora do edifício, existe um caminho bordejado de árvores, para honrar aqueles que, não sendo judeus, arriscaram as suas vidas para salvar os seus vizinhos judeus.
Desde o fim da Segunda Guerra Mundial, têm-se realizado diversos eventos e programas para honrar os mortos. Só faltava uma data simbólica para que a importância do Holocausto fosse reconhecida e para que a memória dos milhões de pessoas que morreram fosse honrada.
Em 1959 o parlamento israelita promulgou uma lei que criou o Yom Hashoa, o Dia do Holocausto, que se celebra no dia 27 do mês de Nisan, de acordo com o calendário judaico. Esta data coincide com a revolta heróica ocorrida no Gueto de Varsóvia em 1943, que opôs judeus a nazis. Geralmente, tem lugar em Abril.
A comunidade judaica internacional seguiu o exemplo de Israel e, agora, as comunidades judaicas espalhadas pelo mundo celebram essa data para honrar a memória de seis milhões de judeus mortos.
A forma de a comemorar varia de comunidade para comunidade. Em Israel faz-se uma celebração nacional no enorme pátio do Yad Vashem. Às oito horas da manhã, as sirenes de alarme aéreo tocam por todo o país. Todos interrompem as suas actividades para observarem dois minutos de silêncio em memória dos que morreram.
Noutros países, incluindo os Estados Unidos, o dia é assinalado com acontecimentos especiais e com serviços religiosos. Estes podem ser ao ar livre, se o público for numeroso, ou em pequenas sinagogas. Sobreviventes do Holocausto participam com frequência como convidados de honra.
À medida que os anos passam, aqueles que conseguiram sobreviver à brutalidade nazi vão envelhecendo e morrendo. Em breve, não haverá mais ninguém vivo que tenha experimentado pessoalmente o Holocausto. Por isso se torna cada vez mais importante lembrar não só aqueles anos terríveis e a forma como começaram, mas também como a crueldade, o ódio e a discriminação conduziram à violência, à morte e à destruição.
Todos os anos, no Yom Hashoa, judeus de todo o mundo pararão para se lembrarem… de recordar para não esquecer.



Norman H. Finkelstein
Remember Not To Forget
Philadelphia, The Jewish Publication Society, 2004
Tradução e adaptação