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terça-feira

O pato e a coruja - Hanna Johansen


Era uma vez uma bétula que se erguia no meio de um prado.
Mesmo à beirinha do prado cintilava um charco onde um pato nadava em círculo, mergulhando o bico de vez em quando.
O pato subiu para terra, sacudiu-se e olhou para o cimo da árvore.
Após ter olhado algum tempo, gritou:
— Eh, tu, aí em cima!
— Uhm — resmungou uma voz lá em cima, na bétula.
— És uma coruja a sério? — pergunta o pato.
— Uhm.
— Ora chega cá abaixo — gritou o pato.
— Uhm — resmungou a coruja a bocejar. E esvoaçou para o chão.
— Oh! — disse o pato. — Nunca pensei que uma coruja tivesse asas tão bonitas.
— Uhm — tornou a coruja, contente por o pato achar bonitas as suas asas.
— Porque é que estás sempre a dizer Uhm? Não sabes dizer mais nada?
— Claro que sei — disse a coruja — mas não me apetece. Estava a dormir.
— Oh, meu Deus! — exclamou o pato. — Como é que tu consegues dormir em pleno dia? Ninguém consegue!
— Não percebo o que queres dizer — respondeu a coruja. — Durmo sempre de dia.
— Isso é esquisito — disse o pato. — De noite é que se dorme.
— Dormir de noite, dizes tu? De forma alguma! A noite é demasiado excitante para ser gasta a dormir. É quando está escuro, é quando se arregalam bem os olhos, e se espera que passe alguma coisa que se possa comer.
— Não estás boa da cabeça! — disse o pato. — A comida não passa. Tem de se nadar, mergulhar e procurar até encontrar.
— Que forma mais disparatada de comer! — murmurou a coruja.
O pato zangou-se.
— Não é nada disparatada, é o normal! — disse, furioso.
— Não estás bom da cabeça! — respondeu a coruja. — Normal é pairar às escuras no bosque sem fazer barulho. E, então, quando algum animalzinho se mexer nas folhas secas, caímos-lhe em cima rapidamente e comemo-lo.
— Que horror! — gritou o pato. — Só de pensar nisso fico logo enjoado.
— E tu, o que é que comes? — berrou a coruja, que também estava zangada. — Comes alpista para patos. Que nojo! Até fico enjoada! E como é que se consegue comer durante o dia!
O pato até assobiou de raiva.
— Fica a saber que é de dia que se come! Todos fazem isso!
— Ora, ninguém faz isso! — gritou a coruja. — Quando fica escuro é que se tem fome a sério.
— Isso é uma estupidez! — grasnou o pato — Estupidez, estupidez, estupidez!!
E ali estavam os dois no meio do prado a discutir.
A coruja abriu e fechou o bico um par de vezes como se estivesse a pensar, e depois sacudiu-se.
— Ó pato — perguntou a coruja — afinal porque é estamos a discutir? Ainda te lembras porque é que começámos?
— Claro — responde o pato. — Porque tu fazes tudo mal. É por isso…
— Não é verdade — disse a coruja. — Eu não faço nada errado. Faço é de maneira diferente, e, assim, também dá. Faço como fazem todas as corujas.
— E eu faço como fazem todos os patos. Tens razão. Não é preciso discutir por causa disso.
“Ah”, pensava a coruja para si, “por sinal, até gosto do pato. Tem uma maneira esquisita de ver as coisas, mas será que, apesar disso, não podemos ser amigos?…”
— Mas que pés esquisitos tu tens! — observou a coruja.
— Não são esquisitos — responde o pato — são práticos. São para nadar.
— Para nadar, talvez sejam bons — opinou a coruja. — Quando se gosta de nadar. E, vendo melhor, até os acho bonitos.
— A sério? — sussurrou o pato.
— Anda comigo — disse a coruja de seguida— já me doem as pernas de estar aqui em baixo. Vamos pôr-nos confortáveis, em cima da bétula.
— O quê? — perguntou o pato.
— Vamos voar lá para cima — responde a coruja. — Em cima das árvores está-se melhor.
O pato nunca na vida tinha pousado numa árvore, mas se isso dava alegria à coruja, quis experimentar.
— Como queiras — respondeu.
E voaram os dois lá para cima; instalaram-se num ramo de onde podiam ver tudo em redor.
— Aqui tem-se melhores vistas — disse a coruja satisfeita.
— Bem… — murmurou o pato.
Olhava para o prado e para o charco onde o sol reluzia. Não gostou mesmo nada de pousar tão alto em cima de uma árvore. Esteve o tempo todo com medo de cair.
— Isto aqui não é bom — disse ele para a coruja. — Vamos antes nadar para o lago.
— Deves ter ficado maluco, de certeza! — gritou a coruja. — Para a água? Mas tu queres matar-me?
— Não te exaltes! — disse o pato. — Se queres, sentamo-nos então outra vez na erva. Vocês, corujas, são demasiado estúpidas para nadarem.
— E vocês, patos, são tão estúpidos que nem sabem pousar numa árvore!
— Oh, meu Deus — disse o pato. — Lá estamos nós a discutir outra vez.
— É porque tu começas sempre — retorquiu a coruja.
— Isso não é verdade — berrou o pato, furioso. — Não fui eu, tu é que começaste!
— Não, foste tu! — gritou a coruja.
— Ei, porque é que estás a gritar assim? — disse o pato.
— Eu não estou a gritar, tu é que estás! — disse a coruja.
— Não, tu é que estás!
— Oh, meu Deus! — disse a coruja. — Basta! Porque é que só sabemos discutir um com o outro?
— Porque tu fazes tudo errado.
— Eu não! — disse a coruja. — Tu é que fazes!
— Não, tu é que fazes! — disse o pato.
— Mas isso não tem importância. — disse a coruja. — Não é preciso discutir por uma coisa dessas.
O pato pensou melhor e disse:
— Também acho, não é preciso discutir por isso. Mas, olha, quem é que começa sempre?
— Eu acho que és tu.
— Não deves estar boa da cabeça — disse o pato. — Tu é que começas sempre!
— Uhm — disse a coruja — às vezes começo eu e tu imitas-me em seguida.
— Eu? — gritou o pato e bateu as asas com força.
— Não faças tanto vento — disse a coruja. — Queres que eu caia daqui a baixo?
— Pronto, está bem — diz o pato. — Mas se queres que sejamos
amigos, tens de acabar com a discussão.
— Pára tu! — disse a coruja.
Então o pato começou a rir e disse:
— Basta! Além disso, estou a ficar com fome. E a fome deixa-me impaciente. Vou mas é procurar alguma coisa para comer.
— E eu estou cansada. E sempre que fico cansada, fico zangada. Agora vou mas é dormir.
O pato voou para baixo. Aterrou no lago, voltou-se, olhou para cima e gritou:
— Então adeus, coruja. Dorme bem.
— Uhm — respondeu a coruja, sonolenta. — Dorme tu também, pato.
Já tinha os olhos quase a fecharem-se.
— Ah, é verdade — disse de seguida — tu não dormes. Só dormes quando fizer escuro. Bom dia para ti, pato. E até à próxima!


Hanna Johansen
Die Ente und die Eule
Zürich, Nagel & Kimche, 1988
Adaptado

segunda-feira

Vermelhinho, Amarelinho, Pretinha e Branquinha - Brigitte Minne



Numa aldeia, existe um largo. Nesse largo há quatro casas. As mães que vivem no largo acham que é bom que os filhos brinquem ao ar livre.
— Vão brincar lá para fora — dizem. É por isso que Vermelhinho, Amarelinho, Pretinha e Branquinha brincam muitas vezes juntos.
Lá perto existe um parque com um lago para onde as crianças costumam ir. E não muito longe do lago, há uma árvore. Vermelhinho quer sempre ocupar o ramo mais alto para ver todo o lago. — Estou a ver uma mãe pata com os seus filhotes — exclama. Ou ainda: — Que pássaro magnífico! O bico parece uma colher!
Amarelinho, Pretinha e Branquinha gostariam de ver os patinhos bebés e o pássaro de bico em forma de colher, mas não têm autorização. São obrigados a ficar no seu ramo. Como se a árvore e o lago pertencessem só a Vermelhinho.
Naquela árvore, Vermelhinho, Amarelinho, Pretinha e Branquinha construíram uma cabana. Pintada de vermelho, está claro. É que Vermelhinho não quis ouvir falar de outra cor. De forma nenhuma!
De vez em quando, é preciso fazer limpeza à cabana. — Tu, tu limpas o chão! — grita Vermelhinho. E Branquinha lá se põe a esfregar. Amarelinho, esse, recebe ordens para lavar muito bem a porta com sabão. Enquanto Amarelinho, Branquinha e Pretinha andam numa roda-viva, Vermelhinho não faz nada.
É sempre a mesma coisa! Mas Amarelinho, Branquinha e Pretinha nunca se atrevem a resmungar.
Quando Pretinha joga a bola, Vermelhinho também quer jogar.
Quando Branquinha se senta na bola, Vermelhinho também quer lá sentar-se.
Quando Amarelinho quer brincar com o carrinho, Vermelhinho diz-lhe: — Dói-me a cabeça. Não faças barulho!
Não passa de uma mentira, mas ninguém se atreve a fazer frente a Vermelhinho.
Um dia, Vermelhinho grita: — A árvore é minha e todos os brinquedos também.
Pretinha vira-se para Amarelinho que se volta para Branquinha. — Não é justo — murmura escandalizada. — Não tens o direito de fazer isso!
— Sim, tenho, sua palerma de tranças! — grita Vermelhinho.
Pretinha não é idiota e sente-se muito orgulhosa das suas tranças. Sente uma raiva terrível subir por ela acima. — E tu és um tirano! — grita. — Estou farta da tua árvore, da tua cabana e dos teus brinquedos!
E vai-se embora.
“O que Pretinha teve a coragem de fazer, eu também tenho!”, pensou Branquinha.
— És um chato! — grita ela para Vermelhinho.
Depois, é a vez de Amarelinho se revoltar: — Palerma!
E os dois apoderam-se do barco vermelho e correm para junto de Pretinha, soltando gritos de alegria.
Vermelhinho fica só. — Não preciso de vocês! — ouvem-no resmungar.
Branquinha, Amarelinho e Pretinha depressa pintam de novo o barco. Amarelinho pinta o leme de amarelo, a cor dos chupas de limão e da flor do dente-de-leão. Pretinha pinta o casco de preto. — Negro como uma linda noite estrelada — acrescenta, orgulhosa. Branquinha pinta a cabine de branco. — É como a neve— exclama. O barco está magnífico.
Pretinha, Amarelinho e Branquinha estão doidos de alegria.
— Quem é o capitão? — pergunta Amarelinho. — Eu! — grita Pretinha que salta para dentro do barco e se agarra ao leme. Branquinha morde os lábios. — Eu também quero ser capitã — murmura com um bocadinho de inveja. — Tu não és a única — acrescenta Amarelinho.
Se Vermelhinho lá estivesse, as coisas seriam mais simples. — E se fôssemos à vez capitães? — propõe Pretinha. — Boa ideia — aprovam os outros dois.
Com Pretinha ao leme, o barco nem sequer avança um palmo. É com um certo alívio que entrega a direcção a Branquinha. Esta bem se agarrou ao leme, mas nada mudou. O barco só deslizou um bocadinho. Chega a vez de Amarelinho. De tanto baloiçar ficou enjoado e já não tem vontade de ser capitão!
Vermelhinho continua a brincar aos chefes. Como está sozinho, é obrigado a dar ordens a si mesmo:
— Limpa o chão! — diz muito alto. E limpa o chão até não poder mais.
— Não te esqueças de limpar os cantos! — grita.
Ao esfregar, tropeça na esfregona.
— Vê onde pões os pés, seu palerma! — Vermelhinho já não pode mais. Acaba por rebentar: — Palerma! Nem jeito tens para chefe!
De tão furioso que está, até dá bofetadas a si mesmo! Depois, desata a chorar e corre para a árvore. Vê Pretinha, Branquinha e Amarelinho lá longe, no barco.
Vermelhinho compreende finalmente o que custa ser chefe. Os chefes aborrecem-
-no. Pretinha, Branquinha e Amarelinho tiveram razão em ir embora. Vermelhinho já não tem amigos. Chora em silêncio. — Vou construir uma vela — pensa.
— Fiz uma vela para vocês — grita Vermelhinho.
Pretinha vira-se para Amarelinho que se volta para Branquinha. — Bem precisamos dela! — suspira Branquinha. Os três ajudam Vermelhinho a subir para dentro do barco. Vermelhinho mantém-se calmo, mas em breve o desejo de mandar volta a fazer-lhe comichão. — Posso ser o capitão? — pergunta. — Podes sê-lo, até regressarmos à nossa árvore — diz Amarelinho. Vermelhinho pega no leme e grita: — Icem a vela e limpem a ponte!
Algum tempo depois, Pretinha, Amarelinho e Branquinha largam escovas e vassouras. — O que se passa? — pergunta Vermelhinho muito admirado.
— Estamos quase a chegar — lembram-lhe os três amigos. Então, Vermelhinho abandona o leme…
A partir daquele dia, cada um dirige o barco à vez. Se vissem a velocidade a que ele vai!
Até se esquecem de voltar para casa!


Brigitte Minne et Carll Cneut
RougeJauneNoireBlanche
Paris, Ed. Pastel, l’école des loisirs, 2002
Tradução e adaptação

quarta-feira

A lei das leis - Gougaud

Nesse tempo reinava no país um velho rei. Era um pai amoroso, justo, um homem recto. Mas era cego. Um dia, mandou erigir à entrada do palácio um grande pilar decorado com figuras de antepassados e pequenos poemas. No topo, quis que colocassem um sino cuja corda penderia sobre a praça pública. Quando tal foi feito, mandou publicar um aviso: «Se alguém de entre nós sofrer alguma injustiça, que venha aqui tocar. O meu juiz virá cá fora e ditará o direito segundo a lei das leis.»
Aconteceu que uma serpente fez o seu ninho na erva, à beira de uma muralha. Num fim de tarde, quando se aquecia na borda do rio com as crias, um soldado cansado fez rolar uma pedra sobre a sua casa de palha e sentou-se para beber. Quando a serpente voltou, já não tinha abrigo. Esperou pela noite, foi até ao lugar onde a corda pendia, enrolou-se à volta dela e sacudiu-a tanto que o juiz, meio surdo, saiu cá para fora, na noite clara. Procurou aqui e ali quem pudesse ter tocado; apenas viu um cão a vaguear na rua deserta. Encolheu os ombros e deu meia-volta. Quando ia a entrar, a serpente endireitou-se de repente diante das suas pernas, ergueu a cabeça chata e disse com voz humana:
— Há pouco, um soldado destruiu o meu ninho. Segundo a lei das leis, isto será justo?
— Tremo com as tuas palavras — respondeu-lhe o juiz.
— Também eu, fica a saber. Será que por isso devemos perder a confiança no direito?
— Claro que não — disse o juiz. O diabo tem a sua casa, Deus e os homens também. Segundo a lei das leis, a tua casa vale tanto como a minha. Amanhã, levarei o teu pedido ao meu rei.
Na manhã seguinte, quando o juiz falou na câmara real, o rei cego colocou, para honrar o céu, umas lentes azuis, meditou um momento e disse:
— Que esse soldado dê à serpente o seu ninho. E que lá não falte o mais pequeno tufo de erva. Exijo expressamente que seja como era antes de ele o ter destruído.
Tal foi feito nesse mesmo dia.
O rei, nessa noite, deitou-se cedo. Ora, enquanto suspirava na sua almofada branca, a serpente introduziu-se no quarto pela janela aberta. Tinha na boca uma pedra brilhante. Um escudeiro apercebeu-se de que ela deslizava pelo solo. Convocou a guarda. Postaram-se à volta da cama.
— Deixem-na – disse a todos o Justo, sonolento. — Esse humilde animal conhece a lei das leis.
A serpente prontamente se ergueu sobre o leito. Subiu pelo edredão, chegou à face do rei, depôs na sua fronte a bela pedra cintilante e partiu apressadamente por entre os pés da gente.
O rei abriu os olhos. Já não era cego. Apagou o candeeiro e adormeceu contente.


Henri Gougaud
La Bible du Hibou
Paris, Ed. du Seuil, 1993

terça-feira

A aluna estrangeira - Evelyne Stein-Fischer


Chama-se Salima, a nova da turma.
Não é uma menina calada e tímida, como Gabi. Salima faz-se notada em todo o lado.
Fala mais alto do que os outros. Veste roupas mais garridas do que a maioria. E não deixa que lhe preguem partidas.
Por isso, as crianças tentam constantemente arreliá-la. Diverte-as enfurecerem Salima, ouvi-la gritar, vê-la debater-se à volta delas.
Troçam dos seus cabelos encarapinhados, das narinas grandes e da pele escura.
Salima é negra.
Fala bem alemão porque veio para a Europa com os pais quando ainda era bebé.
Gabi acha graça a tudo na nova menina.
Gosta dos olhos grandes, da voz gutural, da pele cor de chocolate.
Quando Salima ri, ri-se com o corpo todo.
Quando está furiosa, parece um vulcão, onde tudo ferve.
Gabi emprestou logo o seu caderno à nova aluna, para ela copiar as lições.
Com ela, Salima nunca é atrevida ou rude. Quando a deixam em paz, ela é igual aos outros.
Mal a menina estrangeira chegou à turma, há um mês, a escaramuça começou imediatamente:
— Uma preta! — disse Bettina bastante alto. Está sentada ao lado de Gabi e é a sua melhor amiga.
— É negra! — disse Georg arregalando os olhos.
A cozinheira negra já cá está… já, já, já…(1) — trauteou Inga baixinho, da penúltima carteira.
Infelizmente, a pior é Bettina. Tem sempre alguma coisa a apontar à nova menina. A culpada disso é a mãe. Até a proibiu de voltar da escola para casa com “a tal preta”. A mãe nem conhece a menina estrangeira mas, mesmo assim, não gosta dela.
— Não é de cá — diz. — Vê-se à distância de dez metros que é diferente de nós.
Bettina também acha.
Gabi não percebe. “Isso não é motivo para não se gostar de alguém”, pensa. “Até é feio excluir-se uma pessoa, só porque ela tem um aspecto diferente do nosso.”
Gabi sabe o que é não pertencer ao grupo, porque também já foi nova na turma e ainda não há muito tempo. A nova, com grandes dentes da frente e um nariz demasiado comprido. “Peixe Espada”, foi como lhe chamaram na altura. Precisou de um ano inteirinho até conseguir aguentar, sem chorar, a troça dos outros.
Mesmo assim, foi-lhe mais fácil do que o é agora para Salima. Porque Gabi é branca. Gradualmente, foi conseguindo ultrapassar o medo em relação aos outros.
Mas Salima nunca conseguiria esconder a sua pele escura.
Gabi gostava de dizer aos outros da classe que a nova só é atrevida porque tem de estar sempre a defender-se. Porque não a deixam em paz de uma vez por todas?
Só que Gabi tem medo de se pôr claramente do lado da menina estrangeira. Bem lhe quer mostrar que gosta dela, mas os outros não podem notar.
Não gostaria de vir a ter a maioria dos colegas contra ela, como antes, quando chegou como nova à turma.
Mesmo assim…
“Tenho de arranjar maneira de mostrar à Salima que estou do lado dela”, pensa Gabi. “E que gosto dela.”
Às vezes, no fim das aulas, depois dos outros já terem saído, Gabi atrasa-se de propósito para ficar mais um pouco com Salima, que demora sempre muito tempo a arrumar as coisas e a metê-las na pasta.
De repente, cai-lhe o estojo das mãos, e todos os lápis, os lápis de cor, duas borrachas e um pedaço de chocolate já mordido rolam para debaixo da carteira.
— Vá, eu ajudo-te — oferece-se Gabi.
Deitadas de barriga para baixo, tentam “pescar” o material escolar e o chocolate. Assim, ao tentarem chegar as duas ao mesmo lápis, chocam com os narizes uma na outra debaixo da carteira.
— Ai! Ui! — exclamam em coro, esfregando os narizes amachucados. E desatam a rir.
Salima diz de repente:
— Tu és simpática, sabes, mas os outros… —E faz um gesto de desprezo com a mão, que mais parece uma tentativa de nadar, porque Salima ainda está deitada. Gabi levanta-se e sacode o pó das calças.
Salima gatinha para fora da carteira mas fica sentada no chão.
— Sabes — diz, apontando para a sala vazia — se não lhes fizer frente desde o início, acabam comigo. Aprendi isto quando ainda era pequena e nos mudámos para cá. Algumas pessoas comportam-se de forma muito estúpida só porque tenho a pele escura. Acham que tenho de me sujeitar a tudo! — Salima levanta-se e mantém-se direita.
— Mas de mim não conseguem nada. De mim, não!
Por momentos, parece que vai chorar, mas não.
Gabi admira a menina estrangeira por ter a coragem de não se submeter. Ela própria tinha-se sempre escondido na sua casinha de caracol.
Encolhida, amedrontada, magoada nos seus sentimentos.
Salima, no entanto, é um pouco como um ouriço-cacheiro. Mal há sinal de perigo, fica logo eriçada. Ela até é bem-disposta e gosta de rir. “Só temos de afastar os picos um pouco para o lado e não a provocar,” pensa Gabi. “E também ser amáveis com ela. Porque é que a maioria não percebe isso?”
A maior parte dos meninos não se deu sequer ao trabalho de tentar compreender a nova colega. Pensam que podem ofendê-la. Ela grita, mas ri logo a seguir.
Podem pisá-la. Ela riposta, mas, quando vai para casa, já vai a cantar.
Aguenta muita coisa. Podem fazer-lhe sentir que é diferente. É mesmo bom que haja cá uma aluna como ela. Ao menos, há mais animação.
É sempre Bettina quem desafia a menina negra e quem provoca os outros. Como neste momento.
Bettina faz pontaria com a borracha às costas de Salima. A borracha faz ricochete e salta de novo para a mesa. A brincadeira repete-se quatro, cinco vezes.
Alguns riem.
— Palerma! — grita Salima, que já começa a ficar farta.
— Acalma-te — diz Paul, com uma voz zangada e dura, ele que nem tem nada a ver com o assunto.
— Deixa-a em paz! — mete-se Alexa, que está sentada ao lado de Salima.
Alexa tomou o partido de Salima. Pode dar-se ao luxo de dizer abertamente o que pensa.
“Como ela é querida por todos, pode admitir que gosta da nova”, pensa Gabi.
Com Gabi é mais do que “gostar”. Ela sente com Salima. Sabe, pelo que passou, o que Salima tem de aguentar. Tem pena dela. Lá por Salima, para quem vê de fora, reagir melhor do que ela reagiu, não quer dizer que não se sinta igualmente ferida.
“Tenho mesmo de fazer alguma coisa”, pensa Gabi. “Tenho de lhe provar que sou sua amiga.”
“A dois”, pensa Gabi, “dói tudo um pouquinho menos. A dois, pode-se partilhar a dor. Mas o que posso fazer sem pôr logo os outros contra mim?”
Gabi decide deitar-se na varanda todas as tardes depois da escola e “torrar” ao sol. Uma hora inteirinha até ficar cor de chocolate. Assim, Salima deixaria de ser a única com a pele escura. No Verão, a mãe está sempre a dizer a Gabi:
— Pareces uma negra!
Assim, a partir de hoje, Gabi tornar-se-ia negra.
— Que estupidez — diz em voz alta, afastando aquela ideia. — Uma pessoa não se torna negra só por se deitar umas horas ao sol. Não se fica, só por isso, com nariz largo, nem com lábios grossos, nem com carapinha. É preciso muito mais. E, principalmente, ter uma mãe ou um pai que sejam negros.
Gabi continua a magicar. Tem os cotovelos fincados na mesa e a cara apoiada nas mãos. Nem repara no que está a passar-se à sua volta. Tem o olhar fixo no padrão verde das costas do casaco de Salima.
De repente, um bico de lápis desliza para a frente, na diagonal. Pertence ao lápis que Bettina segura na mão.
— O que estás outra vez a fazer? — Gabi desvia Bettina com um toque.
— Deixa-me!
Bettina segura no lápis afiado de forma a apontar a mina à nuca de Salima. Estica o braço até quase lhe tocar.
— Será que ela sente? — segreda Bettina.
— Pára com isso!
Mas Bettina há muito que quer saber como é uma carapinha. Se é rija ou se é mole.
Bettina estica o braço um pouco mais para a frente. Alguns observam a brincadeira. De repente, Salima começa a balançar-se na cadeira. Dá lanço na beira da mesa, inclina-se com força para trás e acerta com a nuca no bico do lápis.
Um grito. Breve e cortante.
Com a mão direita na nuca, Salima dá umas voltas sobre si mesma. Com a esquerda, dá uma bofetada a Bettina.
— Estás maluca!! — grita Bettina — Não te fiz nada!
— Picaste-me!
— Não picou nada! — confirma Brigitte, que nem tinha prestado atenção ao que se passara.
Que pena a professora ainda não estar na sala. Podia ter acalmado a discussão.
— Vais pagar-me pela bofetada! — diz Bettina zangada.
Gabi estende o braço. Quer afagar a menina negra.
Mas Salima levantou-se de um salto e corre para a porta, a mão ainda na cabeça. Sobre a mão escorre um pouco de sangue. Antes de sair, Salima pára repentinamente. Devagar, muito devagarinho, vira-se para a turma, que a olha com curiosidade.
A menina estrangeira chora. Em silêncio. Só o subir e descer do corpo e o fungar baixinho revelam a intensidade do choro. Os grandes olhos parecem ainda maiores sob as lágrimas.
Fica por uns momentos parada, sem se mexer. Depois, fecha a porta com estrondo.
Silêncio aflitivo.
Salima chora. Já não ri. Não canta. Chora, como qualquer outra criança também teria chorado.
Gabi está como que pregada à carteira. Muda com o susto. As pernas estão pesadas como se tivesse chumbo nos pés. Porque não se levanta? Porque não corre atrás de Salima? Ela própria não percebe. Era precisamente agora que Salima mais precisava dela.
“Vocês são maus!”, quer gritar. Mas não lhe sai nada.
— Vocês são maus! — grita Michael em vez dela. Está sentado na primeira fila. — Ela não vos fez nada. Se fosse comigo, tinhas apanhado logo duas bofetadas, Bettina.
“Agora que Salima não está cá e não pode ouvir, é que ele diz isto”, pensa Gabi.
E ela própria, que tanto queria ter corrido atrás dela, que queria tê-la agarrado, protegido… não conseguiu!!
De repente começam todos a falar ao mesmo tempo.
— Ela não tem culpa de ser preta — diz Alexa novamente, que foi a primeira a defender a menina estrangeira. — Imaginem-se o único branco numa turma de pretos. Gostavam que vos acontecesse o mesmo?
— Salima pode não ter culpa de ser preta — diz Inga — mas no meu pão com fiambre é que nunca a deixaria trincar.
— Ugh! — diz Helga, arrepiando-se.
— Ugh! — diz Paul, arrepiando-se também.
— A ti é que ninguém te deixava trincá-lo, com tantas borbulhas — grita Martin.
— Saliva é saliva — diz Paul.
— Exactamente! E com Salima não é a mesma coisa? — Alex bate com o punho na mesa.
Gabi assusta-se. As vozes ressoam-lhe na cabeça. A pancada com o punho arrancou-a da confusão das palavras.
Há pouco, quando Salima estava a chorar à porta, Gabi tinha tido uma oportunidade. Podia ter mostrado que achava horrível a forma como os outros se comportavam. Especialmente Bettina. Em vez disso, tentou apenas acariciar a nova menina. Medrosamente, do seu lugar, de onde não precisava de se levantar nem de sentir a turma atrás das costas. Mas novamente a mesma sensação… Não.
O medo de tornar a ser ridicularizada é maior do que a ligação a Salima.
Mesmo assim, Gabi diz, muito baixinho:
— A Salima é querida. Porque é que és tão antipática com ela?
Bettina ouviu.
— Muito querida — diz, venenosa. — Mas cheira mal!
— Que estupidez! — grita Michael, que só ouviu as últimas palavras. — Já alguma vez estiveste sentada ao lado do Markus? Ele cheira tão mal que até as minhas meias fogem dele!
Markus, hoje, não veio às aulas. Por isso, a ofensa não o magoa. Se estivesse presente, ninguém teria dito aquilo.
Mas à menina estrangeira diz-se-lhe tudo na cara.
Bettina cala-se. A cara ainda está um pouco vermelha da bofetada. De repente, começa outra vez a barafustar:
— Anda vestida como um papagaio. Só lhe faltam as penas no rabo.
Risos abafados.
— Cala a boca de uma vez por todas! — diz Gabi, agora em voz alta.
A frase desapareceu na risota geral. Cada um grita à turma a sua opinião.
— Acabou! Acabou! Já chega! — Gabi grita agora mais alto do que os outros. Grita e tapa os ouvidos ao mesmo tempo. Ninguém repara que a porta da sala se abre.
Quando Salima se dirige em silêncio para o seu lugar, todos se calam de repente. Não olha para ninguém, tem os olhos pregados no chão e um grande penso na nuca.
Gabi levanta-se antes de Salima se sentar. É automático, o chumbo dos pés desapareceu. Gabi nem precisa de pensar. Vai direita a Salima e, em frente de toda a turma, põe-lhe carinhosamente o braço à volta dos ombros. Não custou nada.
— Lamentamos todos — diz Gabi em voz alta, de forma a que todos ouçam, especialmente Bettina.
Salima não diz nada.
Agora levantam-se também Alexa e Michael. Inga e Martina. Até Paul se chega à frente. O pequeno grupo cresce à volta de Bettina.
— Não fiz de propósito! — diz esta baixinho.
— Dói muito? — pergunta Gabi.
Salima levanta finalmente os olhos e olha para Gabi. Põe o braço à sua volta.
— Agora já não — diz.



(1) Canção infantil austríaca (N.T.)

Evelyne Stein-Fischer
13 Geschichten vom Liebhaben
München, DTV Junior, 1990
Tradução e adaptação