Mostrando postagens com marcador Ambição. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Ambição. Mostrar todas as postagens

sábado

Quem semeia ventos, colhe… incêndios - L. Tolstoi


Numa aldeia russa, vivia um camponês chamado Ivan. Estava bem na vida. Era o melhor trabalhador da aldeia e tinha três filhos saudáveis, que também eram bons trabalhadores. O seu velho pai era o único na família que não podia trabalhar, mas cuidavam dele muito bem. Tinham tudo o que precisavam para comer e vestir, e teriam sido felizes se não fosse o vizinho de Ivan, Gavrilo, o coxo. Ivan e Gavrilo detestavam-se.
Tinham sido bons amigos até ao dia em que algo acontecera – algo de tão ridículo e insignificante! Uma galinha que pertencia à filha de Ivan pôs um ovo no pátio de Gavrilo. Todos os dias, a galinha punha um ovo no galinheiro. Quando a filha a ouvia cacarejar, ia buscar o ovo. Mas, daquela vez, os rapazes tinham assustado a galinha e esta tinha saltado a vedação. A filha de Ivan estava ocupada nesse dia e só foi buscar o ovo à noite. Não conseguiu encontrá-lo e os rapazes disseram-lhe onde o procurar. Foi então a casa do vizinho e encontrou a mãe de Gavrilo.
― O que queres, rapariga?
― Avó, a minha galinha esteve hoje no seu pátio. Não pôs lá nenhum ovo?
A velha pensou que a filha de Ivan estava a acusá-la de ter pegado no ovo e respondeu-lhe torto.
― Não lhe pus a vista em cima. Nós temos as nossas galinhas e já há muito tempo que elas andam a pôr. Apanhamos os nossos ovos e não precisamos dos ovos dos outros. Ó rapariga, não precisamos de ir para os pátios dos outros apanhar ovos!
A filha de Ivan não gostou nada do que ouviu. Respondeu desabrida-mente, e a mãe de Gavrilo foi ainda mais desabrida. A mulher de Ivan passou por ali (tinha ido buscar água) e, nesse momento, a mulher de Gavrilo saiu de casa. Começaram todas a falar ao mesmo tempo, a ralhar e a insultar-se. Depois vieram os maridos, que tomaram o partido das respectivas mulheres e começaram à pancada. E Ivan, que era mais forte, feriu Gavrilo, o coxo.
Gavrilo levou o caso ao tribunal da aldeia, declarando que queria que Ivan fosse castigado. Quando o pai de Ivan ouviu isto, falou com firmeza.
― Rapazes, vocês estão a fazer uma asneira. Pensem bem! Tudo começou por causa de um ovo. Um ovo não vale muito. Há que chegue para todos. Foram ditas muitas palavras incorrectas; agora mostrem como se dizem palavras simpáticas. Façam as pazes e acabem com tudo isto. Se persistirem no erro, será cada vez pior.
Mas Ivan e a família não o escutaram. Pensavam que o velho estava a dizer disparates. Em vez de fazerem as pazes, Ivan foi a tribunal e tentou que Gavrilo fosse punido por lhe ter rasgado a camisa enquanto discutiam por causa do ovo.
Depois disso, os vizinhos discutiam todos os dias e sempre por motivos mesquinhos. Foram a tribunal tantas vezes que o juiz já estava cansado de os ver. E assim continuaram durante seis anos.
Por fim, a filha de Ivan acusou publicamente Gavrilo de roubar cavalos, e Gavrilo bateu-lhe de tal forma que a deixou de cama durante uma semana. Desta vez, o caso era mais sério e, quando Ivan levou o caso a tribunal, o juiz deu ordem para que Gavrilo fosse chicoteado. Era uma forma muito dolorosa de punir as pessoas culpadas. Quando Gavrilo ouviu o que iria acontecer-lhe, ficou tão branco e protestou tão veementemente que até o juiz teve medo e pediu a Ivan que lhe perdoasse e desistisse do caso. Mas Ivan não cedeu e foi para casa dizer ao pai que Gavrilo iria finalmente ser castigado.
― Ivan ― disse o velho ― não estás a proceder correctamente. Vês a maldade dele mas esqueces-te da tua. Jesus ensinou-nos algo de diferente. Se te insultam, mantém-te calado. Se te baterem, oferece a outra face. Faz as pazes com ele. Não é tarde demais para evitares que ele seja castigado, e o convidares para jantar, a ele e à família.
Como Ivan não se mexesse, o pai continuou:
― Não te demores, Ivan. A tua raiva é como o fogo. Apaga-a no início porque, se ela começar a alastrar, não poderás controlá-la.
Ivan começava a entender o que o pai queria dizer. Preparava-se para ir fazer as pazes quando as mulheres chegaram e disseram que Gavrilo estava tão zangado que ameaçara pegar fogo à casa. Então, Ivan ficou outra vez furioso, como se ele próprio estivesse a arder, e não desistiu do castigo de Gavrilo.
Nessa noite, Ivan lembrou-se do que Gavrilo dissera a propósito de atear um incêndio. Ficou tão perturbado que saiu para inspeccionar o pátio. Caminhou lentamente ao longo da vedação. Tinha acabado de virar a esquina quando lhe pareceu que algo se mexera na outra ponta, algo que se teria erguido e voltado a baixar. Ivan ficou quieto. Escutou e olhou: estava tudo sossegado; apenas o vento agitava as folhas do salgueiro e a palha. Estava escuro como breu mas os seus olhos habituaram-se à escuridão. Continuou a olhar, mas não viu ninguém.
― Devo ter-me enganado ― disse Ivan ― mas vou ver.
Avançou tão devagar que nem os próprios passos ouvia. Chegou à esquina e parou. Conseguia ver claramente alguém, com um boné na cabeça e agachado de costas para ele, a pegar fogo a um feixe de palha que tinha nas mãos. Ficou imóvel.
“Agora”, pensou, “não vai escapar-me. Vou apanhá-lo com a boca na botija.”
De repente, tudo se iluminou. A chama lambeu a palha no barracão e saltou para o telhado. Já não era um pequeno fogo. Ivan conseguiu ver Gavrilo e correu para ele. Mas Gavrilo fugiu e, apesar de coxo, correu como uma lebre. No entanto, Ivan ainda conseguiu apanhá-lo pela aba do casaco. Só que a aba rasgou-se, Ivan caiu e magoou-se na cabeça. Quando se levantou, Gavrilo tinha fugido. O incêndio era tão forte que parecia dia em vez de noite. Ivan conseguia ouvir os bramidos e a crepitação no seu pátio. Foi então que viu a palha a arder em direcção à casa.
Ivan tentou apagar o incêndio. “Se ao menos conseguisse tirar a palha para fora do barracão e apagar o fogo!”, pensou. A princípio, os seus pés não se mexiam. Depois, tropeçaram um no outro. As pessoas vinham a correr, mas já nada podia ser feito. Os vizinhos retiravam as coisas de suas casas e mandavam sair o gado. Depois da casa de Ivan foi a vez da de Gavrilo se incendiar. Levantou-se um vento que levou o fogo para o outro lado da rua. Metade da aldeia ficou reduzida a cinzas.
Tudo o que se salvou da casa de Ivan foi o velho pai, que fugira para uma parte distante da aldeia. Quando Ivan foi vê-lo, o velho comentou:
― Que te disse eu, Ivan? Quem incendiou a aldeia?
― Foi ele, pai. Apanhei-o. Se ao menos tivesse apanhado o pedaço de palha e o tivesse tirado para fora, nada disto teria acontecido.
― Ivan ― perguntou de novo o pai ― de quem é realmente a culpa?
Ivan fitou-o. Depois, lembrou-se de como tinha magoado Gavrilo em primeiro lugar, e de como não tinha ido fazer as pazes com ele enquanto ainda era tempo.
― A culpa foi minha, pai ― disse. E calou-se.
Em seguida, o velho disse-lhe:
― Ivan.
― Sim, pai.
― O que deves fazer agora?
― Não sei, pai. Como posso continuar? Tudo o que tinha ficou queimado.
― Vais conseguir. Com a ajuda de Deus, vais conseguir. Mas lembra-te, Ivan, não deves dizer a ninguém que foi Gavrilo quem começou o fogo. Se não disseres, Deus perdoar-vos-á a ambos.
Ivan assim fez e ninguém descobriu como o fogo começara.
Depois, Ivan começou a ter pena de Gavrilo. E Gavrilo, por sua vez, ficou surpreendido por Ivan não ter dito nada. A princípio, tinha medo de Ivan, mas depois começou a sentir-se mais à vontade. Os homens deixaram de discutir, e as famílias também. Enquanto reconstruíam as casas, viviam todos juntos, e quando a aldeia foi finalmente reconstruída, Ivan e Gavrilo permaneceram vizinhos. E foram sempre amigos.
Ivan nunca se esqueceu do que o pai lhe dissera sobre apagar um fogo logo que ele começa. Se alguém lhe falava duramente, ele respondia com gentileza. A pessoa ficava envergonhada e não havia discussão. Assim, Ivan foi mais feliz do que nunca, e ninguém na aldeia teve tantos amigos como ele.


L. Tolstoi


Lightning candles in the dark
Philadelphia, FGC, 2001
Tradução e adaptação


quinta-feira

A violência no mundo moderno - III - Friedrich Hacker

Friedrich Hacker
Agressividade – a violência do mundo moderno
Lisboa, Livraria Bertrand, 1972
(excertos)




CALLEY: «TU MATARÁS» INÍCIO do artigo


O corajoso advogado geral militar Aubry Daniel III, descendente de uma família aristocrática do Sul, escreveu ao presidente dos Estados Unidos uma carta, respeitosa mas firme, tendo enviado uma cópia a seis senadores pertencentes aos partidos republicano e democrático. Nela acusa a intervenção, sem precedentes, do presidente no processo em curso. Aos olhos do advogado geral, o apoio que a opinião pública e o presidente conferem a Calley é revoltante, dado que nenhum põe em dúvida a culpabilidade de Calley e é, portanto, exigido um veredicto de não culpabilidade. Esta legitimação de Calley não era compatível com a pretensão dos Estados Unidos a serem uma nação civilizada. Daniel qualificou My Lay como uma data trágica na história da nação. Para ele, o aspecto da tragédia reside no facto de que «considerações de ordem política vieram comprometer princípios éticos tão fundamentais como a implícita ilegalidade do assassínio de inocentes». Quanto às declarações do presidente americano, poderiam reunir-se num grito: «Fora o árbitro!» O vice-presidente, Spiro Agnew comparou My Lay, e todo o processo jurídico, a uma competição desportiva e aos comentários trocados, em seguida, à volta de uma garrafa. Nessa altura é fácil, mas bastante injusto, o que se possa dizer relativamente ao que fizeram os jogadores. Ora o exército, ao condenar o tenente Calley, aderira à estrita aplicação das normas de guerra que ele mesmo fixara. O presidente e a maioria da opinião pública acusaram-no, a partir de então, de agredir e martirizar o violador das regras que agira em legítima defesa e ao serviço de uma causa justa. Os testemunhos, provas e confissões não impediram que este esquema superficial se sobrepusesse à verdade.

O exército pouco se preocupa, na generalidade, com a autocrítica. Dado que a sua missão é a luta, a justiça não constitui a sua maior preocupação. Neste ponto de vista o vice-presidente tinha, indubitavelmente, razão. É difícil pedir ao exército que sirva de árbitro à sua própria causa. Cabe-lhe formar os civis dentro de uma obediência e execução das acções de combate que lhe estão implícitas e, evidentemente, também lhe compete a utilização da violência. Todo o exército luta pela civilização com a ajuda de meios por vezes bárbaros, sem o confessar abertamente, e até mesmo dissimulando o facto. Desde sempre que os exércitos cometeram crueldades, mas só as do adversário são comunicadas ao público. Dado que o exército, como o establishment, fora decretado como inimigo anónimo de todo o sentimento humano, cabia-lhe prescrever uma estratégia de violências contra a população civil e encobrir, por espírito de camaradagem, ocasionais transgressões às regras estabelecidas ou a simples e estrita aplicação das prescrições; era seu dever impedir que tais processos fossem divulgados. Que outra coisa se poderia esperar? Porquê a imposição ao exército de julgar o caso Calley?

Actualmente, a nação americana demonstra uma surpreendente unanimidade de recusa em relação ao veredicto que condena Calley, mas não consegue deglutir o problema da sua responsabilidade. Para não sufocar, necessita de substituir esta ou aquela imagem de Épinal.

Aos olhos dos que se consideram cem por cento patriotas, Calley é um herói e um mártir, um corajoso combatente que arriscou a sua vida para preservar a da nação; foi escolhido para porta-bandeira por uma camarilha de oficiais ambiciosos. Na guerra tudo é permitido, dizem eles; no ardor do combate não pode nem deve existir um regulamento pormenorizado; tanto a nossa boa causa como a causa negativa do adversário desculpam, de antemão, toda e qualquer forma de comportamento. Ninguém deveria dar-se ao luxo de criticar a acção de combatentes traumatizados pela morte de um camarada. Deixar a cada indivíduo a liberdade de decidir se deve ou não obedecer às ordens significa o mesmo que matar o exército. Todos os soldados cometem, sem hesitação nem arrependimento, actos semelhantes aos de Calley ou ainda piores. Se o tenente é culpado, todos os combatentes, desde a mais ínfima das patentes ao comandante-chefe, o são igualmente, o mesmo se aplicando aos detentores de poder civis, quer dizer: o povo americano, que tão energicamente se decidiu a defender e apoiar Calley.

Aos olhos dos pacifistas liberais, Calley não passa de um sintoma e de um símbolo. O seu caso é apenas uma prova retumbante dos homens de guerra e, sobretudo, desta guerra infernal do Vietname, dirigida contra uma população civil praticamente indefesa. Por razões directamente inversas, os opositores da guerra concordam com os patriotas ao declarar que os massacres de My Lay não constituem actos isolados de oficiais criminosos e loucos, mas factos vulgares na guerra. É também aos dirigentes, à autoridade suprema, que cabe pronunciar-se sobre o assunto. Nem Calley nem qualquer outro subalterno são culpados. A culpabilidade deve atribuir-se a todos os que ordenam, perpetuam e toleram o derramamento de sangue. É assim que uns acusam os que fazem a guerra e a condenam, enquanto outros condenam os que acusam a guerra: só se demonstram solidários na compaixão que revelam por este massacre.

A verdade é que os factos existem e enquanto não forem reduzidos ao esquecimento, ou transformados em esquemas simplistas, os dois partidos vão ver-se em sérias dificuldades para conciliar, de forma convincente, os seus pontos de vista com a lógica e a moral, se é que, aliás, se preocupam com isso. Eles pouco ligam à verdade objectiva e só lhes importa o triunfo de uma causa que consideram indiscutivelmente justa e verdadeira: a sua. Parece ter-se esquecido bem depressa que Calley não teve de responder pelos seus actos ante hippies cabeludos. Existe uma propaganda desenfreada que agracia o júri de Calley com ofensas geralmente reservadas a essa categoria de pessoas. Os que tiraram conclusões sobre o assassínio premeditado nem sequer eram simples cidadãos e juizes vulgares, mas seis experimentados oficiais de carreira, de entre os quais cinco tinham combatido no Vietname e aí recebido ferimentos de gravidade. Só o sexto oficial, o coronel a quem cabia a presidência do júri, não possuía a experiência da guerra do Vietname, mas era um combatente da Segunda Guerra Mundial e regressara da Coreia coberto de condecorações. Ainda que, no decurso do processo, a defesa não tivesse continuamente invocado as ordens recebidas e a legítima defesa frente a uma população civil hostil, bem como a psicologia de uma guerra como aquela, estes experimentados juízes militares não podiam ignorar que Calley estivera no Vietname, não por sua decisão voluntária, mas por obediência a ordens, e que era detentor do uniforme americano.

Calley não foi acusado nem condenado por ter cumprido o seu dever, mas por ter transgredido e violado: no caso de Calley não estava em causa uma acusação de ter faltado ao dever, proclamado como princípio solene quando do processo de Nuremberga, que se refere ao dever individual de revolta contra uma ordem desumana. Calley foi considerado culpado por ter abatido sem ter recebido ordens, por iniciativa pessoal e sem (necessidade militar, vinte e dois civis desarmados, quer por suas próprias mãos quer por intermédio dos seus subalternos, agindo por sua expressa ordem. Um tal comportamento é há muito tempo estritamente proibido segundo as regras internacionais de guerra. Já o era muito antes do processo de Nuremberga. Calley violou princípios universais, ele mesmo o confessou, e ainda que lhe sejam concedidas atenuantes, só uma designação se lhe adequara de criminoso.

Continuação: A violência no mundo moderno IV

A violência no mundo moderno - IV - Friedrich Hacker

Friedrich Hacker
Agressividade – a violência do mundo moderno
Lisboa, Livraria Bertrand, 1972
(excertos)



CALLEY: «TU MATARÁS»

É indubitável que os motivos que habitualmente condicionam os assassinos não são suficientes para explicar as suas atitudes. Não agiu por perversão pessoal, a menos que se catalogue como perversa a autorização do direito colectivo de matar em tempo de guerra para derramamento de sangue sem respeito por quaisquer regras. O exército elevara-o à posição de poder aniquilar todo o ser humano que não usasse o mesmo uniforme que ele e de não se preocupar com as consequências da opinião pública, que, durante anos seguidos, nunca levantou a questão de se no Vietname se abatiam não só soldados mas também civis. Tinham-lhe, todavia, inculcado regras selectivas em relação aos homens a abater e foram estas mesmas regras que ele visivelmente infringira; se tivesse morto um camarada ou um superior, não se iria desculpar com o pretexto de que a guerra era uma escola de brutalidade e de desprezo pela vida humana.

É certo que ele não foi total nem plenamente responsável pelos seus actos e, principalmente, -não foi o único responsável; outros que não foram acusados também são culpados e partilham a sua responsabilidade sem que, todavia, o declarem inocente por esse motivo.

O caso Calley tornou-se um dos grandes processos criminais, como, por exemplo, o de Manson. Os dois veredictos foram acidentalmente pronunciados no mesmo dia e acusa-se a imaginação deformada e pretensamente anti-americana dos jornalistas americanos de terem ligado os dois julgamentos. As analogias não se limitam, porém, às aparências, podendo citar-se, entre outros, a estatura extraordinariamente pequena dos dois acusados. Manson e Calley eram, em todos os aspectos, pequenas personagens consideradas pouco dotadas e que passaram despercebidas no meio a que pertenciam, até que as suas ignomínias chamaram a atenção da opinião pública mundial. Os dois reclamaram para si o papel de demiurgos e arrogaram-se o direito de vida ou de morte sobre outrem entregando-se a carnificinas. Após vários meses de processos, os dois foram declarados culpados de massacres, mas as suas motivações e acções eram completamente diferentes (Manson nunca participou na execução dos assassínios). O presidente americano interveio nos dois processos num sentido diametralmente oposto, mas numa base igual.

A raiva popular desencadeia-se contra os actos de Manson como contra a condenação de Calley. A mesma raiva popular que nunca pôde tolerar outro veredicto que não fosse a pena capital para o processo Manson exige a libertação de Calley (que se dispõe a publicar as suas memórias por algumas centenas de milhares de dólares). O presidente dos Estados Unidos não agiu, de forma alguma, comi propósitos de ordem política ao aceder à opinião popular. Pode-se dizer que agiu sinceramente e obede¬cendo ao que lhe ditava a consciência. O presidente só conhecia a separação de bem e mal tal como apresentados num bom filme. Devia, portanto, declarar Manson culpado, antes mesmo que os juizes decidissem. Foram os mesmos esquemas dos filmes do Oeste que o levaram a acudir em auxílio de Calley, o xerife, o bravo soldado que o seu uniforme americano designava como o campeão da boa causa, da causa justa, da «nossa» causa. Era preciso livrá-lo, a partir do momento em que o júri o considerou culpado.

Todos os anos se realiza a distribuição do Óscar de ouro para o melhor actor, a melhor encenação, etc. Em Abril de 1971 é galardoado um filme de guerra com oito primeiros prémios. O herói era Patton, o general da Segunda Guerra Mundial, bem conhecido pela sua dureza e brutalidade, que mata publicamente um soldado que desobedece às suas ordens. Numa cena memorável do filme, Patton grita, por entre o ruído das bombas, das explosões e de horríveis destruições: «Que Deus me ajude; gosto deste espectáculo!»

No decurso do processo Manson, Susan Atkins, um dos membros da «família», inicialmente testemunha principal e, mais tarde, co-ré do mesmo processo, foi acusada pelo procurador-geral devido à irónica indiferença que manifestou para com as sete vítimas do massacre, o que revelou a sua insensibilidade moral. Ela retorquiu que ele próprio e a sociedade americana pouco se preocupavam com o milhão de vítimas vietnamitas. O facto não fazia, no entanto, parte do processo de Manson nem do de Calley. Susan foi severamente repreendida e, depois, levada para fora da sala. Os mortos de guerra não são mortos civis e os mortos de cor não são mortos brancos. Só os parentes e, sobretudo, as mulheres nada compreendem dessa distinção, da mesma forma que pouco se preocupam em saber o motivo por que amam os que são massacrados; a única coisa que lhes interessa é que se mata e que não se pára de matar.

Para os patriotas e fanáticos, pelo contrário, sobretudo quando usam uniforme e desfilam em paradas, tudo é diferente, excepto as motivações em relação às quais se sentem plenamente convencidos. Não amam a violência em si, mas só porque através dela esperam conseguir a vitória, o aniquilamento total do adversário e, simultaneamente, a supressão do mal universal, a afirmação dos seus propósitos morais e a sua afirmação pelo sucesso que os dispensa de toda a autocrítica e acarretará, natu¬ralmente, outros sucessos. Só uma propaganda inimiga, pensam eles, denuncia os bravos americanos, que se tornariam, de súbito, os responsáveis por todos os horrores, ao passo que eles mesmos sabem que são pessoas dignas e bons cidadãos, respeitadores da pátria e da honra, preocupados com a protecção das mães e dos filhos, mas obrigados, por isso mesmo, a matar cegamente as mães e os filhos dos outros.

Os Americanos, como todos os outros povos, desejam acima de tudo a proclamação de legitimação muito mais que da violência. Só a violência é a consequência necessária e previsível de legitimação anterior ou simultânea de todos os meios em nome da defesa de bens supremos e ao serviço de objectivos superiores que tudo santificam.


Continuação: A violência no mundo moderno V

A violência no mundo moderno - V - Friedrich Hacker

Friedrich Hacker
Agressividade – a violência do mundo moderno
Lisboa, Livraria Bertrand, 1972
(excertos)



CALLEY: «TU MATARÁS»

É mais temido o reconhecimento da derrota militar do que a própria derrota em si. Perder é desagradável, mas mais desagradável é, ainda, analisar as causas do fracasso e a questão de se o empreendimento era legítimo, se as autoridades que o planificaram eram legítimas e se os responsáveis também se encontravam na posse de uma legitimidade. Não são os desejos bélicos da nação nem motivos de ordem económica os obstáculos ao regresso imediato dos americanos do Vietname; o verdadeiro impedimento reside no medo das consequências que poderia ter uma brusca revisão dos conceitos morais americanos, estabelecidos segundo os hábitos de ordem económica, ideológica e cultural. Não estamos interessados numa imagem imponente aos olhos do mundo, mas nos nossos sentimentos, na nossa identidade pessoal, nos nossos métodos de legitimidade, que dentro de uma simplificação imaginam sempre a razão do lado do vencedor, exigindo, portanto, uma vitória para vincar bem essa razão. No longínquo Vietname, os americanos não combatem, não matam nem morrem para ganhar terreno, para aniquilar inimigos ou conquistar a glória, mas para preservarem a sua imagem no mundo e a legitimidade aos seus próprios olhos. O tenente Calley aparece como um bravo e obediente guerreiro. Portanto, todos lhe manifestam o seu sentimento de solidariedade. Ele torna-se o símbolo da unidade nacional. Esta unidade procura e encontra, aliás, bodes expiatórios num sentido diametralmente oposto e sabe-se de acordo com esta polarização mental.

A simplificação e violência internacionais prosseguem, assim, como tantas vezes no passado, a quimera de uma precária união nacional; falta-lhe, talvez, a ocasião de discutir as causas nacionais e internacionais dos conflitos, a fim de evitar outros conflitos futuros. Em troca do insignificante «prato de lentilhas» da nossa legitimação, não nos preocupamos com o direito da nossa autodeterminação, que assenta na autocrítica. Recusamo-nos a lutar pela emancipação. Falamos de fatalidade em lugar de atribuir culpas à nossa presunção.

Poucos dias após o julgamento de Calley, o presidente Nixon expressou num discurso televisionado a sua convicção inabalável de que os Americanos só lutam por objectivos idealistas. Uma vez mais, prometeu à nação acabar com a guerra do Vietname de acordo com o programa previsto. Seguidamente, contou um episódio comovedor ocorrido na atribuição de uma medalha póstuma. Quando a viúva de um herói do Vietname, morto no campo de batalha, recebeu a condecoração do valente militar, o filho deste, uma criança de quatro anos, fizera a continência militar. Eis o que comoveu o presidente e a nação, para quem a continência militar é algo de intocável. O facto nada tem de exclusivamente militar, pois que nos países condicionados pela brutalidade — todos o são — saudar constantemente alguém ou alguma coisa é uma ocupação essencial dos habitantes, que primeiro foi imposta, para depois adquirir feição de regularidade. Pelo gesto de submissão que a saudação militar representa, o oprimido vai até ao ponto de mostrar a sua solidariedade para com os opressores, sentindo-se habilitado, por sua vez, a oprimir outros em nome dele. Sente uma mistura característica de brutalidade e emoção que afasta todo o sentimento de culpabilidade ou responsabilidade individuais.

O que depois aconteceu ao tenente Calley pouco importa agora. Foi em vão que se tentou transformar a personagem, à maneira dos filmes simplistas e segundo as escalas morais e tradicionais, mas ela não se coaduna ao papel. Teria sido necessário um herói transbordante de virilidade, mas a sua figura é demasiado insignificante.

A violência no mundo moderno - VI - Friedrich Hacker

Friedrich Hacker
Agressividade – a violência do mundo moderno
Lisboa, Livraria Bertrand, 1972
(excertos)



CALLEY: «TU MATARÁS»

O debate continua, apesar de tudo ficar em aberto e a resolução imbuída de incertezas. Como compreender e aceitar a maior nação democrática do mundo de um ponto de vista psicológico e moral? Os defensores de Calley tinham afirmado que fora a guerra a causadora da transformação do tenente num robot hierárquico, executor de ordens desumanas que não tinham sido dadas expressamente, mas que podiam ser logicamente deduzidas da estratégia da guerra. Ele apenas se limitara a executar, à queima-roupa e servindo-se de uma pistola-metralhadora, o que, por métodos permitidos e oficiais e de forma consciente e sistemática, constituía o objectivo dos bombardeamentos quotidianos da artilharia e da aviação, ou seja, o aniquilamento da população civil, virtual e concretamente hostil. Não podia ser feita qualquer comparação com base noutras guerras entre povos cujos meios de defesa se equiparavam. Nesta guerra civil do Vietname opunham-se, por um lado, a nação mais industrializada do mundo, com todos os meios motorizados e químicos de aniquilamento, e, por outro lado, a selva e os seus habitantes. Por uma táctica adversa à da guerrilha, que, segundo a fórmula de Mão, está para os indígenas na mesma ambientação de que o peixe na água, seria necessário exterminar este oceano de população indígena. As opiniões políticas e militares concordavam neste ponto: o objectivo militar a atingir reside na população civil. O reconhecimento de que «o inimigo tem de perder o apoio popular» mediante infindos bombardeamentos de vastas zonas, incluindo todas as aldeias, alvos civis e hospitais, é a fórmula citada por um dos generais mais categorizados e nunca ninguém a contestou.
O tribunal militar terá sido injusto para com Calley, que, dentro de uma violência ilimitada perfeitamente aceite, praticou uma carnificina de civis indefesos, uma vez que a ocasião se oferecia e até mesmo se impunha? A confissão de Calley, ao declarar que antes de ser considerado culpado pensava que o massacre de My Lay fora uma coisa sem grande importância (no big deal), seria assim tão horrivelmente incompreensível e tão incompreensivelmente horrível, quando desde há anos os boletins oficiais enumeravam, quotidianamente e com orgulho, os inimigos abatidos sem diferenciar civis ou militares?
Quem obrigou a chefia do exército, envergonhada com os insucessos, desacreditada e traumatizada pela realidade dos factos que contradiziam as suas profecias optimistas, a anunciar vitórias estupidamente exageradas, a fim de compensar as suas verdadeiras decepções? Numa democracia em que os representantes do povo são livremente escolhidos e podem ser livremente demitidos, também a responsabilidade da opinião pública é muito maior do que sob uma ditadura em que os detentores do poder dispensam a aprovação daqueles em nome dos quais agem. Os delegados do povo escolhidos democraticamente reivindicam, assim, uma imunidade que recusaram aos chefes alemães e japoneses em Nuremberga. Mas se nem os governantes, o exército, e a população que protesta contra uma guerra que a irrita e não deseja são os responsáveis, a quem atribuir então responsabilidades? Quais as culpas que cabem ao establishment. O seu erro reside em ter determinado e tolerado a guerra ou em não ter conseguido uma vitória rápida? Ou em ter induzido o povo a aceitar o combate nesse longínquo Sudeste Asiático como uma operação indispensável de defesa nacional, prodigalizando-lhe apenas informações parciais da verdade dos acontecimentos? Ou o seu erro reside na sua própria existência, dado que o establishment prepara a guerra, que ocasiona actos bélicos e policiais mais perigosos do que todos, porque se baseiam no crime? Pode-se citar, como testemunho de defesa, que existem outros sistemas, contemporâneos ou anteriores, que actuam de forma não menos cruel, impiedosa, brutal e hipócrita. Devemos concluir que, mais cedo ou mais tarde, todas as organizações governamentais exigem guerras e massacres, camuflados durante mais ou menos tempo mas admitidos? O que há a condenar e a reformar? Trata-se da táctica oficial da mentira e da hipocrisia, que acaba por desacreditar não só determinado governo, mas todos os governos afinal? Ou será antes a mentalidade de um povo intoxicado que pretende ver os seus preconceitos confirmados pelos representantes que elege e não protesta contra os actos imorais a não ser quando estes não lhes acarretam o rápido sucesso que esperavam? Para analisar estas questões extremamente complexas, tornam-se necessários métodos novos: é preciso examinar os factos de um ponto de vista social e revolucionário, é preciso debater agressivamente, mas não violentamente, em lugar de tudo basear na justiça que condena à prisão ou à morte de acordo com as leis vigentes.
As nossas democracias ocidentais encontrar-se-iam numa posição difícil, senão fatal, se não tivessem uma desculpa melhor a apresentar do que a sua relativa superioridade moral sobre o regime totalitário nazi. Não basta focar os erros de um indivíduo tomado isoladamente, erros fáceis de determinar através de um processo jurídico, dado a sua limitação a actos isolados. Esse facto não absolve a sociedade pelo seu crime de cumplicidade nem absolve, de modo algum, o culpado. Não há nenhuma sala de tribunal em que o banco dos réus seja suficientemente grande para conter todos os culpados. É demasiado pedir à justiça, e esperar da mesma, uma decisão quanto a problemas que dizem respeito a toda a sociedade. É certo que todo o processo jurídico serve para determinar, oficialmente, a extensão da falta e do castigo do acusado, mas serve, também, sem que tal se confesse, para ilibar os que não podem ser acusados mas que contribuem para o crime pela sua indiferença, insensibilidade, provocações, incitamentos ou uma discreta aprovação.
Ao longo da história moderna, nunca uma nação bélica, em plena guerra, empregou a justiça ou condenou por crimes de guerra — termo até aqui exclusivamente reservado às atitudes do inimigo — os seus próprios oficiais e combatentes. É nesse ponto que reside o mérito incontestável do duro acontecimento chamado «processo Calley». Desmascarou e estigmatizou as tendências dissimuladas e inconscientes da nação relativamente a uma afirmação de direitos mesmo pelo preço de uma carnificina. O facto de este processo ter sido possível, apesar de todas as resistências, o facto de se ter verificado, o facto de a nação americana achar que não só podia mas devia impô-lo, constitui uma esperança de que as obscuras forças de adoração da violência, protegidas por pretensões morais adoptadas sem discussão, talvez não acabem por triunfar.


A violência no mundo moderno - II - Friedrich Hacker

Friedrich Hacker
Agressividade – a violência do mundo moderno
Lisboa, Livraria Bertrand, 1972
(excertos)


CALLEY: «TU MATARÁS»

No decurso do processo Calley, que durara longos meses, os jurados oficiais tinham-se limitado a examinar, de acordo com a lei, as provas que as testemunhas, a defesa e o Ministério Público lhes apresentavam. Tinham-se mantido fiéis ao seu juramento e nada mais efectuado do que o cumprimento do dever. Estava para lá do âmbito da sua competência examinar o porquê que fizera recair a acusação sobre os ombros de Calley e não de outros, ou estudar os actos de outros soldados nesta ou noutras guerras. O tenente Calley era acusado do assassínio premeditado de cento e dois civis, velhos, mulheres e crianças, cometido em duas horas diferentes do mesmo dia, em My Lay. Ele mesmo admitiu ter disparado a curta distância (menos de um metro e meio) contra um fosso onde se encontravam dezenas de prisioneiros vietnamitas. Não verificara os resultados do seu procedimento. Mais de cem declarações de testemunhas afirmaram que Calley tinha atirado contra crianças indefesas que iam a fugir, que abatera prisioneiros desarmados e que, a pontapé, forçara os subordinados a atirar contra os civis presos no fosso. Quando Calley solicitou a benevolência do júri e pediu aos jurados que, pelo menos, lhe concedessem a vida, já que lhe tinham tirado a honra, o procurador-geral gritou que a desonra de Calley não se encontrava no veredicto, mas nos actos que cometera. Durante os dias que durou o debate, os jurados tentaram tudo para considerar Calley inocente, mas o processo demonstrara a cada um que os actos de Calley eram indiscutivelmente criminosos. Os jurados não concordaram porém num ponto: os crimes cometidos eram assassínios premeditados ou poderiam ser considerados num âmbito de menor gravidade? Foi pronunciada a acusação de assassínio premeditado numa maioria de dois terços.

As autoridades militares ficaram surpreendidas, chocadas e perturbadas pela reacção do público e do presidente. A princípio, e mercê de um espontâneo reflexo burocrático, tinham tentado proteger os direitos institucionais arquivando os múltiplos relatórios referentes aos massacres de My Lay entre os numerosos dossiers sobre assuntos análogos. O exército não desejava, evidentemente, chamar a atenção do público para acontecimentos semelhantes. Como as acusações, solidamente fundamentadas e reunidas por um corajoso jornalista, foram, no entanto, difundidas por todos, não se pôde evitar um processo sensacional. Grandes fracções da opinião pública não conseguiram acreditar que os soldados americanos fossem capazes de cometer tais horrores e consideraram as acusações como infames calúnias, cuja mentira se tornava necessário demonstrar publicamente; outros pensaram que se tratava de um caso isolado e que era necessário dar o exemplo através deste criminoso de uniforme. De qualquer modo, as autoridades civis mais elevadas, inclusive o presidente, não só exigiam o processo contra o acusado mas igualmente contra os oficiais de patente superior e generais que, a princípio, tinham tentado ocultar e falsear todo o caso.

As primeiras investigações do Estado-Maior relativamente às suas próprias (manobras para ressalvar o assunto não foram longe. O facto não surpreendeu ninguém. Não foi apresentada queixa contra o general Koster, que, na manhã do massacre de My Lay, inspeccionara o local de helicóptero, nessa altura ainda em paz, nem contra qualquer outro coronel ou general. Apenas Calley e os seus subordinados, bem como o seu superior imediato, o capitão Medina, foram chamados a responder pelos seus actos ante a justiça. Não vem a propósito discutir aqui se ao exército não restava outra hipótese para além de uma queixa contra Calley, uma vez divulgados os horríveis acontecimentos, ou se obedeceu, de vontade ou pela força, a autoridades civis superiores. A verdade é que o processo se iniciou e, a fim de restaurar a honra do exército americano, prosseguiu publicamente segundo as boas e incompreensíveis regras do direito jurídico.

Antes do mais, o resultado revelou-se catastrófico para o exército, a democracia e o direito. Numa noite o acusado foi promovido a herói nacional precisamente devido ao massacre que ele mesmo confessava ter cometido. O povo mostrou-se solidário em não aceitar a sua condenação, mas apenas nisso. Cada um acusava por um processo de generalização simplista. Em primeiro lugar, nada se passara. Em segundo lugar, os factos tinham sido largamente exagerados. Em terceiro lugar, o que acontecera processara-se ao serviço de uma boa causa. Em quarto lugar, as vítimas tinham merecido o justo castigo, uma vez que eram comunistas, simpatizantes dos comunistas, deles não se diferençando, ou viviam num país simpatizante do comunismo. Em quinto lugar, tudo acontecera no ardor do combate. Em sexto lugar, foram os outros a começar ou podiam tê-lo feito. Com a condenação de Calley, que escarneceu de todo o espírito de camaradagem e lealdade, o exército ficou manchado. Também, talvez, os oficiais superiores de carreira tivessem querido descarregar as suas próprias culpas sobre o seu infeliz subalterno, o tenente Calley. O general Westmoreland, que era, na altura, comandante-chefe americano no Vietname, defendeu-se irritadamente de toda e qualquer atribuição de culpa e de comparações com o general japonês Yamashita, executado após a Segunda Guerra Mundial e que fora considerado responsável por todos os actos do exército sob as suas ordens, mesmo que as ignorasse e não as tivesse podido impedir. As mais altas entidades do exército criticaram a intervenção do presidente, que tornara supérfluos e ridículos os penosos e fatigantes processos jurídicos e trouxera a liberdade a Calley. O exército apressou-se a declarar que Calley, mesmo sem a intervenção do presidente, nunca fora mantido sob detenção até recurso à sentença. Por outro lado, ignora-se o que acontecerá doravante às centenas de soldados que — não por massacre mas por embriaguez, faltas ao serviço ou roubo — têm de esperar meses seguidos na prisão a decisão ao seu apelo. O exército ignora porque se viu obrigado, contra sua vontade, a instaurar um processo criminal contra Calley e também o motivo pelo qual, seguidamente, foi humilhado, insultado, desprezado pela população, desautorizado e ridicularizado pelo seu chefe supremo, simplesmente por ter cumprido o seu dever ao seguir as ordens do presidente e ao obedecer ao desejo da opinião pública. Em que reside a honra do exército? Na dissimulação incondicional dos actos de todo o indivíduo que usa um uniforme, que age, crê agir ou declara agir ao serviço (estando incluído o massacre premeditado de civis e prisioneiros indefesos), ou na afirmação do princípio geral, que autoriza e incita mesmo à violência na guerra, se bem que dentro de determinados limites?


continuação: A violência no mundo moderno III

A violência no mundo moderno - I - Friedrich Hacker

Friedrich Hacker
Agressividade – a violência do mundo moderno
Lisboa, Livraria Bertrand, 1972
(excertos)



CALLEY: «TU MATARÁS»

No mesmo dia em que em Los Angeles Manson e os seus amigos foram condenados à morte, um júri constituído por seis oficiais do exército dos Estados Unidos, reunidos no Forte Benning, declarou o tenente William (Rusty) Calley culpado do assassínio premeditado de vinte e dois civis vietnamitas e condenou-o a prisão perpétua.

Depois de escutar a sentença e ainda antes de ser levado, o tenente Calley conseguiu ainda ter coragem para fazer a saudação militar. Nesse momento, desencadeou-se uma tempestade de indignação entre as pessoas que assistiam, uma indignação não contra os actos do tenente, mas contra a condenação que o atingia. No dia posterior ao do julgamento chegaram cem mil telegramas à Casa Branca: eram cem contra um a favor de Calley. Colocaram-se bandeiras americanas a meia haste em sinal de luto e de vergonha. O governador do estado de Indiana, Edgar Witcomb, veterano da Segunda Guerra Mundial, decretou luto público. Lester Maddox, vice-governador da Geórgia, assumiu um tom patético no decurso de uma conferência em que se reclamou a libertação de Calley em grandes gritos: «Deus abençoe o tenente Calley, que lutou pela causa da nação.» George Wallace, ex-candidato à presidência e actual governador do Alabama, declarou que considerava uma honra ter apertado a mão ao tenente Calley, a quem fizera uma visita espectacular. Tudo porque as vítimas do Vietname, inclusive civis, mulheres e crianças, tinham sido mortas para destruir o comunismo. Foi composto um hino guerreiro sobre o caso, cuja primeira estrofe é a seguinte: «O meu nome é William Calley, sou um soldado deste país que jurei cumprir o meu dever e vencer, mas chamaram-me um canalha...» Em três dias venderam-se cem mil discos e numa semana um milhão. As associações de veteranos recolheram somas enormes para Calley e transmitiram-lhe mensagens de simpatia. As antenas dos carros ostentavam folhetos que pediam a libertação de Calley. Milhares de homens foram apresentar-se às autoridades militares e acusaram-se de ter cometido crimes análogos. O «Diabo Verde», Robert Marasko, comovido pela condenação de Calley, decidiu anunciar na televisão que matara recentemente um espião do Vietname do Sul por ordem da C. I. A. Era assim e não podia fazer nada mais do que confessar. Os jornais declararam luto. O reverendo Michael Lord viu o reviver da paixão de Cristo no caso Calley. Declarou publicamente: «Há dois mil anos crucificaram um homem chamado Jesus Cristo; não acho que tenham necessidade de uma nova crucificação.» Uma indagação junto do público revelou que oito em cada nove americanos consideravam a condenação de Calley injusta.

O presidente dos Estados Unidos passou uma noite em claro e, depois, decidiu fazer sair Calley da prisão e mandá-lo para casa sob vigia. Declarou que, na sua qualidade de chefe supremo do exército, se reservava a última decisão sobre o assunto, dado que todos os meios judiciais estavam esgotados. Os militares responsáveis — não falo dos acusados, mas dos seus juízes — viram-se objecto de insultos sistemáticos. As famílias foram alvo de calúnias e ameaças e a polícia teve de as tomar à sua guarda. Depois de subtraídos à reclusão imposta ao júri, os dignos oficiais não entendiam a emoção geral.

Há anos a jurisdição militar tinha condenado, sem que por isso se tornasse objecto da atenção pública, algumas dezenas de soldados e oficiais por crimes análogos, se bem que não de tanta carnificina, cometidos em operações no Vietname. O facto não despertara interesse nem causara objecções.

continuação: A violência no mundo moderno - II

segunda-feira

Os três astronautas - Umberto Eco


Era uma vez a Terra.
E era uma vez Marte.
Ficavam muito longe um do outro, no meio do céu, e à volta havia milhões de planetas e de galáxias.
Os homens que estavam na Terra queriam ir a Marte e aos outros planetas: mas estavam tão longe!
Porém não descansaram. Primeiro lançaram satélites que andavam à roda da terra por dois dias e depois vinham de novo.
Depois lançaram foguetões que davam algumas voltas à Terra mas, em vez de regressarem, acabavam por escapar à atracção terrestre e seguiam para o espaço.
Primeiro, puseram cães nos foguetões: mas os cães não sabiam falar, e pela rádio só transmitiam “béu béu”. E os homens não percebiam o que eles tinham visto e até onde chegavam.
Por fim arranjaram homens corajosos que quiseram ser cosmonautas. Os cosmonautas tinham este nome porque iam explorar o cosmos, que é o espaço infinito com os planetas, as galáxias e tudo o que têm à sua volta.
Os cosmonautas partiam e não sabiam se voltariam ou não. Queriam conquistar as estrelas para que um dia todos pudessem viajar de um planeta para outro, porque a Terra se tornara demasiado apertada e os homens aumentavam de dia para dia.
Numa bela manhã, partiram da Terra três foguetões de três pontos diferentes.
No primeiro ia um americano, que, todo alegre, assobiava uma ária de jazz.
No segundo ia um russo que cantava com voz profunda Volga, Volga.
No terceiro ia um chinês, que cantava uma belíssima canção, que os outros dois achavam desafinada.
Cada um queria ser o primeiro a chegar a Marte, para mostrar que era o mais valente.
Na verdade, o americano não gostava do russo e o russo não gostava do americano, e o chinês desconfiava dos dois.
E isto, porque o americano, para dizer bom dia, dizia: how do you do, o russo dizia 3дpacтвyйte e o chinês dizia bom dia em chinês. Não se percebiam e julgavam-se diferentes.
Como os três eram todos valentes, chegaram a Marte quase no mesmo instante. Desceram das suas astronaves, de capacete e fato espacial... E descobriram uma paisagem maravilhosa e inquietante: o terreno era sulcado por longos canais cheios de uma água de cor verde-esmeralda. Havia estranhas árvores azuis com aves nunca vistas, de penas de cores estranhíssimas. Lá no horizonte viam-se montanhas vermelhas que emitiam estranhos brilhos.
Os cosmonautas olhavam a paisagem, olhavam uns para os outros, e mantinham-se afastados, cada um desconfiado dos outros. Depois veio a noite.
Havia à roda um estranho silêncio, e a Terra brilhava no céu como se fosse uma longínqua estrela.
Os cosmonautas sentiam-se tristes e perdidos e o americano, na escuridão, chamou pela mãe. Disse Mommy...
E o russo disse: Mama.
E o chinês disse: Ma-ma.
Mas compreenderam logo que estavam a dizer a mesma coisa e tinham os mesmos sentimentos. E sorriram, aproximaram-se, acenderam juntos uma bela fogueira, e cada um cantou canções do seu país.
Então encheram-se de coragem e, à espera da manhã, aprenderam a conhecer-se.
Por fim, veio a manhã e fazia muito frio. E, de repente, de um tufo de árvores saiu um marciano. Tinha um aspecto horrível! Era todo verde, tinha duas antenas no sítio das orelhas, uma tromba, e seis braços. Olhou para eles e disse: Grrr!
Na sua língua queria dizer: “Mãezinha, o que são estes seres horríveis?”
Mas os terrestres não o compreenderam e julgaram que era um rugido de guerra. Era tão diferente deles que não foram capazes de o compreender e de o amar. Os três sentiram-se logo iguais e uniram-se contra ele.
Perante aquele monstro, as suas pequenas diferenças desapareciam. Que importava se falavam uma linguagem diferente? Compreenderam que eram os três seres humanos. O outro não. Era demasiado feio, e os terrestres pensavam que quem é feio também é mau. Por isso resolveram matá-lo com os seus desintegradores atómicos.
Mas, de repente, na grande geada da manhã, um passarinho marciano, que, evidentemente, fugira do ninho, caiu no chão, tremendo de frio e de medo. Piava desesperadamente, mais ou menos como um passarinho terrestre. Fazia mesmo pena. O americano, o russo e o chinês olharam-no e não conseguiram reter uma lágrima de compaixão.
E então aconteceu uma coisa estranha. Também o marciano se aproximou do passarinho, olhou para ele, e deixou escapar da tromba dois fios de fumo.
E os terrestres, de repente, compreenderam que o marciano estava a chorar à sua maneira, como fazem os marcianos.
Depois viram-no baixar-se para o passarinho e segurá-lo nos seus seis braços, tentando aquecê-lo.
O chinês voltou-se então para os dois amigos terrestres.
— Compreenderam? — disse. — Nós julgávamos que este monstro era diferente de nós, e afinal ele também ama os animais, pode comover-se, tem um coração e certamente um cérebro! Ainda acham que devemos matá-lo?
Nem era pergunta que se fizesse.
Os terrestres agora tinham compreendido a lição: não basta que duas criaturas sejam diferentes para que tenham de ser inimigas.
Por isso aproximaram-se do marciano e estenderam-lhe as mãos. E ele, que tinha seis, apertou de uma vez só a mão aos três, enquanto com as mãos livres fazia gestos de saudação.
E, apontando para a Terra, lá em cima no céu, deu a entender que desejava fazer uma viagem para conhecer os outros habitantes e estudar com eles a maneira de fundar uma grande república espacial, em que todos vivessem com amor e concórdia.
Os terrestres disseram que sim, todos contentes. E para festejar o acontecimento, ofereceram-lhe uma garrafinha de água fresquíssima trazida da terra. O marciano, muito feliz, meteu o nariz na garrafa, aspirou e disse que gostara muito daquela bebida, se bem que lhe fizesse andar a cabeça à roda. Mas agora os terrestres já não se espantavam. Tinham concluído que na Terra, tal como nos outros planetas, cada um tem os seus gostos, e é só questão de se compreenderem uns aos outros.


Umberto Eco; Eugenio Cami
Os três astronautas
Lisboa, Quetzal Editores, 1989
adaptação

A ladeira - José Fanha


Era uma vez dois homens. Um era alto, outro baixo. Um era gordo, outro magro. Um moreno, o outro ruivo. Um tinha a voz muito grossa e outro uma borbulha na ponta do nariz. Um chamava-se Manuel Francisco e o outro Francisco Manuel. E muito mais coisas poderia dizer de cada um deles. Mas, o fundamental, é que eram muito diferentes um do outro. Só numa coisa se assemelhavam: ambos eram tremendamente teimosos.

Na terra onde viviam havia uma ladeira íngreme, inclinada, cheia de pedras e calhaus. Uma ladeira daquelas que a gente só sobe ou desce quando não pode deixar de ser.

Um dia, um dos homens ia a subir a ladeira quando o outro vinha a descê-la. Como é natural, encontraram-se a meio. Bem... A meio, a meio, exactamente a meio, não tenho a certeza se foi. Talvez tenha sido um bocadinho mais para cima ou um bocadinho mais para baixo. Para a nossa história esse pormenor não tem grande importância e, por isso, vamos fazer de conta que foi a meio.

Mais ou menos a meio da ladeira, os dois homens encontraram-se, pararam à frente um do outro e desataram a discutir. Um ia a subir e, por isso, achava que a ladeira era uma subida. O outro vinha a descer e, pelo contrário, garantia que se tratava de uma descida.

Sem chegar a acordo, sentaram-se ali mesmo no chão para tirar a questão a limpo. Quem os conhecesse, sabendo que eram homens de palavra fácil, capazes de inventar sólidas razões e grandes argumentos, logo via que aquela discussão ia demorar. E demorou.

Passaram-se sete dias e sete noites e a discussão não parava. Veio a Lua e foi-se o Sol, veio o Sol e foi-se a Lua e os dois homens a discutir. Nem o frio, nem o calor, nem a chuva, os distraiu. Continuavam na mesma. Para um, aquela ladeira era uma subida porque subia de baixo para cima. Para o outro, era uma descida porque descia de cima para baixo.

A discussão continuou e continuou. À sétima noite começou a soprar um vento muito forte. Um vento tão forte e violento que arrancava terras, árvores e pedras e as atirava de um sítio para outro. Um vento daqueles capazes de trabalhar lentamente, séculos e séculos a fio, para mudar a face da Terra e transformar montes em covas fundas e buracos de meter medo nas mais altas montanhas.

O tempo passou. O vento mexeu com tudo. Mudou a paisagem. Transformou o mundo. Só os dois homens continuavam sentados no meio da ladeira sem darem por nada do que acontecia à sua volta. Estavam tão preocupados, cada um, em ganhar a discussão que não sentiram nem a chuva na pele, nem o frio nos ossos, nem o sol na moleirinha.

Passaram-se sete mil noites e sete mil dias, os homens a discutir e o vento a trabalhar.

A ladeira, a pouco e pouco, ia ficando diferente. A parte mais alta cada vez menos alta, e a parte mais baixa a crescer sem parar à custa de entulho, areia, calhaus e pedrinhas que a tornavam cada vez menos baixa.

Um belo dia, a parte de baixo e a parte de cima da ladeira ficaram iguais, da mesma altura e, portanto, a ladeira desapareceu. A terra ficou direitinha, lisa, uma planície que se estendia até perder de vista.

O vento, sem mais nada que fazer ali, foi trabalhar para outro lado. Os dois homens que, como eu já disse, eram muito teimosos, continuavam a discutir se a ladeira era uma subida que se descia ou uma descida que se subia.

A certa altura, olharam em volta, para um lado e para outro, até onde a vista podia alcançar. Aperceberam-se então que a ladeira tinha desaparecido. Olharam um para o outro, levantaram-se, cumprimentaram-se e, cheios de orgulho, afastaram-se cada um em sua direcção, ambos seguros de que tinham ganho a discussão.

José Fanha
A noite em que a noite não chegou
Porto, Campo das Letras, 2001


sexta-feira

Colares de pérolas - António Torrado


Joanina e Lionídia eram duas jovens que se preparavam para o primeiro baile.
Vestiam vestidos de seda branca com muita goma e roda, todos enfeitados de lacinhos azuis e cor-de-rosa.
Não haverá hoje raparigas que consintam em usar vestidos destes, mas isto passou-se há muito tempo.
Diante do toucador, ajeitaram ao espelho os caracóis e canudos de cabelo, que as faziam parecer bonecas de porcelana. Sentiam-se lindas. E, efectivamente, sinceramente, estavam.
Chegou a altura dos últimos adornos. Brincos, anéis pulseiras e um diadema no toucado. Até o espelho pestanejou com tanto brilho.
— Falta o colar — lembrou a Lionídia, enquanto procurava, na sua caixinha de guarda-jóias, o ornamento essencial à perfeição do quadro.
Já Joanina tinha tirado do respectivo guarda-jóias e posto com todo o cuidado ao espelho o seu colar de pérolas, sorrindo, feliz, porque era a primeira vez que o punha. Sentia-se uma senhora, uma dama, um modelo para um retrato a óleo.
Lionídia tinha um colar igual. Ou quase.
— O teu colar é de pérolas falsas — disse Lionídia, olhando de esguelha para o colar de Joanina.
— Como é que tu sabes? — indignou-se ela. — Este colar está na nossa família há várias gerações e sempre foi tomado como verdadeiro.
— É falso. Digo e torno a dizer, porque as tuas pérolas não têm a perfeição nem a transparência leitosa, nacarada, aveludada das minhas.
Isto dito por Lionídia era uma afronta para Joanina.
— E se for ao contrário? — ripostou ela. — Está-me a parecer que as tuas pérolas é que são uma perfeita imitação das minhas.
Enervaram-se. Zangaram-se. Descompuseram-se.
Brigaram. Não fosse estarem tão alinhadas para a festa e, quase de certeza, ainda acabariam por se agarrar aos caracóis uma da outra e espatifar os vestidos brancos, engomados e rodados, com lacinhos azuis e cor-de-rosa…
Uma réstia de boa educação e de bom senso conteve-as.
Para decidirem de uma vez para sempre qual tinha razão lembrou-se uma delas.
— Só há uma prova a fazer. O vinagre!
Quem não souber que aprenda que o vinagre desfaz as pérolas naturais, as legítimas, as fabricadas com sossego e demora, dentro da concha paciente das ostras.
Muito exaltadas e avinagradas, foram buscar à cozinha uma tigela de vinagre.
— Queres ver que o teu colar pelintra não se desfaz — disse a Joanina à Lionídia.
— A porcaria do teu colar é que não vai desfazer-se — disse Lionídia à Joanina.
O resto está-se mesmo a ver. Dissolveram-se no banho de vinagre as pérolas de ambos os colares. Só sobraram para amostra fios e fechos, tão valiosos como duas espinhas de peixe.
E as duas jovens, depois de chorarem muitas lágrimas, abraçadas uma à outra, lá tiveram de ir para o baile sem os seus preciosos colares.
Pobres das ostras que tanto trabalharam a acrescentar, a arredondar e a aprimorar as suas maravilhosas pérolas, para que assim se perdesse o labor de tantos anos num bochecho de vinagre. Dá que pensar.


António Torrado

www.historiadodia.pt