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terça-feira

O pato e a coruja - Hanna Johansen


Era uma vez uma bétula que se erguia no meio de um prado.
Mesmo à beirinha do prado cintilava um charco onde um pato nadava em círculo, mergulhando o bico de vez em quando.
O pato subiu para terra, sacudiu-se e olhou para o cimo da árvore.
Após ter olhado algum tempo, gritou:
— Eh, tu, aí em cima!
— Uhm — resmungou uma voz lá em cima, na bétula.
— És uma coruja a sério? — pergunta o pato.
— Uhm.
— Ora chega cá abaixo — gritou o pato.
— Uhm — resmungou a coruja a bocejar. E esvoaçou para o chão.
— Oh! — disse o pato. — Nunca pensei que uma coruja tivesse asas tão bonitas.
— Uhm — tornou a coruja, contente por o pato achar bonitas as suas asas.
— Porque é que estás sempre a dizer Uhm? Não sabes dizer mais nada?
— Claro que sei — disse a coruja — mas não me apetece. Estava a dormir.
— Oh, meu Deus! — exclamou o pato. — Como é que tu consegues dormir em pleno dia? Ninguém consegue!
— Não percebo o que queres dizer — respondeu a coruja. — Durmo sempre de dia.
— Isso é esquisito — disse o pato. — De noite é que se dorme.
— Dormir de noite, dizes tu? De forma alguma! A noite é demasiado excitante para ser gasta a dormir. É quando está escuro, é quando se arregalam bem os olhos, e se espera que passe alguma coisa que se possa comer.
— Não estás boa da cabeça! — disse o pato. — A comida não passa. Tem de se nadar, mergulhar e procurar até encontrar.
— Que forma mais disparatada de comer! — murmurou a coruja.
O pato zangou-se.
— Não é nada disparatada, é o normal! — disse, furioso.
— Não estás bom da cabeça! — respondeu a coruja. — Normal é pairar às escuras no bosque sem fazer barulho. E, então, quando algum animalzinho se mexer nas folhas secas, caímos-lhe em cima rapidamente e comemo-lo.
— Que horror! — gritou o pato. — Só de pensar nisso fico logo enjoado.
— E tu, o que é que comes? — berrou a coruja, que também estava zangada. — Comes alpista para patos. Que nojo! Até fico enjoada! E como é que se consegue comer durante o dia!
O pato até assobiou de raiva.
— Fica a saber que é de dia que se come! Todos fazem isso!
— Ora, ninguém faz isso! — gritou a coruja. — Quando fica escuro é que se tem fome a sério.
— Isso é uma estupidez! — grasnou o pato — Estupidez, estupidez, estupidez!!
E ali estavam os dois no meio do prado a discutir.
A coruja abriu e fechou o bico um par de vezes como se estivesse a pensar, e depois sacudiu-se.
— Ó pato — perguntou a coruja — afinal porque é estamos a discutir? Ainda te lembras porque é que começámos?
— Claro — responde o pato. — Porque tu fazes tudo mal. É por isso…
— Não é verdade — disse a coruja. — Eu não faço nada errado. Faço é de maneira diferente, e, assim, também dá. Faço como fazem todas as corujas.
— E eu faço como fazem todos os patos. Tens razão. Não é preciso discutir por causa disso.
“Ah”, pensava a coruja para si, “por sinal, até gosto do pato. Tem uma maneira esquisita de ver as coisas, mas será que, apesar disso, não podemos ser amigos?…”
— Mas que pés esquisitos tu tens! — observou a coruja.
— Não são esquisitos — responde o pato — são práticos. São para nadar.
— Para nadar, talvez sejam bons — opinou a coruja. — Quando se gosta de nadar. E, vendo melhor, até os acho bonitos.
— A sério? — sussurrou o pato.
— Anda comigo — disse a coruja de seguida— já me doem as pernas de estar aqui em baixo. Vamos pôr-nos confortáveis, em cima da bétula.
— O quê? — perguntou o pato.
— Vamos voar lá para cima — responde a coruja. — Em cima das árvores está-se melhor.
O pato nunca na vida tinha pousado numa árvore, mas se isso dava alegria à coruja, quis experimentar.
— Como queiras — respondeu.
E voaram os dois lá para cima; instalaram-se num ramo de onde podiam ver tudo em redor.
— Aqui tem-se melhores vistas — disse a coruja satisfeita.
— Bem… — murmurou o pato.
Olhava para o prado e para o charco onde o sol reluzia. Não gostou mesmo nada de pousar tão alto em cima de uma árvore. Esteve o tempo todo com medo de cair.
— Isto aqui não é bom — disse ele para a coruja. — Vamos antes nadar para o lago.
— Deves ter ficado maluco, de certeza! — gritou a coruja. — Para a água? Mas tu queres matar-me?
— Não te exaltes! — disse o pato. — Se queres, sentamo-nos então outra vez na erva. Vocês, corujas, são demasiado estúpidas para nadarem.
— E vocês, patos, são tão estúpidos que nem sabem pousar numa árvore!
— Oh, meu Deus — disse o pato. — Lá estamos nós a discutir outra vez.
— É porque tu começas sempre — retorquiu a coruja.
— Isso não é verdade — berrou o pato, furioso. — Não fui eu, tu é que começaste!
— Não, foste tu! — gritou a coruja.
— Ei, porque é que estás a gritar assim? — disse o pato.
— Eu não estou a gritar, tu é que estás! — disse a coruja.
— Não, tu é que estás!
— Oh, meu Deus! — disse a coruja. — Basta! Porque é que só sabemos discutir um com o outro?
— Porque tu fazes tudo errado.
— Eu não! — disse a coruja. — Tu é que fazes!
— Não, tu é que fazes! — disse o pato.
— Mas isso não tem importância. — disse a coruja. — Não é preciso discutir por uma coisa dessas.
O pato pensou melhor e disse:
— Também acho, não é preciso discutir por isso. Mas, olha, quem é que começa sempre?
— Eu acho que és tu.
— Não deves estar boa da cabeça — disse o pato. — Tu é que começas sempre!
— Uhm — disse a coruja — às vezes começo eu e tu imitas-me em seguida.
— Eu? — gritou o pato e bateu as asas com força.
— Não faças tanto vento — disse a coruja. — Queres que eu caia daqui a baixo?
— Pronto, está bem — diz o pato. — Mas se queres que sejamos
amigos, tens de acabar com a discussão.
— Pára tu! — disse a coruja.
Então o pato começou a rir e disse:
— Basta! Além disso, estou a ficar com fome. E a fome deixa-me impaciente. Vou mas é procurar alguma coisa para comer.
— E eu estou cansada. E sempre que fico cansada, fico zangada. Agora vou mas é dormir.
O pato voou para baixo. Aterrou no lago, voltou-se, olhou para cima e gritou:
— Então adeus, coruja. Dorme bem.
— Uhm — respondeu a coruja, sonolenta. — Dorme tu também, pato.
Já tinha os olhos quase a fecharem-se.
— Ah, é verdade — disse de seguida — tu não dormes. Só dormes quando fizer escuro. Bom dia para ti, pato. E até à próxima!


Hanna Johansen
Die Ente und die Eule
Zürich, Nagel & Kimche, 1988
Adaptado

sábado

A casa que o amor construiu - William W. Price

Esta história é verdadeira. Passou-se em França depois da Primeira Guerra Mundial, durante a qual uma aldeia inteira foi destruída pelos combates.

Marie acordou sobressaltada na escuridão cerrada e sentiu o cheiro familiar da sujidade. O seu pequeno corpo estremeceu com o frio húmido. Enquanto se levantava para arranjar a cama feita de trapos e de serapilheira no chão sujo, o pesadelo que lhe tinha abalado o sono pairava sobre ela como uma nuvem negra. Era todas as noites o mesmo pesadelo.

Começava sempre com um sonho agradável. Via a sua aldeia francesa muito amada. Depois via-se a sair com a Mãe e a Avó da casa velha e aconchegante, e a passar pela rua estreita. Debaixo de quase todas as janelas, havia floreiras garridas cujas flores se agitavam ao vento. O Sol resplandecia no campanário da igreja. Mas havia uma reverberação assustadora que vinha na direcção da aldeia: a reverberação das armas. Marie estremeceu de novo, à medida que sentia que o sonho feliz se tornava um terrível pesadelo. Vinham-lhe à cabeça recordações assustadoras. Aterrorizadas, a Mãe e a Avó tinham-na arrastado para as árvores. Aí, deitaram-se por terra. Soldados de uniforme azul passavam em colunas. Armas! Lutas! Explosões e gritos! Fogo! Quando tudo acabou, a aldeia deixara de existir.

À medida que a guerra se afastava, Marie, a Mãe e a Avó vasculharam, em lágrimas, o cascalho em que a sua casa se transformara. A pequena família mudou-se para uma antiga cave. “Como toupeiras nos buracos do chão”, pensara Marie com tristeza.

Enfiou-se nos trapos e voltou a cair num sono irregular. Na sua cabeça, os soldados continuavam a marchar. Depois dos soldados franceses em uniformes azuis, tinham vindo os soldados alemães em uniformes verdes. Para alívio de todos, depressa se foram embora. Depois vieram os uniformes caqui dos americanos. Os americanos riam-se e entregavam moedas francesas aos miúdos ávidos. Mas, quando partiram, a aldeia continuou em ruínas.

Quando Marie acordou de novo, o Sol brilhava através das fendas nas tábuas velhas que serviam de tecto. Ao ouvir sons estranhos, sentou-se num ápice. Algo de diferente estava a passar-se naquela manhã. Perguntava-se que sons seriam aqueles.

― Mãe, será que os soldados voltaram? ― perguntou ansiosamente.

― Não, minha querida. Vai lá acima ver quem chegou.

A Mãe parecia estranhamente contente.

Marie atirou com os trapos e subiu os degraus periclitantes da cave. Viu de imediato que outros homens, de uniforme cinzento, tinham vindo para a aldeia.

― Oh, Mãe! ― gritou excitada depois de os observar por algum tempo. ― Os soldados trazem serras e martelos, em vez de armas. Estão a construir casas.

Marie pensou que eram soldados porque traziam uniformes. Mas não eram soldados. Eram trabalhadores britânicos e americanos.

Marie pensou depressa. Desceu os velhos degraus a correr e pegou numa meia velha onde estavam seis cêntimos franceses que os soldados americanos lhe tinham dado. Era o único dinheiro que a sua família tinha. Enquanto voltava a subir as escadas, um misto de esperança e ansiedade fazia-a tremer a cada degrau. Correu para o chefe dos homens vestidos de cinzento.

Timidamente, estendeu a meia e mostrou-lhe os seis cêntimos.

― O senhor pode construir-me uma casa por seis cêntimos?

O homem pareceu surpreendido e pediu-lhe para repetir a pergunta. Quando finalmente compreendeu, não se riu nem sorriu, mas respondeu muito seriamente:

― Bem, Menina, veremos o que se pode fazer.

Não disse “Sim”, mas também não disse “Não”. Marie montou guarda todos os dias para ver o que aconteceria.

Uma por uma, foram-se construindo casas pequenas para outras pessoas. As casas eram pequenas e simples mas, para Marie, eram bonitas. Como ansiava por um chão de madeira limpo para varrer e um belo telhado de telhas vermelhas para impedir a chuva de entrar!

Será que se iriam embora sem construir uma casa para a família dela? Enquanto esperava e observava, a cave parecia-lhe mais escura e húmida do que nunca.

Quando estava quase a desistir de esperar, Marie obteve a sua resposta. A resposta era “Sim”.

A casa de Marie, tal como as outras, foi construída em apenas três dias. Para Marie era a casa mais bela do mundo.

No dia em que acabaram de a construir, o chefe dos homens de cinzento entregou, com muita cerimónia, a chave da porta de entrada a Marie, dizendo: ― Menina, a sua chave.

Marie pegou nela e abriu oficialmente a porta, enquanto a Mãe, a Avó e toda a aldeia a observavam.

Parou de repente, como se se recordasse de algo. Prometera-lhes os seis cêntimos pela casa, por isso esta ainda não era propriedade sua.

Voltou rapidamente a descer os velhos degraus da cave e, quando voltou, dirigiu-se ao chefe dos homens de cinzento. Agora que estava acabada, a casa parecia grande e os seis cêntimos pareciam pouco. Mas era tudo o que ela tinha, e foi-os contando à medida que os colocava na mão do chefe.

Será que chegava? Quase nem se atrevia a olhar para o homem.

Ele sorriu-lhe e disse solenemente (em Francês, claro):

― Obrigado, Menina, mas quatro cêntimos são suficientes. E devolveu-lhe dois cêntimos.


William W. Price (Texto adaptado)


Lightning candles in the dark
Philadelphia, FGC, 2001
Texto traduzido e adaptado

terça-feira

A guerra - Anaïs Vaugelade


Era a guerra. Todas as manhãs os homens partiam para os campos de batalha. Os que regressavam à noite traziam os mortos e os estropiados. Havia guerra há tanto tempo que já ninguém se lembrava da razão por que ela tinha começado.
Vítor II, rei dos Vermelhos, contava e recontava os soldados do seu reino. “Dez mais vinte faz trinta; ainda posso acrescentar cinquenta… Oitenta homens! Oitenta homens não chegam para ganhar a guerra.” E começava a chorar. Felizmente para ele, Vítor II, rei dos Vermelhos, tinha um filho que se chamava Júlio. Júlio entrava na sala do trono e dizia: — Coragem, Pai! — E o rei tornava a ter coragem.
Armando – XII, rei dos Azuis, também só tinha oitenta soldados e um filho. Mas, quando Armando XII ficava desanimado, o filho não sabia o que dizer. O filho de Armando XII chamava-se Fabiano e interessava-se pouco pela guerra. Passava os dias no parque, sentado num ramo. Um dia, Fabiano recebeu uma carta do príncipe Júlio:

Os nossos pais já quase não têm soldados; portanto, se és homem, pega no teu cavalo e na tua armadura. Marco-te encontro para amanhã de manhã no campo de batalha; bater-nos-emos em duelo e aquele que ganhar o combate ganhará ao mesmo tempo a guerra.
Assinado: Júlio
Fabiano suspirou. Nem por isso gostava muito de montar a cavalo. No dia seguinte, Fabiano chegou ao encontro montado numa ovelha.
— Em guarda! — disse Júlio.
— Béééé! — fez a ovelha.
Isto assustou o cavalo que se empinou na vertical. Júlio caiu.
— Estás ferido? — perguntou Fabiano.
Mas Júlio estava mais do que ferido, estava morto. Os soldados vermelhos berraram: — O combate foi falseado!
Fabiano quis explicar-lhes que tinha sido um acidente, mas, como eles tinham piques e lanças, preferiu fugir.
Armando XII, rei dos Azuis, esperava-o.
— Devias ter vergonha! — ralhou ele.
— Mas eu não fiz nada — disse Fabiano.
— Justamente — respondeu o pai. — Vergonha e vergonha a dobrar; expulso-te do meu reino.
Fabiano escondeu-se no parque. Era de tarde e os soldados tinham recomeçado a guerra; então, Fabiano decidiu fazer uma coisa: decidiu escrever duas cartas, uma para Armando XII e outra para Vítor II. As duas cartas diziam exactamente a mesma coisa:
Estou em casa do rei Amarelo, Basílio IV, que me deu um grande exército. Portanto, se sois homens, pegai nos vossos cavalos e nas vossas armaduras. Marco-vos encontro para amanhã de manhã no campo de batalha.
Assinado: Fabiano
Armando XII recebeu a carta nessa noite. — A nulidade do meu filho, um grande exército? — disse ele. — Devem ser só para aí uns oito e eu faço picado deles.
Quando Vítor II recebeu a carta, encolheu os ombros; declarou que esmagaria esse vencedor de combates falseados. Meteu a carta no bolso e foi deitar-se.
Quando viu chegar o exército Azul, o rei dos Vermelhos exclamou:
— Que fazeis vós aqui, Senhores? Nós temos encontro marcado com o exército Amarelo; portanto, abandonem este local.
— Imaginai, Senhores, que nós também temos encontro marcado com o exército Amarelo.
— Não compreendo — disse Vítor II, rei dos Vermelhos.
— Eu também não — disse Armando XII, rei dos Azuis.
Compararam as duas cartas.
— Na sua opinião, quantos serão os soldados Amarelos?
— Talvez oito ou oitenta ou, talvez, oitocentos…
— Que importa, se os Azuis são verdadeiros heróis? — disse Armando XII.
E Vítor II replicou: — Os Vermelhos não temem ninguém.
Ao meio-dia, os Amarelos ainda não tinham chegado. Embora bravos e não receando ninguém, o que é certo é que a espera enerva:
— Senhores — disse Armando XII — creio que, face a oitocentos homens, devíamos aliar os nossos exércitos.
— É justo! — respondeu Vítor II.
Esperaram ainda toda a tarde. Às sete, os reis discutiram se haviam de regressar aos seus castelos, mas decidiram que não, que era melhor ficar, para o caso de os Amarelos chegarem de noite; e mandaram vir sanduíches. No dia seguinte, os Amarelos continuavam sem chegar. Então, começaram a instalar tendas e a acender fogueiras. Ao terceiro dia, as mulheres dos soldados vieram com as suas caçarolas e colheres, porque não era possível sustentar dois exércitos a sanduíches. Ao quarto dia, trouxeram os bebés. E, ao quinto dia, as outras crianças, que se aborreciam sozinhas em casa. Os mais velhos montaram comércios. Ao décimo dia, o campo de batalha parecia uma aldeia.
Fabiano pensou: “Não tenho exército nem nunca tive; mas, graças a mim, a guerra acabou.” Então Fabiano foi a casa de Basílio IV, rei dos Amarelos, para lhe contar a história. Basílio riu muito quando ele falou no exército imaginário, mas chorou um pouco pelo príncipe Júlio, morto tão estupidamente; e chorou até por todos os soldados dos quais nem mesmo sabia o nome.
Basílio IV achou que Fabiano era o mais esperto e também o mais ajuizado; e, como não tinha filhos, pediu-lhe que fosse o príncipe dos Amarelos e que reinasse, mais tarde, no seu reino. O rei Fabiano foi um excelente rei. E, é claro, durante o seu reinado, nunca houve nenhuma guerra.

Anaïs Vaugelade
A guerra
Porto, Editora AMBAR, 2002
Adaptação


Retirado com autorização de VERTICALIZAR

segunda-feira

Os três astronautas - Umberto Eco


Era uma vez a Terra.
E era uma vez Marte.
Ficavam muito longe um do outro, no meio do céu, e à volta havia milhões de planetas e de galáxias.
Os homens que estavam na Terra queriam ir a Marte e aos outros planetas: mas estavam tão longe!
Porém não descansaram. Primeiro lançaram satélites que andavam à roda da terra por dois dias e depois vinham de novo.
Depois lançaram foguetões que davam algumas voltas à Terra mas, em vez de regressarem, acabavam por escapar à atracção terrestre e seguiam para o espaço.
Primeiro, puseram cães nos foguetões: mas os cães não sabiam falar, e pela rádio só transmitiam “béu béu”. E os homens não percebiam o que eles tinham visto e até onde chegavam.
Por fim arranjaram homens corajosos que quiseram ser cosmonautas. Os cosmonautas tinham este nome porque iam explorar o cosmos, que é o espaço infinito com os planetas, as galáxias e tudo o que têm à sua volta.
Os cosmonautas partiam e não sabiam se voltariam ou não. Queriam conquistar as estrelas para que um dia todos pudessem viajar de um planeta para outro, porque a Terra se tornara demasiado apertada e os homens aumentavam de dia para dia.
Numa bela manhã, partiram da Terra três foguetões de três pontos diferentes.
No primeiro ia um americano, que, todo alegre, assobiava uma ária de jazz.
No segundo ia um russo que cantava com voz profunda Volga, Volga.
No terceiro ia um chinês, que cantava uma belíssima canção, que os outros dois achavam desafinada.
Cada um queria ser o primeiro a chegar a Marte, para mostrar que era o mais valente.
Na verdade, o americano não gostava do russo e o russo não gostava do americano, e o chinês desconfiava dos dois.
E isto, porque o americano, para dizer bom dia, dizia: how do you do, o russo dizia 3дpacтвyйte e o chinês dizia bom dia em chinês. Não se percebiam e julgavam-se diferentes.
Como os três eram todos valentes, chegaram a Marte quase no mesmo instante. Desceram das suas astronaves, de capacete e fato espacial... E descobriram uma paisagem maravilhosa e inquietante: o terreno era sulcado por longos canais cheios de uma água de cor verde-esmeralda. Havia estranhas árvores azuis com aves nunca vistas, de penas de cores estranhíssimas. Lá no horizonte viam-se montanhas vermelhas que emitiam estranhos brilhos.
Os cosmonautas olhavam a paisagem, olhavam uns para os outros, e mantinham-se afastados, cada um desconfiado dos outros. Depois veio a noite.
Havia à roda um estranho silêncio, e a Terra brilhava no céu como se fosse uma longínqua estrela.
Os cosmonautas sentiam-se tristes e perdidos e o americano, na escuridão, chamou pela mãe. Disse Mommy...
E o russo disse: Mama.
E o chinês disse: Ma-ma.
Mas compreenderam logo que estavam a dizer a mesma coisa e tinham os mesmos sentimentos. E sorriram, aproximaram-se, acenderam juntos uma bela fogueira, e cada um cantou canções do seu país.
Então encheram-se de coragem e, à espera da manhã, aprenderam a conhecer-se.
Por fim, veio a manhã e fazia muito frio. E, de repente, de um tufo de árvores saiu um marciano. Tinha um aspecto horrível! Era todo verde, tinha duas antenas no sítio das orelhas, uma tromba, e seis braços. Olhou para eles e disse: Grrr!
Na sua língua queria dizer: “Mãezinha, o que são estes seres horríveis?”
Mas os terrestres não o compreenderam e julgaram que era um rugido de guerra. Era tão diferente deles que não foram capazes de o compreender e de o amar. Os três sentiram-se logo iguais e uniram-se contra ele.
Perante aquele monstro, as suas pequenas diferenças desapareciam. Que importava se falavam uma linguagem diferente? Compreenderam que eram os três seres humanos. O outro não. Era demasiado feio, e os terrestres pensavam que quem é feio também é mau. Por isso resolveram matá-lo com os seus desintegradores atómicos.
Mas, de repente, na grande geada da manhã, um passarinho marciano, que, evidentemente, fugira do ninho, caiu no chão, tremendo de frio e de medo. Piava desesperadamente, mais ou menos como um passarinho terrestre. Fazia mesmo pena. O americano, o russo e o chinês olharam-no e não conseguiram reter uma lágrima de compaixão.
E então aconteceu uma coisa estranha. Também o marciano se aproximou do passarinho, olhou para ele, e deixou escapar da tromba dois fios de fumo.
E os terrestres, de repente, compreenderam que o marciano estava a chorar à sua maneira, como fazem os marcianos.
Depois viram-no baixar-se para o passarinho e segurá-lo nos seus seis braços, tentando aquecê-lo.
O chinês voltou-se então para os dois amigos terrestres.
— Compreenderam? — disse. — Nós julgávamos que este monstro era diferente de nós, e afinal ele também ama os animais, pode comover-se, tem um coração e certamente um cérebro! Ainda acham que devemos matá-lo?
Nem era pergunta que se fizesse.
Os terrestres agora tinham compreendido a lição: não basta que duas criaturas sejam diferentes para que tenham de ser inimigas.
Por isso aproximaram-se do marciano e estenderam-lhe as mãos. E ele, que tinha seis, apertou de uma vez só a mão aos três, enquanto com as mãos livres fazia gestos de saudação.
E, apontando para a Terra, lá em cima no céu, deu a entender que desejava fazer uma viagem para conhecer os outros habitantes e estudar com eles a maneira de fundar uma grande república espacial, em que todos vivessem com amor e concórdia.
Os terrestres disseram que sim, todos contentes. E para festejar o acontecimento, ofereceram-lhe uma garrafinha de água fresquíssima trazida da terra. O marciano, muito feliz, meteu o nariz na garrafa, aspirou e disse que gostara muito daquela bebida, se bem que lhe fizesse andar a cabeça à roda. Mas agora os terrestres já não se espantavam. Tinham concluído que na Terra, tal como nos outros planetas, cada um tem os seus gostos, e é só questão de se compreenderem uns aos outros.


Umberto Eco; Eugenio Cami
Os três astronautas
Lisboa, Quetzal Editores, 1989
adaptação

A ladeira - José Fanha


Era uma vez dois homens. Um era alto, outro baixo. Um era gordo, outro magro. Um moreno, o outro ruivo. Um tinha a voz muito grossa e outro uma borbulha na ponta do nariz. Um chamava-se Manuel Francisco e o outro Francisco Manuel. E muito mais coisas poderia dizer de cada um deles. Mas, o fundamental, é que eram muito diferentes um do outro. Só numa coisa se assemelhavam: ambos eram tremendamente teimosos.

Na terra onde viviam havia uma ladeira íngreme, inclinada, cheia de pedras e calhaus. Uma ladeira daquelas que a gente só sobe ou desce quando não pode deixar de ser.

Um dia, um dos homens ia a subir a ladeira quando o outro vinha a descê-la. Como é natural, encontraram-se a meio. Bem... A meio, a meio, exactamente a meio, não tenho a certeza se foi. Talvez tenha sido um bocadinho mais para cima ou um bocadinho mais para baixo. Para a nossa história esse pormenor não tem grande importância e, por isso, vamos fazer de conta que foi a meio.

Mais ou menos a meio da ladeira, os dois homens encontraram-se, pararam à frente um do outro e desataram a discutir. Um ia a subir e, por isso, achava que a ladeira era uma subida. O outro vinha a descer e, pelo contrário, garantia que se tratava de uma descida.

Sem chegar a acordo, sentaram-se ali mesmo no chão para tirar a questão a limpo. Quem os conhecesse, sabendo que eram homens de palavra fácil, capazes de inventar sólidas razões e grandes argumentos, logo via que aquela discussão ia demorar. E demorou.

Passaram-se sete dias e sete noites e a discussão não parava. Veio a Lua e foi-se o Sol, veio o Sol e foi-se a Lua e os dois homens a discutir. Nem o frio, nem o calor, nem a chuva, os distraiu. Continuavam na mesma. Para um, aquela ladeira era uma subida porque subia de baixo para cima. Para o outro, era uma descida porque descia de cima para baixo.

A discussão continuou e continuou. À sétima noite começou a soprar um vento muito forte. Um vento tão forte e violento que arrancava terras, árvores e pedras e as atirava de um sítio para outro. Um vento daqueles capazes de trabalhar lentamente, séculos e séculos a fio, para mudar a face da Terra e transformar montes em covas fundas e buracos de meter medo nas mais altas montanhas.

O tempo passou. O vento mexeu com tudo. Mudou a paisagem. Transformou o mundo. Só os dois homens continuavam sentados no meio da ladeira sem darem por nada do que acontecia à sua volta. Estavam tão preocupados, cada um, em ganhar a discussão que não sentiram nem a chuva na pele, nem o frio nos ossos, nem o sol na moleirinha.

Passaram-se sete mil noites e sete mil dias, os homens a discutir e o vento a trabalhar.

A ladeira, a pouco e pouco, ia ficando diferente. A parte mais alta cada vez menos alta, e a parte mais baixa a crescer sem parar à custa de entulho, areia, calhaus e pedrinhas que a tornavam cada vez menos baixa.

Um belo dia, a parte de baixo e a parte de cima da ladeira ficaram iguais, da mesma altura e, portanto, a ladeira desapareceu. A terra ficou direitinha, lisa, uma planície que se estendia até perder de vista.

O vento, sem mais nada que fazer ali, foi trabalhar para outro lado. Os dois homens que, como eu já disse, eram muito teimosos, continuavam a discutir se a ladeira era uma subida que se descia ou uma descida que se subia.

A certa altura, olharam em volta, para um lado e para outro, até onde a vista podia alcançar. Aperceberam-se então que a ladeira tinha desaparecido. Olharam um para o outro, levantaram-se, cumprimentaram-se e, cheios de orgulho, afastaram-se cada um em sua direcção, ambos seguros de que tinham ganho a discussão.

José Fanha
A noite em que a noite não chegou
Porto, Campo das Letras, 2001


A estrela de Erika - Ruth Vander Zej


Nota da autora

Em 1995, cinquenta anos depois do fim da Segunda Guerra Mundial, encontrei a mulher de que fala esta história. O meu marido e eu estávamos sentados na beira de um passeio em Rothenburg, na Alemanha. Observávamos uns trabalhadores a limparem as ruínas do telhado da Câmara. Na noite anterior, um tornado tinha-se abatido sobre esta bonita aldeia medieval. Havia entulho um pouco por todo o lado. Um velho comerciante disse-nos que os estragos causados por este tornado se assemelhavam aos da última ofensiva dos Aliados durante a guerra. O comerciante entrou na sua loja, e uma senhora, sentada perto de nós, apresentou-se como sendo Erika.

Perguntou-nos se tínhamos vindo fazer turismo naquela região. Quando lhe disse que vínhamos de Jerusalém, onde passáramos duas semanas a fazer pesquisas, confessou-nos, com um suspiro, que desejava muito lá ir mas que não tinha dinheiro para a viagem. Ao ver uma estrela de David pendurada ao seu pescoço, disse-lhe que, no regresso de Israel, tínhamos passado pelo campo de concentração de Mauthausen, na Áustria. Erika confessou-nos que, um dia, tinha tentado visitar o campo de Dachau, mas que não conseguira franquear a porta.

Depois, contou-nos a sua história…



Entre 1933 e 1945, seis milhões de homens e mulheres do meu povo foram mortos. Muitos foram fuzilados. Muitos morreram de fome. Muitos foram incinerados nos fornos ou asfixiados nas câmaras de gás. Eu escapei.

Nasci em 1944.

Não sei o dia.

Não sei como me chamava ao nascer.

Não sei em que cidade nem em que país nasci.

Não sei se tive irmãos ou irmãs.
O que sei é que, apenas com alguns meses, escapei ao Holocausto.

Imagino muitas vezes como seria a vida dos membros da minha família durante as últimas semanas que passámos juntos. Imagino o meu pai e a minha mãe, despojados de todos os seus bens, forçados a abandonar a sua casa, enviados para o gueto.

Talvez depois tenhamos sido expulsos do gueto. De certeza que os meus pais tinham pressa de deixar o bairro rodeado de arame farpado para onde tinham sido relegados, de escapar ao tifo, ao excesso de pessoas, à imundície e à fome. Mas teriam alguma ideia do local para onde estavam a ser enviados? Ter-lhes-iam dito que iam para um local mais acolhedor, onde teriam comida e trabalho? Terão chegado até eles os rumores sobre os campos da morte?

Pergunto-me o que terão sentido quando os conduziram à estação, juntamente com centenas de outros judeus. Amontoados num vagão de transporte de animais. De pé, uns contra os outros, por falta de espaço. Terão entrado em pânico quando ouviram correr os ferrolhos?

De aldeia em aldeia, o comboio deve ter atravessado paisagens campestres estranhamente poupadas ao terror. Durante quantos dias ficámos naquele comboio? Quantas horas os meus pais passaram apertados um contra o outro?

Imagino que a minha mãe devia ter-me bem encostada a ela para me proteger dos maus cheiros, dos gritos, do medo, que reinavam neste vagão lotado. Tinha de certeza compreendido que não íamos para um lugar seguro.

Pergunto-me onde estaria exactamente. No meio do vagão? O meu pai estaria junto dela? Ter-lhe-á dito que fosse corajosa? Terão falado do que iam fazer?

Quando teriam tomado aquela decisão? Será que a minha mãe disse “Desculpa. Desculpa. Desculpa.”? Terá aberto a custo um caminho por entre aquela mole humana até à janela do vagão? Terá murmurado o meu nome ao embrulhar-me num cobertor bem quente? Terá coberto a minha cara de beijos e dito que me amava? Terá chorado? Rezado?

Logo que o comboio abrandou, ao atravessar uma aldeia, a minha mãe deve ter espreitado pela fresta do vagão. Ajudada pelo meu pai, deve ter afastado o arame farpado que ocultava a abertura. Deve ter esticado os braços para a luz pálida do dia. A única coisa que sei com certeza foi o que aconteceu a seguir.

A minha mãe atirou-me pela janela do comboio.

Atirou-me para cima de um pequeno quadrado de relva, junto de uma passagem de nível. Havia pessoas à espera de que o comboio passasse; viram-me cair do vagão de carga. No caminho que conduzia à morte, a minha mãe lançou-me à vida.
Alguém pegou em mim e levou-me para casa de uma mulher que se ocupou de mim. Que arriscou a vida por mim. Calculou a minha idade e atribuiu-me uma data de nascimento. Decidiu que me chamaria Erika. Deu-me um lar. Alimentou-me, vestiu-me, mandou‑me à escola. Fez tudo por mim.

Casei aos vinte e um anos com um homem maravilhoso. Ele aliviou muita da tristeza que me assaltava com frequência, percebeu o meu desejo de pertencer a uma família. Tivemos três filhos, que hoje têm os seus filhos também. No rosto deles, reconheço o meu.

Dizia-se outrora que o meu povo seria um dia tão numeroso como as estrelas do céu. Entre 1933 e 1945 caíram seis milhões de estrelas do céu. Cada uma delas corresponde a um membro do meu povo, cuja vida foi rasgada, cuja árvore genealógica foi arrancada.

A minha árvore lançou raízes.
A minha estrela ainda brilha.



Ruth Vander Zej ;Roberto Innocenti
L’étoile d’Erika
Toulouse, Milan Jeunesse, 2003

tradução e adaptação

Retirado com autorização do blogue Violência, que futuro para a humanidade?


O soldadinho, a menina e a pomba - Leonel Neves


O soldado marchava de cá para lá, de lá para cá, na rua sem mais ninguém, diante da porta aberta do quartel. De farda especial e capacete, com a mão direita no punho da espingarda automática encostada ao braço, marchava vinte passos para lá; então parava, batendo com as botas no chão, para fazer meia-volta; e depois marchava vinte passos para cá, para fazer outra meia-volta e continuar a andar os mesmos vinte passos.

Estava de sentinela. De guarda ao quartel, era sua obrigação ver muito bem a entrada e a saída de militares e atender alguma pessoa estranha que por ali aparecesse.
Chegara no seu posto meia-hora antes, ainda quase de noite. Como então havia nevoeiro e muito frio, marchara muitas vezes de cá para lá, de lá para cá, batendo com as botas no chão, com muita força, para se aquecer. E, de vez em quando, metera-se dentro da guarita, aquela casota de madeira de onde, mais abrigado, podia continuar a ver tudo o que perto dele acontecesse. Dentro de nevoeiro, parado ou só podendo andar os tais vinte passos, o soldado fazia lembrar um peixe num aquário.

Agora lá andava ele, de um lado para o outro, diante da porta aberta do quartel, onde ninguém entrava e de onde ninguém saía. A rua estava deserta. Nem sequer o Sol, que decerto já tinha nascido, conseguira furar o nevoeiro que toda a noite tinha sido uma manta a embrulhar a cidade. Agora era como um lençol quase transparente, esburacado, mas ainda mal deixava ver muitas casas, algumas árvores e mesmo parte daquela rua.

Ora, a certa altura, o soldado ouviu um leve rumor e viu um pequeno vulto que se aproximava. Logo interrompeu a sua marcha, mesmo junto da guarita, e, com muita atenção, ficou a olhar e foi como se, de repente, a manhã tivesse finalmente começado a descer a larga rua do quartel. Uma menina de bibe branco, boina e sandálias vermelhas, com uma malinha às costas, vinha andando na direcção dele, pulando às vezes, às vezes parando; e, batendo as asas em volta dela, um pombo cinzento rosado, da cor da madrugada, vinha voando com a menina. Mas ela, após três ou quatro passos, parava: e o pombo, então, procurava-lhe as mãos, como se quisesse beijá-las. Assim de longe, lembrava uma borboleta a querer poisar numa flor que tivesse começado a andar.

O soldado estacara junto da guarita, imóvel, em posição de descanso, com as pernas afastadas, as mãos cruzadas à sua frente, a segurar o punho da espingarda automática que parecia agora adormecida ao colo dele.

Com a menina e o pombo já mais perto, percebia melhor o que estava acontecendo. A pequenita trazia nas mãos um cartucho, donde tirava bagos de milho que o pombo lhe ia comendo na palma da mão. E, de súbito, veio correndo até junto do soldado e parou diante dele, com a ave empoleirada num dos ombros. Então disse:

— Bom dia!

Antes de responder, ele descruzou as mãos e ficou com a direita caída a segurar a arma ao longo do braço, e a esquerda muito esticada junto à coxa, ao mesmo tempo que unia os calcanhares, com um grande estalo das botas. Estava em sentido. E ia falar, quando o pombo começou a esvoaçar e a menina a rir.

Devia ter uns sete ou oito anos, muito pequeninos e alegres. Alguns caracóis de cabelo negro escapavam-se da boina vermelha, sobre uns grandes e lindos olhos verdes, num rosto de ar travesso, com um sinalzinho preto à esquerda do nariz arrebitado. E toda ela, desde a boina à boca, ria.

— É por mim que fazes isso? — perguntou, com o pombo empoleirado no outro ombro.

— Uma sentinela deve pôr-se em sentido quando fala com um civil — respondeu o soldado.

— Ai, eu sou um civil — exclamou ela, ainda a rir. — Pois não vês que sou uma menina?

— Bem vejo que é uma menina. Deseja alguma coisa?

— Sim. Quero saber se viste passar o meu avô.

— O seu avô? Não, não vi. Desde que aqui estou, ninguém entrou nem saiu. E há quase meia hora que ninguém passa por esta rua.

— Então, não viste o meu avô? — murmurou a pequenita, muito desgostosa.

E, enquanto tirava do cartucho um bago de milho para o pombo, lamentou-se:

— Sem o meu avô não sei como hei-de resolver o meu problema. Tu é que talvez possas ajudar-me...

— A menina precisa de ajuda?

Ela fez uma careta de impaciência:

— Ai, não faças tanta cerimónia! Porque é que continuas em sentido e a tratar-me por menina? Olha, eu sou a Renata. E esta é a Rita, acrescentou, dando à pomba outro bago de milho. E tu?

— Eu sou o 154.

— O 154? Ora! Trata-me por tu e diz-me o teu nome.

— Ernesto. Na tropa sou o 154, mas chamo-me Ernesto. Mas como é que a menina...

— Como é que tu...

— Está bem! Como é que tu sabes que é uma pomba?

— Como é que eu sei! — exclamou a pequenita, abanando a cabeça. — Sei porque sou muito amiga dela, porque fui eu que lhe pus o nome de Rita, porque é minha vizinha e porque anda a chocar uns ovos que eu quase a vi pôr. E esse é que é o problema!

— Que problema?

Então a Renata explicou qual o problema, acrescentando que era grave. A Rita andava a chocar os seus ovos, em breve ia ser mãe e precisava de comer muito bem, para poder criar uns pombinhos fortes e bonitos como ela. Por isso, todas as manhãs, antes de ir para a escola, costumava dar-lhe milho. Mas naquele dia acordara mais tarde e tinha-se visto obrigada a trazer a pomba com ela, porque a Rita estava habituada a comer bagos, um a um e pouco a pouco, nas mãos da sua amiga Renata. Ora ela tinha de ir já para a escola e só metera por aquela rua para encontrar o avô, que tinha vindo para ali poder dar à pomba o resto do milho...

E, com um ar muito contrariado, concluiu:

— Mas tu dizes que não viste o meu avô... Portanto, como não vejo aqui mais ninguém, só tu é que podes ajudar-me.

— Eu? Tenho muito pena, mas não pode ser. Eu estou de sentinela.

— Já sei! Mas tu mesmo disseste que ninguém tem passado por aqui. Por isso, ninguém pode ver. E eu não conto nada. Olha que já faltam poucos bagos — disse a Renata, dando mais um à pomba que não ficava quieta.

— Tenho muito pena...

— Ernesto, Ernesto! — exclamou a menina, olhando-o com uma expressão muito triste. — Pareces um rapaz muito simpático, mas afinal...

Ele tinha, de facto, um aspecto muito simpático. Baixo, loiro, de olhos azuis, corado e quase imberbe, era naturalmente risonho. Mas agora estava preocupado.

— Não posso, Renata. Se alguém me visse... Se o nosso sargento me apanhasse...

A pomba continuava a bater as asas, à roda do cartucho. A menina, abanando a cabeça, murmurava:

— E eu tenho de ir já para a escola! Tu bem podias, se quisesses... E agora?

Foi então que, vendo que duas lágrimas o espreitavam daqueles grandes e lindos olhos verdes, o soldado não resistiu mais.

— Pronto! Dá cá o milho e vai depressa para a escola. Eu cá trato da Rita... e seja o que Deus quiser!

Como o Ernesto se inclinava para ela, para melhor agarrar o cartucho, a menina pendurou-se-lhe ao pescoço e deu-lhe um grande beijo, dizendo:

— Eu juro que não conto nada a ninguém. Só hei-de dizer ao meu avô que encontrei hoje um soldadinho muito bom e muito bonito. Adeus, amigo Ernesto!

E deixando a pomba a esvoaçar em volta da sentinela, a Renata desatou a correr a caminho da escola, sem olhar para trás, mesmo de costas acenando adeus.

Risonho e pensativo, o soldado ficou a ver a menina desaparecer. Mas a pomba picava-lhe a mão... Despertou e só então desfez a posição de sentido, passando à de descanso: com a espingarda automática ao colo, as pernas afastadas e as mãos à frente, amparando o punho da arma... mas abertas, uma com o cartucho, a outra com a pomba.

Olhou à sua volta: ninguém! Até o nevoeiro parecia voltar de novo, a querer ajudá-lo. E o Ernesto deu à Rita mais um bago de milho.

De repente, vindo do quartel, um som de clarim estilhaçou o silêncio. Estremeceu, mas logo se acalmou, pensando: «É o toque do rancho, para o pequeno-almoço. Agora não é provável que alguém venha à porta.»

Continuou a dar o milho à Rita, contando os bagos que restavam: eram três. Pô-los na concha da mão, deitando fora o cartucho, logo arrastado pelo vento que acordara e desfazia os últimos farrapos de nevoeiro. O sol ia já doirando as coisas. E, quando havia um só bago de milho, o soldadinho, muito distraído, pressentiu de repente alguém que vinha já muito perto dele. Ao perceber quem era, quase desmaiou.

Como estava inclinado para a pomba, ao princípio só viu, pisando o chão, um par de botins ou botas altas. «Oficial ou sargento?» — pensou. Eram botas altas: «Oficial!». Depois, nos ombros, muitos galões amarelos, um largo e três estreitos: «Coronel! Coronel?». Por fim, um monóculo a faiscar ao Sol agora todo descoberto: «O nosso Comandante!»

Ora tudo isso, o que ele via e o que ele ia pensando, não demorou mais do que um segundo. E, nesse segundo, o soldado compreendeu que aquele oficial muito alto e magro, sempre sério e de monóculo, que estava quase junto dele, era nem mais nem menos do que o excelentíssimo senhor coronel Rijo, o Comandante do Regimento!

Imediatamente se pusera em sentido. A pomba, assustada com o bater dos calcanhares, afastara-se um pouco. E o último bago de milho, que não deixara cair no chão, não fosse o coronel vê-lo, ficara bem apertado pela mão encostada à perna esquerda. Mas agora, como o Comandante do Regimento tinha chegado ao quartel, era sua obrigação de sentinela dar um grito de alarme: «Às armas!»

Era assim: ele bradava às armas, a guarda vinha logo, a correr, e formava junto da sentinela; o corneteiro tocava, de maneira que, em qualquer parte do quartel, toda a gente ficava sabendo que chegara o Comandante, e por isso devia pôr-se em sentido; e a guarda apresentava armas, o Comandante fazia a continência, e só então entrava.
Ora já ele ia abrindo a boca, pronto a gritar, quando o coronel fez com a mão um gesto muito claro e firme, a dizer-lhe que não, que se mantivesse calado. E ele ficou de boca aberta, atrapalhado, com a pomba, que voltara logo, empoleirada num ombro. Resolveu então fazer o movimento de «apresentar armas»: a espingarda vertical, com a ponta em frente do nariz, segura pela mão direita no punho e pela mão esquerda um pouco mais para acima. Já manejava a arma, quando novamente o Comandante lhe fez um sinal para ficar quieto. Obedeceu, retomando a posição de sentido. E, aproveitando a confusão dos seus próprios gestos, com a boca ainda aberta, para lá atirou o bago de milho.

«Se for preciso, engulo-o...», pensou.

Mas não foi preciso. O Comandante manteve-se por momentos parado diante da sentinela em sentido e com a pomba no ombro esquerdo. Depois disse, em voz baixa:

— Descansar!

O soldado hesitou um pouco... mas, como os comandantes é que mandam, executou o movimento. A pomba, essa, limitou-se a passar para o ombro direito. O coronel olhou-os mais uns segundos. Depois, sem uma palavra, dirigiu-se para a porta do quartel.

Na boca de Ernesto, o bago de milho era agora como um bago de chumbo. Por isso, empurrou-o com a língua, até o entalar entre os dentes. Mas, antes que tivesse tempo de soprá-lo para o chão, a pomba saltou-lhe do ombro e foi comer-lhe, na boca, aquele último bago.

Ora o Comandante, que ia mesmo a entrar, voltou-se nesse instante. E viu, junto da guarita, o soldado em descanso, de cabeça parada, com a pomba a tocar-lhe os lábios com o bico, exactamente como se estivesse a beijá-lo.

Então a sentinela agitou levemente as mãos (seria um gesto de adeus?) e a pomba voou para longe, no momento em que o Comandante entrava finalmente no quartel.

Leonel Neves

Manuela Fonseca e outros (org.)
Lá longe, a paz
Porto, Edições Afrontamento, 2001
Texto retirado com autorização do blogue Caminhos para a paz

O baile das flores - Sigrid Laube

— Hoje vou ao baile das flores — anunciou o repolho. — Quem quer vir comigo?
— Ao baile das flores? — sussurrou a cebola, horrorizada. — Para que é que temos o nosso Baile da Salada Russa? É muito mais divertido!
— Tu ficas bem entre iguais — disse a alface. — O teu lugar é aqui e tudo mantém a sua devida ordem.
O pepino anuiu sabiamente com a cabeça.
— Cautela com as flores do jardim do outro lado da cerca — continuou a alface. — Andam de nariz levantado e olham-nos de cima para baixo. Não passam de ervas sentadas em vasos!
— Não queremos ter nada a ver com elas — disseram as ervilhas. Um arrepio percorreu-lhes as vagens e tilintaram, venenosas:
— Aquelas perfumadas da horta não passam de umas campainhas de enfeite…
— Mas o que é que vocês todos têm contra as flores? — suspirou o repolho tristemente. — Eu gostava muito de ir ao baile delas mas, sozinho, não me atrevo.
— Eu não tenho nada contra as flores. Só têm um aspecto diferente do nosso e às vezes não cheiram tão bem como nós — disse a cenoura pensativa. E calou-se por um momento.
— Sabes que mais? Também vou contigo — decidiu, com um estremecimento da raiz à ponta das folhas.
— Óptimo!
O repolho limpou as folhas e enfeitou-se com uma peninha. A cenoura encontrou uma linda máscara para si.
— Mas que bonitos que vocês estão! — elogiaram os rabanetes e, de repente, deixaram de ter caras coradas e alegres.
O repolho empertigou-se e ofereceu à cenoura um braço forte.
— A menina vem?
Ela acenou com a cabeça, animada, e, de pé leve, deixaram a horta.
No baile, a animação já tinha começado. As flores tinham pedido ajuda ao galo, às galinhas e ao salgueiro. Os grilos cantavam com afinco e os pardais chilreavam ritmos quentes. A água espumava e borbulhava. Alguém tinha aberto a pipa da água da chuva e o escaravelho servia-a aos convidados.
Sentado à entrada, o cão de guarda meneava a cabeça. — Os convidados já estão um bocadinho tocados!…
Repolho e cenoura passeavam pelo baile e iam cumprimentando à direita e à esquerda.
— Quem são estes? — cochichava um cravo a uma tulipa mais velha.
Esta olhou por cima dos óculos e torceu o nariz.
— Legumes, diria eu…
O cravo ficou sem poder respirar e coçava as pétalas, atónito.
— Mas que horror! — exclamou. — Legumes crus no nosso baile. Que indecência!
— Mas o que é que eles têm de vir aqui fazer? Foram ao menos convidados? — queria saber uma rosa.
— Mas que gente tão simplória, não acha, minha querida?
O rosmaninho fez uma vénia perfeita em frente da rosa e levou-a para a pista de dança. Ela ainda era jovem e vermelha.
— Devíamos pô-los daqui para fora. Onde é que já se viu, legumes desconhecidos no nosso baile! — a rosa canina endireitava-se, pronta a picar. — Que gentinha miserável, que ervas insignificantes!
— Nem mais! Não passam de mergulhadores de sopa sem graça, e de pastéis mal-cheirosos — um malmequer arrepiava-se todo, já meio enjoado.
O repolho ouvia o falatório e os cochichos, e reparava como as rosas se encolhiam, os cravos tremiam de indignação e um amor-perfeito até tivera um ataque de soluços.
— Parece eles não gostam de nós — disse à cenoura.
— É pena. A música deles é tão bonita — respondeu a cenoura, sonhadora. Cheirou o ar à sua volta. — E há um perfume no ar. É fantástico!
Pensou um pouco.
— Fizemos-lhes algum mal? — perguntou ao repolho.
— Não. Fizeram-nos eles algum mal? — perguntou ele.
— Não — respondeu a cenoura.
— Então pronto, ninguém tem razões para estar zangado.
O repolho sentiu-se mais tranquilo e confiante. Compôs a pena e fez uma vénia à cenoura.
— Estou tão só, menina — disse. — Dá-me a honra?
A cenoura sentiu-se feliz. A noite estava morna, a luz era suave e os pirilampos estavam bem-dispostos. A lua rolou no céu e apareceram estrelas, curiosas. Era uma noite perfeita.
A cenoura piscou-lhe um olho através da máscara. — Será um prazer — disse, estendendo-lhe uma folha delicada.
Misturaram-se com os bailarinos. Um gladíolo recuou quando os viu, e chegaram a pisar os pés de uma dália.
— Se ao menos fossem ervas daninhas — suspirou uma glicínia — ainda floriam quase como nós — mas calou-se, admirada.
O repolho tinha agarrado a cenoura pela cintura e dançavam uma animada rumba-feijoca. Em seguida, deslizaram um maravilhoso tango-pepino e, por fim, saltaram ainda um elegante cha-cha-cha-piri-piri. A cenoura ia ficando sem fôlego, mas seguiu-o corajosamente e não caiu uma única vez. Os dois formavam um par bonito de se ver e as flores aplaudiram, a contra-gosto.
Depois de ver isto, lírio ousou por fim dirigir-se à cenoura e o repolho convidou uma margarida para dançar. Tocou-se uma valsa encantadora. Depois, a cenoura dançou um galope com um manjerico e o repolho foi buscar a gerbera para uma animada polca.
Foi uma bela noite.
Todos puderam conversar, conhecer-se e cheirar-se.
— Nós vamos convidar-vos para a nossa Salada Russa — prometeu o repolho ao despedir-se.
— E vocês voltam no próximo baile, não é? — perguntou o lírio diligente, que tinha deitado uns olhinhos à cenoura.
Os dois entraram em casa em bicos de pés. Estavam felizes, muito cansados e não queriam acordar ninguém.
Quando o repolho estava quase a adormecer murmurou:
— Quem diria? Tenho de escrever a história desta noite para nunca a esquecer.
— E eu desenho-te algumas imagens — sussurrou a cenoura — e ficamos com um livro.
Os olhos fecharam-se-lhe. — E um dia mais tarde havemos de lê-lo aos nossos netos.
E começou a ressonar baixinho.




Sigrid Laube; Silke Leffler
Der Blumenball
Wien, Annette Betz Verlag, 2005

Texto adaptado

O Macarronete - Willi Fährmann


A Sr.ª Joana estava de vigia durante o intervalo grande.
Da zona dos quartos de banho, soava em coro:
“Tónio Macarronete tem lêndeas e uma pulga no barrete.”
Correu para o magote de crianças que se acotovelavam num círculo fechado à volta de Tónio Zuccarelli.
Tónio tinha as mãos enfiadas nos bolsos das calças, a cabeça encolhida e os olhos pregados no chão. Era um palmo mais alto do que as restantes crianças da terceira classe.
— “Tónio Macarronete…” — recomeçava Carlos Blum a cantar.
— Acabou! — gritou a Sr.ª Joana, separando as crianças. — É muito feio andarem sempre a aborrecer o Tónio — ralha à sua classe.
— Ele é engraçado quando fica furioso — diz Carlos Blum.
— Fica parecido com um cão que farejou um gato — grita Sílvia.
— Calados! Ninguém se parece com um cão.
— Quando Tónio se enfurece, fica parecido com o nosso cão. —replica Sílvia.
— É isso mesmo! — confirma Carlos, embora nunca tenha visto o cão de Sílvia.
Carlos está zangado com Tónio. Antes do Italianito ter vindo para a turma, Carlos era o mais forte. Mas Tónio suplantou-o. E o Sr. Blum também dizia: “ Os Esparguetes aqui só nos tiram os postos de trabalho.”
Por que é que a Sr.ª Joana tinha de ter sentado o Italianito precisamente na mesa de Carlos? O pai também tinha dito: “Nem deviam deixar os estrangeiros frequentar as escolas alemãs.”
Depois do intervalo, a Sr.ª Joana faz uma proposta:
— Como estamos no Advento, vamos fazer um jogo bonito — diz.
— Escrevi o vosso nome em papelinhos. Cada um vai tirar um nome mas ninguém deve dizer o que lhe saiu.
— Não se pode dizer a ninguém? — pergunta Sílvia.
— A ninguém. Depois cada um de vocês vai fazer as vezes de gnomo para aquele menino cujo nome lhe saiu.
— Gnomo? Que disparate! O que é isso? — gritam as crianças numa grande confusão.
— Eu não inventei o nome nem o jogo — diz a Sr.ª Joana. — Mas posso explicar-vos o que é. Cada gnomo deve pensar, para cada dia, como fazer uma surpresa ao outro. Tudo tem de ser feito em segredo. Ninguém deve dizer a quem é que vai fazer essa surpresa durante o Advento.
— Disparate — diz Carlos. — Gnomices, mas que disparate!
— Não é disparate nenhum — retorquiu a Sr.ª Joana. — A alegria é muito mais bonita quando é proporcionada a outro.
— E se eu tirar o nome deste aqui? Vou ter então de lhe dar alguma coisa todos os dias? — Carlos aponta para Tónio.
“Isso é que seria óptimo para o Carlos!”, pensa a Sr.ª Joana.
Mas Carlos não tirou o nome de Tónio. No seu papel estava escrito Miguel.
No primeiro dia, Carlos encontrou no bolso do anoraque uma bolachinha de canela. Quem é que sabia que bolachas de canela eram as suas preferidas? Teria sido o seu amigo João que lhas oferecera?
No segundo dia encontrou no estojo um cromo de colecção do famoso futebolista brasileiro Pelé. Era mesmo aquele que lhe faltava. O gnomo parecia conhecer Carlos muito bem. Mas quem seria?
Nos dias seguintes, recebeu imensas coisinhas que já há muito tempo queria ter: um pequeno aguça em forma de globo, uma pastilha elástica enorme, um berlinde minúsculo, um anzol e, de uma vez, até uma coisa com a qual toda a turma se admirou. Carlos metera muito naturalmente a mão à pasta e retirou-a logo, assustado. Alguma coisa se mexia lá dentro. Com cuidado, tira então um pequenino novelo castanho que era afinal um ratinho hamster.
Talvez Carlos descobrisse agora quem lho teria oferecido. Quem é que tinha em casa um goldhamster? Mas por mais que investigasse, não foi muito longe. Embora João tivesse um goldhamster, onde já se viu um hamster macho ter filhotes?
No último dia de aulas antes das férias de Natal, a maior parte dos alunos já adivinhara quem tinha sido o seu gnomo.
Fora uma bonita época de adivinhas e surpresas. Só Carlos não fazia a menor ideia de quem lhe tinha dado os presentes. Até que encontrou no caderno, depois do intervalo grande, uma magnífica série de selos italianos. Selos? Italianos? Carlos olhou Tónio com um olhar duvidoso.
Este olhou-o com medo.
— Tu, Macarr…? — Carlos engoliu em seco. — Foste tu, Tónio?
Tónio acenou com a cabeça.
— Eh, pá! — disse Carlos, dando-se conta de como tinha sido mau.
— Obrigado!
— Foi bonito — respondeu Tónio.
Na noite de Natal, o carteiro trouxe um postal de boas festas gigante para o aluno Tónio Zuccarelli, onde estava escrito:

Querido Tónio, desejo de todo o coração que tenhas um Feliz Natal.

Carlos

Tónio pregou o postal por cima da cama.

Willi Fährmann

Jutta Modler (org.)
Frieden fängt zu Hause an
Munique, DTV, 1989
Tradução e adaptação

A ponte - N. Oettli


Max e Pedro eram alunos da terceira classe. Moravam em frente um do outro, na mesma rua de uma pequena cidade. Já tinham sido grandes amigos, mas, por um motivo qualquer, tiveram um dia uma discussão e passaram a odiar-se.
Quando Max saía da porta do pátio, gritava para o outro lado da rua:
— Ó palerma! — E mostrava o punho ao ex-amigo.
Pedro respondia:
— Quantos escaravelhos como tu são precisos para fazer um quilo? — E ameaçava-o também com o punho.
Os colegas da turma tinham já tentado reconciliá-los por várias vezes, mas todos os esforços haviam sido vãos. Eram mesmo dois teimosos! Da última vez, acabaram a atirar bolas de lama um ao outro.
Um dia, tinha chovido muito. Depois, as nuvens afastaram-se e o sol voltou a brilhar, mas a rua ficara inundada. Quem queria atravessar tentava, a medo, medir a profundidade da água com a ponta do pé, e recuava.
Max saiu de casa, parou na frente do pátio e olhou satisfeito à sua volta. Tudo fresco e lavado pela chuva, brilhava agora ao sol. De repente, o seu rosto tornou-se sombrio. Do outro lado da rua, estava Pedro parado à porta de casa. E Max reparou que ele tinha na mão uma grande pedra.
“Ah!”, pensou Max. “Então queres atirar-me com uma pedra! Isso também eu sei fazer!”
Correu novamente em direcção ao pátio, procurou um tijolo e voltou para a rua, pronto para se defender.
Mas Pedro não lhe atirou a pedra. Baixou-se na beira do passeio e depô-la na água com cuidado. Depois, experimentou com o pé para ver se oscilava, e desapareceu.
A pedra parecia uma pequena ilha.
“Ah!”, pensou Max. “Isso também eu sei fazer!” E colocou o seu tijolo na água.
Pedro voltou a aparecer, carregando uma segunda pedra. Pôs o pé com cuidado em cima da primeira e colocou a segunda pedra na água, alinhada com o tijolo do seu inimigo. Max trouxe então três tijolos de uma só vez.
E assim foram construindo uma passagem sobre a água.
Nos dois lados da rua, as pessoas observavam-nos e esperavam. Por fim, ficou apenas a distância de um passo entre o último tijolo e a última pedra. Max e Pedro estavam em frente um do outro. Era a primeira vez, desde há muito tempo, que se olhavam novamente nos olhos.
— Tenho uma tartaruga no meu pátio — diz Max. — Queres vir vê-la?
N. Oettli

Jutta Modler (org.)
Brücken Bauen
Wien, Herder, 1987

sexta-feira

Os conquistadores - David McKee

Era uma vez um vasto país governado por um General.
Os habitantes acreditavam que o seu modo de vida era o melhor.
Tinham um exército muito forte e dispunham de canhões.
De tempos a tempos, o General reunia o exército e atacava um país vizinho.
“É para o bem deles,”dizia. “Para que possam ser como nós.”
Os outros países resistiam, mas acabavam sempre por ser conquistados.
Com o tempo, o General acabou por dominar todos os países. Todos, excepto um…
Tratava-se de um país tão pequeno que o General nunca se tinha dado ao incómodo de o invadir. Só que agora era o único que restava. Assim, o General e o seu exército puseram-se a caminho.
O pequeno país surpreendeu o General.
Não tinha exército nem ofereceu resistência.
As pessoas saudaram os soldados invasores como se fossem convidados bem-vindos.
O General instalou-se na casa mais confortável do país e os soldados ficaram em casa dos habitantes.
Todas as manhãs, o General levava os soldados para a parada e, depois, escrevia cartas à mulher e ao filho.
Os soldados falavam com as pessoas, jogavam com elas, escutavam as suas histórias, cantavam as suas canções e riam-se das suas piadas.
A comida era diferente da deles.
Viam-na a ser preparada e depois comiam-na. Era deliciosa.
Como não tinham mais nada que fazer, ajudavam as pessoas no seu trabalho.
Quando o General se apercebeu do que se estava a passar, ficou furioso.
Mandou os soldados para casa e substituiu-os por outros.
Mas os novos soldados comportaram-se como os outros o tinham feito.
O General percebeu que não precisava de um grande exército.
Decidiu regressar a casa e deixar apenas alguns soldados a ocupar o país.
Logo que o General partiu, os soldados penduraram os uniformes e juntaram-se à população nas tarefas do quotidiano.
O General regressou triunfante a casa, com os soldados a cantarem, como era hábito:
Somos os conquistadores.
Somos os conquistadores.
O General estava contente por ter regressado, embora sentisse que algo mudara.
Os cozinhados cheiravam aos cozinhados do pequeno país.
As pessoas jogavam os jogos do pequeno país.
Até algumas roupas eram iguais às roupas do pequeno país.
Sorriu e pensou: “Ah! Os despojos da guerra.”
Nessa noite, quando foi deitar o filho, o menino pediu-lhe que cantasse para ele.
O General cantou-lhe as únicas canções de que se lembrava.
Eram as canções do pequeno país.
O pequeno país que ele conquistara.

David McKee
The Conquerors
London, Anderson Press, 2004
tradução e adaptação


Texto retirado com autorização do blogue Violência, que futuro para a humanidade?

A verdadeira e maravilhosa história do dragão Samuel - José Fanha


Para lá das montanhas onde o dia acaba, por trás da noite e do escuro, num sítio escuro e muito perigoso, fica o terrível país dos dragões.

Foi aí que nasceu o pequeno Samuel, que logo revelou ser um dragão muito especial, embora quem o visse pela primeira vez o achasse igualzinho a todos os outros dragões.

Na aparência geral, Samuel era um bebé lindo e sem nenhum defeito. Muito verde, tinha umas lindas escamas a cobrirem-lhe o corpo, uns olhos enormes, vermelhos e flamejantes, e sete cabeças enormes como é normal entre os dragões.

Quando começou a crescer é que as coisas se tornaram muito complicadas para o nosso pobre Samuel.

Como nós sabemos, desde pequeninos que os dragões aprendem a meter medo às pessoas e aos outros animais. E para isso não lhes basta ser verdes e horrendos. Todos os dias têm de comer enormes quantidades de carvão para, depois, deitarem pela boca grandes labaredas que queimam tudo em redor e mantêm à distância os homens e todos os outros animais.

Todos os dragões eram assim. Todos menos o Samuel. O nosso pequeno dragãozinho era igual aos outros dragões em tudo menos numa coisa. Não era capaz de comer carvão. Nem de o cheirar. Mal lhe chegava à boca tinha vómitos e tonturas. Samuel, o pequeno dragãozinho só gostava de comer nuvens.

A princípio ninguém deu grande importância ao assunto. Mas, quando chegou à idade de aprender a deitar labaredas pela boca, foi com grande espanto que os pais e todos os outros dragões se aperceberam de que o Samuel, em vez de fogo, deitava rios e rios de água pela boca.

O pobre do Samuel tornou-se alvo da risota de todos os outros dragõezinhos da sua idade. Todos se riam dele e o empurravam e diziam que ele nunca havia de ser um dragão como deve ser.

Samuel, o pequeno dragãozinho, vivia muito infeliz. Queria ser igual aos outros e deitar fogo e queimar tudo em redor como faziam os seus camaradas de escola. Mas não era capaz. Só sabia deitar água pela boca. Um fiozinho fino e delicado de água que em vez de assustar as árvores e os arbustos só lhes dava alegria e felicidade.

Definitivamente, Samuel não era um dragão como todos os outros.

Um dia, o Conselho dos Velhos Dragões resolveu mandar chamá-lo. Samuel apresentou-se cheio de medo perante aquele friso solene de velhos dragões onde pontuavam os mais sábios, os mais valentes e os mais fortes de todos os dragões.

O mais velho olhou para ele e com a sua voz de trovão ribombante perguntou-lhe severamente: — É verdade que tu, em vez de fogo, deitas água pela boca?

— É sim... — respondeu Samuel, que não era capaz de mentir mas sentia as pernas a tremer e o chão a tremer e o céu parecia mesmo que ia cair-lhe em cima da cabeça.

Os velhos dragões olharam uns para os outros, desataram a falar baixinho e depressa, e tomaram uma terrível decisão: resolveram expulsá-lo para sempre do país dos dragões.

Triste e muito solitário, o pobre dragãozinho Samuel teve de abandonar a sua terra e foi pelo mundo fora sem ter casa para onde voltar, nem cama onde dormir nem sopa quente que o esperasse à noite.

Correndo mundo, passaram muitos anos. Samuel vagueava por montes e florestas sem meter medo a ninguém, comendo uma nuvem aqui, outra acolá, deitando água pela boca e tornando-se no amigo preferido das gazelas, dos patos, dos peixes e de todos os animais que vivem ao pé da água.

Entretanto, na terra de onde tinha vindo Samuel, os dragões continuavam a comer carvão e a deitar labaredas pela boca. E tanto carvão comeram, e tanto fogo espalharam à sua volta que, a pouco e pouco, acabaram por queimar tudo em seu redor. As flores murcharam, árvores morreram, os rios secaram e o país dos dragões tornou-se num deserto.

Sem flores, nem árvores, nem rios, os dragões perceberam que iam acabar por morrer.

O seu fim aproximava-se a passos largos e o desespero era já muito grande quando um dos dragões mais velhos e mais sábios se lembrou do Samuel, o dragão que deitava água pela boca e que por isso mesmo tinha sido expulso para sempre daquela terra. Só ele é que podia salvar os dragões.

Partiram vários emissários que correram montes e montanhas, vales e florestas até que encontraram o dragão Samuel.
Não foram precisos muitos pedidos para fazer o dragão Samuel voltar. É verdade que sentiu uma dor no peito quando encontrou de novo aqueles que o tinham expulsado da sua terra. Mas, como não era capaz de guardar raiva no coração, dispôs-se a ajudar os seus irmãos.

O dragão Samuel desatou a comer nuvens e a deitar água pela boca. E, num ápice, inundou de água o país dos dragões. Os lagos voltaram a encher-se, os rios voltaram a correr caudalosos, as árvores voltaram a crescer grandes e frondosas, as flores voltaram a sorrir ao orvalho da manhã.

Os dragões não tinham ficado muito diferentes. Continuavam a deitar fogo pela boca. Se não o fizessem não eram dragões. Mas aprenderam a não queimar mais árvores do que aquelas que eram necessárias e, assim, não deixar a água chegar ao fim.

Encontrado o equilíbrio, os dragões viveram de novo felizes e, no meio de um lago redondo, ergueram uma estátua de homenagem ao dragão Samuel. Da boca da estátua sai um fio de água que está sempre a correr, e aos domingos todos os dragões vão atirar bolinhas de pão aos peixes vermelhos que nadam em redor muito satisfeitos.


José Fanha
A noite em que a noite não chegou
Porto, Campo das Letras, 2001