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terça-feira

O pato e a coruja - Hanna Johansen


Era uma vez uma bétula que se erguia no meio de um prado.
Mesmo à beirinha do prado cintilava um charco onde um pato nadava em círculo, mergulhando o bico de vez em quando.
O pato subiu para terra, sacudiu-se e olhou para o cimo da árvore.
Após ter olhado algum tempo, gritou:
— Eh, tu, aí em cima!
— Uhm — resmungou uma voz lá em cima, na bétula.
— És uma coruja a sério? — pergunta o pato.
— Uhm.
— Ora chega cá abaixo — gritou o pato.
— Uhm — resmungou a coruja a bocejar. E esvoaçou para o chão.
— Oh! — disse o pato. — Nunca pensei que uma coruja tivesse asas tão bonitas.
— Uhm — tornou a coruja, contente por o pato achar bonitas as suas asas.
— Porque é que estás sempre a dizer Uhm? Não sabes dizer mais nada?
— Claro que sei — disse a coruja — mas não me apetece. Estava a dormir.
— Oh, meu Deus! — exclamou o pato. — Como é que tu consegues dormir em pleno dia? Ninguém consegue!
— Não percebo o que queres dizer — respondeu a coruja. — Durmo sempre de dia.
— Isso é esquisito — disse o pato. — De noite é que se dorme.
— Dormir de noite, dizes tu? De forma alguma! A noite é demasiado excitante para ser gasta a dormir. É quando está escuro, é quando se arregalam bem os olhos, e se espera que passe alguma coisa que se possa comer.
— Não estás boa da cabeça! — disse o pato. — A comida não passa. Tem de se nadar, mergulhar e procurar até encontrar.
— Que forma mais disparatada de comer! — murmurou a coruja.
O pato zangou-se.
— Não é nada disparatada, é o normal! — disse, furioso.
— Não estás bom da cabeça! — respondeu a coruja. — Normal é pairar às escuras no bosque sem fazer barulho. E, então, quando algum animalzinho se mexer nas folhas secas, caímos-lhe em cima rapidamente e comemo-lo.
— Que horror! — gritou o pato. — Só de pensar nisso fico logo enjoado.
— E tu, o que é que comes? — berrou a coruja, que também estava zangada. — Comes alpista para patos. Que nojo! Até fico enjoada! E como é que se consegue comer durante o dia!
O pato até assobiou de raiva.
— Fica a saber que é de dia que se come! Todos fazem isso!
— Ora, ninguém faz isso! — gritou a coruja. — Quando fica escuro é que se tem fome a sério.
— Isso é uma estupidez! — grasnou o pato — Estupidez, estupidez, estupidez!!
E ali estavam os dois no meio do prado a discutir.
A coruja abriu e fechou o bico um par de vezes como se estivesse a pensar, e depois sacudiu-se.
— Ó pato — perguntou a coruja — afinal porque é estamos a discutir? Ainda te lembras porque é que começámos?
— Claro — responde o pato. — Porque tu fazes tudo mal. É por isso…
— Não é verdade — disse a coruja. — Eu não faço nada errado. Faço é de maneira diferente, e, assim, também dá. Faço como fazem todas as corujas.
— E eu faço como fazem todos os patos. Tens razão. Não é preciso discutir por causa disso.
“Ah”, pensava a coruja para si, “por sinal, até gosto do pato. Tem uma maneira esquisita de ver as coisas, mas será que, apesar disso, não podemos ser amigos?…”
— Mas que pés esquisitos tu tens! — observou a coruja.
— Não são esquisitos — responde o pato — são práticos. São para nadar.
— Para nadar, talvez sejam bons — opinou a coruja. — Quando se gosta de nadar. E, vendo melhor, até os acho bonitos.
— A sério? — sussurrou o pato.
— Anda comigo — disse a coruja de seguida— já me doem as pernas de estar aqui em baixo. Vamos pôr-nos confortáveis, em cima da bétula.
— O quê? — perguntou o pato.
— Vamos voar lá para cima — responde a coruja. — Em cima das árvores está-se melhor.
O pato nunca na vida tinha pousado numa árvore, mas se isso dava alegria à coruja, quis experimentar.
— Como queiras — respondeu.
E voaram os dois lá para cima; instalaram-se num ramo de onde podiam ver tudo em redor.
— Aqui tem-se melhores vistas — disse a coruja satisfeita.
— Bem… — murmurou o pato.
Olhava para o prado e para o charco onde o sol reluzia. Não gostou mesmo nada de pousar tão alto em cima de uma árvore. Esteve o tempo todo com medo de cair.
— Isto aqui não é bom — disse ele para a coruja. — Vamos antes nadar para o lago.
— Deves ter ficado maluco, de certeza! — gritou a coruja. — Para a água? Mas tu queres matar-me?
— Não te exaltes! — disse o pato. — Se queres, sentamo-nos então outra vez na erva. Vocês, corujas, são demasiado estúpidas para nadarem.
— E vocês, patos, são tão estúpidos que nem sabem pousar numa árvore!
— Oh, meu Deus — disse o pato. — Lá estamos nós a discutir outra vez.
— É porque tu começas sempre — retorquiu a coruja.
— Isso não é verdade — berrou o pato, furioso. — Não fui eu, tu é que começaste!
— Não, foste tu! — gritou a coruja.
— Ei, porque é que estás a gritar assim? — disse o pato.
— Eu não estou a gritar, tu é que estás! — disse a coruja.
— Não, tu é que estás!
— Oh, meu Deus! — disse a coruja. — Basta! Porque é que só sabemos discutir um com o outro?
— Porque tu fazes tudo errado.
— Eu não! — disse a coruja. — Tu é que fazes!
— Não, tu é que fazes! — disse o pato.
— Mas isso não tem importância. — disse a coruja. — Não é preciso discutir por uma coisa dessas.
O pato pensou melhor e disse:
— Também acho, não é preciso discutir por isso. Mas, olha, quem é que começa sempre?
— Eu acho que és tu.
— Não deves estar boa da cabeça — disse o pato. — Tu é que começas sempre!
— Uhm — disse a coruja — às vezes começo eu e tu imitas-me em seguida.
— Eu? — gritou o pato e bateu as asas com força.
— Não faças tanto vento — disse a coruja. — Queres que eu caia daqui a baixo?
— Pronto, está bem — diz o pato. — Mas se queres que sejamos
amigos, tens de acabar com a discussão.
— Pára tu! — disse a coruja.
Então o pato começou a rir e disse:
— Basta! Além disso, estou a ficar com fome. E a fome deixa-me impaciente. Vou mas é procurar alguma coisa para comer.
— E eu estou cansada. E sempre que fico cansada, fico zangada. Agora vou mas é dormir.
O pato voou para baixo. Aterrou no lago, voltou-se, olhou para cima e gritou:
— Então adeus, coruja. Dorme bem.
— Uhm — respondeu a coruja, sonolenta. — Dorme tu também, pato.
Já tinha os olhos quase a fecharem-se.
— Ah, é verdade — disse de seguida — tu não dormes. Só dormes quando fizer escuro. Bom dia para ti, pato. E até à próxima!


Hanna Johansen
Die Ente und die Eule
Zürich, Nagel & Kimche, 1988
Adaptado

segunda-feira

Vermelhinho, Amarelinho, Pretinha e Branquinha - Brigitte Minne



Numa aldeia, existe um largo. Nesse largo há quatro casas. As mães que vivem no largo acham que é bom que os filhos brinquem ao ar livre.
— Vão brincar lá para fora — dizem. É por isso que Vermelhinho, Amarelinho, Pretinha e Branquinha brincam muitas vezes juntos.
Lá perto existe um parque com um lago para onde as crianças costumam ir. E não muito longe do lago, há uma árvore. Vermelhinho quer sempre ocupar o ramo mais alto para ver todo o lago. — Estou a ver uma mãe pata com os seus filhotes — exclama. Ou ainda: — Que pássaro magnífico! O bico parece uma colher!
Amarelinho, Pretinha e Branquinha gostariam de ver os patinhos bebés e o pássaro de bico em forma de colher, mas não têm autorização. São obrigados a ficar no seu ramo. Como se a árvore e o lago pertencessem só a Vermelhinho.
Naquela árvore, Vermelhinho, Amarelinho, Pretinha e Branquinha construíram uma cabana. Pintada de vermelho, está claro. É que Vermelhinho não quis ouvir falar de outra cor. De forma nenhuma!
De vez em quando, é preciso fazer limpeza à cabana. — Tu, tu limpas o chão! — grita Vermelhinho. E Branquinha lá se põe a esfregar. Amarelinho, esse, recebe ordens para lavar muito bem a porta com sabão. Enquanto Amarelinho, Branquinha e Pretinha andam numa roda-viva, Vermelhinho não faz nada.
É sempre a mesma coisa! Mas Amarelinho, Branquinha e Pretinha nunca se atrevem a resmungar.
Quando Pretinha joga a bola, Vermelhinho também quer jogar.
Quando Branquinha se senta na bola, Vermelhinho também quer lá sentar-se.
Quando Amarelinho quer brincar com o carrinho, Vermelhinho diz-lhe: — Dói-me a cabeça. Não faças barulho!
Não passa de uma mentira, mas ninguém se atreve a fazer frente a Vermelhinho.
Um dia, Vermelhinho grita: — A árvore é minha e todos os brinquedos também.
Pretinha vira-se para Amarelinho que se volta para Branquinha. — Não é justo — murmura escandalizada. — Não tens o direito de fazer isso!
— Sim, tenho, sua palerma de tranças! — grita Vermelhinho.
Pretinha não é idiota e sente-se muito orgulhosa das suas tranças. Sente uma raiva terrível subir por ela acima. — E tu és um tirano! — grita. — Estou farta da tua árvore, da tua cabana e dos teus brinquedos!
E vai-se embora.
“O que Pretinha teve a coragem de fazer, eu também tenho!”, pensou Branquinha.
— És um chato! — grita ela para Vermelhinho.
Depois, é a vez de Amarelinho se revoltar: — Palerma!
E os dois apoderam-se do barco vermelho e correm para junto de Pretinha, soltando gritos de alegria.
Vermelhinho fica só. — Não preciso de vocês! — ouvem-no resmungar.
Branquinha, Amarelinho e Pretinha depressa pintam de novo o barco. Amarelinho pinta o leme de amarelo, a cor dos chupas de limão e da flor do dente-de-leão. Pretinha pinta o casco de preto. — Negro como uma linda noite estrelada — acrescenta, orgulhosa. Branquinha pinta a cabine de branco. — É como a neve— exclama. O barco está magnífico.
Pretinha, Amarelinho e Branquinha estão doidos de alegria.
— Quem é o capitão? — pergunta Amarelinho. — Eu! — grita Pretinha que salta para dentro do barco e se agarra ao leme. Branquinha morde os lábios. — Eu também quero ser capitã — murmura com um bocadinho de inveja. — Tu não és a única — acrescenta Amarelinho.
Se Vermelhinho lá estivesse, as coisas seriam mais simples. — E se fôssemos à vez capitães? — propõe Pretinha. — Boa ideia — aprovam os outros dois.
Com Pretinha ao leme, o barco nem sequer avança um palmo. É com um certo alívio que entrega a direcção a Branquinha. Esta bem se agarrou ao leme, mas nada mudou. O barco só deslizou um bocadinho. Chega a vez de Amarelinho. De tanto baloiçar ficou enjoado e já não tem vontade de ser capitão!
Vermelhinho continua a brincar aos chefes. Como está sozinho, é obrigado a dar ordens a si mesmo:
— Limpa o chão! — diz muito alto. E limpa o chão até não poder mais.
— Não te esqueças de limpar os cantos! — grita.
Ao esfregar, tropeça na esfregona.
— Vê onde pões os pés, seu palerma! — Vermelhinho já não pode mais. Acaba por rebentar: — Palerma! Nem jeito tens para chefe!
De tão furioso que está, até dá bofetadas a si mesmo! Depois, desata a chorar e corre para a árvore. Vê Pretinha, Branquinha e Amarelinho lá longe, no barco.
Vermelhinho compreende finalmente o que custa ser chefe. Os chefes aborrecem-
-no. Pretinha, Branquinha e Amarelinho tiveram razão em ir embora. Vermelhinho já não tem amigos. Chora em silêncio. — Vou construir uma vela — pensa.
— Fiz uma vela para vocês — grita Vermelhinho.
Pretinha vira-se para Amarelinho que se volta para Branquinha. — Bem precisamos dela! — suspira Branquinha. Os três ajudam Vermelhinho a subir para dentro do barco. Vermelhinho mantém-se calmo, mas em breve o desejo de mandar volta a fazer-lhe comichão. — Posso ser o capitão? — pergunta. — Podes sê-lo, até regressarmos à nossa árvore — diz Amarelinho. Vermelhinho pega no leme e grita: — Icem a vela e limpem a ponte!
Algum tempo depois, Pretinha, Amarelinho e Branquinha largam escovas e vassouras. — O que se passa? — pergunta Vermelhinho muito admirado.
— Estamos quase a chegar — lembram-lhe os três amigos. Então, Vermelhinho abandona o leme…
A partir daquele dia, cada um dirige o barco à vez. Se vissem a velocidade a que ele vai!
Até se esquecem de voltar para casa!


Brigitte Minne et Carll Cneut
RougeJauneNoireBlanche
Paris, Ed. Pastel, l’école des loisirs, 2002
Tradução e adaptação

sábado

Quem semeia ventos, colhe… incêndios - L. Tolstoi


Numa aldeia russa, vivia um camponês chamado Ivan. Estava bem na vida. Era o melhor trabalhador da aldeia e tinha três filhos saudáveis, que também eram bons trabalhadores. O seu velho pai era o único na família que não podia trabalhar, mas cuidavam dele muito bem. Tinham tudo o que precisavam para comer e vestir, e teriam sido felizes se não fosse o vizinho de Ivan, Gavrilo, o coxo. Ivan e Gavrilo detestavam-se.
Tinham sido bons amigos até ao dia em que algo acontecera – algo de tão ridículo e insignificante! Uma galinha que pertencia à filha de Ivan pôs um ovo no pátio de Gavrilo. Todos os dias, a galinha punha um ovo no galinheiro. Quando a filha a ouvia cacarejar, ia buscar o ovo. Mas, daquela vez, os rapazes tinham assustado a galinha e esta tinha saltado a vedação. A filha de Ivan estava ocupada nesse dia e só foi buscar o ovo à noite. Não conseguiu encontrá-lo e os rapazes disseram-lhe onde o procurar. Foi então a casa do vizinho e encontrou a mãe de Gavrilo.
― O que queres, rapariga?
― Avó, a minha galinha esteve hoje no seu pátio. Não pôs lá nenhum ovo?
A velha pensou que a filha de Ivan estava a acusá-la de ter pegado no ovo e respondeu-lhe torto.
― Não lhe pus a vista em cima. Nós temos as nossas galinhas e já há muito tempo que elas andam a pôr. Apanhamos os nossos ovos e não precisamos dos ovos dos outros. Ó rapariga, não precisamos de ir para os pátios dos outros apanhar ovos!
A filha de Ivan não gostou nada do que ouviu. Respondeu desabrida-mente, e a mãe de Gavrilo foi ainda mais desabrida. A mulher de Ivan passou por ali (tinha ido buscar água) e, nesse momento, a mulher de Gavrilo saiu de casa. Começaram todas a falar ao mesmo tempo, a ralhar e a insultar-se. Depois vieram os maridos, que tomaram o partido das respectivas mulheres e começaram à pancada. E Ivan, que era mais forte, feriu Gavrilo, o coxo.
Gavrilo levou o caso ao tribunal da aldeia, declarando que queria que Ivan fosse castigado. Quando o pai de Ivan ouviu isto, falou com firmeza.
― Rapazes, vocês estão a fazer uma asneira. Pensem bem! Tudo começou por causa de um ovo. Um ovo não vale muito. Há que chegue para todos. Foram ditas muitas palavras incorrectas; agora mostrem como se dizem palavras simpáticas. Façam as pazes e acabem com tudo isto. Se persistirem no erro, será cada vez pior.
Mas Ivan e a família não o escutaram. Pensavam que o velho estava a dizer disparates. Em vez de fazerem as pazes, Ivan foi a tribunal e tentou que Gavrilo fosse punido por lhe ter rasgado a camisa enquanto discutiam por causa do ovo.
Depois disso, os vizinhos discutiam todos os dias e sempre por motivos mesquinhos. Foram a tribunal tantas vezes que o juiz já estava cansado de os ver. E assim continuaram durante seis anos.
Por fim, a filha de Ivan acusou publicamente Gavrilo de roubar cavalos, e Gavrilo bateu-lhe de tal forma que a deixou de cama durante uma semana. Desta vez, o caso era mais sério e, quando Ivan levou o caso a tribunal, o juiz deu ordem para que Gavrilo fosse chicoteado. Era uma forma muito dolorosa de punir as pessoas culpadas. Quando Gavrilo ouviu o que iria acontecer-lhe, ficou tão branco e protestou tão veementemente que até o juiz teve medo e pediu a Ivan que lhe perdoasse e desistisse do caso. Mas Ivan não cedeu e foi para casa dizer ao pai que Gavrilo iria finalmente ser castigado.
― Ivan ― disse o velho ― não estás a proceder correctamente. Vês a maldade dele mas esqueces-te da tua. Jesus ensinou-nos algo de diferente. Se te insultam, mantém-te calado. Se te baterem, oferece a outra face. Faz as pazes com ele. Não é tarde demais para evitares que ele seja castigado, e o convidares para jantar, a ele e à família.
Como Ivan não se mexesse, o pai continuou:
― Não te demores, Ivan. A tua raiva é como o fogo. Apaga-a no início porque, se ela começar a alastrar, não poderás controlá-la.
Ivan começava a entender o que o pai queria dizer. Preparava-se para ir fazer as pazes quando as mulheres chegaram e disseram que Gavrilo estava tão zangado que ameaçara pegar fogo à casa. Então, Ivan ficou outra vez furioso, como se ele próprio estivesse a arder, e não desistiu do castigo de Gavrilo.
Nessa noite, Ivan lembrou-se do que Gavrilo dissera a propósito de atear um incêndio. Ficou tão perturbado que saiu para inspeccionar o pátio. Caminhou lentamente ao longo da vedação. Tinha acabado de virar a esquina quando lhe pareceu que algo se mexera na outra ponta, algo que se teria erguido e voltado a baixar. Ivan ficou quieto. Escutou e olhou: estava tudo sossegado; apenas o vento agitava as folhas do salgueiro e a palha. Estava escuro como breu mas os seus olhos habituaram-se à escuridão. Continuou a olhar, mas não viu ninguém.
― Devo ter-me enganado ― disse Ivan ― mas vou ver.
Avançou tão devagar que nem os próprios passos ouvia. Chegou à esquina e parou. Conseguia ver claramente alguém, com um boné na cabeça e agachado de costas para ele, a pegar fogo a um feixe de palha que tinha nas mãos. Ficou imóvel.
“Agora”, pensou, “não vai escapar-me. Vou apanhá-lo com a boca na botija.”
De repente, tudo se iluminou. A chama lambeu a palha no barracão e saltou para o telhado. Já não era um pequeno fogo. Ivan conseguiu ver Gavrilo e correu para ele. Mas Gavrilo fugiu e, apesar de coxo, correu como uma lebre. No entanto, Ivan ainda conseguiu apanhá-lo pela aba do casaco. Só que a aba rasgou-se, Ivan caiu e magoou-se na cabeça. Quando se levantou, Gavrilo tinha fugido. O incêndio era tão forte que parecia dia em vez de noite. Ivan conseguia ouvir os bramidos e a crepitação no seu pátio. Foi então que viu a palha a arder em direcção à casa.
Ivan tentou apagar o incêndio. “Se ao menos conseguisse tirar a palha para fora do barracão e apagar o fogo!”, pensou. A princípio, os seus pés não se mexiam. Depois, tropeçaram um no outro. As pessoas vinham a correr, mas já nada podia ser feito. Os vizinhos retiravam as coisas de suas casas e mandavam sair o gado. Depois da casa de Ivan foi a vez da de Gavrilo se incendiar. Levantou-se um vento que levou o fogo para o outro lado da rua. Metade da aldeia ficou reduzida a cinzas.
Tudo o que se salvou da casa de Ivan foi o velho pai, que fugira para uma parte distante da aldeia. Quando Ivan foi vê-lo, o velho comentou:
― Que te disse eu, Ivan? Quem incendiou a aldeia?
― Foi ele, pai. Apanhei-o. Se ao menos tivesse apanhado o pedaço de palha e o tivesse tirado para fora, nada disto teria acontecido.
― Ivan ― perguntou de novo o pai ― de quem é realmente a culpa?
Ivan fitou-o. Depois, lembrou-se de como tinha magoado Gavrilo em primeiro lugar, e de como não tinha ido fazer as pazes com ele enquanto ainda era tempo.
― A culpa foi minha, pai ― disse. E calou-se.
Em seguida, o velho disse-lhe:
― Ivan.
― Sim, pai.
― O que deves fazer agora?
― Não sei, pai. Como posso continuar? Tudo o que tinha ficou queimado.
― Vais conseguir. Com a ajuda de Deus, vais conseguir. Mas lembra-te, Ivan, não deves dizer a ninguém que foi Gavrilo quem começou o fogo. Se não disseres, Deus perdoar-vos-á a ambos.
Ivan assim fez e ninguém descobriu como o fogo começara.
Depois, Ivan começou a ter pena de Gavrilo. E Gavrilo, por sua vez, ficou surpreendido por Ivan não ter dito nada. A princípio, tinha medo de Ivan, mas depois começou a sentir-se mais à vontade. Os homens deixaram de discutir, e as famílias também. Enquanto reconstruíam as casas, viviam todos juntos, e quando a aldeia foi finalmente reconstruída, Ivan e Gavrilo permaneceram vizinhos. E foram sempre amigos.
Ivan nunca se esqueceu do que o pai lhe dissera sobre apagar um fogo logo que ele começa. Se alguém lhe falava duramente, ele respondia com gentileza. A pessoa ficava envergonhada e não havia discussão. Assim, Ivan foi mais feliz do que nunca, e ninguém na aldeia teve tantos amigos como ele.


L. Tolstoi


Lightning candles in the dark
Philadelphia, FGC, 2001
Tradução e adaptação


quarta-feira

A lei das leis - Gougaud

Nesse tempo reinava no país um velho rei. Era um pai amoroso, justo, um homem recto. Mas era cego. Um dia, mandou erigir à entrada do palácio um grande pilar decorado com figuras de antepassados e pequenos poemas. No topo, quis que colocassem um sino cuja corda penderia sobre a praça pública. Quando tal foi feito, mandou publicar um aviso: «Se alguém de entre nós sofrer alguma injustiça, que venha aqui tocar. O meu juiz virá cá fora e ditará o direito segundo a lei das leis.»
Aconteceu que uma serpente fez o seu ninho na erva, à beira de uma muralha. Num fim de tarde, quando se aquecia na borda do rio com as crias, um soldado cansado fez rolar uma pedra sobre a sua casa de palha e sentou-se para beber. Quando a serpente voltou, já não tinha abrigo. Esperou pela noite, foi até ao lugar onde a corda pendia, enrolou-se à volta dela e sacudiu-a tanto que o juiz, meio surdo, saiu cá para fora, na noite clara. Procurou aqui e ali quem pudesse ter tocado; apenas viu um cão a vaguear na rua deserta. Encolheu os ombros e deu meia-volta. Quando ia a entrar, a serpente endireitou-se de repente diante das suas pernas, ergueu a cabeça chata e disse com voz humana:
— Há pouco, um soldado destruiu o meu ninho. Segundo a lei das leis, isto será justo?
— Tremo com as tuas palavras — respondeu-lhe o juiz.
— Também eu, fica a saber. Será que por isso devemos perder a confiança no direito?
— Claro que não — disse o juiz. O diabo tem a sua casa, Deus e os homens também. Segundo a lei das leis, a tua casa vale tanto como a minha. Amanhã, levarei o teu pedido ao meu rei.
Na manhã seguinte, quando o juiz falou na câmara real, o rei cego colocou, para honrar o céu, umas lentes azuis, meditou um momento e disse:
— Que esse soldado dê à serpente o seu ninho. E que lá não falte o mais pequeno tufo de erva. Exijo expressamente que seja como era antes de ele o ter destruído.
Tal foi feito nesse mesmo dia.
O rei, nessa noite, deitou-se cedo. Ora, enquanto suspirava na sua almofada branca, a serpente introduziu-se no quarto pela janela aberta. Tinha na boca uma pedra brilhante. Um escudeiro apercebeu-se de que ela deslizava pelo solo. Convocou a guarda. Postaram-se à volta da cama.
— Deixem-na – disse a todos o Justo, sonolento. — Esse humilde animal conhece a lei das leis.
A serpente prontamente se ergueu sobre o leito. Subiu pelo edredão, chegou à face do rei, depôs na sua fronte a bela pedra cintilante e partiu apressadamente por entre os pés da gente.
O rei abriu os olhos. Já não era cego. Apagou o candeeiro e adormeceu contente.


Henri Gougaud
La Bible du Hibou
Paris, Ed. du Seuil, 1993

quinta-feira

A violência no mundo moderno - III - Friedrich Hacker

Friedrich Hacker
Agressividade – a violência do mundo moderno
Lisboa, Livraria Bertrand, 1972
(excertos)




CALLEY: «TU MATARÁS» INÍCIO do artigo


O corajoso advogado geral militar Aubry Daniel III, descendente de uma família aristocrática do Sul, escreveu ao presidente dos Estados Unidos uma carta, respeitosa mas firme, tendo enviado uma cópia a seis senadores pertencentes aos partidos republicano e democrático. Nela acusa a intervenção, sem precedentes, do presidente no processo em curso. Aos olhos do advogado geral, o apoio que a opinião pública e o presidente conferem a Calley é revoltante, dado que nenhum põe em dúvida a culpabilidade de Calley e é, portanto, exigido um veredicto de não culpabilidade. Esta legitimação de Calley não era compatível com a pretensão dos Estados Unidos a serem uma nação civilizada. Daniel qualificou My Lay como uma data trágica na história da nação. Para ele, o aspecto da tragédia reside no facto de que «considerações de ordem política vieram comprometer princípios éticos tão fundamentais como a implícita ilegalidade do assassínio de inocentes». Quanto às declarações do presidente americano, poderiam reunir-se num grito: «Fora o árbitro!» O vice-presidente, Spiro Agnew comparou My Lay, e todo o processo jurídico, a uma competição desportiva e aos comentários trocados, em seguida, à volta de uma garrafa. Nessa altura é fácil, mas bastante injusto, o que se possa dizer relativamente ao que fizeram os jogadores. Ora o exército, ao condenar o tenente Calley, aderira à estrita aplicação das normas de guerra que ele mesmo fixara. O presidente e a maioria da opinião pública acusaram-no, a partir de então, de agredir e martirizar o violador das regras que agira em legítima defesa e ao serviço de uma causa justa. Os testemunhos, provas e confissões não impediram que este esquema superficial se sobrepusesse à verdade.

O exército pouco se preocupa, na generalidade, com a autocrítica. Dado que a sua missão é a luta, a justiça não constitui a sua maior preocupação. Neste ponto de vista o vice-presidente tinha, indubitavelmente, razão. É difícil pedir ao exército que sirva de árbitro à sua própria causa. Cabe-lhe formar os civis dentro de uma obediência e execução das acções de combate que lhe estão implícitas e, evidentemente, também lhe compete a utilização da violência. Todo o exército luta pela civilização com a ajuda de meios por vezes bárbaros, sem o confessar abertamente, e até mesmo dissimulando o facto. Desde sempre que os exércitos cometeram crueldades, mas só as do adversário são comunicadas ao público. Dado que o exército, como o establishment, fora decretado como inimigo anónimo de todo o sentimento humano, cabia-lhe prescrever uma estratégia de violências contra a população civil e encobrir, por espírito de camaradagem, ocasionais transgressões às regras estabelecidas ou a simples e estrita aplicação das prescrições; era seu dever impedir que tais processos fossem divulgados. Que outra coisa se poderia esperar? Porquê a imposição ao exército de julgar o caso Calley?

Actualmente, a nação americana demonstra uma surpreendente unanimidade de recusa em relação ao veredicto que condena Calley, mas não consegue deglutir o problema da sua responsabilidade. Para não sufocar, necessita de substituir esta ou aquela imagem de Épinal.

Aos olhos dos que se consideram cem por cento patriotas, Calley é um herói e um mártir, um corajoso combatente que arriscou a sua vida para preservar a da nação; foi escolhido para porta-bandeira por uma camarilha de oficiais ambiciosos. Na guerra tudo é permitido, dizem eles; no ardor do combate não pode nem deve existir um regulamento pormenorizado; tanto a nossa boa causa como a causa negativa do adversário desculpam, de antemão, toda e qualquer forma de comportamento. Ninguém deveria dar-se ao luxo de criticar a acção de combatentes traumatizados pela morte de um camarada. Deixar a cada indivíduo a liberdade de decidir se deve ou não obedecer às ordens significa o mesmo que matar o exército. Todos os soldados cometem, sem hesitação nem arrependimento, actos semelhantes aos de Calley ou ainda piores. Se o tenente é culpado, todos os combatentes, desde a mais ínfima das patentes ao comandante-chefe, o são igualmente, o mesmo se aplicando aos detentores de poder civis, quer dizer: o povo americano, que tão energicamente se decidiu a defender e apoiar Calley.

Aos olhos dos pacifistas liberais, Calley não passa de um sintoma e de um símbolo. O seu caso é apenas uma prova retumbante dos homens de guerra e, sobretudo, desta guerra infernal do Vietname, dirigida contra uma população civil praticamente indefesa. Por razões directamente inversas, os opositores da guerra concordam com os patriotas ao declarar que os massacres de My Lay não constituem actos isolados de oficiais criminosos e loucos, mas factos vulgares na guerra. É também aos dirigentes, à autoridade suprema, que cabe pronunciar-se sobre o assunto. Nem Calley nem qualquer outro subalterno são culpados. A culpabilidade deve atribuir-se a todos os que ordenam, perpetuam e toleram o derramamento de sangue. É assim que uns acusam os que fazem a guerra e a condenam, enquanto outros condenam os que acusam a guerra: só se demonstram solidários na compaixão que revelam por este massacre.

A verdade é que os factos existem e enquanto não forem reduzidos ao esquecimento, ou transformados em esquemas simplistas, os dois partidos vão ver-se em sérias dificuldades para conciliar, de forma convincente, os seus pontos de vista com a lógica e a moral, se é que, aliás, se preocupam com isso. Eles pouco ligam à verdade objectiva e só lhes importa o triunfo de uma causa que consideram indiscutivelmente justa e verdadeira: a sua. Parece ter-se esquecido bem depressa que Calley não teve de responder pelos seus actos ante hippies cabeludos. Existe uma propaganda desenfreada que agracia o júri de Calley com ofensas geralmente reservadas a essa categoria de pessoas. Os que tiraram conclusões sobre o assassínio premeditado nem sequer eram simples cidadãos e juizes vulgares, mas seis experimentados oficiais de carreira, de entre os quais cinco tinham combatido no Vietname e aí recebido ferimentos de gravidade. Só o sexto oficial, o coronel a quem cabia a presidência do júri, não possuía a experiência da guerra do Vietname, mas era um combatente da Segunda Guerra Mundial e regressara da Coreia coberto de condecorações. Ainda que, no decurso do processo, a defesa não tivesse continuamente invocado as ordens recebidas e a legítima defesa frente a uma população civil hostil, bem como a psicologia de uma guerra como aquela, estes experimentados juízes militares não podiam ignorar que Calley estivera no Vietname, não por sua decisão voluntária, mas por obediência a ordens, e que era detentor do uniforme americano.

Calley não foi acusado nem condenado por ter cumprido o seu dever, mas por ter transgredido e violado: no caso de Calley não estava em causa uma acusação de ter faltado ao dever, proclamado como princípio solene quando do processo de Nuremberga, que se refere ao dever individual de revolta contra uma ordem desumana. Calley foi considerado culpado por ter abatido sem ter recebido ordens, por iniciativa pessoal e sem (necessidade militar, vinte e dois civis desarmados, quer por suas próprias mãos quer por intermédio dos seus subalternos, agindo por sua expressa ordem. Um tal comportamento é há muito tempo estritamente proibido segundo as regras internacionais de guerra. Já o era muito antes do processo de Nuremberga. Calley violou princípios universais, ele mesmo o confessou, e ainda que lhe sejam concedidas atenuantes, só uma designação se lhe adequara de criminoso.

Continuação: A violência no mundo moderno IV

A violência no mundo moderno - IV - Friedrich Hacker

Friedrich Hacker
Agressividade – a violência do mundo moderno
Lisboa, Livraria Bertrand, 1972
(excertos)



CALLEY: «TU MATARÁS»

É indubitável que os motivos que habitualmente condicionam os assassinos não são suficientes para explicar as suas atitudes. Não agiu por perversão pessoal, a menos que se catalogue como perversa a autorização do direito colectivo de matar em tempo de guerra para derramamento de sangue sem respeito por quaisquer regras. O exército elevara-o à posição de poder aniquilar todo o ser humano que não usasse o mesmo uniforme que ele e de não se preocupar com as consequências da opinião pública, que, durante anos seguidos, nunca levantou a questão de se no Vietname se abatiam não só soldados mas também civis. Tinham-lhe, todavia, inculcado regras selectivas em relação aos homens a abater e foram estas mesmas regras que ele visivelmente infringira; se tivesse morto um camarada ou um superior, não se iria desculpar com o pretexto de que a guerra era uma escola de brutalidade e de desprezo pela vida humana.

É certo que ele não foi total nem plenamente responsável pelos seus actos e, principalmente, -não foi o único responsável; outros que não foram acusados também são culpados e partilham a sua responsabilidade sem que, todavia, o declarem inocente por esse motivo.

O caso Calley tornou-se um dos grandes processos criminais, como, por exemplo, o de Manson. Os dois veredictos foram acidentalmente pronunciados no mesmo dia e acusa-se a imaginação deformada e pretensamente anti-americana dos jornalistas americanos de terem ligado os dois julgamentos. As analogias não se limitam, porém, às aparências, podendo citar-se, entre outros, a estatura extraordinariamente pequena dos dois acusados. Manson e Calley eram, em todos os aspectos, pequenas personagens consideradas pouco dotadas e que passaram despercebidas no meio a que pertenciam, até que as suas ignomínias chamaram a atenção da opinião pública mundial. Os dois reclamaram para si o papel de demiurgos e arrogaram-se o direito de vida ou de morte sobre outrem entregando-se a carnificinas. Após vários meses de processos, os dois foram declarados culpados de massacres, mas as suas motivações e acções eram completamente diferentes (Manson nunca participou na execução dos assassínios). O presidente americano interveio nos dois processos num sentido diametralmente oposto, mas numa base igual.

A raiva popular desencadeia-se contra os actos de Manson como contra a condenação de Calley. A mesma raiva popular que nunca pôde tolerar outro veredicto que não fosse a pena capital para o processo Manson exige a libertação de Calley (que se dispõe a publicar as suas memórias por algumas centenas de milhares de dólares). O presidente dos Estados Unidos não agiu, de forma alguma, comi propósitos de ordem política ao aceder à opinião popular. Pode-se dizer que agiu sinceramente e obede¬cendo ao que lhe ditava a consciência. O presidente só conhecia a separação de bem e mal tal como apresentados num bom filme. Devia, portanto, declarar Manson culpado, antes mesmo que os juizes decidissem. Foram os mesmos esquemas dos filmes do Oeste que o levaram a acudir em auxílio de Calley, o xerife, o bravo soldado que o seu uniforme americano designava como o campeão da boa causa, da causa justa, da «nossa» causa. Era preciso livrá-lo, a partir do momento em que o júri o considerou culpado.

Todos os anos se realiza a distribuição do Óscar de ouro para o melhor actor, a melhor encenação, etc. Em Abril de 1971 é galardoado um filme de guerra com oito primeiros prémios. O herói era Patton, o general da Segunda Guerra Mundial, bem conhecido pela sua dureza e brutalidade, que mata publicamente um soldado que desobedece às suas ordens. Numa cena memorável do filme, Patton grita, por entre o ruído das bombas, das explosões e de horríveis destruições: «Que Deus me ajude; gosto deste espectáculo!»

No decurso do processo Manson, Susan Atkins, um dos membros da «família», inicialmente testemunha principal e, mais tarde, co-ré do mesmo processo, foi acusada pelo procurador-geral devido à irónica indiferença que manifestou para com as sete vítimas do massacre, o que revelou a sua insensibilidade moral. Ela retorquiu que ele próprio e a sociedade americana pouco se preocupavam com o milhão de vítimas vietnamitas. O facto não fazia, no entanto, parte do processo de Manson nem do de Calley. Susan foi severamente repreendida e, depois, levada para fora da sala. Os mortos de guerra não são mortos civis e os mortos de cor não são mortos brancos. Só os parentes e, sobretudo, as mulheres nada compreendem dessa distinção, da mesma forma que pouco se preocupam em saber o motivo por que amam os que são massacrados; a única coisa que lhes interessa é que se mata e que não se pára de matar.

Para os patriotas e fanáticos, pelo contrário, sobretudo quando usam uniforme e desfilam em paradas, tudo é diferente, excepto as motivações em relação às quais se sentem plenamente convencidos. Não amam a violência em si, mas só porque através dela esperam conseguir a vitória, o aniquilamento total do adversário e, simultaneamente, a supressão do mal universal, a afirmação dos seus propósitos morais e a sua afirmação pelo sucesso que os dispensa de toda a autocrítica e acarretará, natu¬ralmente, outros sucessos. Só uma propaganda inimiga, pensam eles, denuncia os bravos americanos, que se tornariam, de súbito, os responsáveis por todos os horrores, ao passo que eles mesmos sabem que são pessoas dignas e bons cidadãos, respeitadores da pátria e da honra, preocupados com a protecção das mães e dos filhos, mas obrigados, por isso mesmo, a matar cegamente as mães e os filhos dos outros.

Os Americanos, como todos os outros povos, desejam acima de tudo a proclamação de legitimação muito mais que da violência. Só a violência é a consequência necessária e previsível de legitimação anterior ou simultânea de todos os meios em nome da defesa de bens supremos e ao serviço de objectivos superiores que tudo santificam.


Continuação: A violência no mundo moderno V

A violência no mundo moderno - V - Friedrich Hacker

Friedrich Hacker
Agressividade – a violência do mundo moderno
Lisboa, Livraria Bertrand, 1972
(excertos)



CALLEY: «TU MATARÁS»

É mais temido o reconhecimento da derrota militar do que a própria derrota em si. Perder é desagradável, mas mais desagradável é, ainda, analisar as causas do fracasso e a questão de se o empreendimento era legítimo, se as autoridades que o planificaram eram legítimas e se os responsáveis também se encontravam na posse de uma legitimidade. Não são os desejos bélicos da nação nem motivos de ordem económica os obstáculos ao regresso imediato dos americanos do Vietname; o verdadeiro impedimento reside no medo das consequências que poderia ter uma brusca revisão dos conceitos morais americanos, estabelecidos segundo os hábitos de ordem económica, ideológica e cultural. Não estamos interessados numa imagem imponente aos olhos do mundo, mas nos nossos sentimentos, na nossa identidade pessoal, nos nossos métodos de legitimidade, que dentro de uma simplificação imaginam sempre a razão do lado do vencedor, exigindo, portanto, uma vitória para vincar bem essa razão. No longínquo Vietname, os americanos não combatem, não matam nem morrem para ganhar terreno, para aniquilar inimigos ou conquistar a glória, mas para preservarem a sua imagem no mundo e a legitimidade aos seus próprios olhos. O tenente Calley aparece como um bravo e obediente guerreiro. Portanto, todos lhe manifestam o seu sentimento de solidariedade. Ele torna-se o símbolo da unidade nacional. Esta unidade procura e encontra, aliás, bodes expiatórios num sentido diametralmente oposto e sabe-se de acordo com esta polarização mental.

A simplificação e violência internacionais prosseguem, assim, como tantas vezes no passado, a quimera de uma precária união nacional; falta-lhe, talvez, a ocasião de discutir as causas nacionais e internacionais dos conflitos, a fim de evitar outros conflitos futuros. Em troca do insignificante «prato de lentilhas» da nossa legitimação, não nos preocupamos com o direito da nossa autodeterminação, que assenta na autocrítica. Recusamo-nos a lutar pela emancipação. Falamos de fatalidade em lugar de atribuir culpas à nossa presunção.

Poucos dias após o julgamento de Calley, o presidente Nixon expressou num discurso televisionado a sua convicção inabalável de que os Americanos só lutam por objectivos idealistas. Uma vez mais, prometeu à nação acabar com a guerra do Vietname de acordo com o programa previsto. Seguidamente, contou um episódio comovedor ocorrido na atribuição de uma medalha póstuma. Quando a viúva de um herói do Vietname, morto no campo de batalha, recebeu a condecoração do valente militar, o filho deste, uma criança de quatro anos, fizera a continência militar. Eis o que comoveu o presidente e a nação, para quem a continência militar é algo de intocável. O facto nada tem de exclusivamente militar, pois que nos países condicionados pela brutalidade — todos o são — saudar constantemente alguém ou alguma coisa é uma ocupação essencial dos habitantes, que primeiro foi imposta, para depois adquirir feição de regularidade. Pelo gesto de submissão que a saudação militar representa, o oprimido vai até ao ponto de mostrar a sua solidariedade para com os opressores, sentindo-se habilitado, por sua vez, a oprimir outros em nome dele. Sente uma mistura característica de brutalidade e emoção que afasta todo o sentimento de culpabilidade ou responsabilidade individuais.

O que depois aconteceu ao tenente Calley pouco importa agora. Foi em vão que se tentou transformar a personagem, à maneira dos filmes simplistas e segundo as escalas morais e tradicionais, mas ela não se coaduna ao papel. Teria sido necessário um herói transbordante de virilidade, mas a sua figura é demasiado insignificante.

A violência no mundo moderno - VI - Friedrich Hacker

Friedrich Hacker
Agressividade – a violência do mundo moderno
Lisboa, Livraria Bertrand, 1972
(excertos)



CALLEY: «TU MATARÁS»

O debate continua, apesar de tudo ficar em aberto e a resolução imbuída de incertezas. Como compreender e aceitar a maior nação democrática do mundo de um ponto de vista psicológico e moral? Os defensores de Calley tinham afirmado que fora a guerra a causadora da transformação do tenente num robot hierárquico, executor de ordens desumanas que não tinham sido dadas expressamente, mas que podiam ser logicamente deduzidas da estratégia da guerra. Ele apenas se limitara a executar, à queima-roupa e servindo-se de uma pistola-metralhadora, o que, por métodos permitidos e oficiais e de forma consciente e sistemática, constituía o objectivo dos bombardeamentos quotidianos da artilharia e da aviação, ou seja, o aniquilamento da população civil, virtual e concretamente hostil. Não podia ser feita qualquer comparação com base noutras guerras entre povos cujos meios de defesa se equiparavam. Nesta guerra civil do Vietname opunham-se, por um lado, a nação mais industrializada do mundo, com todos os meios motorizados e químicos de aniquilamento, e, por outro lado, a selva e os seus habitantes. Por uma táctica adversa à da guerrilha, que, segundo a fórmula de Mão, está para os indígenas na mesma ambientação de que o peixe na água, seria necessário exterminar este oceano de população indígena. As opiniões políticas e militares concordavam neste ponto: o objectivo militar a atingir reside na população civil. O reconhecimento de que «o inimigo tem de perder o apoio popular» mediante infindos bombardeamentos de vastas zonas, incluindo todas as aldeias, alvos civis e hospitais, é a fórmula citada por um dos generais mais categorizados e nunca ninguém a contestou.
O tribunal militar terá sido injusto para com Calley, que, dentro de uma violência ilimitada perfeitamente aceite, praticou uma carnificina de civis indefesos, uma vez que a ocasião se oferecia e até mesmo se impunha? A confissão de Calley, ao declarar que antes de ser considerado culpado pensava que o massacre de My Lay fora uma coisa sem grande importância (no big deal), seria assim tão horrivelmente incompreensível e tão incompreensivelmente horrível, quando desde há anos os boletins oficiais enumeravam, quotidianamente e com orgulho, os inimigos abatidos sem diferenciar civis ou militares?
Quem obrigou a chefia do exército, envergonhada com os insucessos, desacreditada e traumatizada pela realidade dos factos que contradiziam as suas profecias optimistas, a anunciar vitórias estupidamente exageradas, a fim de compensar as suas verdadeiras decepções? Numa democracia em que os representantes do povo são livremente escolhidos e podem ser livremente demitidos, também a responsabilidade da opinião pública é muito maior do que sob uma ditadura em que os detentores do poder dispensam a aprovação daqueles em nome dos quais agem. Os delegados do povo escolhidos democraticamente reivindicam, assim, uma imunidade que recusaram aos chefes alemães e japoneses em Nuremberga. Mas se nem os governantes, o exército, e a população que protesta contra uma guerra que a irrita e não deseja são os responsáveis, a quem atribuir então responsabilidades? Quais as culpas que cabem ao establishment. O seu erro reside em ter determinado e tolerado a guerra ou em não ter conseguido uma vitória rápida? Ou em ter induzido o povo a aceitar o combate nesse longínquo Sudeste Asiático como uma operação indispensável de defesa nacional, prodigalizando-lhe apenas informações parciais da verdade dos acontecimentos? Ou o seu erro reside na sua própria existência, dado que o establishment prepara a guerra, que ocasiona actos bélicos e policiais mais perigosos do que todos, porque se baseiam no crime? Pode-se citar, como testemunho de defesa, que existem outros sistemas, contemporâneos ou anteriores, que actuam de forma não menos cruel, impiedosa, brutal e hipócrita. Devemos concluir que, mais cedo ou mais tarde, todas as organizações governamentais exigem guerras e massacres, camuflados durante mais ou menos tempo mas admitidos? O que há a condenar e a reformar? Trata-se da táctica oficial da mentira e da hipocrisia, que acaba por desacreditar não só determinado governo, mas todos os governos afinal? Ou será antes a mentalidade de um povo intoxicado que pretende ver os seus preconceitos confirmados pelos representantes que elege e não protesta contra os actos imorais a não ser quando estes não lhes acarretam o rápido sucesso que esperavam? Para analisar estas questões extremamente complexas, tornam-se necessários métodos novos: é preciso examinar os factos de um ponto de vista social e revolucionário, é preciso debater agressivamente, mas não violentamente, em lugar de tudo basear na justiça que condena à prisão ou à morte de acordo com as leis vigentes.
As nossas democracias ocidentais encontrar-se-iam numa posição difícil, senão fatal, se não tivessem uma desculpa melhor a apresentar do que a sua relativa superioridade moral sobre o regime totalitário nazi. Não basta focar os erros de um indivíduo tomado isoladamente, erros fáceis de determinar através de um processo jurídico, dado a sua limitação a actos isolados. Esse facto não absolve a sociedade pelo seu crime de cumplicidade nem absolve, de modo algum, o culpado. Não há nenhuma sala de tribunal em que o banco dos réus seja suficientemente grande para conter todos os culpados. É demasiado pedir à justiça, e esperar da mesma, uma decisão quanto a problemas que dizem respeito a toda a sociedade. É certo que todo o processo jurídico serve para determinar, oficialmente, a extensão da falta e do castigo do acusado, mas serve, também, sem que tal se confesse, para ilibar os que não podem ser acusados mas que contribuem para o crime pela sua indiferença, insensibilidade, provocações, incitamentos ou uma discreta aprovação.
Ao longo da história moderna, nunca uma nação bélica, em plena guerra, empregou a justiça ou condenou por crimes de guerra — termo até aqui exclusivamente reservado às atitudes do inimigo — os seus próprios oficiais e combatentes. É nesse ponto que reside o mérito incontestável do duro acontecimento chamado «processo Calley». Desmascarou e estigmatizou as tendências dissimuladas e inconscientes da nação relativamente a uma afirmação de direitos mesmo pelo preço de uma carnificina. O facto de este processo ter sido possível, apesar de todas as resistências, o facto de se ter verificado, o facto de a nação americana achar que não só podia mas devia impô-lo, constitui uma esperança de que as obscuras forças de adoração da violência, protegidas por pretensões morais adoptadas sem discussão, talvez não acabem por triunfar.


A violência no mundo moderno - II - Friedrich Hacker

Friedrich Hacker
Agressividade – a violência do mundo moderno
Lisboa, Livraria Bertrand, 1972
(excertos)


CALLEY: «TU MATARÁS»

No decurso do processo Calley, que durara longos meses, os jurados oficiais tinham-se limitado a examinar, de acordo com a lei, as provas que as testemunhas, a defesa e o Ministério Público lhes apresentavam. Tinham-se mantido fiéis ao seu juramento e nada mais efectuado do que o cumprimento do dever. Estava para lá do âmbito da sua competência examinar o porquê que fizera recair a acusação sobre os ombros de Calley e não de outros, ou estudar os actos de outros soldados nesta ou noutras guerras. O tenente Calley era acusado do assassínio premeditado de cento e dois civis, velhos, mulheres e crianças, cometido em duas horas diferentes do mesmo dia, em My Lay. Ele mesmo admitiu ter disparado a curta distância (menos de um metro e meio) contra um fosso onde se encontravam dezenas de prisioneiros vietnamitas. Não verificara os resultados do seu procedimento. Mais de cem declarações de testemunhas afirmaram que Calley tinha atirado contra crianças indefesas que iam a fugir, que abatera prisioneiros desarmados e que, a pontapé, forçara os subordinados a atirar contra os civis presos no fosso. Quando Calley solicitou a benevolência do júri e pediu aos jurados que, pelo menos, lhe concedessem a vida, já que lhe tinham tirado a honra, o procurador-geral gritou que a desonra de Calley não se encontrava no veredicto, mas nos actos que cometera. Durante os dias que durou o debate, os jurados tentaram tudo para considerar Calley inocente, mas o processo demonstrara a cada um que os actos de Calley eram indiscutivelmente criminosos. Os jurados não concordaram porém num ponto: os crimes cometidos eram assassínios premeditados ou poderiam ser considerados num âmbito de menor gravidade? Foi pronunciada a acusação de assassínio premeditado numa maioria de dois terços.

As autoridades militares ficaram surpreendidas, chocadas e perturbadas pela reacção do público e do presidente. A princípio, e mercê de um espontâneo reflexo burocrático, tinham tentado proteger os direitos institucionais arquivando os múltiplos relatórios referentes aos massacres de My Lay entre os numerosos dossiers sobre assuntos análogos. O exército não desejava, evidentemente, chamar a atenção do público para acontecimentos semelhantes. Como as acusações, solidamente fundamentadas e reunidas por um corajoso jornalista, foram, no entanto, difundidas por todos, não se pôde evitar um processo sensacional. Grandes fracções da opinião pública não conseguiram acreditar que os soldados americanos fossem capazes de cometer tais horrores e consideraram as acusações como infames calúnias, cuja mentira se tornava necessário demonstrar publicamente; outros pensaram que se tratava de um caso isolado e que era necessário dar o exemplo através deste criminoso de uniforme. De qualquer modo, as autoridades civis mais elevadas, inclusive o presidente, não só exigiam o processo contra o acusado mas igualmente contra os oficiais de patente superior e generais que, a princípio, tinham tentado ocultar e falsear todo o caso.

As primeiras investigações do Estado-Maior relativamente às suas próprias (manobras para ressalvar o assunto não foram longe. O facto não surpreendeu ninguém. Não foi apresentada queixa contra o general Koster, que, na manhã do massacre de My Lay, inspeccionara o local de helicóptero, nessa altura ainda em paz, nem contra qualquer outro coronel ou general. Apenas Calley e os seus subordinados, bem como o seu superior imediato, o capitão Medina, foram chamados a responder pelos seus actos ante a justiça. Não vem a propósito discutir aqui se ao exército não restava outra hipótese para além de uma queixa contra Calley, uma vez divulgados os horríveis acontecimentos, ou se obedeceu, de vontade ou pela força, a autoridades civis superiores. A verdade é que o processo se iniciou e, a fim de restaurar a honra do exército americano, prosseguiu publicamente segundo as boas e incompreensíveis regras do direito jurídico.

Antes do mais, o resultado revelou-se catastrófico para o exército, a democracia e o direito. Numa noite o acusado foi promovido a herói nacional precisamente devido ao massacre que ele mesmo confessava ter cometido. O povo mostrou-se solidário em não aceitar a sua condenação, mas apenas nisso. Cada um acusava por um processo de generalização simplista. Em primeiro lugar, nada se passara. Em segundo lugar, os factos tinham sido largamente exagerados. Em terceiro lugar, o que acontecera processara-se ao serviço de uma boa causa. Em quarto lugar, as vítimas tinham merecido o justo castigo, uma vez que eram comunistas, simpatizantes dos comunistas, deles não se diferençando, ou viviam num país simpatizante do comunismo. Em quinto lugar, tudo acontecera no ardor do combate. Em sexto lugar, foram os outros a começar ou podiam tê-lo feito. Com a condenação de Calley, que escarneceu de todo o espírito de camaradagem e lealdade, o exército ficou manchado. Também, talvez, os oficiais superiores de carreira tivessem querido descarregar as suas próprias culpas sobre o seu infeliz subalterno, o tenente Calley. O general Westmoreland, que era, na altura, comandante-chefe americano no Vietname, defendeu-se irritadamente de toda e qualquer atribuição de culpa e de comparações com o general japonês Yamashita, executado após a Segunda Guerra Mundial e que fora considerado responsável por todos os actos do exército sob as suas ordens, mesmo que as ignorasse e não as tivesse podido impedir. As mais altas entidades do exército criticaram a intervenção do presidente, que tornara supérfluos e ridículos os penosos e fatigantes processos jurídicos e trouxera a liberdade a Calley. O exército apressou-se a declarar que Calley, mesmo sem a intervenção do presidente, nunca fora mantido sob detenção até recurso à sentença. Por outro lado, ignora-se o que acontecerá doravante às centenas de soldados que — não por massacre mas por embriaguez, faltas ao serviço ou roubo — têm de esperar meses seguidos na prisão a decisão ao seu apelo. O exército ignora porque se viu obrigado, contra sua vontade, a instaurar um processo criminal contra Calley e também o motivo pelo qual, seguidamente, foi humilhado, insultado, desprezado pela população, desautorizado e ridicularizado pelo seu chefe supremo, simplesmente por ter cumprido o seu dever ao seguir as ordens do presidente e ao obedecer ao desejo da opinião pública. Em que reside a honra do exército? Na dissimulação incondicional dos actos de todo o indivíduo que usa um uniforme, que age, crê agir ou declara agir ao serviço (estando incluído o massacre premeditado de civis e prisioneiros indefesos), ou na afirmação do princípio geral, que autoriza e incita mesmo à violência na guerra, se bem que dentro de determinados limites?


continuação: A violência no mundo moderno III

A violência no mundo moderno - I - Friedrich Hacker

Friedrich Hacker
Agressividade – a violência do mundo moderno
Lisboa, Livraria Bertrand, 1972
(excertos)



CALLEY: «TU MATARÁS»

No mesmo dia em que em Los Angeles Manson e os seus amigos foram condenados à morte, um júri constituído por seis oficiais do exército dos Estados Unidos, reunidos no Forte Benning, declarou o tenente William (Rusty) Calley culpado do assassínio premeditado de vinte e dois civis vietnamitas e condenou-o a prisão perpétua.

Depois de escutar a sentença e ainda antes de ser levado, o tenente Calley conseguiu ainda ter coragem para fazer a saudação militar. Nesse momento, desencadeou-se uma tempestade de indignação entre as pessoas que assistiam, uma indignação não contra os actos do tenente, mas contra a condenação que o atingia. No dia posterior ao do julgamento chegaram cem mil telegramas à Casa Branca: eram cem contra um a favor de Calley. Colocaram-se bandeiras americanas a meia haste em sinal de luto e de vergonha. O governador do estado de Indiana, Edgar Witcomb, veterano da Segunda Guerra Mundial, decretou luto público. Lester Maddox, vice-governador da Geórgia, assumiu um tom patético no decurso de uma conferência em que se reclamou a libertação de Calley em grandes gritos: «Deus abençoe o tenente Calley, que lutou pela causa da nação.» George Wallace, ex-candidato à presidência e actual governador do Alabama, declarou que considerava uma honra ter apertado a mão ao tenente Calley, a quem fizera uma visita espectacular. Tudo porque as vítimas do Vietname, inclusive civis, mulheres e crianças, tinham sido mortas para destruir o comunismo. Foi composto um hino guerreiro sobre o caso, cuja primeira estrofe é a seguinte: «O meu nome é William Calley, sou um soldado deste país que jurei cumprir o meu dever e vencer, mas chamaram-me um canalha...» Em três dias venderam-se cem mil discos e numa semana um milhão. As associações de veteranos recolheram somas enormes para Calley e transmitiram-lhe mensagens de simpatia. As antenas dos carros ostentavam folhetos que pediam a libertação de Calley. Milhares de homens foram apresentar-se às autoridades militares e acusaram-se de ter cometido crimes análogos. O «Diabo Verde», Robert Marasko, comovido pela condenação de Calley, decidiu anunciar na televisão que matara recentemente um espião do Vietname do Sul por ordem da C. I. A. Era assim e não podia fazer nada mais do que confessar. Os jornais declararam luto. O reverendo Michael Lord viu o reviver da paixão de Cristo no caso Calley. Declarou publicamente: «Há dois mil anos crucificaram um homem chamado Jesus Cristo; não acho que tenham necessidade de uma nova crucificação.» Uma indagação junto do público revelou que oito em cada nove americanos consideravam a condenação de Calley injusta.

O presidente dos Estados Unidos passou uma noite em claro e, depois, decidiu fazer sair Calley da prisão e mandá-lo para casa sob vigia. Declarou que, na sua qualidade de chefe supremo do exército, se reservava a última decisão sobre o assunto, dado que todos os meios judiciais estavam esgotados. Os militares responsáveis — não falo dos acusados, mas dos seus juízes — viram-se objecto de insultos sistemáticos. As famílias foram alvo de calúnias e ameaças e a polícia teve de as tomar à sua guarda. Depois de subtraídos à reclusão imposta ao júri, os dignos oficiais não entendiam a emoção geral.

Há anos a jurisdição militar tinha condenado, sem que por isso se tornasse objecto da atenção pública, algumas dezenas de soldados e oficiais por crimes análogos, se bem que não de tanta carnificina, cometidos em operações no Vietname. O facto não despertara interesse nem causara objecções.

continuação: A violência no mundo moderno - II

A Barbie do Cuíto - Eduardo Agualusa

Não fui testemunha da história que se segue, alguém me contou. Mariana, vou chamar-lhe assim, uma menina dos seus sete anos de idade, s vive num centro de recuperação de mutilados na cidade do Cuíto, no interior de Angola. Perdeu uma perna ao pisar uma mina, o que ali, naquele abismo remoto, é uma história banal.

Uma tarde apareceu no centro um médico português, ao serviço de uma organização não governamental europeia, a distribuir brinquedos. Viu a menina e estendeu-lhe uma boneca. A menina segurou a boneca com cuidado. Achava-a estranha, muito magra, demasiado pálida, com uma cabeleira escorrida e loura, a lembrar uma espiga de milho bem madura. Algo nela lhe parecia ainda mais estranho: tinha duas pernas. Quando o médico regressou ao centro, poucas semanas depois, voltou a reparar em Mariana. A menina parecia feliz com a sua filha loura. Transportava-a às costas, num pano, à maneira tradicional. Falava com ela. Dava-lhe banho. Reparando melhor na boneca, porém, o médico descobriu que lhe faltava a perna esquerda. «O que aconteceu, Mariana, a tua boneca perdeu uma perna?» A menina olhou-o, assustada:

«Arranquei», disse, «agora, sim, é gente.»

Lembrei-me de Mariana ao ler o noticiário sobre a intervenção norte-americana na Colômbia. Explico-me melhor: primeiro lembrei-me de uma entrevista de Hélio Luz, antigo chefe da polícia do Rio de Janeiro, defendendo que se aos Estados Unidos é reconhecido o direito de intervir em países do terceiro mundo para combater a produção de cocaína, então aqueles mesmos países deveriam poder entrar em território norte-americano para encerrar as fábricas de armamento. Este argumento parece-me irrespondível se o que estiver em causa for o fabrico de minas antipessoais.

A produção de minas é, na minha opinião, um dos maiores escândalos, se não o maior, do nosso tempo. Vale a pena deixar aqui alguns números: cento e dez milhões de minas causam todos os anos 26 mil novas vítimas. Existem 350 tipos de minas que custam entre duzentos escudos e trinta contos; para retirar cada um destes explosivos, porém, gasta-se em média dez vezes o seu custo. Finalmente, dos cerca de cinco milhões de minas que se produzem em cada ano, a maioria é fabricada nos Estados Unidos da América e nos territórios da antiga União Soviética.

Ao contrário do que muita gente julga, o objectivo da mina não é matar: este engenho pavoroso foi pensado para mutilar. Um mutilado exige cuidados, custa dinheiro e ainda por cima afecta negativamente a moral do inimigo – mais, bastante mais, do que um companheiro morto. A perversão foi ao ponto de se inventarem minas coloridas, chamadas borboletas, destinadas a atrair a atenção de crianças.

Uma única vez experimentei a sensação de caminhar num campo de minas. Não gostaria de repetir a experiência. Foi há alguns anos. Viajava num jipe com militares. No meio da viagem, num lugar que parecia muito longe de qualquer guerra, longe da maldade humana, o motorista decidiu parar o carro para que todos pudéssemos sair e desentorpecer as pernas. Afastei-me alguns metros, tentando alcançar um pouco de intimidade para aliviar a bexiga, quando ouvi de repente gritar o meu nome. Um dos soldados, junto ao jipe, agitava os braços, e repreendia-me, dizendo que era perigoso sair da berma da estrada porque em toda aquela região havia muitas minas.

Não sei se havia ou não. O que sei é que essa possibilidade alterou por completo a forma como até àquele instante eu percebia a paisagem. Um segundo antes, eu via abrir-se diante de mim um amplo horizonte verde e vivo; um perfume a terra molhada vibrava no ar; pássaros, cujo nome nunca saberei, cantavam num bosque próximo. Um segundo depois, eu apenas vi o que não era possível ver: os pequenos animais de carapaça rija, escondidos debaixo da lama, à espera que eu lhes pusesse o pé em cima para assim cumprirem a sua triste missão – explodir. Levei a eternidade para percorrer os trinta metros que me separavam do jipe. Milhões de camponeses vivem com esse terror a cada passo que dão.

Segundo a ONU, seriam necessários mais de mil anos para, com a actual tecnologia, conseguir retirar todas as minas plantadas no mundo. Esta operação custaria 33 mil milhões de dólares. Volto a lembrar que a maior parte destes engenhos não são fabricados num qualquer país pária por uma organização criminosa de loucos extremistas – são fabricados em países democráticos, com destaque para os Estados Unidos da América. O desafio lançado por Hélio Luz deveria ser levado a sério por todos nós, as vítimas, as vítimas potenciais. A menos que Mariana tenha razão.

in «Pública»,
suplemento do jornal Público, 24 de Setembro de 2000


Campos de lágrimas - J. J. Letria

A VIAGEM E A MEMÓRIA


Francisco nada quis deixar ao acaso na preparação daquela viagem de Verão. Fazendo-a, queria festejar o 14.° aniversário de Sofia, a filha mais velha, e ter uma oportunidade de falar com ela e com João, o filho, sobre a Europa, sobre a paz e sobre a guerra e ainda sobre a memória muito longínqua de um avô que não chegara a conhecer o que sempre fora uma referência de dignidade e de coragem para a sua família.
O avô fora sempre um homem de sonhos e de ideias. Tinha combatido do lado republicano na Guerra Civil de Espanha. Derrotados os republicanos pelas tropas do general Franco, que contava com o apoio dos fascistas de Itália, Alemanha e Portugal, partiu para França, onde acabou por ser capturado pela Gestapo, polícia política do Partido Nazi, e levado para um campo de concentração, onde acabou por morrer. As últimas notícias que os seus pais tiveram dele davam-no como prisioneiro no campo de Buchenwald, na Turíngia, Alemanha, embora nunca se tenha encontrado registo que confirmasse a sua morte naquele local de horror e miséria humana. Queriam agora reencontrar o espaço que evocasse a sua memória.
— É preciso irmos tão longe só para podermos falar do que foi a guerra? — perguntou Sofia ao pai no dia em que ele anunciou o programa da viagem. E o pai respondeu-lhe:
— É preciso irmos até onde as coisas aconteceram para sentirmos melhor o seu significado e as suas causas.
Como Sofia e João gostavam muito de viajar, não viram qualquer inconveniente na escolha e até demonstraram grande entusiasmo por terem a possibilidade de, no recomeço das aulas, poderem falar aos colegas e amigos de uma experiência que, por certo, nenhum outro teria tido até esse momento. Joana, a mulher de Francisco, apoiou-o desde o princípio na opção que fizera. Iriam visitar, na Alemanha, um local que trazia à família memórias pouco agradáveis, mas que seria um pretexto para falarem de assuntos importantes para quem estava a crescer e se esforçava por compreender o mundo em toda a sua complexidade. A de ontem e a de hoje.
Em finais de Agosto apanharam, em Lisboa, um avião para Frankfurt e depois seguiram de comboio até Weimar, uma cidade famosa na história cultural da Europa. Apesar de ser uma cidade pequena, ainda hoje com cerca de 50 mil habitantes, nela viveram e escreveram grandes escritores como Goethe e Schiller, considerados dos maiores poetas e dramaturgos de toda a história da literatura ocidental.
Durante a viagem de comboio a caminho de Weimar, Sofia e João não escondiam a curiosidade e o interesse por aquilo que iam visitar. Da história do século XX ainda sabiam muito pouco, mas tinham vontade de saber muito mais, principalmente acerca daquele bisavô de quem já tinham ouvido falar muitas vezes com muito respeito e admiração e do qual se sabia pouco. Algumas fotografias já amarelecidas pelo tempo mostravam-no em plena juventude, ao ar livre, vestindo roupa leve e deixando que o sorriso confiante deixasse transparecer tudo aquilo que esperava da vida e toda a esperança que tinha no futuro do mundo. Infelizmente, não viveu o tempo suficiente para ver confirmado nada daquilo com que sonhara, mas ficara a sua memória para mostrar que não fora em vão o seu esforço e o seu sacrifício. A memória tem essa vantagem.
Ao chegar à estação de Weimar, a família juntou as bagagens e preparou-se para apanhar um táxi que a levasse até um hotel no centro da cidade, instalado numa velha casa recuperada. Nessa casa, segundo informação que Francisco obteve num folheto fornecido pela agência de viagens, vivera um nome importante da cultura alemã. Era apenas uma das muitas casas com história e memória cultural, numa cidade por onde passaram, onde viveram e trabalharam escritores, cientistas, dramaturgos e pintores e onde nasceram também algumas das piores formas de terror praticadas pelos nazis durante os anos trinta e até 1945. Era a esta estação de caminhos-de-ferro — explicou Francisco à mulher e aos filhos — que chegavam os prisioneiros que depois eram transportados para o campo de concentração de Buchenwald, que fica apenas a oito quilómetros da cidade.
— Então as pessoas viam e não faziam nada? — quis saber Sofia.
— Tanto quanto se sabe — disse o pai — parece que, era de facto, assim, e esse foi um dos grandes problemas desses anos de terror. É que muita gente sabia o tipo de crimes que se cometiam e nada fazia para os evitar.
— Devia ser terrível — comentou a mãe,
— Eu nem quero acreditar que isso pudesse acontecer — acrescentou João.
— De facto — declarou Francisco — pelo menos aqui em Weimar, os prisioneiros, fossem eles judeus, políticos, ciganos ou outros, desembarcavam na estação de caminhos-de-ferro da cidade, pois não havia linha férrea até ao campo de concentração, onde muitos milhares acabaram os seus dias no meio do maior sofrimento físico e moral.
— Mas é terrível pensar — comentou Sofia — que perto de uma cidade onde se fez tanta cultura também foi possível cometer tantos crimes.
— Tens razão, Sofia — respondeu o pai — e não podemos deixar de relacionar uma coisa com outra e de fazer esta pergunta: como foi possível ter, de um lado, a memória de homens como Goethe, um escritor que sempre defendeu a liberdade, e, do outro, a mais terrível falta de respeito pelos seres humanos e pelos seus direitos.
— Nós, se tivéssemos vivido nessa altura, também cá podíamos ter vindo parar? — perguntou João, tentando disfarçar o arrepio que lhe percorreu a espinha.
— Não é muito provável — respondeu o pai — porque não somos judeus, porque não pertencemos a um país que os nazis tenham ocupado e porque nessa época não devíamos ter nenhuma actividade que nos pusesse em risco. De qualquer modo, nunca se sabe, e o melhor é pensarmos sempre que o pior pode voltar a acontecer, se as pessoas, onde quer que estejam e façam o que fizerem na vida, não lutarem pela defesa da liberdade e dos direitos dos seres humanos
— E pensarmos nós que o nosso bisavô veio para aqui, que desembarcou na mesma estação em que nós desembarcámos e que pode ter morrido no campo de concentração que nós vamos visitar!
Francisco teve dificuldade em acrescentar o que quer que fosse às palavras da filha, pois também ele, nesse momento, pensava nessa repetição de itinerários, em condições tão diferentes e com quase sessenta anos de intervalo. Teve a tentação de imaginar o avô numa longa fila de homens e mulheres magros e tristes, alinhados sob a ameaça das armas dos soldados, que não hesitavam em matar quem tentasse fugir, ou mesmo quem se limitasse a protestar contra a forma como estavam a ser tratados, mas evitou fazê-lo, guardando as emoções maiores, as mais intensas, para a visita que iriam fazer, com tempo, ao campo de concentração de Buchenwald.


O LUGAR DO HORROR

Francisco, a mulher e os filhos chegaram ao campo de Buchenwald na manhã seguinte, com tempo suficiente para verem tudo com atenção. Como guia para a visita coube-lhes uma jovem de origem judaica, vinda de um país da América Latina. Tiveram sorte porque ela falava espanhol e assim Sofia e João eram capazes de perceber o fundamental das explicações. Ficaram impressionados com o aspecto exterior do campo, com os seus edifícios sombrios, com a pequena torre do relógio que devia marcar o momento em que o tempo parava para todos quantos ali entravam e com o profundo silêncio que envolvia o local, interrompido aqui e acolá por um riso de criança ou pelo canto de um pássaro.
O campo, foi-lhes explicado, abriu as suas portas em Julho de 1937. Junto do campo foram construídos vários edifícios para instalar os homens das SS, tropa de choque do regime nazi e de muitos dos seus dirigentes.
No princípio, antes do começo da Segunda Guerra Mundial, foram para ali levados presos políticos, criminosos de delito comum e testemunhas de Jeová. A primeira grande onda de judeus, as principais vítimas do terror dos campos, chegaria em meados de 1938. Eram cerca de 13 mil e vinham de vários pontos da Alemanha e também da Áustria, que entretanto Hitler, que era austríaco, mandara anexar à Alemanha, fazendo-a deixar de existir como país independente e soberano.
— A primeira medida que os carrascos adoptavam — explicou Iolanda, a guia da visita — era a eliminação de qualquer elemento ou aspecto que garantisse a individualidade ou personalidade dos detidos As pessoas deixavam de ser conhecidas pelos nomes e pelas nacionalidades e passavam a ser conhecidas apenas pelos números que lhes eram atribuídos e pelos triângulos coloridos que lhes eram colocados nos fardamentos e que correspondiam aos “crimes” que era suposto terem cometido. Essa humilhação começava, aliás, dentro dos vagões que os levavam até à estrada de Weimar. Eram obrigadas a viajar amontoadas durante dias, sem quaisquer condições de higiene, como se fossem cabeças de gado. Tudo isto como se fossem autores de crimes graves.
— E que crimes eram esses? — quis saber Sofia.
— Na verdade — respondeu Iolanda — não eram crimes. O seu crime era serem judeus, comunistas ou socialistas, ciganos, homossexuais ou testemunhas de Jeová. Só por isso teriam que ser presos ou destruídos fisicamente. E entre os presos políticos havia muitas pessoas que tinham combatido na Guerra Civil de Espanha e em França, logo no princípio da Segunda Guerra Mundial.
Ao ouvirem estas palavras, Francisco e a família não puderam deixar de sentir um sobressalto, recordando-se do familiar que supunham ter perdido naquele campo de horror.
— Os guardas dos campos — continuou Iolanda — usavam todos os mesmos métodos, tentando torná-los iguais pela fome, pela humilhação, pela pancada, pela tortura e pelo medo e pela falta de condições mínimas de higiene. Desse modo transformavam, ou, pelo menos, tentavam transformar seres humanos em animais. Para que o terror não tivesse pausas, os prisioneiros eram constantemente chamados para a parada do campo, muitas vezes com temperaturas negativas, para se proceder à sua contagem e recontagem. Isso tanto podia acontecer a meio do dia como durante a madrugada. No princípio, Buchenwald destinava-se a funcionar como um campo de trabalhos forcados, mas, na realidade, era um campo de extermínio.
Sofia e João chamaram a atenção do pai para o contraste que havia entre as condições de vida dentro das vedações electrificadas do campo e os edifícios onde viviam as SS. E foi Sofia que reparou numa pequena gruta com uma entrada protegida por um gradeamento de jaula, perguntando à guia do que se tratava.
— Aqui — explicou Iolanda — funcionava um jardim zoológico mandado construir por um dos comandantes do campo. Tinha várias espécies animais e servia para os filhos dos guardas e das tropas das SS se divertirem, vendo os ursos, os veados, as raposas e outros animais, que eram excepcionalmente bem tratados e bem alimentados.
— Certamente muito melhor que os prisioneiros — comentou Francisco.
— Claro que sim! — confirmou Iolanda — porque era disso mesmo que se tratava: dava-se aos animais melhor tratamento que aos humanos para os humilhar ainda mais. Sabe-se mesmo que, um dia, o comandante do campo mandou castigar dois soldados por terem tratado mal um veado do jardim zoológico.
O número de detidos no campo nunca parou de aumentar, até atingir cerca de 110 mil (85 mil homens e 25 mil mulheres) em 1945. Ao todo terão morrido no campo quase 60 mil pessoas de várias nacionalidades, entre as quais portugueses. Quando as tropas norte-americanas ali chegaram a 11 de Abril de 1945, ainda havia no campo 21 mil prisioneiros, muitos dos quais morreram nos dias seguintes, de tal modo grave era o seu estado de saúde, sempre agravado por epidemias, subnutrição e terríveis experiências médicas feitas pelos nazis. À medida que se iam aproximando as forças dos Aliados, os carrascos aumentaram o ritmo da destruição dos detidos. Nos primeiros meses de 1945 foram assassinadas 13 mil pessoas.
— Uma das experiências mais terríveis aqui realizadas — contou Iolanda, incapaz de disfarçar a emoção que continuava a sentir, apesar de realizar aquele trabalho diariamente — foi a de se concentrarem 100 pessoas dentro de uma vedação, deixando-as morrer à fome e à sede para os médicos poderem observar os diferentes graus de resistência, consoante a idade, a raça c o estado de saúde. Também havia crianças nesse grupo mártir e sabe-se que, no máximo, os últimos conseguiram viver 18 dias ao frio, sem qualquer tipo de alimento. E esta foi apenas uma das numerosas experiências médicas que foram feitas neste campo. Muitas dessas experiências eram subsidiadas por uma grande empresa de produtos farmacêuticos alemã, a IG Farben.
Além de serem humilhados, torturados e assassinados, os prisioneiros serviam também de cobaias para terríveis experiências médicas. Alguns sobreviveram, mas ficaram fisicamente destruídos para o resto das suas vidas.
Joana não conseguiu conter as lágrimas. Sofia e João abraçaram a mãe, sentindo uma emoção igual à sua e sobretudo o peso desta terrível pergunta: como é possível que seres humanos de um país civilizado e culto façam isto a outros seres humanos?
— Que tipo de alimentação tinham os prisioneiros? — perguntou Francisco a Iolanda.
— Inicialmente, recebiam por dia entre 300 a 500 gramas de pão e um litro de sopa, muitas vezes azeda. Na fase final, a ração não ultrapassava 100 ou 200 gramas de pão e cerca de meio litro de sopa, que não passava de um caldo aquoso do qual eram retiradas as couves e as batatas. Por isso, quase todos os detidos sofriam de graves problemas intestinais. Mesmo subnutridos, eram obrigados a trabalhar durante 10 horas e mais, por dia, como animais de carga. Ao fim de cada jornada de trabalho, muitos já não regressavam aos abarracamentos, derrotados pela fadiga e pela doença.
Francisco, por mais que tentasse, não conseguia deixar de imaginar o avô no meio de todo aquele horror, tentando sobreviver, muito magro e angustiado. Era a paga que tinha por ter passado a vida toda a lutar pela liberdade e pela tolerância, primeiro em Portugal, depois em Espanha e, por último, em França.
Um dos momentos mais dramáticos da visita ao campo, num belíssimo dia de sol, com a floresta em redor mostrando as suas cores mais vivas e contrastantes, foi o da passagem pela zona dos fornos crematórios, pela sala das experiências médicas e pela cave onde se fuzilavam prisioneiros. Francisco hesitou quanto ao interesse e à oportunidade de deixar Sofia e João entrarem naqueles locais, mas a verdade é que, se estavam ali, com a memória do seu avô tão presente, deveriam ver tudo, sem nada ficar escondido ou esquecido. Nos grupos de visitantes de outros países também havia adolescentes, e Francisco percebeu que alguns deles pertenciam a famílias cuja história também tinha passado, mais de 50 anos antes, por aquele local de horror ilimitado.
Durante a visita só se ouvia a voz da guia e as perguntas feitas, num quase sussuro, pelos visitantes. Tudo o mais era recolhimento e comoção. Não fazia qualquer sentido que ali houvesse comentários ou pessoas a conversar fora dos grupos organizados. As pessoas estavam naquele local a lidar com os mais terríveis sinais da tragédia humana e encontravam-se, sem excepção, à beira das lágrimas, sentindo também uma grande revolta e repetindo sem cessar a pergunta: como podem seres humanos ter feito isto a outros seres humanos? Cada um teria que encontrar a sua resposta ou ficar apenas com a tristeza da pergunta.
Quando saíam da zona dos fornos crematórios, passou por eles um grupo de jovens alemães falando e rindo alto. Todos ficaram indignados.
— São alemães, não são? Como podem proceder aqui desta maneira? — perguntou um francês de meia-idade que seguia integrado no grupo. E Iolanda respondeu:
— Esse é um dos grandes problemas da Alemanha de hoje. É que há pessoas em Weimar e noutros cantos do país que continuam a dizer que foi tudo mentira e que os campos foram uma mera invenção dos Aliados. Muitas outras pessoas, conscientes da responsabilidade da Alemanha, entendem que isto não só aconteceu, como deve ser mostrado ao mundo para que não se repita. E, depois, há grupos de jovens neonazis que dizem que, de facto, houve os campos de concentração e que ainda bem que houve, pois podem ainda servir para se meterem lá os emigrantes turcos e de outras nacionalidades. Isso é terrível. Estes jovens que aqui passaram a rir e a falar em voz alta devem ser dos que pensam dessa maneira.
Todos ouviram com verdadeira estupefacção estas palavras, não querendo acreditar que, perante os testemunhos vivos do horror, algum ser humano possa pensar ou proceder dessa maneira.
Já no final da visita, os elementos do grupo, onde havia pessoas de várias nacionalidades, concentraram-se junto de uma placa de homenagem às vítimas do terror nazi. Era uma placa metálica incrustada numa outra mais larga feita de granito. Nela liam-se somente as nacionalidades das vítimas. Uma delas era a portuguesa. Em redor da placa havia dezenas de ramos de flores. Sofia perguntou ao pai se podia depositar ali o ramo de dálias que tinham comprado numa florista à saída do hotel. O pai respondeu-lhe que sim e ela acocorou-se junto da placa e deixou ali as flores. Segundo o pai lhe dissera, eram as predilectas do seu bisavô.
Nessa altura, Iolanda disse aos membros do grupo:
— Se quiserem prestar uma última homenagem às vítimas deste campo de concentração, por favor ponham a palma da mão sobre a placa metálica. As pessoas formaram uma pequena fila e corresponderam à sugestão.
— Quando tocarem na placa, perceberão a mensagem final do campo de Buchenwald.
Sofia escondeu a estranheza que sentia, dizendo para o pai:
— A placa está morna. Parece que tem alguma coisa lá dentro a aquecê-la.
Iolanda, sensibilizada com a reacção da jovem visitante, explicou:
— É precisamente essa mensagem que nós queremos que tu leves daqui.
Esta placa metálica que homenageia todos aqueles que aqui morreram, tem uma temperatura constante de 37 graus centígrados.
— Mas porquê essa temperatura? — quis saber Sofia.
— Porque é a temperatura do corpo humano e isso é que nos torna a todos iguais. Podemos falar línguas diferentes, ter diferentes grupos sanguíneos, vir de vários continentes e ter diferentes cores de pele. Mas uma coisa é certa: todos temos uma temperatura média do corpo igual a esta e é isso que também nos define como seres humanos. Se nos lembrarmos sempre desta mensagem, nunca deixaremos que nada se sobreponha à nossa condição de humanos.
As palavras de Iolanda foram muito mais do que a grande lição daquele dia de Agosto, numa visita ao campo de concentração de Buchenwald. Foram a lição de uma vida, daquelas que o tempo nunca apaga na memória.


WEIMAR: ENTRE A CULTURA E O TERROR

No dia seguinte, por mais que se falasse de grandes escritores como Goethe ou Schiller, nomes sem os quais não pode ser contada a história de Weimar, não saíam da cabeça de Sofia e de João as palavras de Iolanda sobre o campo de concentração que tanta impressão lhes causara. Contudo, evitaram falar do assunto, já que o programa estabelecido pelo pai previa que visitassem a cidade, com tempo e com paciência para aprenderem coisas novas sobre os movimentos artísticos que ali tinham nascido ou desenvolvido.
Todos acharam a cidade bonita, limpa, monumental, apesar da sua dimensão reduzida, e ficaram espantados com o facto de quase em cada esquina existir uma estátua de um escritor, de um músico ou de um poeta famoso. Era como se todos os génios de várias épocas tivessem feito questão de passar por Weimar ou de ali viver. Aquela pequena cidade alemã do Estado da Turíngia mais parecia um museu vivo, uma enciclopédia que, aberta numa página ao acaso, teria sempre revelações surpreendentes para fazer.
Quando, passeando despreocupadamente a conversar e a comer gelados, passaram perto da estação da cidade, fez-se um grande silêncio. Não puderam deixar de se lembrar das palavras da guia de Buchenwald quando lhes explicou que, durante bastante tempo, era ali que os presos era desembarcados e encaminhados para o campo de concentração, e deviam ser muito poucas as pessoas na cidade que desconheciam o seu trágico destino antes e durante a Segunda Guerra Mundial.
Decidiram, porém, não falar do assunto, pois iriam ter muito tempo para reflectir sobre ele quando voltassem a Portugal. O problema é que a visão do campo teimava em não lhes sair do espírito.
Durante todo o dia ninguém falou de Buchenwald, mas as imagens trágicas da visita feita na véspera não saíam da memória da família, porque, ao recordarem-nas, pensavam, inevitavelmente, no parente chegado que ali tinha acabado os seus dias de forma trágica.
Durante o jantar, Sofia, sempre com grande perspicácia, perguntou aos pais:
— Como é possível que quase ao lado de uma cidade toda ela feita de cultura tenha existido um campo de concentração onde morreu tanta gente inocente?
— Essa — disse a mãe — é uma pergunta para a qual é muito difícil encontrar uma resposta aceitável. A cultura deve tornar as pessoas mais sensíveis e mais humanas e, por isso, não faz muito sentido esta vizinhança.
E o pai, que há muito tempo reflectia sobre o assunto, acrescentou:
— Quem tem que tornar a vida dos seres humanos melhor não é a cultura, é o próprio ser humano, e o ser humano é uma criatura muito complexa, capaz de fazer as coisas mais belas e geniais e, ao mesmo tempo, as coisas mais terríveis e brutais. É assim mesmo a natureza humana. Weimar e Buchenwald são um bom exemplo dessa grande contradição.
— Mas há uma coisa que eu ainda não consegui perceber — disse João. — Que mal fizeram, afinal, aquelas pessoas para serem tratadas como foram e morrerem como morreram?
— Essa — respondeu o pai — é outra das perguntas para as quais não é fácil encontrar resposta satisfatória. Em primeiro lugar, nenhuma delas cometeu crimes de qualquer espécie. O único “crime” que podem ter cometido foi o de serem diferentes, o de serem judeus, ciganos ou apenas homens e mulheres que lutavam pela liberdade contra a tirania.
— Mas isso, que eu saiba, não foi nem nunca pode ser considerado um crime — observou Sofia.
— Claro que não! — concordou a mãe.— Isso só pode ser entendido como um crime quando estão no poder loucos e criminosos, que foi o que aconteceu aqui na Alemanha entre 1933 e 1945. Foram 12 anos de grande sofrimento para milhares de pessoas.
— E os que viviam aqui nesta cidade não podiam fazer nada para evitar que isto acontecesse? — quis saber João.
— A esta distância — explicou o pai — tudo parece muito simples e até podemos pensar que as respostas que damos são as mais correctas e definitivas. Mas o problema é que tem que se ver o que aconteceu, à luz da maneira como os alemães pensavam nessa época. Eles tinham sido derrotados e humilhados na Primeira Grande Guerra e Hitler e os nazis prometeram devolver ao país a grandeza e a glória perdidas.
— Mesmo assim... — limitou-se Sofia a comentar, insatisfeita com a resposta.
— Tens toda a razão em fazer esse comentário, porque não há nada que explique o silêncio cúmplice de grande parte de um povo ao ver assassinar milhares de pessoas da mesma nacionalidade e de outras nacionalidades sem razão aparente. E a verdade é que houve muitos milhares de alemães que colaboraram dia a dia com esta máquina de terror e destruição.
— Como, pai? — perguntou João.
— Tínhamos combinado que hoje não voltávamos a este assunto, mas já que estamos a falar nele, não vale a pena adiar a resposta. Calcula-se que cerca de 100 mil alemães podem ter estado ligados a esta indústria de terror, mesmo não sendo militares.
— Se não eram militares, o que é que faziam nos campos de concentração? — quis saber Sofia.
— Uns eram guardas dos campos, e os guardas eram homens e mulheres. Depois, havia gente que trabalhava nas fábricas onde se faziam os produtos usados para assassinar pessoas nos campos e, espero que não se impressionem com o que vos vou dizer: havia muitos homens e mulheres em fábricas e oficinas a fazer travesseiros e cabeleiras postiças com os cabelos que eram cortados rentes àqueles que entravam nos campos, e havia ainda muita gente a negociar com esta mão-de-obra que não custava nada e que dava muito lucro. Isso acontece nos países onde havia campos, e eles existiam na Alemanha, na Polónia, na Checoslováquia e outros mais pequenos nos vários países e os nazis ocupavam. No fundo, existia uma verdadeira economia do horror a girar à volta desta máquina de torturar e de matar. Ainda hoje é difícil percebermos como tudo isto foi possível.
Sofia mordeu o lábio, revoltada com o que acabara de ouvir, e depois perguntou ao pai:
— E as pessoas aqui desta cidade não faziam nada para ajudar os presos?
— Não — respondeu Francisco. — Que se saiba, não faziam. Mantinham aquilo a que eu chamei um silêncio cúmplice. Claro que havia pessoas que não concordavam, mas, se o dissessem publicamente, podiam acabar os seus dias num campo ou noutra qualquer prisão do regime de Hitler. Parece também que muita gente tirava vantagens da proximidade do campo.
— Mas como? — perguntou o João.
— Utilizavam os presos e presas como jardineiros, como cozinheiras, “como costureiras e até como amas de crianças, não pagando nada pelo serviço, ou pagando alguma coisa aos guardas do campo que alinhavam neste tipo de negócio e que até enriqueciam à custa dele.
— Que horror! — exclamou Sofia.
Francisco achou que seria melhor, pelo menos naquela noite, pôr um ponto final no assunto, mas os filhos insistiram para que ele o não fizesse porque queriam saber mais e, sobretudo, conhecer melhor os culpados e a lógica de um terror que não conseguiam justificar.
— Os piores campos — explicou o pai — eram aqueles que existiam sobretudo para matar os prisioneiros. O maior e o pior de todos foi o de Auschwitz, na Polónia. Foi ali que se internaram mais pessoas e que mais pessoas foram mortas. Era um campo enorme. Embora fosse um campo de extermínio, foi, durante quase todo o tempo em que funcionou, um campo de trabalho. Subalimentadas e gravemente doentes, as pessoas, independentemente da idade, tinham que produzir, tinham que render como animais de carga. Ninguém respeitava a sua dignidade nem a sua identidade, e era por isso que eram tratadas somente pelos números que lhes eram tatuados na pele da parte interior do antebraço. Os trabalhos mais pesados e mais brutais estavam reservados para elas, porque era como se tivessem escrito na testa a palavra “culpado”.Embora ninguém soubesse ao certo qual era a natureza dessa culpa. E todos morreram sem resposta para esta pergunta.
— E só judeus terão sido seis milhões a morrer nos vários campos de concentração — acrescentou a mãe, sugerindo que, depois de um dia tão cansativo, fossem todos dormir. A conversa, tão terrível como interessante, podia continuar no dia seguinte.
Antes de adormecer. João olhou para a janela e pareceu-lhe ver uma lágrima muito brilhante a deslizar pela face da lua. Talvez fosse uma lágrima de tristeza por todos os inocentes mortos nos campos de concentração ao longo daqueles anos.

UMA HISTÓRIA PARA LEMBRAR E PARA CONTAR

Os dias de férias que ainda lhes restavam na Alemanha foram reservados para conhecerem melhor Weimar e a região da Turíngia. Visitaram museus e exposições, almoçaram em esplanadas escutando música de qualidade a ser tocada ao ar livre e compraram presentes para trazerem aos amigos, desde as tradicionais canecas de cerveja trabalhadas e pintadas à mão, até caixas de bombons com os rostos de Mozart, Beethoven e Bach pintados nas capas.
Francisco contou aos filhos tudo o que sabia sobre a literatura e a música alemãs, numa linguagem adequada às suas idades e ficou disponível para conversar sobre todos os assuntos que lhes interessassem. Porém, o que continuava a suscitar sempre novas perguntas eram os campos de concentração. Não se lhes podia censurar essa curiosidade.
Sofia, numa dessas conversas, lembrou-se do nome de Anne Frank e do facto de ela e a irmã terem morrido num campo de concentração.
— Tens razão, Sofia — confirmou a mãe — Anne Frank, de quem tu já leste o diário, morreu no campo de concentração de Bergen-Belsen, depois de ter passado dois anos num sótão de Amesterdão, cidade para onde a sua família, que era alemã, fugiu para escapar à perseguição dos nazis. Se tivesse conseguido resistir um pouco mais, teria sido libertada e talvez tivesse feito a grande carreira de escritora com que tanto sonhou enquanto escrevia os seus textos sem poder fazer barulho para que a família e as outras pessoas que viviam naquele espaço apertado e quase irrespirável não fossem denunciadas à Gestapo.
O pai aproveitou então para explicar que, para além de Buchenwalde, Auschwitz, de que já tinham falado, existiram outros campos igualmente terríveis, citando Dachau, Mauthausen, Treblinka, Maidanek, Chelmno, Ravensbruck e Sachesenhausen, ficando muito longe de esgotar a lista.
Nesses campos foram assassinados, desde meados dos anos trinta e até praticamente ao fim da guerra, em 1945, milhões de judeus, de ciganos, de comunistas, de socialistas, de padres, de testemunhas de Jeová e ainda dezenas de milhares de doentes mentais. A cada um destes grupos correspondia uma estrela ou um pedaço de pano de outra forma, sempre com cores diferentes. A dos judeus era a amarela. Eles já sabiam que essa cor tinha, naquela situação, um significado trágico.
Quase ao mesmo tempo, João e Sofia perguntaram aos pais se foi logo no princípio da guerra que Hitler decidiu exterminar os judeus.
— Não — respondeu Francisco — embora já houvesse muitos internados nos campos, a sua eliminação sistemática começou em meados de 1941 e, no dia 20 de Janeiro de 1942, em Wannsee, nos arredores de Berlim, foi aprovado o que ficou tragicamente conhecido como “A Solução Final”, ou seja, o programa de extermínio em massa dos judeus.
— É então a isso que se chama Holocausto? — quis saber Sofia.
— Holocausto — respondeu Joana, tentando satisfazer a curiosidade da filha — quer dizer “sacrifício pelo fogo” e tornou-se uma expressão usada sobretudo pelos judeus norte-americanos. Há quem prefira chamar-lhe “genocídio; pois foi o extermínio sistemático de uma raça e há quem use o termo hebraico “shoah”, que é outra forma de dizer a mesma coisa, ou seja, de falar no genocídio.
— E porquê este ódio aos judeus? Que mal é que eles fizeram exactamente? — perguntou João, cada vez mais espantado com o absurdo de uma situação para a qual não conseguia encontrar uma explicação lógica. E Francisco respondeu-lhe:
— O ódio aos judeus não era uma coisa nova na Europa. Eles, historicamente, foram sempre vistos como responsáveis pela morte de Jesus Cristo. Essa perseguição que teve na Igreja Católica a sua principal base, manteve-se durante séculos. Os nazis retomaram-na com muito maior violência, tentando fazer dela uma causa nacional capaz de unir os alemães a quem tinha sido feita uma promessa de retorno à glória e à prosperidade.
Os principais inimigos públicos dos nazis eram os judeus e os comunistas e, à volta desse ódio, foi feita uma imensa campanha de propaganda para aumentar a intolerância e justificar o genocídio. Portanto, os judeus não eram culpados de nada em concreto. Eram apenas um pretexto para uma campanha de extermínio sem paralelo na história da Humanidade.
— Mas então — interrompeu João — os judeus não resistiram a essa perseguição?
— Houve muitos — explicou a mãe — que resistiram, integrando-se nos grupos de resistência e de guerrilha que se opunham ao terror nazi, mas não se pode falar de um exército clandestino judaico, organizado para o combate. Por exemplo, muitos dos judeus que resistiram ao terror eram comunistas, para além de serem judeus. Quanto aos campos de concentração, como já vos disse, não os vejam apenas como campos de extermínio, mas também como campos de trabalhos forçados que ajudavam a manter, sem quaisquer custos para os nazis, uma economia de guerra que tinha que produzir armamento e outros bens a um ritmo infernal.
Francisco aproveitou para falar aos filhos, de escritores importantes como o italiano Primo Levi, detido em Auschwitz, ou o espanhol Jorge Semprún, que sobreviveram e escreveram livros impressionantes dando testemunho do que foi essa experiência nas suas vidas de homens ainda muito jovens. Primo Levi acabou por se suicidar, já depois de ter completado 70 anos, por não poder continuar a viver com essa memória que nunca mais lhe deu paz.
Durante a conversa, que se prolongaria sobre o tema, já em Portugal, nas semanas seguintes, também se falou da existência de guetos como o de Varsóvia, onde viviam em condições inqualificáveis dezenas de milhares de judeus, completamente à margem do resto da sociedade. Aí chegou mesmo a haver uma revolta que os nazis conseguiram prontamente abafar.
Como tinham visto no cinema o filme de Steven Spielberg “A Lista de Schindler”, Sofia e João perguntaram aos pais se tinha havido mais pessoas a ajudarem os judeus a escapar ao seu destino trágico. O pai esclareceu-os:
— Houve muito mais pessoas do que se pode imaginar. Para além de Schindler, que o cinema tornou famoso, houve o sueco Raoul Wallenberg e muitos diplomatas, com destaque para o cônsul português Aristides de Sousa Mendes que, em Bordéus e Bayonne, conseguiu, contra a vontade de Salazar e do regime fascista em Portugal, emitir vistos que permitiram salvar a vida a mais de 30 mil judeus. Infelizmente, não há ainda um filme sobre esse herói português do século XX, que foi afastado da carreira diplomática e morreu na miséria em Portugal. Ele obedeceu à sua consciência de ser humano com regras morais e salvou milhares de vidas.
Essas pessoas que ajudaram a salvar milhares de judeus são hoje recordadas no museu Yad Vashem, também conhecido como Museu do Holocausto, em Jerusalém, onde cada uma delas é lembrada com uma árvore e com uma placa recordando o seu contributo para a salvação dos judeus.
Durante a conversa, a pergunta inevitável acabou por surgir:
— E não existe o perigo de uma coisa assim voltar a acontecer? Joana achou que esta poderia ser a melhor das respostas:
— Em princípio não voltará a acontecer, mas como o ser humano é complexo e difícil de prever, nunca se sabe e, por isso, o melhor é estar atento e evitar, por todos os meios ao nosso alcance, que uma situação tão trágica se repita. E há casos recentes preocupantes na ex-Jugoslávia, no Ruanda ou na perseguição ao povo curdo. Depois, há que pensar que existem muitos grupos de neonazis em vários pontos do mundo, a começar pela Alemanha, que admiram Hitler, a Cruz Suástica e as teorias do ódio racial.
Na Áustria, onde Hitler nasceu, há um partido que defende as suas ideias e que é chefiado por um tal Georg Haider. Já faz parte do governo, o que provocou uma forte e justa reacção da União Europeia, dos Estados Unidos e de Israel. Enquanto houver situações dessas, o perigo continuará a existir. Muitos desses grupos utilizam já hoje a Internet para divulgar as suas ideias e as suas acções.
Mesmo em França, existe um partido chamado Frente Nacional que defende ideias contra os estrangeiros que vivem e trabalham naquele país, muito parecidas com as dos nazis. Por isso, toda a vigilância é pouca, na escola, nos sítios onde trabalhamos ou nas cidades onde vivemos.
E também é bom não esquecer que os israelitas, herdeiros e descendentes dos judeus assassinados nos campos de concentração, têm utilizado com os palestinianos métodos que por vezes se assemelham aos que os nazis usaram contra o povo judeu, o que faz com que naquela zona do Médio Oriente se mantenha um clima de guerra que parece não ter fim à vista.
O que uns sofreram não pode justificar o mal que fazem aos outros. A vingança nunca é o caminho.
Tanto Francisco como Joana lembraram aos filhos que a primeira coisa que os nazis tiravam aos presos dos campos, antes mesmo da vida, era a dignidade humana, substituindo-lhes os nomes por números, rapando-os, separando pais de filhos, jovens de idosos, e enviando directamente para os campos de gás os considerados inaptos para o trabalho. Essa foi uma das maiores tragédias de toda a história da Humanidade e, seguramente, a vergonha maior do século XX.
Uma vergonha que ninguém pode ou deve esquecer, sob pena de permitir que ela se repita. Antes de deixarem Weimar, de comboio, rumo a Frankfurt, onde apanharam o avião de regresso a Lisboa, tiveram oportunidade de ver que num país onde a cultura nunca deixou de ter força e uma presença constante na vida das pessoas também houve lugar para o horror, para o extermínio e para a destruição física e moral de milhões de pessoas.
A ideia de terem perdido em Buchenwald alguém que a família nunca deixou de amar e de estimar fazia com que aquela terra distante onde trabalham muitos emigrantes portugueses passasse também a fazer parte das suas memórias e das suas vidas.
Sofia pediu ao pai que, no regresso, a deixasse ler as cartas do bisavô Francisco. E ele prometeu que o faria e que organizaria a sua vida para publicar o livro com essas cartas que tanto o tinham comovido. Tentaria honrar esse compromisso.
Sem se darem conta disso, Sofia e João voltaram mais crescidos e mais maduros daquela viagem de Verão, feita em nome da memória, no final de um século em que aconteceram coisas muito belas e outras assustadoras e tremendas.
Durante a viagem de regresso, o pai leu-lhes um fragmento de um poema escrito por um prisioneiro de um campo de concentração que dizia: Levantei a cabeça / as árvores estão em flor / pela primeira vez desde há trinta meses / chorei.Antes de partir, lembrando o avô e bisavô Francisco e a tragédia de Buchenwald, também eles, olhando as árvores floridas e as estátuas do poeta e ouvindo na rua a música de Mozart, tiveram também vontade de chorar, num misto de alegria e de tristeza que marcaria para sempre as suas vidas.
Quem visita um campo de lágrimas, mas que foi habitado por uma dor sem nome, passa a conhecer melhor a condição humana. As palavras da guia Iolanda nunca mais lhes saíram da cabeça, nem a placa com uma temperatura permanente de 37 graus, que é a do corpo humano, seja de que raça for. Aquela lição foi a maior das suas ainda curtas vidas.
Voltavam agora a Portugal com tanta coisa nova para contar e não iam faltar amigos para escutarem o relato da viagem. Ficou assente que iriam ver no cinema ou em vídeo o filme “A Vida é Bela” de Roberto Benigni, uma obra muito bela sobre os anos de tragédia e resistência, na Segunda Guerra Mundial.

Era uma vez um português que, por ter lutado pela liberdade, deixou a mulher e um filho pequeno e acabou por morrer num campo de horrores onde as pessoas eram conhecidas por números e sabiam que cada dia podia ser o último das suas amargas vidas...

Este bem podia ser, em poucas palavras, o princípio da história que traziam para contar. Uma história que se demora na memória como uma chama que o tempo e o vento não são capazes de apagar.


José Jorge Letria
Campos de Lágrimas
Porto, Ambar, 2001