<?xml version='1.0' encoding='UTF-8'?><?xml-stylesheet href="http://www.blogger.com/styles/atom.css" type="text/css"?><feed xmlns='http://www.w3.org/2005/Atom' xmlns:openSearch='http://a9.com/-/spec/opensearchrss/1.0/' xmlns:georss='http://www.georss.org/georss' xmlns:gd='http://schemas.google.com/g/2005' xmlns:thr='http://purl.org/syndication/thread/1.0'><id>tag:blogger.com,1999:blog-3848387236642605066</id><updated>2011-04-21T18:36:13.587-07:00</updated><category term='Ambição'/><category term='Intolerância'/><category term='História'/><category term='Racismo'/><category term='Violência'/><category term='Paz'/><category term='anti-semitismo'/><category term='Histórias'/><category term='Cólera'/><category term='Preconceito'/><category term='Diferença'/><title type='text'>Olhares sobre a intolerância</title><subtitle type='html'></subtitle><link rel='http://schemas.google.com/g/2005#feed' type='application/atom+xml' href='http://olharaintolerancia.blogspot.com/feeds/posts/default'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/3848387236642605066/posts/default?max-results=100'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://olharaintolerancia.blogspot.com/'/><link rel='hub' href='http://pubsubhubbub.appspot.com/'/><author><name>Div. temas</name><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><generator version='7.00' uri='http://www.blogger.com'>Blogger</generator><openSearch:totalResults>37</openSearch:totalResults><openSearch:startIndex>1</openSearch:startIndex><openSearch:itemsPerPage>100</openSearch:itemsPerPage><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-3848387236642605066.post-6754050441442010614</id><published>2007-09-27T10:37:00.000-07:00</published><updated>2007-09-27T10:42:01.722-07:00</updated><title type='text'>Homossexualidade - O ódio à diferença</title><content type='html'>&lt;p align="justify"&gt;&lt;em&gt;Além-mar&lt;br /&gt;&lt;/em&gt;Maio 2006&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ana Glória Lucas&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;O ódio à diferença&lt;br /&gt;&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;Um pouco por todo o mundo, homossexuais são assassinados, presos, maltratados, discriminados. A homofobia é uma manifestação de ódio à diferença, mas sobretudo um atentado à dignidade da pessoa, uma violação da Declaração Universal dos Direitos Humanos e um desrespeito pelo Evangelho. Onde Jesus diz claramente, sem sés nem mas: «Ama o próximo como a ti mesmo.»&lt;br /&gt;&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;«Agarrámos nele e assestámos-lhe uns valentes golpes, mas ele continuava a cantar. [...] Passámos-lhe uma rasteira, ele caiu pesadamente e lançou um imenso vómito de cerveja. Era algo de repugnante, por isso cada um de nós lhe deu um pontapé e então já era sangue, não canções nem vómito, o que lhe saía da velha boca nojenta. Depois, seguimos o nosso caminho.»&lt;/p&gt;&lt;p align="right"&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-size:85%;"&gt;In &lt;em&gt;“Uma Laranja Mecânica”&lt;/em&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;p align="justify"&gt; &lt;/p&gt;&lt;p align="justify"&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O inglês Anthony Burgess escreveu o romance «Uma Laranja Mecânica» em 1962 e Stanley Kubrick imortalizou-o no cinema em 1971. Burgess situou-o então num futuro não muito distante e nele conta a história de um grupo de adolescentes que se entregam a actos de violência gratuita, forma por eles escolhida para se insurgirem contra a sociedade conformista em que viviam. Nesta cena, o alvo da violência é um velho alcoólico com quem os quatro adolescentes se cruzam nas suas deambulações nocturnas. E é quase impossível não pensar que o que para Burgess era futuro para nós é já presente, quando lemos ou ouvimos notícias como a da morte de Gisberta às mãos de um grupo de adolescentes com idades compreendidas entre os 13 e os 16 anos, no Porto. Gisberta, um transexual brasileiro de 46 anos, sem-abrigo, toxicodependente e portador do vírus da sida, foi alvo de espancamento, sevícias sexuais e, por fim, lançado a um poço, onde o seu corpo só foi encontrado no dia seguinte.&lt;/p&gt;&lt;p align="justify"&gt;&lt;br /&gt;«As minorias são em geral alvos fáceis para actos de humilhação ou agressão», afirmou à Além-Mar Cláudia Pedra, directora da Secção Portuguesa da Amnistia Internacional. «Pior quando se juntam várias minorias numa só pessoa, pois isso gera várias discriminações ao mesmo tempo. Neste caso, era um indivíduo sem-abrigo, um travesti e ninguém queria saber nada dele, só quiseram saber quando morreu. E aquelas crianças, que certamente já tinham passado por muitas coisas antes para chegarem àquele ponto, pensavam que o que estavam a fazer não era errado.»&lt;br /&gt; &lt;/p&gt;&lt;p align="justify"&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;Morte, prisão e tortura&lt;br /&gt;&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;A homossexualidade sempre existiu. Para não irmos mais longe, era prática aceite e corrente na Grécia Antiga. Hoje em dia, a homossexualidade é mais ou menos tolerada consoante o tipo de sociedade onde se insere, o que dita os actos de discriminação e mesmo de abusos contra os cidadãos unicamente por causa da sua orientação sexual.&lt;/p&gt;&lt;p align="justify"&gt;&lt;br /&gt;«Os países do Sul são piores do que os países do Norte relativamente à discriminação dos homossexuais», referiu Cláudia Pedra. «Nos países onde existe a cultura do “macho”, é especialmente perigoso para uma pessoa assumir-se e tentar viver sem ser discriminado. Nos países onde a sexualidade de uma forma geral é encarada mais livremente, não existem tantas situações de discriminação. Mas é difícil encontrar um país onde não haja nenhuma.»&lt;/p&gt;&lt;p align="justify"&gt;&lt;br /&gt;Segundo a Wikipédia – a tal «enciclopédia livre e gratuita, feita por pessoas como você» na Internet (o que significa que deve haver alguma prudência em relação aos dados apresentados) – existem ainda países que punem a homossexualidade com a pena de morte. São eles o Afeganistão, a Arábia Saudita, o Iémen, o Irão e o Sudão. Um número considerável de países pune a homossexualidade com prisão, alguns (sobretudo Estados muçulmanos) com castigos físicos e há ainda aqueles onde uma orientação sexual por indivíduos do mesmo sexo é reprimida pelas entidades oficiais. São estes, ainda de acordo com a mesma fonte, o Burundi, Cuba e o Egipto.&lt;/p&gt;&lt;p align="justify"&gt;&lt;br /&gt;Em Cuba, onde «maricón» continua a ser um insulto merecedor de um sinal sonoro quando é proferido na rádio ou televisão, a perseguição aos homossexuais começou nos anos 60 e 70, com detenções maciças e o transporte para as chamadas Unidades Militares de Ajuda à Produção (UMAP), onde se supunha que os trabalhos agrícolas que os obrigavam a executar os «transformariam em homens». Essas unidades já não existem e o Código Penal aprovado em 1979 descriminaliza a homossexualidade. No entanto, os homossexuais que causem «escândalo público» podem ainda ser punidos com penas que vão até aos 12 meses de prisão. &lt;/p&gt;&lt;p align="justify"&gt;&lt;br /&gt;No México, onde o machismo continua a influenciar as atitudes públicas ou privadas contra os homossexuais – herança em parte de uma cultura azteca que executava e seviciava os homossexuais, ao mesmo tempo que oferecia sacrifícios humanos aos deuses –, os homens efeminados são particularmente vulneráveis, bem como os travestis. Os actos de violência contra este grupo populacional são frequentes e têm muitas vezes as marcas das próprias autoridades. Um exemplo bastas vezes referido é o dos 15 travestis assassinados entre Junho de 1991 e Janeiro de 1993, depois de terem ousado desafiar uma lei estadual de Chiapas, de 1990, proibindo que os homens se vestissem de mulheres em nome da «saúde pública». A maioria dos homicídios foi levada a cabo com armas de calibre reservado ao exército e à polícia federal e estadual.&lt;/p&gt;&lt;p align="justify"&gt;&lt;br /&gt;O México é o segundo país do mundo com mais assassínios de gays por ano, logo depois do Brasil: 35, de acordo com os números oficiais; três vezes mais, segundo outras fontes. No Brasil, de acordo com Luís Mott, antropólogo e presidente do Grupo Gay da Baía, a homofobia é uma verdadeira «epidemia nacional» e «cada três dias um homossexual é barbaramente assassinado». De resto, um estudo realizado pela UNESCO entre os jovens de Brasília permitiu concluir que apenas 12 por cento consideravam crime humilhar os travestis, prostitutas e homossexuais.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt; &lt;/p&gt;&lt;p align="justify"&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;Um tabu «africano»&lt;br /&gt;&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;Também na África a homossexualidade é em grande medida praticada às escondidas. «Tanto a norte como a sul do Sara, a lei e mais ainda a sociedade tornaram-se amplamente hostis a práticas sexuais que a tradição por vezes admite», escrevia a revista Jeune Afrique de Setembro último, num trabalho sobre o que é «Ser &lt;em&gt;gay&lt;/em&gt; em África». &lt;/p&gt;&lt;p align="justify"&gt;&lt;br /&gt;Em Março último, dois estudantes dos Camarões foram condenados a um ano de prisão depois de terem admitido publicamente serem amantes. No Uganda, activistas dos direitos das minorias sexuais do país vêem as suas casas ser alvo de buscas policiais sem mandado. E, no Zimbabué, o presidente Robert Mugabe garante que «a homossexualidade é uma tara dos brancos». Isto num país cujo primeiro presidente, o ministro metodista Canaan Banana (1980-87), viria a ser condenado em 1999 por práticas sexuais com outros homens, alguns deles elementos da sua guarda pessoal.&lt;/p&gt;&lt;p align="justify"&gt;&lt;br /&gt;Na África negra, a excepção parece ser a África do Sul, onde os casamentos entre pessoas do mesmo sexo foram recentemente admitidos. Em Dezembro último, o Tribunal Constitucional ordenou que a definição de casamento deixe de ser uma «união entre um homem e uma mulher» para passar a ser uma «união entre duas pessoas». A África do Sul tornou-se assim o primeiro país em África e o quinto em todo o mundo a legalizar os casamentos entre pessoas do mesmo sexo. Também na África árabe a homossexualidade é reprimida. Quando não é especificamente proibida por lei, os gays podem ser perseguidos pela justiça por «deboche» ou «prostituição», como no caso do Egipto, o que pode ser punido com três anos de prisão. Muitas vezes são as próprias famílias que não aceitam e expulsam de casa o jovem homossexual que, uma vez na rua, acaba no engate e na prostituição.&lt;/p&gt;&lt;p align="justify"&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;Discriminação e humilhação&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A Declaração Universal dos Direitos Humanos não faz referências específicas à homossexualidade. Mas garante que «todos os seres humanos nascem livres e iguais em dignidade e direitos» e que «toda a gente tem direito a todos os direitos e liberdades estabelecidos nesta Declaração, sem distinção de qualquer tipo, seja ela de raça, sexo, língua, religião, política ou de opinião, de origem nacional ou social, bens, nascimento ou outro estatuto». Além do mais, «toda a gente tem direito à vida, à liberdade e à segurança pessoal». &lt;/p&gt;&lt;p align="justify"&gt;&lt;br /&gt;É com base nesta Declaração que as organizações que defendem os direitos dos homossexuais desenvolvem o seu trabalho. A Amnistia Internacional, por exemplo, considera que, tal como a cor, o sexo ou a religião, as preferências sexuais de uma pessoa fazem parte integrante e fundamental da sua identidade. «A nossa abordagem à comunidade homossexual assenta no facto de serem uma minoria que tem sido especialmente vítima de discriminação no que se refere aos direitos humanos. Em muitos países do mundo, os gays são assassinados, presos e torturados sem terem cometido qualquer crime, unicamente por serem gays», afirmou a mesma responsável da Secção Portuguesa da Amnistia Internacional. «Por isso, para nós, são prisioneiros de consciência.» &lt;/p&gt;&lt;p align="justify"&gt;&lt;br /&gt;Para Cláudia Pedra, os actos de humilhação e agressão aos homossexuais têm a ver «com os estereótipos da sociedade» e também com o facto de a «comunidade homossexual viver há muito tempo escondida. Há pouco contacto com o público em geral, que tem tendência para rejeitar e ter medo do que é diferente. A ignorância e o preconceito assumem por vezes formas de violência». A discriminação dos homossexuais é frequente no mundo do trabalho: «Se um gay procurar emprego como engenheiro, por exemplo, tem grandes hipóteses de não ser aceite. Claro que a justificação dada pelo patrão nunca será a orientação sexual do indivíduo.» &lt;/p&gt;&lt;p align="justify"&gt;&lt;br /&gt;E as agressões e humilhações podem ser muito variadas. Não são apenas os espancamentos. As anedotas que se contam, as imitações de gestos comuns em certo tipo de gays, os insultos, até mesmo um olhar podem fazer um homossexual sentir-se mal. Há quem se suicide por causa disso. Há quem passe a vida a mentir, fechado num mundo de angústia e solidão. O respeito pela dignidade da pessoa humana, que para muitos já é imenso, é algo que fica muito aquém do Evangelho. Que pura e simplesmente nos obriga a um mandamento novo – o Amor. &lt;/p&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/3848387236642605066-6754050441442010614?l=olharaintolerancia.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://olharaintolerancia.blogspot.com/feeds/6754050441442010614/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=3848387236642605066&amp;postID=6754050441442010614' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/3848387236642605066/posts/default/6754050441442010614'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/3848387236642605066/posts/default/6754050441442010614'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://olharaintolerancia.blogspot.com/2007/09/homossexualidade-o-dio-diferena.html' title='Homossexualidade - O ódio à diferença'/><author><name>Div. temas</name><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-3848387236642605066.post-972576849330843659</id><published>2007-07-24T00:03:00.000-07:00</published><updated>2007-07-24T00:58:49.350-07:00</updated><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='Preconceito'/><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='Paz'/><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='Diferença'/><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='Histórias'/><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='Intolerância'/><title type='text'>O pato e a coruja - Hanna Johansen</title><content type='html'>&lt;div align="justify"&gt;&lt;span style="font-size:120;"&gt;&lt;span style="LINE-HEIGHT: 180%"&gt;&lt;br /&gt;Era uma vez uma bétula que se erguia no meio de um prado.&lt;br /&gt;Mesmo à beirinha do prado cintilava um charco onde um pato nadava em círculo, mergulhando o bico de vez em quando.&lt;br /&gt;O pato subiu para terra, sacudiu-se e olhou para o cimo da árvore.&lt;br /&gt;Após ter olhado algum tempo, gritou:&lt;br /&gt;— Eh, tu, aí em cima!&lt;br /&gt;— Uhm — resmungou uma voz lá em cima, na bétula.&lt;br /&gt;— És uma coruja a sério? — pergunta o pato.&lt;br /&gt;— Uhm.&lt;br /&gt;— Ora chega cá abaixo — gritou o pato.&lt;br /&gt;— Uhm — resmungou a coruja a bocejar. E esvoaçou para o chão.&lt;br /&gt;— Oh! — disse o pato. — Nunca pensei que uma coruja tivesse asas tão bonitas.&lt;br /&gt;— Uhm — tornou a coruja, contente por o pato achar bonitas as suas asas.&lt;br /&gt;— Porque é que estás sempre a dizer Uhm? Não sabes dizer mais nada?&lt;br /&gt;— Claro que sei — disse a coruja — mas não me apetece. Estava a dormir.&lt;br /&gt;— Oh, meu Deus! — exclamou o pato. — Como é que tu consegues dormir em pleno dia? Ninguém consegue!&lt;br /&gt;— Não percebo o que queres dizer — respondeu a coruja. — Durmo sempre de dia.&lt;br /&gt;— Isso é esquisito — disse o pato. — De noite é que se dorme.&lt;br /&gt;— Dormir de noite, dizes tu? De forma alguma! A noite é demasiado excitante para ser gasta a dormir. É quando está escuro, é quando se arregalam bem os olhos, e se espera que passe alguma coisa que se possa comer.&lt;br /&gt;— Não estás boa da cabeça! — disse o pato. — A comida não passa. Tem de se nadar, mergulhar e procurar até encontrar.&lt;br /&gt;— Que forma mais disparatada de comer! — murmurou a coruja.&lt;br /&gt;O pato zangou-se.&lt;br /&gt;— Não é nada disparatada, é o normal! — disse, furioso.&lt;br /&gt;— Não estás bom da cabeça! — respondeu a coruja. — Normal é pairar às escuras no bosque sem fazer barulho. E, então, quando algum animalzinho se mexer nas folhas secas, caímos-lhe em cima rapidamente e comemo-lo.&lt;br /&gt;— Que horror! — gritou o pato. — Só de pensar nisso fico logo enjoado.&lt;br /&gt;— E tu, o que é que comes? — berrou a coruja, que também estava zangada. — Comes alpista para patos. Que nojo! Até fico enjoada! E como é que se consegue comer durante o dia!&lt;br /&gt;O pato até assobiou de raiva.&lt;br /&gt;— Fica a saber que é de dia que se come! Todos fazem isso!&lt;br /&gt;— Ora, ninguém faz isso! — gritou a coruja. — Quando fica escuro é que se tem fome a sério.&lt;br /&gt;— Isso é uma estupidez! — grasnou o pato — Estupidez, estupidez, estupidez!!&lt;br /&gt;E ali estavam os dois no meio do prado a discutir.&lt;br /&gt;A coruja abriu e fechou o bico um par de vezes como se estivesse a pensar, e depois sacudiu-se.&lt;br /&gt;— Ó pato — perguntou a coruja — afinal porque é estamos a discutir? Ainda te lembras porque é que começámos?&lt;br /&gt;— Claro — responde o pato. — Porque tu fazes tudo mal. É por isso…&lt;br /&gt;— Não é verdade — disse a coruja. — Eu não faço nada errado. Faço é de maneira diferente, e, assim, também dá. Faço como fazem todas as corujas.&lt;br /&gt;— E eu faço como fazem todos os patos. Tens razão. Não é preciso discutir por causa disso.&lt;br /&gt;“Ah”, pensava a coruja para si, “por sinal, até gosto do pato. Tem uma maneira esquisita de ver as coisas, mas será que, apesar disso, não podemos ser amigos?…”&lt;br /&gt;— Mas que pés esquisitos tu tens! — observou a coruja.&lt;br /&gt;— Não são esquisitos — responde o pato — são práticos. São para nadar.&lt;br /&gt;— Para nadar, talvez sejam bons — opinou a coruja. — Quando se gosta de nadar. E, vendo melhor, até os acho bonitos.&lt;br /&gt;— A sério? — sussurrou o pato.&lt;br /&gt;— Anda comigo — disse a coruja de seguida— já me doem as pernas de estar aqui em baixo. Vamos pôr-nos confortáveis, em cima da bétula.&lt;br /&gt;— O quê? — perguntou o pato.&lt;br /&gt;— Vamos voar lá para cima — responde a coruja. — Em cima das árvores está-se melhor.&lt;br /&gt;O pato nunca na vida tinha pousado numa árvore, mas se isso dava alegria à coruja, quis experimentar.&lt;br /&gt;— Como queiras — respondeu.&lt;br /&gt;E voaram os dois lá para cima; instalaram-se num ramo de onde podiam ver tudo em redor.&lt;br /&gt;— Aqui tem-se melhores vistas — disse a coruja satisfeita.&lt;br /&gt;— Bem… — murmurou o pato.&lt;br /&gt;Olhava para o prado e para o charco onde o sol reluzia. Não gostou mesmo nada de pousar tão alto em cima de uma árvore. Esteve o tempo todo com medo de cair.&lt;br /&gt;— Isto aqui não é bom — disse ele para a coruja. — Vamos antes nadar para o lago.&lt;br /&gt;— Deves ter ficado maluco, de certeza! — gritou a coruja. — Para a água? Mas tu queres matar-me?&lt;br /&gt;— Não te exaltes! — disse o pato. — Se queres, sentamo-nos então outra vez na erva. Vocês, corujas, são demasiado estúpidas para nadarem.&lt;br /&gt;— E vocês, patos, são tão estúpidos que nem sabem pousar numa árvore!&lt;br /&gt;— Oh, meu Deus — disse o pato. — Lá estamos nós a discutir outra vez.&lt;br /&gt;— É porque tu começas sempre — retorquiu a coruja.&lt;br /&gt;— Isso não é verdade — berrou o pato, furioso. — Não fui eu, tu é que começaste!&lt;br /&gt;— Não, foste tu! — gritou a coruja.&lt;br /&gt;— Ei, porque é que estás a gritar assim? — disse o pato.&lt;br /&gt;— Eu não estou a gritar, tu é que estás! — disse a coruja.&lt;br /&gt;— Não, tu é que estás!&lt;br /&gt;— Oh, meu Deus! — disse a coruja. — Basta! Porque é que só sabemos discutir um com o outro?&lt;br /&gt;— Porque tu fazes tudo errado.&lt;br /&gt;— Eu não! — disse a coruja. — Tu é que fazes!&lt;br /&gt;— Não, tu é que fazes! — disse o pato.&lt;br /&gt;— Mas isso não tem importância. — disse a coruja. — Não é preciso discutir por uma coisa dessas.&lt;br /&gt;O pato pensou melhor e disse:&lt;br /&gt;— Também acho, não é preciso discutir por isso. Mas, olha, quem é que começa sempre?&lt;br /&gt;— Eu acho que és tu.&lt;br /&gt;— Não deves estar boa da cabeça — disse o pato. — Tu é que começas sempre!&lt;br /&gt;— Uhm — disse a coruja — às vezes começo eu e tu imitas-me em seguida.&lt;br /&gt;— Eu? — gritou o pato e bateu as asas com força.&lt;br /&gt;— Não faças tanto vento — disse a coruja. — Queres que eu caia daqui a baixo?&lt;br /&gt;— Pronto, está bem — diz o pato. — Mas se queres que sejamos&lt;br /&gt;amigos, tens de acabar com a discussão.&lt;br /&gt;— Pára tu! — disse a coruja.&lt;br /&gt;Então o pato começou a rir e disse:&lt;br /&gt;— Basta! Além disso, estou a ficar com fome. E a fome deixa-me impaciente. Vou mas é procurar alguma coisa para comer.&lt;br /&gt;— E eu estou cansada. E sempre que fico cansada, fico zangada. Agora vou mas é dormir.&lt;br /&gt;O pato voou para baixo. Aterrou no lago, voltou-se, olhou para cima e gritou:&lt;br /&gt;— Então adeus, coruja. Dorme bem.&lt;br /&gt;— Uhm — respondeu a coruja, sonolenta. — Dorme tu também, pato.&lt;br /&gt;Já tinha os olhos quase a fecharem-se.&lt;br /&gt;— Ah, é verdade — disse de seguida — tu não dormes. Só dormes quando fizer escuro. Bom dia para ti, pato. E até à próxima!&lt;/div&gt;&lt;div align="right"&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-size:85%;"&gt;Hanna Johansen&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;span style="font-size:85%;"&gt;&lt;em&gt;Die Ente und die Eule&lt;br /&gt;&lt;/em&gt;Zürich, Nagel &amp;amp; Kimche, 1988&lt;br /&gt;Adaptado&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/3848387236642605066-972576849330843659?l=olharaintolerancia.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://olharaintolerancia.blogspot.com/feeds/972576849330843659/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=3848387236642605066&amp;postID=972576849330843659' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/3848387236642605066/posts/default/972576849330843659'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/3848387236642605066/posts/default/972576849330843659'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://olharaintolerancia.blogspot.com/2007/07/o-pato-e-coruja-hanna-johansen.html' title='O pato e a coruja - Hanna Johansen'/><author><name>Div. temas</name><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-3848387236642605066.post-3090090593728758981</id><published>2007-07-23T23:51:00.000-07:00</published><updated>2007-07-24T00:59:29.194-07:00</updated><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='Preconceito'/><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='Diferença'/><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='Histórias'/><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='Intolerância'/><title type='text'>Vermelhinho, Amarelinho, Pretinha e Branquinha - Brigitte Minne</title><content type='html'>&lt;span style="font-size:120;"&gt;&lt;span style="LINE-HEIGHT: 180%"&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Numa aldeia, existe um largo. Nesse largo há quatro casas. As mães que vivem no largo acham que é bom que os filhos brinquem ao ar livre.&lt;br /&gt;— Vão brincar lá para fora — dizem. É por isso que Vermelhinho, Amarelinho, Pretinha e Branquinha brincam muitas vezes juntos.&lt;br /&gt;Lá perto existe um parque com um lago para onde as crianças costumam ir. E não muito longe do lago, há uma árvore. Vermelhinho quer sempre ocupar o ramo mais alto para ver todo o lago. — Estou a ver uma mãe pata com os seus filhotes — exclama. Ou ainda: — Que pássaro magnífico! O bico parece uma colher!&lt;br /&gt;Amarelinho, Pretinha e Branquinha gostariam de ver os patinhos bebés e o pássaro de bico em forma de colher, mas não têm autorização. São obrigados a ficar no seu ramo. Como se a árvore e o lago pertencessem só a Vermelhinho.&lt;br /&gt;Naquela árvore, Vermelhinho, Amarelinho, Pretinha e Branquinha construíram uma cabana. Pintada de vermelho, está claro. É que Vermelhinho não quis ouvir falar de outra cor. De forma nenhuma!&lt;br /&gt;De vez em quando, é preciso fazer limpeza à cabana. — Tu, tu limpas o chão! — grita Vermelhinho. E Branquinha lá se põe a esfregar. Amarelinho, esse, recebe ordens para lavar muito bem a porta com sabão. Enquanto Amarelinho, Branquinha e Pretinha andam numa roda-viva, Vermelhinho não faz nada.&lt;br /&gt;É sempre a mesma coisa! Mas Amarelinho, Branquinha e Pretinha nunca se atrevem a resmungar.&lt;br /&gt;Quando Pretinha joga a bola, Vermelhinho também quer jogar.&lt;br /&gt;Quando Branquinha se senta na bola, Vermelhinho também quer lá sentar-se.&lt;br /&gt;Quando Amarelinho quer brincar com o carrinho, Vermelhinho diz-lhe: — Dói-me a cabeça. Não faças barulho!&lt;br /&gt;Não passa de uma mentira, mas ninguém se atreve a fazer frente a Vermelhinho.&lt;br /&gt;Um dia, Vermelhinho grita: — A árvore é minha e todos os brinquedos também.&lt;br /&gt;Pretinha vira-se para Amarelinho que se volta para Branquinha. — Não é justo — murmura escandalizada. — Não tens o direito de fazer isso!&lt;br /&gt;— Sim, tenho, sua palerma de tranças! — grita Vermelhinho.&lt;br /&gt;Pretinha não é idiota e sente-se muito orgulhosa das suas tranças. Sente uma raiva terrível subir por ela acima. — E tu és um tirano! — grita. — Estou farta da tua árvore, da tua cabana e dos teus brinquedos!&lt;br /&gt;E vai-se embora.&lt;br /&gt;“O que Pretinha teve a coragem de fazer, eu também tenho!”, pensou Branquinha.&lt;br /&gt;— És um chato! — grita ela para Vermelhinho.&lt;br /&gt;Depois, é a vez de Amarelinho se revoltar: — Palerma!&lt;br /&gt;E os dois apoderam-se do barco vermelho e correm para junto de Pretinha, soltando gritos de alegria.&lt;br /&gt;Vermelhinho fica só. — Não preciso de vocês! — ouvem-no resmungar.&lt;br /&gt;Branquinha, Amarelinho e Pretinha depressa pintam de novo o barco. Amarelinho pinta o leme de amarelo, a cor dos chupas de limão e da flor do dente-de-leão. Pretinha pinta o casco de preto. — Negro como uma linda noite estrelada — acrescenta, orgulhosa. Branquinha pinta a cabine de branco. — É como a neve— exclama. O barco está magnífico.&lt;br /&gt;Pretinha, Amarelinho e Branquinha estão doidos de alegria.&lt;br /&gt;— Quem é o capitão? — pergunta Amarelinho. — Eu! — grita Pretinha que salta para dentro do barco e se agarra ao leme. Branquinha morde os lábios. — Eu também quero ser capitã — murmura com um bocadinho de inveja. — Tu não és a única — acrescenta Amarelinho.&lt;br /&gt;Se Vermelhinho lá estivesse, as coisas seriam mais simples. — E se fôssemos à vez capitães? — propõe Pretinha. — Boa ideia — aprovam os outros dois.&lt;br /&gt;Com Pretinha ao leme, o barco nem sequer avança um palmo. É com um certo alívio que entrega a direcção a Branquinha. Esta bem se agarrou ao leme, mas nada mudou. O barco só deslizou um bocadinho. Chega a vez de Amarelinho. De tanto baloiçar ficou enjoado e já não tem vontade de ser capitão!&lt;br /&gt;Vermelhinho continua a brincar aos chefes. Como está sozinho, é obrigado a dar ordens a si mesmo:&lt;br /&gt;— Limpa o chão! — diz muito alto. E limpa o chão até não poder mais.&lt;br /&gt;— Não te esqueças de limpar os cantos! — grita.&lt;br /&gt;Ao esfregar, tropeça na esfregona.&lt;br /&gt;— Vê onde pões os pés, seu palerma! — Vermelhinho já não pode mais. Acaba por rebentar: — Palerma! Nem jeito tens para chefe!&lt;br /&gt;De tão furioso que está, até dá bofetadas a si mesmo! Depois, desata a chorar e corre para a árvore. Vê Pretinha, Branquinha e Amarelinho lá longe, no barco.&lt;br /&gt;Vermelhinho compreende finalmente o que custa ser chefe. Os chefes aborrecem-&lt;br /&gt;-no. Pretinha, Branquinha e Amarelinho tiveram razão em ir embora. Vermelhinho já não tem amigos. Chora em silêncio. — Vou construir uma vela — pensa.&lt;br /&gt;— Fiz uma vela para vocês — grita Vermelhinho.&lt;br /&gt;Pretinha vira-se para Amarelinho que se volta para Branquinha. — Bem precisamos dela! — suspira Branquinha. Os três ajudam Vermelhinho a subir para dentro do barco. Vermelhinho mantém-se calmo, mas em breve o desejo de mandar volta a fazer-lhe comichão. — Posso ser o capitão? — pergunta. — Podes sê-lo, até regressarmos à nossa árvore — diz Amarelinho. Vermelhinho pega no leme e grita: — Icem a vela e limpem a ponte!&lt;br /&gt;Algum tempo depois, Pretinha, Amarelinho e Branquinha largam escovas e vassouras. — O que se passa? — pergunta Vermelhinho muito admirado.&lt;br /&gt;— Estamos quase a chegar — lembram-lhe os três amigos. Então, Vermelhinho abandona o leme…&lt;br /&gt;A partir daquele dia, cada um dirige o barco à vez. Se vissem a velocidade a que ele vai!&lt;br /&gt;Até se esquecem de voltar para casa!&lt;/div&gt;&lt;div align="right"&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-size:85%;"&gt;Brigitte Minne et Carll Cneut&lt;br /&gt;&lt;em&gt;RougeJauneNoireBlanche&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;Paris, Ed. Pastel, l’école des loisirs, 2002&lt;br /&gt;Tradução e adaptação&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/3848387236642605066-3090090593728758981?l=olharaintolerancia.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://olharaintolerancia.blogspot.com/feeds/3090090593728758981/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=3848387236642605066&amp;postID=3090090593728758981' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/3848387236642605066/posts/default/3090090593728758981'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/3848387236642605066/posts/default/3090090593728758981'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://olharaintolerancia.blogspot.com/2007/07/vermelhinho-amarelinho-pretinha-e.html' title='Vermelhinho, Amarelinho, Pretinha e Branquinha - Brigitte Minne'/><author><name>Div. temas</name><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-3848387236642605066.post-1822612653436469197</id><published>2007-07-07T08:21:00.000-07:00</published><updated>2007-07-24T01:00:26.179-07:00</updated><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='Histórias'/><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='Intolerância'/><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='Ambição'/><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='Violência'/><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='Cólera'/><title type='text'>Quem semeia ventos, colhe… incêndios - L. Tolstoi</title><content type='html'>&lt;span style="font-size:120;"&gt;&lt;span style="LINE-HEIGHT: 180%"&gt;&lt;br /&gt;Numa aldeia russa, vivia um camponês chamado Ivan. Estava bem na vida. Era o melhor trabalhador da aldeia e tinha três filhos saudáveis, que também eram bons trabalhadores. O seu velho pai era o único na família que não podia trabalhar, mas cuidavam dele muito bem. Tinham tudo o que precisavam para comer e vestir, e teriam sido felizes se não fosse o vizinho de Ivan, Gavrilo, o coxo. Ivan e Gavrilo detestavam-se.&lt;br /&gt;Tinham sido bons amigos até ao dia em que algo acontecera – algo de tão ridículo e insignificante! Uma galinha que pertencia à filha de Ivan pôs um ovo no pátio de Gavrilo. Todos os dias, a galinha punha um ovo no galinheiro. Quando a filha a ouvia cacarejar, ia buscar o ovo. Mas, daquela vez, os rapazes tinham assustado a galinha e esta tinha saltado a vedação. A filha de Ivan estava ocupada nesse dia e só foi buscar o ovo à noite. Não conseguiu encontrá-lo e os rapazes disseram-lhe onde o procurar. Foi então a casa do vizinho e encontrou a mãe de Gavrilo.&lt;br /&gt;― O que queres, rapariga?&lt;br /&gt;― Avó, a minha galinha esteve hoje no seu pátio. Não pôs lá nenhum ovo?&lt;br /&gt;A velha pensou que a filha de Ivan estava a acusá-la de ter pegado no ovo e respondeu-lhe torto.&lt;br /&gt;― Não lhe pus a vista em cima. Nós temos as nossas galinhas e já há muito tempo que elas andam a pôr. Apanhamos os nossos ovos e não precisamos dos ovos dos outros. Ó rapariga, não precisamos de ir para os pátios dos outros apanhar ovos!&lt;br /&gt;A filha de Ivan não gostou nada do que ouviu. Respondeu desabrida-mente, e a mãe de Gavrilo foi ainda mais desabrida. A mulher de Ivan passou por ali (tinha ido buscar água) e, nesse momento, a mulher de Gavrilo saiu de casa. Começaram todas a falar ao mesmo tempo, a ralhar e a insultar-se. Depois vieram os maridos, que tomaram o partido das respectivas mulheres e começaram à pancada. E Ivan, que era mais forte, feriu Gavrilo, o coxo.&lt;br /&gt;Gavrilo levou o caso ao tribunal da aldeia, declarando que queria que Ivan fosse castigado. Quando o pai de Ivan ouviu isto, falou com firmeza.&lt;br /&gt;― Rapazes, vocês estão a fazer uma asneira. Pensem bem! Tudo começou por causa de um ovo. Um ovo não vale muito. Há que chegue para todos. Foram ditas muitas palavras incorrectas; agora mostrem como se dizem palavras simpáticas. Façam as pazes e acabem com tudo isto. Se persistirem no erro, será cada vez pior.&lt;br /&gt;Mas Ivan e a família não o escutaram. Pensavam que o velho estava a dizer disparates. Em vez de fazerem as pazes, Ivan foi a tribunal e tentou que Gavrilo fosse punido por lhe ter rasgado a camisa enquanto discutiam por causa do ovo.&lt;br /&gt;Depois disso, os vizinhos discutiam todos os dias e sempre por motivos mesquinhos. Foram a tribunal tantas vezes que o juiz já estava cansado de os ver. E assim continuaram durante seis anos.&lt;br /&gt;Por fim, a filha de Ivan acusou publicamente Gavrilo de roubar cavalos, e Gavrilo bateu-lhe de tal forma que a deixou de cama durante uma semana. Desta vez, o caso era mais sério e, quando Ivan levou o caso a tribunal, o juiz deu ordem para que Gavrilo fosse chicoteado. Era uma forma muito dolorosa de punir as pessoas culpadas. Quando Gavrilo ouviu o que iria acontecer-lhe, ficou tão branco e protestou tão veementemente que até o juiz teve medo e pediu a Ivan que lhe perdoasse e desistisse do caso. Mas Ivan não cedeu e foi para casa dizer ao pai que Gavrilo iria finalmente ser castigado.&lt;br /&gt;― Ivan ― disse o velho ― não estás a proceder correctamente. Vês a maldade dele mas esqueces-te da tua. Jesus ensinou-nos algo de diferente. Se te insultam, mantém-te calado. Se te baterem, oferece a outra face. Faz as pazes com ele. Não é tarde demais para evitares que ele seja castigado, e o convidares para jantar, a ele e à família.&lt;br /&gt;Como Ivan não se mexesse, o pai continuou:&lt;br /&gt;― Não te demores, Ivan. A tua raiva é como o fogo. Apaga-a no início porque, se ela começar a alastrar, não poderás controlá-la.&lt;br /&gt;Ivan começava a entender o que o pai queria dizer. Preparava-se para ir fazer as pazes quando as mulheres chegaram e disseram que Gavrilo estava tão zangado que ameaçara pegar fogo à casa. Então, Ivan ficou outra vez furioso, como se ele próprio estivesse a arder, e não desistiu do castigo de Gavrilo.&lt;br /&gt;Nessa noite, Ivan lembrou-se do que Gavrilo dissera a propósito de atear um incêndio. Ficou tão perturbado que saiu para inspeccionar o pátio. Caminhou lentamente ao longo da vedação. Tinha acabado de virar a esquina quando lhe pareceu que algo se mexera na outra ponta, algo que se teria erguido e voltado a baixar. Ivan ficou quieto. Escutou e olhou: estava tudo sossegado; apenas o vento agitava as folhas do salgueiro e a palha. Estava escuro como breu mas os seus olhos habituaram-se à escuridão. Continuou a olhar, mas não viu ninguém.&lt;br /&gt;― Devo ter-me enganado ― disse Ivan ― mas vou ver.&lt;br /&gt;Avançou tão devagar que nem os próprios passos ouvia. Chegou à esquina e parou. Conseguia ver claramente alguém, com um boné na cabeça e agachado de costas para ele, a pegar fogo a um feixe de palha que tinha nas mãos. Ficou imóvel.&lt;br /&gt;“Agora”, pensou, “não vai escapar-me. Vou apanhá-lo com a boca na botija.”&lt;br /&gt;De repente, tudo se iluminou. A chama lambeu a palha no barracão e saltou para o telhado. Já não era um pequeno fogo. Ivan conseguiu ver Gavrilo e correu para ele. Mas Gavrilo fugiu e, apesar de coxo, correu como uma lebre. No entanto, Ivan ainda conseguiu apanhá-lo pela aba do casaco. Só que a aba rasgou-se, Ivan caiu e magoou-se na cabeça. Quando se levantou, Gavrilo tinha fugido. O incêndio era tão forte que parecia dia em vez de noite. Ivan conseguia ouvir os bramidos e a crepitação no seu pátio. Foi então que viu a palha a arder em direcção à casa.&lt;br /&gt;Ivan tentou apagar o incêndio. “Se ao menos conseguisse tirar a palha para fora do barracão e apagar o fogo!”, pensou. A princípio, os seus pés não se mexiam. Depois, tropeçaram um no outro. As pessoas vinham a correr, mas já nada podia ser feito. Os vizinhos retiravam as coisas de suas casas e mandavam sair o gado. Depois da casa de Ivan foi a vez da de Gavrilo se incendiar. Levantou-se um vento que levou o fogo para o outro lado da rua. Metade da aldeia ficou reduzida a cinzas.&lt;br /&gt;Tudo o que se salvou da casa de Ivan foi o velho pai, que fugira para uma parte distante da aldeia. Quando Ivan foi vê-lo, o velho comentou:&lt;br /&gt;― Que te disse eu, Ivan? Quem incendiou a aldeia?&lt;br /&gt;― Foi ele, pai. Apanhei-o. Se ao menos tivesse apanhado o pedaço de palha e o tivesse tirado para fora, nada disto teria acontecido.&lt;br /&gt;― Ivan ― perguntou de novo o pai ― de quem é realmente a culpa?&lt;br /&gt;Ivan fitou-o. Depois, lembrou-se de como tinha magoado Gavrilo em primeiro lugar, e de como não tinha ido fazer as pazes com ele enquanto ainda era tempo.&lt;br /&gt;― A culpa foi minha, pai ― disse. E calou-se.&lt;br /&gt;Em seguida, o velho disse-lhe:&lt;br /&gt;― Ivan.&lt;br /&gt;― Sim, pai.&lt;br /&gt;― O que deves fazer agora?&lt;br /&gt;― Não sei, pai. Como posso continuar? Tudo o que tinha ficou queimado.&lt;br /&gt;― Vais conseguir. Com a ajuda de Deus, vais conseguir. Mas lembra-te, Ivan, não deves dizer a ninguém que foi Gavrilo quem começou o fogo. Se não disseres, Deus perdoar-vos-á a ambos.&lt;br /&gt;Ivan assim fez e ninguém descobriu como o fogo começara.&lt;br /&gt;Depois, Ivan começou a ter pena de Gavrilo. E Gavrilo, por sua vez, ficou surpreendido por Ivan não ter dito nada. A princípio, tinha medo de Ivan, mas depois começou a sentir-se mais à vontade. Os homens deixaram de discutir, e as famílias também. Enquanto reconstruíam as casas, viviam todos juntos, e quando a aldeia foi finalmente reconstruída, Ivan e Gavrilo permaneceram vizinhos. E foram sempre amigos.&lt;br /&gt;Ivan nunca se esqueceu do que o pai lhe dissera sobre apagar um fogo logo que ele começa. Se alguém lhe falava duramente, ele respondia com gentileza. A pessoa ficava envergonhada e não havia discussão. Assim, Ivan foi mais feliz do que nunca, e ninguém na aldeia teve tantos amigos como ele. &lt;p&gt;&lt;/p&gt;&lt;p align="right"&gt;&lt;br /&gt;L. Tolstoi&lt;/p&gt;&lt;p align="right"&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-size:85%;"&gt;Lightning candles in the dark&lt;br /&gt;Philadelphia, FGC, 2001&lt;br /&gt;Tradução e adaptação&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;/p&gt;&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;span style="font-size:120;"&gt;&lt;span style="LINE-HEIGHT: 190%"&gt;&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/3848387236642605066-1822612653436469197?l=olharaintolerancia.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://olharaintolerancia.blogspot.com/feeds/1822612653436469197/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=3848387236642605066&amp;postID=1822612653436469197' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/3848387236642605066/posts/default/1822612653436469197'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/3848387236642605066/posts/default/1822612653436469197'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://olharaintolerancia.blogspot.com/2007/07/quem-semeia-ventos-colhe-incndios-l.html' title='Quem semeia ventos, colhe… incêndios - L. Tolstoi'/><author><name>Div. temas</name><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-3848387236642605066.post-3306161611742242397</id><published>2007-07-04T13:45:00.000-07:00</published><updated>2007-07-24T01:00:45.978-07:00</updated><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='Preconceito'/><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='Diferença'/><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='Histórias'/><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='Intolerância'/><title type='text'>A lei das leis - Gougaud</title><content type='html'>&lt;div align="justify"&gt;&lt;span style="LINE-HEIGHT: 160%"&gt;Nesse tempo reinava no país um velho rei. Era um pai amoroso, justo, um homem recto. Mas era cego. Um dia, mandou erigir à entrada do palácio um grande pilar decorado com figuras de antepassados e pequenos poemas. No topo, quis que colocassem um sino cuja corda penderia sobre a praça pública. Quando tal foi feito, mandou publicar um aviso: «Se alguém de entre nós sofrer alguma injustiça, que venha aqui tocar. O meu juiz virá cá fora e ditará o direito segundo a lei das leis.»&lt;br /&gt;Aconteceu que uma serpente fez o seu ninho na erva, à beira de uma muralha. Num fim de tarde, quando se aquecia na borda do rio com as crias, um soldado cansado fez rolar uma pedra sobre a sua casa de palha e sentou-se para beber. Quando a serpente voltou, já não tinha abrigo. Esperou pela noite, foi até ao lugar onde a corda pendia, enrolou-se à volta dela e sacudiu-a tanto que o juiz, meio surdo, saiu cá para fora, na noite clara. Procurou aqui e ali quem pudesse ter tocado; apenas viu um cão a vaguear na rua deserta. Encolheu os ombros e deu meia-volta. Quando ia a entrar, a serpente endireitou-se de repente diante das suas pernas, ergueu a cabeça chata e disse com voz humana:&lt;br /&gt;— Há pouco, um soldado destruiu o meu ninho. Segundo a lei das leis, isto será justo?&lt;br /&gt;— Tremo com as tuas palavras — respondeu-lhe o juiz.&lt;br /&gt;— Também eu, fica a saber. Será que por isso devemos perder a confiança no direito?&lt;br /&gt;— Claro que não — disse o juiz. O diabo tem a sua casa, Deus e os homens também. Segundo a lei das leis, a tua casa vale tanto como a minha. Amanhã, levarei o teu pedido ao meu rei.&lt;br /&gt;Na manhã seguinte, quando o juiz falou na câmara real, o rei cego colocou, para honrar o céu, umas lentes azuis, meditou um momento e disse:&lt;br /&gt;— Que esse soldado dê à serpente o seu ninho. E que lá não falte o mais pequeno tufo de erva. Exijo expressamente que seja como era antes de ele o ter destruído.&lt;br /&gt;Tal foi feito nesse mesmo dia.&lt;br /&gt;O rei, nessa noite, deitou-se cedo. Ora, enquanto suspirava na sua almofada branca, a serpente introduziu-se no quarto pela janela aberta. Tinha na boca uma pedra brilhante. Um escudeiro apercebeu-se de que ela deslizava pelo solo. Convocou a guarda. Postaram-se à volta da cama.&lt;br /&gt;— Deixem-na – disse a todos o Justo, sonolento. — Esse humilde animal conhece a lei das leis.&lt;br /&gt;A serpente prontamente se ergueu sobre o leito. Subiu pelo edredão, chegou à face do rei, depôs na sua fronte a bela pedra cintilante e partiu apressadamente por entre os pés da gente.&lt;br /&gt;O rei abriu os olhos. Já não era cego. Apagou o candeeiro e adormeceu contente.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="right"&gt;&lt;span style="font-size:85%;"&gt;Henri Gougaud&lt;br /&gt;&lt;em&gt;La Bible du Hibou&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;Paris, Ed. du Seuil, 1993&lt;/span&gt; &lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/3848387236642605066-3306161611742242397?l=olharaintolerancia.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://olharaintolerancia.blogspot.com/feeds/3306161611742242397/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=3848387236642605066&amp;postID=3306161611742242397' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/3848387236642605066/posts/default/3306161611742242397'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/3848387236642605066/posts/default/3306161611742242397'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://olharaintolerancia.blogspot.com/2007/07/lei-das-leis-gougaud.html' title='A lei das leis - Gougaud'/><author><name>Div. temas</name><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-3848387236642605066.post-4131896723525846275</id><published>2007-06-21T13:45:00.000-07:00</published><updated>2007-07-24T01:03:53.882-07:00</updated><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='Violência'/><title type='text'>A mensagem oculta dos meios de comunicação - Friedrich Hacker</title><content type='html'>&lt;span style="font-size:85%;"&gt;Friedrich Hacker&lt;br /&gt;&lt;em&gt;Agressividade – a violência do mundo moderno&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;Lisboa, Livraria Bertrand, 1972&lt;br /&gt;&lt;span style="font-size:78%;"&gt;(excertos)&lt;/span&gt; &lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-size:85%;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="LINE-HEIGHT: 160%"&gt;&lt;p align="justify"&gt;&lt;/p&gt;&lt;p align="justify"&gt;&lt;/p&gt;&lt;p align="justify"&gt;«Não te importes», diz o marido à mulher, que não assistiu à transmissão, pela televisão, da morte de Oswald — o assassino de Kennedy — por Ruby. «Dentro de alguns minutos vão repetir a transmissão.» Este momento dramático da história da televisão, referente ao assassínio do presidente, foi assim repetido continuamente até ficar bem retido na consciência do público como se se tratasse de uma imagem, a acompanhar uma frase publicitária ou uma cena de um apreciado filme de série.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O mundo faz a sua aparição na casa, na sala de jantar, no quarto de dormir e, sobretudo, no quarto das crianças. A realidade e os seus slogans são convidados que se podem comandar à vontade pelo simples rodar de um botão. No país paradisíaco que é a televisão, a realidade é muitas vezes refundida, pouco importa como. Pode-se repetir, estilizar e dramatizar a realidade como se quiser. Não há, no entanto, hipótese de se lhe fugir. A televisão é uma espécie de produto maleável que se pode adaptar ao gosto e ouvido de cada um e condimentar de violência. Pode-se mastigar sem ter necessariamente de se digerir, pode-se estar ocupado sem ter de se fazer nada. A atenção encontra-se presa sem se concentrar em qualquer coisa de particular. É uma droga a que nos habituamos sem dar por isso.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O prazer dos adultos constitui material de instrução para as crianças. O professor electrónico, para pequenos e grandes, ensina às crianças como é o mundo e informa, simultaneamente, os adultos sobre o que se passa. Às vezes falta-se à escola mas nunca à emissão televisionada. A paciente &lt;em&gt;baby-sitter&lt;/em&gt;, a estimada pedagoga de todas as horas, tornou-se a fonte de informação, explicação, publicidade e influência do comportamento mais importante da nossa época. O facto de se gostar de ver as crianças não implica, obrigatoriamente, que se goste de as ouvir. Hoje, porém, esse problema não existe. Elas ficam absorvidas pelo pequeno &lt;em&gt;écran&lt;/em&gt;, como que petrificadas; não têm perguntas a fazer, nada a dizer nem a contestar. Para a criança, o pior castigo é a proibição de satisfazer esta sua necessidade que não lhe exige esforço e lhe dá prazer. Os últimos restos da autoridade dos pais em breve passarão a expressar-se mediante privação de uma emissão de televisão, privação que poderia, no entanto, forçar a criança, actualmente condicionada pelos clichés televisivos, a desenvolver e experimentar os seus sentimentos próprios e autónomos.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Nos programas americanos televisionados, são transmitidos actos de violência extrema de 16,3 em 16,3 minutos, sem contar com os desenhos animados que lançam para o ar os nossos bonecos favoritos, que se tornam heróis de verdadeiras orgias de crueldade. As apreciadas criaturinhas disparam umas sobre as outras e espezinham-se de dois em dois segundos. O rato, o gato, o crocodilo e o monstro são fulminados, destruídos, pulverizados, e tudo continua alegremente, como se nada se tivesse passado. A violência, até quando levada a extremo, aparece como inofensiva e mesmo imbuída de um tom cómico. Não se fazem comentários ao sofrimento das vítimas e à tragédia da sua morte. As crianças, constantemente bombardeadas com estes exemplos, apegam-se-lhes com zelo e, mais tarde, virão a utilizar a violência contra os seus adversários humanos, a quem descerão ao nível de cães capitalistas ou porcos comunistas, fazendo-os sair projectados dos aviões e obtendo, assim, frequentemente um prazer divina.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Desde os cinco aos quinze anos a criança americana assiste à aniquilação total de cerca de 13400 pessoas. As emissões televisionadas e os programas cómicos convidam à imitação. Mobilizam e dão forma ao modo infantil, permitindo ao receio cristalizar-se sob forma desse monstro inimigo que se poderá aniquilar impunemente.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Os pais, fatigados e sobrecarregados de trabalho, dificilmente podem entrar em concorrência com os programas televisionados de diversão, sempre movimentados, excitantes e fantasistas. Deixou-se de aprender as boas maneiras à mesa com a família para se passar, frequentemente, à repetição do que se vê na televisão. O infatigável convidado fantasma definirá o prato favorito, a alimentação mais sã, o presente que se deseja e o vestuário que se deve usar. Ao exortarem aberta ou implicitamente a que os imitem, as personagens da televisão tornam-se modelos: esquemas de comportamento, de conflitos, de solução de conflitos e de moral. Não passam, frequentemente, de modelos ou manequins de violência.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;As revistas, as bandas desenhadas, e a televisão ajudam a passar o tempo e fazem-no com uma eficácia tanto maior quanto mais os roubos, os incêndios e os assassínios — sem falar de sexo — são focados. O efeito de imitação é o mesmo, quer as cenas de violência sejam focadas num estúdio ou provenham da vida real, até mesmo nos casos em que esta diferença é pouco perceptível. Graças a experiências em grupos de crianças de idades diferentes, Bandura e, mais tarde, Berkowitz puderam provar que a incitação à violência originada por exemplos de agressão é o mesmo, quer estas cenas de violência, que se prestem à imitação, ocorram na vida real, em filmes ou em bandas desenhadas.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O comportamento agressivo, tal como muitas outras formas de comportamento, tende a alargar-se e a generalizar-se. Uma vez aprendido e praticado será aplicado e empregue noutras situações. A afirmação é válida para todas as crianças e a maioria dos adultos.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Nos nossos dias, a televisão americana produz, tanto nas crianças como nos jovens, e ao longo das suas fases de desenvolvimento, um efeito semelhante ao de três a cinco horas de interrogatório feito pela polícia, torturas e lavagens ao cérebro.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A violência é o meio menos dispendioso para se obter e estimular a atenção da média dos leitores, auditores e telespectadores, mesmo que não sejam cultos, e para proporcionar tensão, surpresa e choque ao seu espírito fatigado, sedento de distracção. A crueldade e as situações de violência levada a extremo são excitantes e provocam adesão ou repulsa.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Mesmo nos momentos em que não aparece visível em plena luz do dia, a violência é o misterioso mensageiro dos meios de comunicação. Ao legitimar-se, a violência torna-se virulenta, contagiosa e irresistível. A boa causa ganha sempre. O herói ganha; o sucesso justifica todas as vitórias e faz do vencedor um herói. O vencedor torna-se e permanece aquele que utiliza a violência primitiva e sem escrúpulos antes dos outros e mais fortemente do que eles. Quem triunfa é o mais rápido a desembainhar a espada ou a puxar o gatilho. O fim justifica os meios e, por outro lado, a ulterior possibilidade de justificação pelo sucesso poderá servir de afirmação de inocência absoluta e deforma toda a apreciação de realidade e tipos de juízos de valor que sobre ele assentam. E, finalmente, se todos os problemas importantes, desde a política ao amor, só se conseguem resolver pela violência, é tão realista como vantajoso fazer actuar a violência de forma eficaz, quer dizer, pronta e maciçamente.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Porque esperar que o rival real ou potencial (portanto, praticamente, todas as pessoas) adquira força e se tome desconfiado? Mais vale atacar imediatamente, antes que o rival se possa tornar perigoso. A agressão primitiva e a repressão de" todo o embrião de resistência aparecem, assim, como uma lei da prudência e da organização. A guerra-relâmpago preventiva é, em caso de sucesso, a solução mais humana, porque tudo termina rapidamente.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A fim de que os processos sociais de apreciação não degenerem numa afirmação estereotipada do poder e em certeza da legitimidade, as possibilidades de manipulação dos meios de comunicação não devem ser contestadas nem dissimuladas, mas torna-se necessário analisar e determinar as condições mais apropriadas para que os meios de comunicação ponham em evidência e concretizem os problemas sociais. Os espectadores e auditores, que, pela alienação da sua própria vontade, contribuem através da sua passividade para a ajuda dos meios de comunicação, devem tornar-se participantes activos e responsáveis voluntários pelos acontecimentos sociais a fim de que os peritos de influência nos meios de comunicação não sejam os únicos a determinar as nossas imagens e a nossa realidade como uma nova classe de mandarins de informação através da imagem.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/3848387236642605066-4131896723525846275?l=olharaintolerancia.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://olharaintolerancia.blogspot.com/feeds/4131896723525846275/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=3848387236642605066&amp;postID=4131896723525846275' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/3848387236642605066/posts/default/4131896723525846275'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/3848387236642605066/posts/default/4131896723525846275'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://olharaintolerancia.blogspot.com/2007/06/mensagem-oculta-dos-meios-de-comunicao.html' title='A mensagem oculta dos meios de comunicação - Friedrich Hacker'/><author><name>Div. temas</name><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-3848387236642605066.post-5184293262346460256</id><published>2007-06-21T10:54:00.001-07:00</published><updated>2007-06-21T13:54:49.465-07:00</updated><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='Intolerância'/><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='Ambição'/><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='História'/><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='Violência'/><title type='text'>A violência no mundo moderno - III - Friedrich Hacker</title><content type='html'>&lt;span style="font-size:85%;"&gt;Friedrich Hacker&lt;br /&gt;&lt;em&gt;Agressividade – a violência do mundo moderno&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;Lisboa, Livraria Bertrand, 1972&lt;br /&gt;&lt;span style="font-size:78%;"&gt;(excertos)&lt;/span&gt; &lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-size:85%;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;CALLEY: «TU MATARÁS» INÍCIO do artigo&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="LINE-HEIGHT: 160%"&gt;&lt;p align="justify"&gt;&lt;/p&gt;&lt;p align="justify"&gt;&lt;/p&gt;&lt;p align="justify"&gt;O corajoso advogado geral militar Aubry Daniel III, descendente de uma família aristocrática do Sul, escreveu ao presidente dos Estados Unidos uma carta, respeitosa mas firme, tendo enviado uma cópia a seis senadores pertencentes aos partidos republicano e democrático. Nela acusa a intervenção, sem precedentes, do presidente no processo em curso. Aos olhos do advogado geral, o apoio que a opinião pública e o presidente conferem a Calley é revoltante, dado que nenhum põe em dúvida a culpabilidade de Calley e é, portanto, exigido um veredicto de não culpabilidade. Esta legitimação de Calley não era compatível com a pretensão dos Estados Unidos a serem uma nação civilizada. Daniel qualificou My Lay como uma data trágica na história da nação. Para ele, o aspecto da tragédia reside no facto de que «considerações de ordem política vieram comprometer princípios éticos tão fundamentais como a implícita ilegalidade do assassínio de inocentes». Quanto às declarações do presidente americano, poderiam reunir-se num grito: «Fora o árbitro!» O vice-presidente, Spiro Agnew comparou My Lay, e todo o processo jurídico, a uma competição desportiva e aos comentários trocados, em seguida, à volta de uma garrafa. Nessa altura é fácil, mas bastante injusto, o que se possa dizer relativamente ao que fizeram os jogadores. Ora o exército, ao condenar o tenente Calley, aderira à estrita aplicação das normas de guerra que ele mesmo fixara. O presidente e a maioria da opinião pública acusaram-no, a partir de então, de agredir e martirizar o violador das regras que agira em legítima defesa e ao serviço de uma causa justa. Os testemunhos, provas e confissões não impediram que este esquema superficial se sobrepusesse à verdade.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O exército pouco se preocupa, na generalidade, com a autocrítica. Dado que a sua missão é a luta, a justiça não constitui a sua maior preocupação. Neste ponto de vista o vice-presidente tinha, indubitavelmente, razão. É difícil pedir ao exército que sirva de árbitro à sua própria causa. Cabe-lhe formar os civis dentro de uma obediência e execução das acções de combate que lhe estão implícitas e, evidentemente, também lhe compete a utilização da violência. Todo o exército luta pela civilização com a ajuda de meios por vezes bárbaros, sem o confessar abertamente, e até mesmo dissimulando o facto. Desde sempre que os exércitos cometeram crueldades, mas só as do adversário são comunicadas ao público. Dado que o exército, como o establishment, fora decretado como inimigo anónimo de todo o sentimento humano, cabia-lhe prescrever uma estratégia de violências contra a população civil e encobrir, por espírito de camaradagem, ocasionais transgressões às regras estabelecidas ou a simples e estrita aplicação das prescrições; era seu dever impedir que tais processos fossem divulgados. Que outra coisa se poderia esperar? Porquê a imposição ao exército de julgar o caso Calley?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Actualmente, a nação americana demonstra uma surpreendente unanimidade de recusa em relação ao veredicto que condena Calley, mas não consegue deglutir o problema da sua responsabilidade. Para não sufocar, necessita de substituir esta ou aquela imagem de Épinal.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Aos olhos dos que se consideram cem por cento patriotas, Calley é um herói e um mártir, um corajoso combatente que arriscou a sua vida para preservar a da nação; foi escolhido para porta-bandeira por uma camarilha de oficiais ambiciosos. Na guerra tudo é permitido, dizem eles; no ardor do combate não pode nem deve existir um regulamento pormenorizado; tanto a nossa boa causa como a causa negativa do adversário desculpam, de antemão, toda e qualquer forma de comportamento. Ninguém deveria dar-se ao luxo de criticar a acção de combatentes traumatizados pela morte de um camarada. Deixar a cada indivíduo a liberdade de decidir se deve ou não obedecer às ordens significa o mesmo que matar o exército. Todos os soldados cometem, sem hesitação nem arrependimento, actos semelhantes aos de Calley ou ainda piores. Se o tenente é culpado, todos os combatentes, desde a mais ínfima das patentes ao comandante-chefe, o são igualmente, o mesmo se aplicando aos detentores de poder civis, quer dizer: o povo americano, que tão energicamente se decidiu a defender e apoiar Calley.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Aos olhos dos pacifistas liberais, Calley não passa de um sintoma e de um símbolo. O seu caso é apenas uma prova retumbante dos homens de guerra e, sobretudo, desta guerra infernal do Vietname, dirigida contra uma população civil praticamente indefesa. Por razões directamente inversas, os opositores da guerra concordam com os patriotas ao declarar que os massacres de My Lay não constituem actos isolados de oficiais criminosos e loucos, mas factos vulgares na guerra. É também aos dirigentes, à autoridade suprema, que cabe pronunciar-se sobre o assunto. Nem Calley nem qualquer outro subalterno são culpados. A culpabilidade deve atribuir-se a todos os que ordenam, perpetuam e toleram o derramamento de sangue. É assim que uns acusam os que fazem a guerra e a condenam, enquanto outros condenam os que acusam a guerra: só se demonstram solidários na compaixão que revelam por este massacre.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A verdade é que os factos existem e enquanto não forem reduzidos ao esquecimento, ou transformados em esquemas simplistas, os dois partidos vão ver-se em sérias dificuldades para conciliar, de forma convincente, os seus pontos de vista com a lógica e a moral, se é que, aliás, se preocupam com isso. Eles pouco ligam à verdade objectiva e só lhes importa o triunfo de uma causa que consideram indiscutivelmente justa e verdadeira: a sua. Parece ter-se esquecido bem depressa que Calley não teve de responder pelos seus actos ante hippies cabeludos. Existe uma propaganda desenfreada que agracia o júri de Calley com ofensas geralmente reservadas a essa categoria de pessoas. Os que tiraram conclusões sobre o assassínio premeditado nem sequer eram simples cidadãos e juizes vulgares, mas seis experimentados oficiais de carreira, de entre os quais cinco tinham combatido no Vietname e aí recebido ferimentos de gravidade. Só o sexto oficial, o coronel a quem cabia a presidência do júri, não possuía a experiência da guerra do Vietname, mas era um combatente da Segunda Guerra Mundial e regressara da Coreia coberto de condecorações. Ainda que, no decurso do processo, a defesa não tivesse continuamente invocado as ordens recebidas e a legítima defesa frente a uma população civil hostil, bem como a psicologia de uma guerra como aquela, estes experimentados juízes militares não podiam ignorar que Calley estivera no Vietname, não por sua decisão voluntária, mas por obediência a ordens, e que era detentor do uniforme americano.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Calley não foi acusado nem condenado por ter cumprido o seu dever, mas por ter transgredido e violado: no caso de Calley não estava em causa uma acusação de ter faltado ao dever, proclamado como princípio solene quando do processo de Nuremberga, que se refere ao dever individual de revolta contra uma ordem desumana. Calley foi considerado culpado por ter abatido sem ter recebido ordens, por iniciativa pessoal e sem (necessidade militar, vinte e dois civis desarmados, quer por suas próprias mãos quer por intermédio dos seus subalternos, agindo por sua expressa ordem. Um tal comportamento é há muito tempo estritamente proibido segundo as regras internacionais de guerra. Já o era muito antes do processo de Nuremberga. Calley violou princípios universais, ele mesmo o confessou, e ainda que lhe sejam concedidas atenuantes, só uma designação se lhe adequara de criminoso.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;/p&gt;Continuação: &lt;a href="http://olharaintolerancia.blogspot.com/2007/06/violncia-no-mundo-moderno-v-friedrich.html"&gt;A violência no mundo moderno IV&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;a href="http://olharaintolerancia.blogspot.com/2007/06/violncia-no-mundo-moderno-v-friedrich.html"&gt;&lt;/a&gt;&lt;/span&gt;&lt;span style="LINE-HEIGHT: 160%"&gt;&lt;/span&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/3848387236642605066-5184293262346460256?l=olharaintolerancia.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://olharaintolerancia.blogspot.com/feeds/5184293262346460256/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=3848387236642605066&amp;postID=5184293262346460256' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/3848387236642605066/posts/default/5184293262346460256'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/3848387236642605066/posts/default/5184293262346460256'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://olharaintolerancia.blogspot.com/2007/06/friedrich-hacker-agressividade-violncia_21.html' title='A violência no mundo moderno - III - Friedrich Hacker'/><author><name>Div. temas</name><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-3848387236642605066.post-384263958167175256</id><published>2007-06-21T10:47:00.001-07:00</published><updated>2007-06-21T13:54:49.465-07:00</updated><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='Intolerância'/><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='Ambição'/><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='História'/><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='Violência'/><title type='text'>A violência no mundo moderno - IV - Friedrich Hacker</title><content type='html'>&lt;span style="font-size:85%;"&gt;Friedrich Hacker&lt;br /&gt;&lt;em&gt;Agressividade – a violência do mundo moderno&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;Lisboa, Livraria Bertrand, 1972&lt;br /&gt;&lt;span style="font-size:78%;"&gt;(excertos)&lt;/span&gt; &lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-size:85%;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;CALLEY: «TU MATARÁS» &lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="LINE-HEIGHT: 160%"&gt;&lt;p align="justify"&gt;&lt;/p&gt;&lt;p align="justify"&gt;&lt;/p&gt;&lt;p align="justify"&gt;É indubitável que os motivos que habitualmente condicionam os assassinos não são suficientes para explicar as suas atitudes. Não agiu por perversão pessoal, a menos que se catalogue como perversa a autorização do direito colectivo de matar em tempo de guerra para derramamento de sangue sem respeito por quaisquer regras. O exército elevara-o à posição de poder aniquilar todo o ser humano que não usasse o mesmo uniforme que ele e de não se preocupar com as consequências da opinião pública, que, durante anos seguidos, nunca levantou a questão de se no Vietname se abatiam não só soldados mas também civis. Tinham-lhe, todavia, inculcado regras selectivas em relação aos homens a abater e foram estas mesmas regras que ele visivelmente infringira; se tivesse morto um camarada ou um superior, não se iria desculpar com o pretexto de que a guerra era uma escola de brutalidade e de desprezo pela vida humana.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;É certo que ele não foi total nem plenamente responsável pelos seus actos e, principalmente, -não foi o único responsável; outros que não foram acusados também são culpados e partilham a sua responsabilidade sem que, todavia, o declarem inocente por esse motivo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O caso Calley tornou-se um dos grandes processos criminais, como, por exemplo, o de Manson. Os dois veredictos foram acidentalmente pronunciados no mesmo dia e acusa-se a imaginação deformada e pretensamente anti-americana dos jornalistas americanos de terem ligado os dois julgamentos. As analogias não se limitam, porém, às aparências, podendo citar-se, entre outros, a estatura extraordinariamente pequena dos dois acusados. Manson e Calley eram, em todos os aspectos, pequenas personagens consideradas pouco dotadas e que passaram despercebidas no meio a que pertenciam, até que as suas ignomínias chamaram a atenção da opinião pública mundial. Os dois reclamaram para si o papel de demiurgos e arrogaram-se o direito de vida ou de morte sobre outrem entregando-se a carnificinas. Após vários meses de processos, os dois foram declarados culpados de massacres, mas as suas motivações e acções eram completamente diferentes (Manson nunca participou na execução dos assassínios). O presidente americano interveio nos dois processos num sentido diametralmente oposto, mas numa base igual.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A raiva popular desencadeia-se contra os actos de Manson como contra a condenação de Calley. A mesma raiva popular que nunca pôde tolerar outro veredicto que não fosse a pena capital para o processo Manson exige a libertação de Calley (que se dispõe a publicar as suas memórias por algumas centenas de milhares de dólares). O presidente dos Estados Unidos não agiu, de forma alguma, comi propósitos de ordem política ao aceder à opinião popular. Pode-se dizer que agiu sinceramente e obede¬cendo ao que lhe ditava a consciência. O presidente só conhecia a separação de bem e mal tal como apresentados num bom filme. Devia, portanto, declarar Manson culpado, antes mesmo que os juizes decidissem. Foram os mesmos esquemas dos filmes do Oeste que o levaram a acudir em auxílio de Calley, o xerife, o bravo soldado que o seu uniforme americano designava como o campeão da boa causa, da causa justa, da «nossa» causa. Era preciso livrá-lo, a partir do momento em que o júri o considerou culpado.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Todos os anos se realiza a distribuição do Óscar de ouro para o melhor actor, a melhor encenação, etc. Em Abril de 1971 é galardoado um filme de guerra com oito primeiros prémios. O herói era Patton, o general da Segunda Guerra Mundial, bem conhecido pela sua dureza e brutalidade, que mata publicamente um soldado que desobedece às suas ordens. Numa cena memorável do filme, Patton grita, por entre o ruído das bombas, das explosões e de horríveis destruições: «Que Deus me ajude; gosto deste espectáculo!»&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;No decurso do processo Manson, Susan Atkins, um dos membros da «família», inicialmente testemunha principal e, mais tarde, co-ré do mesmo processo, foi acusada pelo procurador-geral devido à irónica indiferença que manifestou para com as sete vítimas do massacre, o que revelou a sua insensibilidade moral. Ela retorquiu que ele próprio e a sociedade americana pouco se preocupavam com o milhão de vítimas vietnamitas. O facto não fazia, no entanto, parte do processo de Manson nem do de Calley. Susan foi severamente repreendida e, depois, levada para fora da sala. Os mortos de guerra não são mortos civis e os mortos de cor não são mortos brancos. Só os parentes e, sobretudo, as mulheres nada compreendem dessa distinção, da mesma forma que pouco se preocupam em saber o motivo por que amam os que são massacrados; a única coisa que lhes interessa é que se mata e que não se pára de matar.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Para os patriotas e fanáticos, pelo contrário, sobretudo quando usam uniforme e desfilam em paradas, tudo é diferente, excepto as motivações em relação às quais se sentem plenamente convencidos. Não amam a violência em si, mas só porque através dela esperam conseguir a vitória, o aniquilamento total do adversário e, simultaneamente, a supressão do mal universal, a afirmação dos seus propósitos morais e a sua afirmação pelo sucesso que os dispensa de toda a autocrítica e acarretará, natu¬ralmente, outros sucessos. Só uma propaganda inimiga, pensam eles, denuncia os bravos americanos, que se tornariam, de súbito, os responsáveis por todos os horrores, ao passo que eles mesmos sabem que são pessoas dignas e bons cidadãos, respeitadores da pátria e da honra, preocupados com a protecção das mães e dos filhos, mas obrigados, por isso mesmo, a matar cegamente as mães e os filhos dos outros.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Os Americanos, como todos os outros povos, desejam acima de tudo a proclamação de legitimação muito mais que da violência. Só a violência é a consequência necessária e previsível de legitimação anterior ou simultânea de todos os meios em nome da defesa de bens supremos e ao serviço de objectivos superiores que tudo santificam.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;/p&gt;Continuação: &lt;a href="http://olharaintolerancia.blogspot.com/2007/06/violncia-no-mundo-moderno-vi-friedrich.html"&gt;A violência no mundo moderno V&lt;/a&gt;&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;span style="LINE-HEIGHT: 160%"&gt;&lt;/span&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/3848387236642605066-384263958167175256?l=olharaintolerancia.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://olharaintolerancia.blogspot.com/feeds/384263958167175256/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=3848387236642605066&amp;postID=384263958167175256' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/3848387236642605066/posts/default/384263958167175256'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/3848387236642605066/posts/default/384263958167175256'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://olharaintolerancia.blogspot.com/2007/06/violncia-no-mundo-moderno-v-friedrich.html' title='A violência no mundo moderno - IV - Friedrich Hacker'/><author><name>Div. temas</name><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-3848387236642605066.post-8785050950676545707</id><published>2007-06-21T10:40:00.000-07:00</published><updated>2007-06-21T13:54:49.465-07:00</updated><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='Intolerância'/><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='Ambição'/><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='História'/><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='Violência'/><title type='text'>A violência no mundo moderno - V - Friedrich Hacker</title><content type='html'>&lt;div align="justify"&gt;&lt;span style="font-size:85%;"&gt;Friedrich Hacker&lt;br /&gt;&lt;em&gt;Agressividade – a violência do mundo moderno&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;Lisboa, Livraria Bertrand, 1972&lt;br /&gt;&lt;span style="font-size:78%;"&gt;(excertos)&lt;/span&gt; &lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-size:85%;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;CALLEY: «TU MATARÁS» &lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="LINE-HEIGHT: 160%"&gt;É mais temido o reconhecimento da derrota militar do que a própria derrota em si. Perder é desagradável, mas mais desagradável é, ainda, analisar as causas do fracasso e a questão de se o empreendimento era legítimo, se as autoridades que o planificaram eram legítimas e se os responsáveis também se encontravam na posse de uma legitimidade. Não são os desejos bélicos da nação nem motivos de ordem económica os obstáculos ao regresso imediato dos americanos do Vietname; o verdadeiro impedimento reside no medo das consequências que poderia ter uma brusca revisão dos conceitos morais americanos, estabelecidos segundo os hábitos de ordem económica, ideológica e cultural. Não estamos interessados numa imagem imponente aos olhos do mundo, mas nos nossos sentimentos, na nossa identidade pessoal, nos nossos métodos de legitimidade, que dentro de uma simplificação imaginam sempre a razão do lado do vencedor, exigindo, portanto, uma vitória para vincar bem essa razão. No longínquo Vietname, os americanos não combatem, não matam nem morrem para ganhar terreno, para aniquilar inimigos ou conquistar a glória, mas para preservarem a sua imagem no mundo e a legitimidade aos seus próprios olhos. O tenente Calley aparece como um bravo e obediente guerreiro. Portanto, todos lhe manifestam o seu sentimento de solidariedade. Ele torna-se o símbolo da unidade nacional. Esta unidade procura e encontra, aliás, bodes expiatórios num sentido diametralmente oposto e sabe-se de acordo com esta polarização mental.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A simplificação e violência internacionais prosseguem, assim, como tantas vezes no passado, a quimera de uma precária união nacional; falta-lhe, talvez, a ocasião de discutir as causas nacionais e internacionais dos conflitos, a fim de evitar outros conflitos futuros. Em troca do insignificante «prato de lentilhas» da nossa legitimação, não nos preocupamos com o direito da nossa autodeterminação, que assenta na autocrítica. Recusamo-nos a lutar pela emancipação. Falamos de fatalidade em lugar de atribuir culpas à nossa presunção.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Poucos dias após o julgamento de Calley, o presidente Nixon expressou num discurso televisionado a sua convicção inabalável de que os Americanos só lutam por objectivos idealistas. Uma vez mais, prometeu à nação acabar com a guerra do Vietname de acordo com o programa previsto. Seguidamente, contou um episódio comovedor ocorrido na atribuição de uma medalha póstuma. Quando a viúva de um herói do Vietname, morto no campo de batalha, recebeu a condecoração do valente militar, o filho deste, uma criança de quatro anos, fizera a continência militar. Eis o que comoveu o presidente e a nação, para quem a continência militar é algo de intocável. O facto nada tem de exclusivamente militar, pois que nos países condicionados pela brutalidade — todos o são — saudar constantemente alguém ou alguma coisa é uma ocupação essencial dos habitantes, que primeiro foi imposta, para depois adquirir feição de regularidade. Pelo gesto de submissão que a saudação militar representa, o oprimido vai até ao ponto de mostrar a sua solidariedade para com os opressores, sentindo-se habilitado, por sua vez, a oprimir outros em nome dele. Sente uma mistura característica de brutalidade e emoção que afasta todo o sentimento de culpabilidade ou responsabilidade individuais.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O que depois aconteceu ao tenente Calley pouco importa agora. Foi em vão que se tentou transformar a personagem, à maneira dos filmes simplistas e segundo as escalas morais e tradicionais, mas ela não se coaduna ao papel. Teria sido necessário um herói transbordante de virilidade, mas a sua figura é demasiado insignificante.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;span style="LINE-HEIGHT: 160%"&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;span style="LINE-HEIGHT: 160%"&gt;&lt;a href="http://olharaintolerancia.blogspot.com/2007/06/violncia-no-mundo-moderno-vii-friedrich.html"&gt;Continuação: A violência no mundo moderno VI&lt;/a&gt;&lt;/div&gt;&lt;/span&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/3848387236642605066-8785050950676545707?l=olharaintolerancia.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://olharaintolerancia.blogspot.com/feeds/8785050950676545707/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=3848387236642605066&amp;postID=8785050950676545707' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/3848387236642605066/posts/default/8785050950676545707'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/3848387236642605066/posts/default/8785050950676545707'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://olharaintolerancia.blogspot.com/2007/06/violncia-no-mundo-moderno-vi-friedrich.html' title='A violência no mundo moderno - V - Friedrich Hacker'/><author><name>Div. temas</name><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-3848387236642605066.post-7498132720837370516</id><published>2007-06-21T10:36:00.000-07:00</published><updated>2007-06-21T13:54:49.466-07:00</updated><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='Intolerância'/><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='Ambição'/><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='História'/><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='Violência'/><title type='text'>A violência no mundo moderno - VI - Friedrich Hacker</title><content type='html'>&lt;span style="font-size:85%;"&gt;Friedrich Hacker&lt;br /&gt;&lt;em&gt;Agressividade – a violência do mundo moderno&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;Lisboa, Livraria Bertrand, 1972&lt;br /&gt;&lt;span style="font-size:78%;"&gt;(excertos)&lt;/span&gt; &lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-size:85%;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;CALLEY: «TU MATARÁS» &lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="LINE-HEIGHT: 160%"&gt;&lt;p align="justify"&gt;&lt;/p&gt;&lt;p align="justify"&gt;&lt;/p&gt;&lt;p align="justify"&gt;O debate continua, apesar de tudo ficar em aberto e a resolução imbuída de incertezas. Como compreender e aceitar a maior nação democrática do mundo de um ponto de vista psicológico e moral? Os defensores de Calley tinham afirmado que fora a guerra a causadora da transformação do tenente num robot hierárquico, executor de ordens desumanas que não tinham sido dadas expressamente, mas que podiam ser logicamente deduzidas da estratégia da guerra. Ele apenas se limitara a executar, à queima-roupa e servindo-se de uma pistola-metralhadora, o que, por métodos permitidos e oficiais e de forma consciente e sistemática, constituía o objectivo dos bombardeamentos quotidianos da artilharia e da aviação, ou seja, o aniquilamento da população civil, virtual e concretamente hostil. Não podia ser feita qualquer comparação com base noutras guerras entre povos cujos meios de defesa se equiparavam. Nesta guerra civil do Vietname opunham-se, por um lado, a nação mais industrializada do mundo, com todos os meios motorizados e químicos de aniquilamento, e, por outro lado, a selva e os seus habitantes. Por uma táctica adversa à da guerrilha, que, segundo a fórmula de Mão, está para os indígenas na mesma ambientação de que o peixe na água, seria necessário exterminar este oceano de população indígena. As opiniões políticas e militares concordavam neste ponto: o objectivo militar a atingir reside na população civil. O reconhecimento de que «o inimigo tem de perder o apoio popular» mediante infindos bombardeamentos de vastas zonas, incluindo todas as aldeias, alvos civis e hospitais, é a fórmula citada por um dos generais mais categorizados e nunca ninguém a contestou.&lt;br /&gt;O tribunal militar terá sido injusto para com Calley, que, dentro de uma violência ilimitada perfeitamente aceite, praticou uma carnificina de civis indefesos, uma vez que a ocasião se oferecia e até mesmo se impunha? A confissão de Calley, ao declarar que antes de ser considerado culpado pensava que o massacre de My Lay fora uma coisa sem grande importância (no big deal), seria assim tão horrivelmente incompreensível e tão incompreensivelmente horrível, quando desde há anos os boletins oficiais enumeravam, quotidianamente e com orgulho, os inimigos abatidos sem diferenciar civis ou militares?&lt;br /&gt;Quem obrigou a chefia do exército, envergonhada com os insucessos, desacreditada e traumatizada pela realidade dos factos que contradiziam as suas profecias optimistas, a anunciar vitórias estupidamente exageradas, a fim de compensar as suas verdadeiras decepções? Numa democracia em que os representantes do povo são livremente escolhidos e podem ser livremente demitidos, também a responsabilidade da opinião pública é muito maior do que sob uma ditadura em que os detentores do poder dispensam a aprovação daqueles em nome dos quais agem. Os delegados do povo escolhidos democraticamente reivindicam, assim, uma imunidade que recusaram aos chefes alemães e japoneses em Nuremberga. Mas se nem os governantes, o exército, e a população que protesta contra uma guerra que a irrita e não deseja são os responsáveis, a quem atribuir então responsabilidades? Quais as culpas que cabem ao establishment. O seu erro reside em ter determinado e tolerado a guerra ou em não ter conseguido uma vitória rápida? Ou em ter induzido o povo a aceitar o combate nesse longínquo Sudeste Asiático como uma operação indispensável de defesa nacional, prodigalizando-lhe apenas informações parciais da verdade dos acontecimentos? Ou o seu erro reside na sua própria existência, dado que o establishment prepara a guerra, que ocasiona actos bélicos e policiais mais perigosos do que todos, porque se baseiam no crime? Pode-se citar, como testemunho de defesa, que existem outros sistemas, contemporâneos ou anteriores, que actuam de forma não menos cruel, impiedosa, brutal e hipócrita. Devemos concluir que, mais cedo ou mais tarde, todas as organizações governamentais exigem guerras e massacres, camuflados durante mais ou menos tempo mas admitidos? O que há a condenar e a reformar? Trata-se da táctica oficial da mentira e da hipocrisia, que acaba por desacreditar não só determinado governo, mas todos os governos afinal? Ou será antes a mentalidade de um povo intoxicado que pretende ver os seus preconceitos confirmados pelos representantes que elege e não protesta contra os actos imorais a não ser quando estes não lhes acarretam o rápido sucesso que esperavam? Para analisar estas questões extremamente complexas, tornam-se necessários métodos novos: é preciso examinar os factos de um ponto de vista social e revolucionário, é preciso debater agressivamente, mas não violentamente, em lugar de tudo basear na justiça que condena à prisão ou à morte de acordo com as leis vigentes.&lt;br /&gt;As nossas democracias ocidentais encontrar-se-iam numa posição difícil, senão fatal, se não tivessem uma desculpa melhor a apresentar do que a sua relativa superioridade moral sobre o regime totalitário nazi. Não basta focar os erros de um indivíduo tomado isoladamente, erros fáceis de determinar através de um processo jurídico, dado a sua limitação a actos isolados. Esse facto não absolve a sociedade pelo seu crime de cumplicidade nem absolve, de modo algum, o culpado. Não há nenhuma sala de tribunal em que o banco dos réus seja suficientemente grande para conter todos os culpados. É demasiado pedir à justiça, e esperar da mesma, uma decisão quanto a problemas que dizem respeito a toda a sociedade. É certo que todo o processo jurídico serve para determinar, oficialmente, a extensão da falta e do castigo do acusado, mas serve, também, sem que tal se confesse, para ilibar os que não podem ser acusados mas que contribuem para o crime pela sua indiferença, insensibilidade, provocações, incitamentos ou uma discreta aprovação.&lt;br /&gt;Ao longo da história moderna, nunca uma nação bélica, em plena guerra, empregou a justiça ou condenou por crimes de guerra — termo até aqui exclusivamente reservado às atitudes do inimigo — os seus próprios oficiais e combatentes. É nesse ponto que reside o mérito incontestável do duro acontecimento chamado «processo Calley». Desmascarou e estigmatizou as tendências dissimuladas e inconscientes da nação relativamente a uma afirmação de direitos mesmo pelo preço de uma carnificina. O facto de este processo ter sido possível, apesar de todas as resistências, o facto de se ter verificado, o facto de a nação americana achar que não só podia mas devia impô-lo, constitui uma esperança de que as obscuras forças de adoração da violência, protegidas por pretensões morais adoptadas sem discussão, talvez não acabem por triunfar.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;/p&gt;&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;span style="LINE-HEIGHT: 160%"&gt;&lt;/span&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/3848387236642605066-7498132720837370516?l=olharaintolerancia.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://olharaintolerancia.blogspot.com/feeds/7498132720837370516/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=3848387236642605066&amp;postID=7498132720837370516' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/3848387236642605066/posts/default/7498132720837370516'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/3848387236642605066/posts/default/7498132720837370516'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://olharaintolerancia.blogspot.com/2007/06/violncia-no-mundo-moderno-vii-friedrich.html' title='A violência no mundo moderno - VI - Friedrich Hacker'/><author><name>Div. temas</name><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-3848387236642605066.post-2791300711347378012</id><published>2007-06-21T10:27:00.000-07:00</published><updated>2007-06-21T13:54:49.466-07:00</updated><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='Intolerância'/><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='Ambição'/><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='História'/><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='Violência'/><title type='text'>A violência no mundo moderno - II - Friedrich Hacker</title><content type='html'>&lt;span style="font-size:78%;"&gt;Friedrich Hacker&lt;br /&gt;&lt;em&gt;Agressividade – a violência do mundo moderno&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;Lisboa, Livraria Bertrand, 1972&lt;br /&gt;(excertos)&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;CALLEY: «TU MATARÁS»&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;span style="LINE-HEIGHT: 160%"&gt;No decurso do processo Calley, que durara longos meses, os jurados oficiais tinham-se limitado a examinar, de acordo com a lei, as provas que as testemunhas, a defesa e o Ministério Público lhes apresentavam. Tinham-se mantido fiéis ao seu juramento e nada mais efectuado do que o cumprimento do dever. Estava para lá do âmbito da sua competência examinar o porquê que fizera recair a acusação sobre os ombros de Calley e não de outros, ou estudar os actos de outros soldados nesta ou noutras guerras. O tenente Calley era acusado do assassínio premeditado de cento e dois civis, velhos, mulheres e crianças, cometido em duas horas diferentes do mesmo dia, em My Lay. Ele mesmo admitiu ter disparado a curta distância (menos de um metro e meio) contra um fosso onde se encontravam dezenas de prisioneiros vietnamitas. Não verificara os resultados do seu procedimento. Mais de cem declarações de testemunhas afirmaram que Calley tinha atirado contra crianças indefesas que iam a fugir, que abatera prisioneiros desarmados e que, a pontapé, forçara os subordinados a atirar contra os civis presos no fosso. Quando Calley solicitou a benevolência do júri e pediu aos jurados que, pelo menos, lhe concedessem a vida, já que lhe tinham tirado a honra, o procurador-geral gritou que a desonra de Calley não se encontrava no veredicto, mas nos actos que cometera. Durante os dias que durou o debate, os jurados tentaram tudo para considerar Calley inocente, mas o processo demonstrara a cada um que os actos de Calley eram indiscutivelmente criminosos. Os jurados não concordaram porém num ponto: os crimes cometidos eram assassínios premeditados ou poderiam ser considerados num âmbito de menor gravidade? Foi pronunciada a acusação de assassínio premeditado numa maioria de dois terços.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;As autoridades militares ficaram surpreendidas, chocadas e perturbadas pela reacção do público e do presidente. A princípio, e mercê de um espontâneo reflexo burocrático, tinham tentado proteger os direitos institucionais arquivando os múltiplos relatórios referentes aos massacres de My Lay entre os numerosos dossiers sobre assuntos análogos. O exército não desejava, evidentemente, chamar a atenção do público para acontecimentos semelhantes. Como as acusações, solidamente fundamentadas e reunidas por um corajoso jornalista, foram, no entanto, difundidas por todos, não se pôde evitar um processo sensacional. Grandes fracções da opinião pública não conseguiram acreditar que os soldados americanos fossem capazes de cometer tais horrores e consideraram as acusações como infames calúnias, cuja mentira se tornava necessário demonstrar publicamente; outros pensaram que se tratava de um caso isolado e que era necessário dar o exemplo através deste criminoso de uniforme. De qualquer modo, as autoridades civis mais elevadas, inclusive o presidente, não só exigiam o processo contra o acusado mas igualmente contra os oficiais de patente superior e generais que, a princípio, tinham tentado ocultar e falsear todo o caso.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;As primeiras investigações do Estado-Maior relativamente às suas próprias (manobras para ressalvar o assunto não foram longe. O facto não surpreendeu ninguém. Não foi apresentada queixa contra o general Koster, que, na manhã do massacre de My Lay, inspeccionara o local de helicóptero, nessa altura ainda em paz, nem contra qualquer outro coronel ou general. Apenas Calley e os seus subordinados, bem como o seu superior imediato, o capitão Medina, foram chamados a responder pelos seus actos ante a justiça. Não vem a propósito discutir aqui se ao exército não restava outra hipótese para além de uma queixa contra Calley, uma vez divulgados os horríveis acontecimentos, ou se obedeceu, de vontade ou pela força, a autoridades civis superiores. A verdade é que o processo se iniciou e, a fim de restaurar a honra do exército americano, prosseguiu publicamente segundo as boas e incompreensíveis regras do direito jurídico.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Antes do mais, o resultado revelou-se catastrófico para o exército, a democracia e o direito. Numa noite o acusado foi promovido a herói nacional precisamente devido ao massacre que ele mesmo confessava ter cometido. O povo mostrou-se solidário em não aceitar a sua condenação, mas apenas nisso. Cada um acusava por um processo de generalização simplista. Em primeiro lugar, nada se passara. Em segundo lugar, os factos tinham sido largamente exagerados. Em terceiro lugar, o que acontecera processara-se ao serviço de uma boa causa. Em quarto lugar, as vítimas tinham merecido o justo castigo, uma vez que eram comunistas, simpatizantes dos comunistas, deles não se diferençando, ou viviam num país simpatizante do comunismo. Em quinto lugar, tudo acontecera no ardor do combate. Em sexto lugar, foram os outros a começar ou podiam tê-lo feito. Com a condenação de Calley, que escarneceu de todo o espírito de camaradagem e lealdade, o exército ficou manchado. Também, talvez, os oficiais superiores de carreira tivessem querido descarregar as suas próprias culpas sobre o seu infeliz subalterno, o tenente Calley. O general Westmoreland, que era, na altura, comandante-chefe americano no Vietname, defendeu-se irritadamente de toda e qualquer atribuição de culpa e de comparações com o general japonês Yamashita, executado após a Segunda Guerra Mundial e que fora considerado responsável por todos os actos do exército sob as suas ordens, mesmo que as ignorasse e não as tivesse podido impedir. As mais altas entidades do exército criticaram a intervenção do presidente, que tornara supérfluos e ridículos os penosos e fatigantes processos jurídicos e trouxera a liberdade a Calley. O exército apressou-se a declarar que Calley, mesmo sem a intervenção do presidente, nunca fora mantido sob detenção até recurso à sentença. Por outro lado, ignora-se o que acontecerá doravante às centenas de soldados que — não por massacre mas por embriaguez, faltas ao serviço ou roubo — têm de esperar meses seguidos na prisão a decisão ao seu apelo. O exército ignora porque se viu obrigado, contra sua vontade, a instaurar um processo criminal contra Calley e também o motivo pelo qual, seguidamente, foi humilhado, insultado, desprezado pela população, desautorizado e ridicularizado pelo seu chefe supremo, simplesmente por ter cumprido o seu dever ao seguir as ordens do presidente e ao obedecer ao desejo da opinião pública. Em que reside a honra do exército? Na dissimulação incondicional dos actos de todo o indivíduo que usa um uniforme, que age, crê agir ou declara agir ao serviço (estando incluído o massacre premeditado de civis e prisioneiros indefesos), ou na afirmação do princípio geral, que autoriza e incita mesmo à violência na guerra, se bem que dentro de determinados limites?&lt;/div&gt;&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;continuação: &lt;a href="http://olharaintolerancia.blogspot.com/2007/06/friedrich-hacker-agressividade-violncia_21.html"&gt;A violência no mundo moderno III &lt;/a&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-size:120;"&gt;&lt;span style="LINE-HEIGHT: 160%"&gt;&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/3848387236642605066-2791300711347378012?l=olharaintolerancia.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://olharaintolerancia.blogspot.com/feeds/2791300711347378012/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=3848387236642605066&amp;postID=2791300711347378012' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/3848387236642605066/posts/default/2791300711347378012'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/3848387236642605066/posts/default/2791300711347378012'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://olharaintolerancia.blogspot.com/2007/06/friedrich-hacker-agressividade-violncia.html' title='A violência no mundo moderno - II - Friedrich Hacker'/><author><name>Div. temas</name><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-3848387236642605066.post-7947593436743742171</id><published>2007-06-21T10:19:00.000-07:00</published><updated>2007-06-21T13:54:49.466-07:00</updated><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='Intolerância'/><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='Ambição'/><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='História'/><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='Violência'/><title type='text'>A violência no mundo moderno - I - Friedrich Hacker</title><content type='html'>&lt;span style="font-size:85%;"&gt;Friedrich Hacker&lt;br /&gt;&lt;em&gt;Agressividade – a violência do mundo moderno&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;Lisboa, Livraria Bertrand, 1972&lt;br /&gt;&lt;span style="font-size:78%;"&gt;(excertos)&lt;/span&gt; &lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-size:85%;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;CALLEY: «TU MATARÁS» &lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;span style="LINE-HEIGHT: 160%"&gt;No mesmo dia em que em Los Angeles Manson e os seus amigos foram condenados à morte, um júri constituído por seis oficiais do exército dos Estados Unidos, reunidos no Forte Benning, declarou o tenente William (Rusty) Calley culpado do assassínio premeditado de vinte e dois civis vietnamitas e condenou-o a prisão perpétua.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Depois de escutar a sentença e ainda antes de ser levado, o tenente Calley conseguiu ainda ter coragem para fazer a saudação militar. Nesse momento, desencadeou-se uma tempestade de indignação entre as pessoas que assistiam, uma indignação não contra os actos do tenente, mas contra a condenação que o atingia. No dia posterior ao do julgamento chegaram cem mil telegramas à Casa Branca: eram cem contra um a favor de Calley. Colocaram-se bandeiras americanas a meia haste em sinal de luto e de vergonha. O governador do estado de Indiana, Edgar Witcomb, veterano da Segunda Guerra Mundial, decretou luto público. Lester Maddox, vice-governador da Geórgia, assumiu um tom patético no decurso de uma conferência em que se reclamou a libertação de Calley em grandes gritos: «Deus abençoe o tenente Calley, que lutou pela causa da nação.» George Wallace, ex-candidato à presidência e actual governador do Alabama, declarou que considerava uma honra ter apertado a mão ao tenente Calley, a quem fizera uma visita espectacular. Tudo porque as vítimas do Vietname, inclusive civis, mulheres e crianças, tinham sido mortas para destruir o comunismo. Foi composto um hino guerreiro sobre o caso, cuja primeira estrofe é a seguinte: «O meu nome é William Calley, sou um soldado deste país que jurei cumprir o meu dever e vencer, mas chamaram-me um canalha...» Em três dias venderam-se cem mil discos e numa semana um milhão. As associações de veteranos recolheram somas enormes para Calley e transmitiram-lhe mensagens de simpatia. As antenas dos carros ostentavam folhetos que pediam a libertação de Calley. Milhares de homens foram apresentar-se às autoridades militares e acusaram-se de ter cometido crimes análogos. O «Diabo Verde», Robert Marasko, comovido pela condenação de Calley, decidiu anunciar na televisão que matara recentemente um espião do Vietname do Sul por ordem da C. I. A. Era assim e não podia fazer nada mais do que confessar. Os jornais declararam luto. O reverendo Michael Lord viu o reviver da paixão de Cristo no caso Calley. Declarou publicamente: «Há dois mil anos crucificaram um homem chamado Jesus Cristo; não acho que tenham necessidade de uma nova crucificação.» Uma indagação junto do público revelou que oito em cada nove americanos consideravam a condenação de Calley injusta.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O presidente dos Estados Unidos passou uma noite em claro e, depois, decidiu fazer sair Calley da prisão e mandá-lo para casa sob vigia. Declarou que, na sua qualidade de chefe supremo do exército, se reservava a última decisão sobre o assunto, dado que todos os meios judiciais estavam esgotados. Os militares responsáveis — não falo dos acusados, mas dos seus juízes — viram-se objecto de insultos sistemáticos. As famílias foram alvo de calúnias e ameaças e a polícia teve de as tomar à sua guarda. Depois de subtraídos à reclusão imposta ao júri, os dignos oficiais não entendiam a emoção geral.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Há anos a jurisdição militar tinha condenado, sem que por isso se tornasse objecto da atenção pública, algumas dezenas de soldados e oficiais por crimes análogos, se bem que não de tanta carnificina, cometidos em operações no Vietname. O facto não despertara interesse nem causara objecções.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;continuação: &lt;a href="http://olharaintolerancia.blogspot.com/2007/06/friedrich-hacker-agressividade-violncia.html"&gt;A violência no mundo moderno - II&lt;/a&gt;&lt;/div&gt;&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="LINE-HEIGHT: 160%"&gt;&lt;/span&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/3848387236642605066-7947593436743742171?l=olharaintolerancia.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://olharaintolerancia.blogspot.com/feeds/7947593436743742171/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=3848387236642605066&amp;postID=7947593436743742171' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/3848387236642605066/posts/default/7947593436743742171'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/3848387236642605066/posts/default/7947593436743742171'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://olharaintolerancia.blogspot.com/2007/06/violncia-no-mundo-moderno-i.html' title='A violência no mundo moderno - I - Friedrich Hacker'/><author><name>Div. temas</name><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-3848387236642605066.post-8159205700274705314</id><published>2007-06-21T10:11:00.000-07:00</published><updated>2007-07-01T08:56:29.528-07:00</updated><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='Intolerância'/><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='Racismo'/><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='História'/><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='Violência'/><title type='text'>A Barbie do Cuíto - Eduardo Agualusa</title><content type='html'>&lt;div align="justify"&gt;&lt;span style="font-size:120;"&gt;&lt;span style="LINE-HEIGHT: 160%"&gt;&lt;span style="font-size:100%;"&gt;Não fui testemunha da história que se segue, alguém me contou. Mariana, vou chamar-lhe assim, uma menina dos seus sete anos de idade, s vive num centro de recuperação de mutilados na cidade do Cuíto, no interior de Angola. Perdeu uma perna ao pisar uma mina, o que ali, naquele abismo remoto, é uma história banal.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Uma tarde apareceu no centro um médico português, ao serviço de uma organização não governamental europeia, a distribuir brinquedos. Viu a menina e estendeu-lhe uma boneca. A menina segurou a boneca com cuidado. Achava-a estranha, muito magra, demasiado pálida, com uma cabeleira escorrida e loura, a lembrar uma espiga de milho bem madura. Algo nela lhe parecia ainda mais estranho: tinha duas pernas. Quando o médico regressou ao centro, poucas semanas depois, voltou a reparar em Mariana. A menina parecia feliz com a sua filha loura. Transportava-a às costas, num pano, à maneira tradicional. Falava com ela. Dava-lhe banho. Reparando melhor na boneca, porém, o médico descobriu que lhe faltava a perna esquerda. «O que aconteceu, Mariana, a tua boneca perdeu uma perna?» A menina olhou-o, assustada:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;«Arranquei», disse, «agora, sim, é gente.»&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Lembrei-me de Mariana ao ler o noticiário sobre a intervenção norte-americana na Colômbia. Explico-me melhor: primeiro lembrei-me de uma entrevista de Hélio Luz, antigo chefe da polícia do Rio de Janeiro, defendendo que se aos Estados Unidos é reconhecido o direito de intervir em países do terceiro mundo para combater a produção de cocaína, então aqueles mesmos países deveriam poder entrar em território norte-americano para encerrar as fábricas de armamento. Este argumento parece-me irrespondível se o que estiver em causa for o fabrico de minas antipessoais.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A produção de minas é, na minha opinião, um dos maiores escândalos, se não o maior, do nosso tempo. Vale a pena deixar aqui alguns números: cento e dez milhões de minas causam todos os anos 26 mil novas vítimas. Existem 350 tipos de minas que custam entre duzentos escudos e trinta contos; para retirar cada um destes explosivos, porém, gasta-se em média dez vezes o seu custo. Finalmente, dos cerca de cinco milhões de minas que se produzem em cada ano, a maioria é fabricada nos Estados Unidos da América e nos territórios da antiga União Soviética.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ao contrário do que muita gente julga, o objectivo da mina não é matar: este engenho pavoroso foi pensado para mutilar. Um mutilado exige cuidados, custa dinheiro e ainda por cima afecta negativamente a moral do inimigo – mais, bastante mais, do que um companheiro morto. A perversão foi ao ponto de se inventarem minas coloridas, chamadas borboletas, destinadas a atrair a atenção de crianças.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Uma única vez experimentei a sensação de caminhar num campo de minas. Não gostaria de repetir a experiência. Foi há alguns anos. Viajava num jipe com militares. No meio da viagem, num lugar que parecia muito longe de qualquer guerra, longe da maldade humana, o motorista decidiu parar o carro para que todos pudéssemos sair e desentorpecer as pernas. Afastei-me alguns metros, tentando alcançar um pouco de intimidade para aliviar a bexiga, quando ouvi de repente gritar o meu nome. Um dos soldados, junto ao jipe, agitava os braços, e repreendia-me, dizendo que era perigoso sair da berma da estrada porque em toda aquela região havia muitas minas.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Não sei se havia ou não. O que sei é que essa possibilidade alterou por completo a forma como até àquele instante eu percebia a paisagem. Um segundo antes, eu via abrir-se diante de mim um amplo horizonte verde e vivo; um perfume a terra molhada vibrava no ar; pássaros, cujo nome nunca saberei, cantavam num bosque próximo. Um segundo depois, eu apenas vi o que não era possível ver: os pequenos animais de carapaça rija, escondidos debaixo da lama, à espera que eu lhes pusesse o pé em cima para assim cumprirem a sua triste missão – explodir. Levei a eternidade para percorrer os trinta metros que me separavam do jipe. Milhões de camponeses vivem com esse terror a cada passo que dão.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Segundo a ONU, seriam necessários mais de mil anos para, com a actual tecnologia, conseguir retirar todas as minas plantadas no mundo. Esta operação custaria 33 mil milhões de dólares. Volto a lembrar que a maior parte destes engenhos não são fabricados num qualquer país pária por uma organização criminosa de loucos extremistas – são fabricados em países democráticos, com destaque para os Estados Unidos da América. O desafio lançado por Hélio Luz deveria ser levado a sério por todos nós, as vítimas, as vítimas potenciais. A menos que Mariana tenha razão.&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="right"&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-size:85%;"&gt;in «Pública»,&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="right"&gt;&lt;span style="font-size:85%;"&gt; suplemento do jornal Público, 24 de Setembro de 2000&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/3848387236642605066-8159205700274705314?l=olharaintolerancia.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://olharaintolerancia.blogspot.com/feeds/8159205700274705314/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=3848387236642605066&amp;postID=8159205700274705314' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/3848387236642605066/posts/default/8159205700274705314'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/3848387236642605066/posts/default/8159205700274705314'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://olharaintolerancia.blogspot.com/2007/06/barbie-do-cuto-eduardo-agualusa.html' title='A Barbie do Cuíto - Eduardo Agualusa'/><author><name>Div. temas</name><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-3848387236642605066.post-7174170820674021020</id><published>2007-06-21T10:05:00.000-07:00</published><updated>2007-06-21T13:54:49.467-07:00</updated><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='anti-semitismo'/><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='Intolerância'/><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='Racismo'/><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='História'/><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='Violência'/><title type='text'>Campos de lágrimas - J. J. Letria</title><content type='html'>&lt;strong&gt;A VIAGEM E A MEMÓRIA&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;/div&gt;&lt;span style="font-size:120;"&gt;&lt;span style="LINE-HEIGHT: 160%"&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;Francisco nada quis deixar ao acaso na preparação daquela viagem de Verão. Fazendo-a, queria festejar o 14.° aniversário de Sofia, a filha mais velha, e ter uma oportunidade de falar com ela e com João, o filho, sobre a Europa, sobre a paz e sobre a guerra e ainda sobre a memória muito longínqua de um avô que não chegara a conhecer o que sempre fora uma referência de dignidade e de coragem para a sua família.&lt;br /&gt;O avô fora sempre um homem de sonhos e de ideias. Tinha combatido do lado republicano na Guerra Civil de Espanha. Derrotados os republicanos pelas tropas do general Franco, que contava com o apoio dos fascistas de Itália, Alemanha e Portugal, partiu para França, onde acabou por ser capturado pela Gestapo, polícia política do Partido Nazi, e levado para um campo de concentração, onde acabou por morrer. As últimas notícias que os seus pais tiveram dele davam-no como prisioneiro no campo de Buchenwald, na Turíngia, Alemanha, embora nunca se tenha encontrado registo que confirmasse a sua morte naquele local de horror e miséria humana. Queriam agora reencontrar o espaço que evocasse a sua memória.&lt;br /&gt;— É preciso irmos tão longe só para podermos falar do que foi a guerra? — perguntou Sofia ao pai no dia em que ele anunciou o programa da viagem. E o pai respondeu-lhe:&lt;br /&gt;— É preciso irmos até onde as coisas aconteceram para sentirmos melhor o seu significado e as suas causas.&lt;br /&gt;Como Sofia e João gostavam muito de viajar, não viram qualquer inconveniente na escolha e até demonstraram grande entusiasmo por terem a possibilidade de, no recomeço das aulas, poderem falar aos colegas e amigos de uma experiência que, por certo, nenhum outro teria tido até esse momento. Joana, a mulher de Francisco, apoiou-o desde o princípio na opção que fizera. Iriam visitar, na Alemanha, um local que trazia à família memórias pouco agradáveis, mas que seria um pretexto para falarem de assuntos importantes para quem estava a crescer e se esforçava por compreender o mundo em toda a sua complexidade. A de ontem e a de hoje.&lt;br /&gt;Em finais de Agosto apanharam, em Lisboa, um avião para Frankfurt e depois seguiram de comboio até Weimar, uma cidade famosa na história cultural da Europa. Apesar de ser uma cidade pequena, ainda hoje com cerca de 50 mil habitantes, nela viveram e escreveram grandes escritores como Goethe e Schiller, considerados dos maiores poetas e dramaturgos de toda a história da literatura ocidental.&lt;br /&gt;Durante a viagem de comboio a caminho de Weimar, Sofia e João não escondiam a curiosidade e o interesse por aquilo que iam visitar. Da história do século XX ainda sabiam muito pouco, mas tinham vontade de saber muito mais, principalmente acerca daquele bisavô de quem já tinham ouvido falar muitas vezes com muito respeito e admiração e do qual se sabia pouco. Algumas fotografias já amarelecidas pelo tempo mostravam-no em plena juventude, ao ar livre, vestindo roupa leve e deixando que o sorriso confiante deixasse transparecer tudo aquilo que esperava da vida e toda a esperança que tinha no futuro do mundo. Infelizmente, não viveu o tempo suficiente para ver confirmado nada daquilo com que sonhara, mas ficara a sua memória para mostrar que não fora em vão o seu esforço e o seu sacrifício. A memória tem essa vantagem.&lt;br /&gt;Ao chegar à estação de Weimar, a família juntou as bagagens e preparou-se para apanhar um táxi que a levasse até um hotel no centro da cidade, instalado numa velha casa recuperada. Nessa casa, segundo informação que Francisco obteve num folheto fornecido pela agência de viagens, vivera um nome importante da cultura alemã. Era apenas uma das muitas casas com história e memória cultural, numa cidade por onde passaram, onde viveram e trabalharam escritores, cientistas, dramaturgos e pintores e onde nasceram também algumas das piores formas de terror praticadas pelos nazis durante os anos trinta e até 1945. Era a esta estação de caminhos-de-ferro — explicou Francisco à mulher e aos filhos — que chegavam os prisioneiros que depois eram transportados para o campo de concentração de Buchenwald, que fica apenas a oito quilómetros da cidade.&lt;br /&gt;— Então as pessoas viam e não faziam nada? — quis saber Sofia.&lt;br /&gt;— Tanto quanto se sabe — disse o pai — parece que, era de facto, assim, e esse foi um dos grandes problemas desses anos de terror. É que muita gente sabia o tipo de crimes que se cometiam e nada fazia para os evitar.&lt;br /&gt;— Devia ser terrível — comentou a mãe,&lt;br /&gt;— Eu nem quero acreditar que isso pudesse acontecer — acrescentou João.&lt;br /&gt;— De facto — declarou Francisco — pelo menos aqui em Weimar, os prisioneiros, fossem eles judeus, políticos, ciganos ou outros, desembarcavam na estação de caminhos-de-ferro da cidade, pois não havia linha férrea até ao campo de concentração, onde muitos milhares acabaram os seus dias no meio do maior sofrimento físico e moral.&lt;br /&gt;— Mas é terrível pensar — comentou Sofia — que perto de uma cidade onde se fez tanta cultura também foi possível cometer tantos crimes.&lt;br /&gt;— Tens razão, Sofia — respondeu o pai — e não podemos deixar de relacionar uma coisa com outra e de fazer esta pergunta: como foi possível ter, de um lado, a memória de homens como Goethe, um escritor que sempre defendeu a liberdade, e, do outro, a mais terrível falta de respeito pelos seres humanos e pelos seus direitos.&lt;br /&gt;— Nós, se tivéssemos vivido nessa altura, também cá podíamos ter vindo parar? — perguntou João, tentando disfarçar o arrepio que lhe percorreu a espinha.&lt;br /&gt;— Não é muito provável — respondeu o pai — porque não somos judeus, porque não pertencemos a um país que os nazis tenham ocupado e porque nessa época não devíamos ter nenhuma actividade que nos pusesse em risco. De qualquer modo, nunca se sabe, e o melhor é pensarmos sempre que o pior pode voltar a acontecer, se as pessoas, onde quer que estejam e façam o que fizerem na vida, não lutarem pela defesa da liberdade e dos direitos dos seres humanos&lt;br /&gt;— E pensarmos nós que o nosso bisavô veio para aqui, que desembarcou na mesma estação em que nós desembarcámos e que pode ter morrido no campo de concentração que nós vamos visitar!&lt;br /&gt;Francisco teve dificuldade em acrescentar o que quer que fosse às palavras da filha, pois também ele, nesse momento, pensava nessa repetição de itinerários, em condições tão diferentes e com quase sessenta anos de intervalo. Teve a tentação de imaginar o avô numa longa fila de homens e mulheres magros e tristes, alinhados sob a ameaça das armas dos soldados, que não hesitavam em matar quem tentasse fugir, ou mesmo quem se limitasse a protestar contra a forma como estavam a ser tratados, mas evitou fazê-lo, guardando as emoções maiores, as mais intensas, para a visita que iriam fazer, com tempo, ao campo de concentração de Buchenwald.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;O LUGAR DO HORROR&lt;br /&gt;&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;Francisco, a mulher e os filhos chegaram ao campo de Buchenwald na manhã seguinte, com tempo suficiente para verem tudo com atenção. Como guia para a visita coube-lhes uma jovem de origem judaica, vinda de um país da América Latina. Tiveram sorte porque ela falava espanhol e assim Sofia e João eram capazes de perceber o fundamental das explicações. Ficaram impressionados com o aspecto exterior do campo, com os seus edifícios sombrios, com a pequena torre do relógio que devia marcar o momento em que o tempo parava para todos quantos ali entravam e com o profundo silêncio que envolvia o local, interrompido aqui e acolá por um riso de criança ou pelo canto de um pássaro.&lt;br /&gt;O campo, foi-lhes explicado, abriu as suas portas em Julho de 1937. Junto do campo foram construídos vários edifícios para instalar os homens das SS, tropa de choque do regime nazi e de muitos dos seus dirigentes.&lt;br /&gt;No princípio, antes do começo da Segunda Guerra Mundial, foram para ali levados presos políticos, criminosos de delito comum e testemunhas de Jeová. A primeira grande onda de judeus, as principais vítimas do terror dos campos, chegaria em meados de 1938. Eram cerca de 13 mil e vinham de vários pontos da Alemanha e também da Áustria, que entretanto Hitler, que era austríaco, mandara anexar à Alemanha, fazendo-a deixar de existir como país independente e soberano.&lt;br /&gt;— A primeira medida que os carrascos adoptavam — explicou Iolanda, a guia da visita — era a eliminação de qualquer elemento ou aspecto que garantisse a individualidade ou personalidade dos detidos As pessoas deixavam de ser conhecidas pelos nomes e pelas nacionalidades e passavam a ser conhecidas apenas pelos números que lhes eram atribuídos e pelos triângulos coloridos que lhes eram colocados nos fardamentos e que correspondiam aos “crimes” que era suposto terem cometido. Essa humilhação começava, aliás, dentro dos vagões que os levavam até à estrada de Weimar. Eram obrigadas a viajar amontoadas durante dias, sem quaisquer condições de higiene, como se fossem cabeças de gado. Tudo isto como se fossem autores de crimes graves.&lt;br /&gt;— E que crimes eram esses? — quis saber Sofia.&lt;br /&gt;— Na verdade — respondeu Iolanda — não eram crimes. O seu crime era serem judeus, comunistas ou socialistas, ciganos, homossexuais ou testemunhas de Jeová. Só por isso teriam que ser presos ou destruídos fisicamente. E entre os presos políticos havia muitas pessoas que tinham combatido na Guerra Civil de Espanha e em França, logo no princípio da Segunda Guerra Mundial.&lt;br /&gt;Ao ouvirem estas palavras, Francisco e a família não puderam deixar de sentir um sobressalto, recordando-se do familiar que supunham ter perdido naquele campo de horror.&lt;br /&gt;— Os guardas dos campos — continuou Iolanda — usavam todos os mesmos métodos, tentando torná-los iguais pela fome, pela humilhação, pela pancada, pela tortura e pelo medo e pela falta de condições mínimas de higiene. Desse modo transformavam, ou, pelo menos, tentavam transformar seres humanos em animais. Para que o terror não tivesse pausas, os prisioneiros eram constantemente chamados para a parada do campo, muitas vezes com temperaturas negativas, para se proceder à sua contagem e recontagem. Isso tanto podia acontecer a meio do dia como durante a madrugada. No princípio, Buchenwald destinava-se a funcionar como um campo de trabalhos forcados, mas, na realidade, era um campo de extermínio.&lt;br /&gt;Sofia e João chamaram a atenção do pai para o contraste que havia entre as condições de vida dentro das vedações electrificadas do campo e os edifícios onde viviam as SS. E foi Sofia que reparou numa pequena gruta com uma entrada protegida por um gradeamento de jaula, perguntando à guia do que se tratava.&lt;br /&gt;— Aqui — explicou Iolanda — funcionava um jardim zoológico mandado construir por um dos comandantes do campo. Tinha várias espécies animais e servia para os filhos dos guardas e das tropas das SS se divertirem, vendo os ursos, os veados, as raposas e outros animais, que eram excepcionalmente bem tratados e bem alimentados.&lt;br /&gt;— Certamente muito melhor que os prisioneiros — comentou Francisco.&lt;br /&gt;— Claro que sim! — confirmou Iolanda — porque era disso mesmo que se tratava: dava-se aos animais melhor tratamento que aos humanos para os humilhar ainda mais. Sabe-se mesmo que, um dia, o comandante do campo mandou castigar dois soldados por terem tratado mal um veado do jardim zoológico.&lt;br /&gt;O número de detidos no campo nunca parou de aumentar, até atingir cerca de 110 mil (85 mil homens e 25 mil mulheres) em 1945. Ao todo terão morrido no campo quase 60 mil pessoas de várias nacionalidades, entre as quais portugueses. Quando as tropas norte-americanas ali chegaram a 11 de Abril de 1945, ainda havia no campo 21 mil prisioneiros, muitos dos quais morreram nos dias seguintes, de tal modo grave era o seu estado de saúde, sempre agravado por epidemias, subnutrição e terríveis experiências médicas feitas pelos nazis. À medida que se iam aproximando as forças dos Aliados, os carrascos aumentaram o ritmo da destruição dos detidos. Nos primeiros meses de 1945 foram assassinadas 13 mil pessoas.&lt;br /&gt;— Uma das experiências mais terríveis aqui realizadas — contou Iolanda, incapaz de disfarçar a emoção que continuava a sentir, apesar de realizar aquele trabalho diariamente — foi a de se concentrarem 100 pessoas dentro de uma vedação, deixando-as morrer à fome e à sede para os médicos poderem observar os diferentes graus de resistência, consoante a idade, a raça c o estado de saúde. Também havia crianças nesse grupo mártir e sabe-se que, no máximo, os últimos conseguiram viver 18 dias ao frio, sem qualquer tipo de alimento. E esta foi apenas uma das numerosas experiências médicas que foram feitas neste campo. Muitas dessas experiências eram subsidiadas por uma grande empresa de produtos farmacêuticos alemã, a IG Farben.&lt;br /&gt;Além de serem humilhados, torturados e assassinados, os prisioneiros serviam também de cobaias para terríveis experiências médicas. Alguns sobreviveram, mas ficaram fisicamente destruídos para o resto das suas vidas.&lt;br /&gt;Joana não conseguiu conter as lágrimas. Sofia e João abraçaram a mãe, sentindo uma emoção igual à sua e sobretudo o peso desta terrível pergunta: como é possível que seres humanos de um país civilizado e culto façam isto a outros seres humanos?&lt;br /&gt;— Que tipo de alimentação tinham os prisioneiros? — perguntou Francisco a Iolanda.&lt;br /&gt;— Inicialmente, recebiam por dia entre 300 a 500 gramas de pão e um litro de sopa, muitas vezes azeda. Na fase final, a ração não ultrapassava 100 ou 200 gramas de pão e cerca de meio litro de sopa, que não passava de um caldo aquoso do qual eram retiradas as couves e as batatas. Por isso, quase todos os detidos sofriam de graves problemas intestinais. Mesmo subnutridos, eram obrigados a trabalhar durante 10 horas e mais, por dia, como animais de carga. Ao fim de cada jornada de trabalho, muitos já não regressavam aos abarracamentos, derrotados pela fadiga e pela doença.&lt;br /&gt;Francisco, por mais que tentasse, não conseguia deixar de imaginar o avô no meio de todo aquele horror, tentando sobreviver, muito magro e angustiado. Era a paga que tinha por ter passado a vida toda a lutar pela liberdade e pela tolerância, primeiro em Portugal, depois em Espanha e, por último, em França.&lt;br /&gt;Um dos momentos mais dramáticos da visita ao campo, num belíssimo dia de sol, com a floresta em redor mostrando as suas cores mais vivas e contrastantes, foi o da passagem pela zona dos fornos crematórios, pela sala das experiências médicas e pela cave onde se fuzilavam prisioneiros. Francisco hesitou quanto ao interesse e à oportunidade de deixar Sofia e João entrarem naqueles locais, mas a verdade é que, se estavam ali, com a memória do seu avô tão presente, deveriam ver tudo, sem nada ficar escondido ou esquecido. Nos grupos de visitantes de outros países também havia adolescentes, e Francisco percebeu que alguns deles pertenciam a famílias cuja história também tinha passado, mais de 50 anos antes, por aquele local de horror ilimitado.&lt;br /&gt;Durante a visita só se ouvia a voz da guia e as perguntas feitas, num quase sussuro, pelos visitantes. Tudo o mais era recolhimento e comoção. Não fazia qualquer sentido que ali houvesse comentários ou pessoas a conversar fora dos grupos organizados. As pessoas estavam naquele local a lidar com os mais terríveis sinais da tragédia humana e encontravam-se, sem excepção, à beira das lágrimas, sentindo também uma grande revolta e repetindo sem cessar a pergunta: como podem seres humanos ter feito isto a outros seres humanos? Cada um teria que encontrar a sua resposta ou ficar apenas com a tristeza da pergunta.&lt;br /&gt;Quando saíam da zona dos fornos crematórios, passou por eles um grupo de jovens alemães falando e rindo alto. Todos ficaram indignados.&lt;br /&gt;— São alemães, não são? Como podem proceder aqui desta maneira? — perguntou um francês de meia-idade que seguia integrado no grupo. E Iolanda respondeu:&lt;br /&gt;— Esse é um dos grandes problemas da Alemanha de hoje. É que há pessoas em Weimar e noutros cantos do país que continuam a dizer que foi tudo mentira e que os campos foram uma mera invenção dos Aliados. Muitas outras pessoas, conscientes da responsabilidade da Alemanha, entendem que isto não só aconteceu, como deve ser mostrado ao mundo para que não se repita. E, depois, há grupos de jovens neonazis que dizem que, de facto, houve os campos de concentração e que ainda bem que houve, pois podem ainda servir para se meterem lá os emigrantes turcos e de outras nacionalidades. Isso é terrível. Estes jovens que aqui passaram a rir e a falar em voz alta devem ser dos que pensam dessa maneira.&lt;br /&gt;Todos ouviram com verdadeira estupefacção estas palavras, não querendo acreditar que, perante os testemunhos vivos do horror, algum ser humano possa pensar ou proceder dessa maneira.&lt;br /&gt;Já no final da visita, os elementos do grupo, onde havia pessoas de várias nacionalidades, concentraram-se junto de uma placa de homenagem às vítimas do terror nazi. Era uma placa metálica incrustada numa outra mais larga feita de granito. Nela liam-se somente as nacionalidades das vítimas. Uma delas era a portuguesa. Em redor da placa havia dezenas de ramos de flores. Sofia perguntou ao pai se podia depositar ali o ramo de dálias que tinham comprado numa florista à saída do hotel. O pai respondeu-lhe que sim e ela acocorou-se junto da placa e deixou ali as flores. Segundo o pai lhe dissera, eram as predilectas do seu bisavô.&lt;br /&gt;Nessa altura, Iolanda disse aos membros do grupo:&lt;br /&gt;— Se quiserem prestar uma última homenagem às vítimas deste campo de concentração, por favor ponham a palma da mão sobre a placa metálica. As pessoas formaram uma pequena fila e corresponderam à sugestão.&lt;br /&gt;— Quando tocarem na placa, perceberão a mensagem final do campo de Buchenwald.&lt;br /&gt;Sofia escondeu a estranheza que sentia, dizendo para o pai:&lt;br /&gt;— A placa está morna. Parece que tem alguma coisa lá dentro a aquecê-la.&lt;br /&gt;Iolanda, sensibilizada com a reacção da jovem visitante, explicou:&lt;br /&gt;— É precisamente essa mensagem que nós queremos que tu leves daqui.&lt;br /&gt;Esta placa metálica que homenageia todos aqueles que aqui morreram, tem uma temperatura constante de 37 graus centígrados.&lt;br /&gt;— Mas porquê essa temperatura? — quis saber Sofia.&lt;br /&gt;— Porque é a temperatura do corpo humano e isso é que nos torna a todos iguais. Podemos falar línguas diferentes, ter diferentes grupos sanguíneos, vir de vários continentes e ter diferentes cores de pele. Mas uma coisa é certa: todos temos uma temperatura média do corpo igual a esta e é isso que também nos define como seres humanos. Se nos lembrarmos sempre desta mensagem, nunca deixaremos que nada se sobreponha à nossa condição de humanos.&lt;br /&gt;As palavras de Iolanda foram muito mais do que a grande lição daquele dia de Agosto, numa visita ao campo de concentração de Buchenwald. Foram a lição de uma vida, daquelas que o tempo nunca apaga na memória.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;WEIMAR: ENTRE A CULTURA E O TERROR&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;No dia seguinte, por mais que se falasse de grandes escritores como Goethe ou Schiller, nomes sem os quais não pode ser contada a história de Weimar, não saíam da cabeça de Sofia e de João as palavras de Iolanda sobre o campo de concentração que tanta impressão lhes causara. Contudo, evitaram falar do assunto, já que o programa estabelecido pelo pai previa que visitassem a cidade, com tempo e com paciência para aprenderem coisas novas sobre os movimentos artísticos que ali tinham nascido ou desenvolvido.&lt;br /&gt;Todos acharam a cidade bonita, limpa, monumental, apesar da sua dimensão reduzida, e ficaram espantados com o facto de quase em cada esquina existir uma estátua de um escritor, de um músico ou de um poeta famoso. Era como se todos os génios de várias épocas tivessem feito questão de passar por Weimar ou de ali viver. Aquela pequena cidade alemã do Estado da Turíngia mais parecia um museu vivo, uma enciclopédia que, aberta numa página ao acaso, teria sempre revelações surpreendentes para fazer.&lt;br /&gt;Quando, passeando despreocupadamente a conversar e a comer gelados, passaram perto da estação da cidade, fez-se um grande silêncio. Não puderam deixar de se lembrar das palavras da guia de Buchenwald quando lhes explicou que, durante bastante tempo, era ali que os presos era desembarcados e encaminhados para o campo de concentração, e deviam ser muito poucas as pessoas na cidade que desconheciam o seu trágico destino antes e durante a Segunda Guerra Mundial.&lt;br /&gt;Decidiram, porém, não falar do assunto, pois iriam ter muito tempo para reflectir sobre ele quando voltassem a Portugal. O problema é que a visão do campo teimava em não lhes sair do espírito.&lt;br /&gt;Durante todo o dia ninguém falou de Buchenwald, mas as imagens trágicas da visita feita na véspera não saíam da memória da família, porque, ao recordarem-nas, pensavam, inevitavelmente, no parente chegado que ali tinha acabado os seus dias de forma trágica.&lt;br /&gt;Durante o jantar, Sofia, sempre com grande perspicácia, perguntou aos pais:&lt;br /&gt;— Como é possível que quase ao lado de uma cidade toda ela feita de cultura tenha existido um campo de concentração onde morreu tanta gente inocente?&lt;br /&gt;— Essa — disse a mãe — é uma pergunta para a qual é muito difícil encontrar uma resposta aceitável. A cultura deve tornar as pessoas mais sensíveis e mais humanas e, por isso, não faz muito sentido esta vizinhança.&lt;br /&gt;E o pai, que há muito tempo reflectia sobre o assunto, acrescentou:&lt;br /&gt;— Quem tem que tornar a vida dos seres humanos melhor não é a cultura, é o próprio ser humano, e o ser humano é uma criatura muito complexa, capaz de fazer as coisas mais belas e geniais e, ao mesmo tempo, as coisas mais terríveis e brutais. É assim mesmo a natureza humana. Weimar e Buchenwald são um bom exemplo dessa grande contradição.&lt;br /&gt;— Mas há uma coisa que eu ainda não consegui perceber — disse João. — Que mal fizeram, afinal, aquelas pessoas para serem tratadas como foram e morrerem como morreram?&lt;br /&gt;— Essa — respondeu o pai — é outra das perguntas para as quais não é fácil encontrar resposta satisfatória. Em primeiro lugar, nenhuma delas cometeu crimes de qualquer espécie. O único “crime” que podem ter cometido foi o de serem diferentes, o de serem judeus, ciganos ou apenas homens e mulheres que lutavam pela liberdade contra a tirania.&lt;br /&gt;— Mas isso, que eu saiba, não foi nem nunca pode ser considerado um crime — observou Sofia.&lt;br /&gt;— Claro que não! — concordou a mãe.— Isso só pode ser entendido como um crime quando estão no poder loucos e criminosos, que foi o que aconteceu aqui na Alemanha entre 1933 e 1945. Foram 12 anos de grande sofrimento para milhares de pessoas.&lt;br /&gt;— E os que viviam aqui nesta cidade não podiam fazer nada para evitar que isto acontecesse? — quis saber João.&lt;br /&gt;— A esta distância — explicou o pai — tudo parece muito simples e até podemos pensar que as respostas que damos são as mais correctas e definitivas. Mas o problema é que tem que se ver o que aconteceu, à luz da maneira como os alemães pensavam nessa época. Eles tinham sido derrotados e humilhados na Primeira Grande Guerra e Hitler e os nazis prometeram devolver ao país a grandeza e a glória perdidas.&lt;br /&gt;— Mesmo assim... — limitou-se Sofia a comentar, insatisfeita com a resposta.&lt;br /&gt;— Tens toda a razão em fazer esse comentário, porque não há nada que explique o silêncio cúmplice de grande parte de um povo ao ver assassinar milhares de pessoas da mesma nacionalidade e de outras nacionalidades sem razão aparente. E a verdade é que houve muitos milhares de alemães que colaboraram dia a dia com esta máquina de terror e destruição.&lt;br /&gt;— Como, pai? — perguntou João.&lt;br /&gt;— Tínhamos combinado que hoje não voltávamos a este assunto, mas já que estamos a falar nele, não vale a pena adiar a resposta. Calcula-se que cerca de 100 mil alemães podem ter estado ligados a esta indústria de terror, mesmo não sendo militares.&lt;br /&gt;— Se não eram militares, o que é que faziam nos campos de concentração? — quis saber Sofia.&lt;br /&gt;— Uns eram guardas dos campos, e os guardas eram homens e mulheres. Depois, havia gente que trabalhava nas fábricas onde se faziam os produtos usados para assassinar pessoas nos campos e, espero que não se impressionem com o que vos vou dizer: havia muitos homens e mulheres em fábricas e oficinas a fazer travesseiros e cabeleiras postiças com os cabelos que eram cortados rentes àqueles que entravam nos campos, e havia ainda muita gente a negociar com esta mão-de-obra que não custava nada e que dava muito lucro. Isso acontece nos países onde havia campos, e eles existiam na Alemanha, na Polónia, na Checoslováquia e outros mais pequenos nos vários países e os nazis ocupavam. No fundo, existia uma verdadeira economia do horror a girar à volta desta máquina de torturar e de matar. Ainda hoje é difícil percebermos como tudo isto foi possível.&lt;br /&gt;Sofia mordeu o lábio, revoltada com o que acabara de ouvir, e depois perguntou ao pai:&lt;br /&gt;— E as pessoas aqui desta cidade não faziam nada para ajudar os presos?&lt;br /&gt;— Não — respondeu Francisco. — Que se saiba, não faziam. Mantinham aquilo a que eu chamei um silêncio cúmplice. Claro que havia pessoas que não concordavam, mas, se o dissessem publicamente, podiam acabar os seus dias num campo ou noutra qualquer prisão do regime de Hitler. Parece também que muita gente tirava vantagens da proximidade do campo.&lt;br /&gt;— Mas como? — perguntou o João.&lt;br /&gt;— Utilizavam os presos e presas como jardineiros, como cozinheiras, “como costureiras e até como amas de crianças, não pagando nada pelo serviço, ou pagando alguma coisa aos guardas do campo que alinhavam neste tipo de negócio e que até enriqueciam à custa dele.&lt;br /&gt;— Que horror! — exclamou Sofia.&lt;br /&gt;Francisco achou que seria melhor, pelo menos naquela noite, pôr um ponto final no assunto, mas os filhos insistiram para que ele o não fizesse porque queriam saber mais e, sobretudo, conhecer melhor os culpados e a lógica de um terror que não conseguiam justificar.&lt;br /&gt;— Os piores campos — explicou o pai — eram aqueles que existiam sobretudo para matar os prisioneiros. O maior e o pior de todos foi o de Auschwitz, na Polónia. Foi ali que se internaram mais pessoas e que mais pessoas foram mortas. Era um campo enorme. Embora fosse um campo de extermínio, foi, durante quase todo o tempo em que funcionou, um campo de trabalho. Subalimentadas e gravemente doentes, as pessoas, independentemente da idade, tinham que produzir, tinham que render como animais de carga. Ninguém respeitava a sua dignidade nem a sua identidade, e era por isso que eram tratadas somente pelos números que lhes eram tatuados na pele da parte interior do antebraço. Os trabalhos mais pesados e mais brutais estavam reservados para elas, porque era como se tivessem escrito na testa a palavra “culpado”.Embora ninguém soubesse ao certo qual era a natureza dessa culpa. E todos morreram sem resposta para esta pergunta.&lt;br /&gt;— E só judeus terão sido seis milhões a morrer nos vários campos de concentração — acrescentou a mãe, sugerindo que, depois de um dia tão cansativo, fossem todos dormir. A conversa, tão terrível como interessante, podia continuar no dia seguinte.&lt;br /&gt;Antes de adormecer. João olhou para a janela e pareceu-lhe ver uma lágrima muito brilhante a deslizar pela face da lua. Talvez fosse uma lágrima de tristeza por todos os inocentes mortos nos campos de concentração ao longo daqueles anos.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;UMA HISTÓRIA PARA LEMBRAR E PARA CONTAR&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;/strong&gt;Os dias de férias que ainda lhes restavam na Alemanha foram reservados para conhecerem melhor Weimar e a região da Turíngia. Visitaram museus e exposições, almoçaram em esplanadas escutando música de qualidade a ser tocada ao ar livre e compraram presentes para trazerem aos amigos, desde as tradicionais canecas de cerveja trabalhadas e pintadas à mão, até caixas de bombons com os rostos de Mozart, Beethoven e Bach pintados nas capas.&lt;br /&gt;Francisco contou aos filhos tudo o que sabia sobre a literatura e a música alemãs, numa linguagem adequada às suas idades e ficou disponível para conversar sobre todos os assuntos que lhes interessassem. Porém, o que continuava a suscitar sempre novas perguntas eram os campos de concentração. Não se lhes podia censurar essa curiosidade.&lt;br /&gt;Sofia, numa dessas conversas, lembrou-se do nome de Anne Frank e do facto de ela e a irmã terem morrido num campo de concentração.&lt;br /&gt;— Tens razão, Sofia — confirmou a mãe — Anne Frank, de quem tu já leste o diário, morreu no campo de concentração de Bergen-Belsen, depois de ter passado dois anos num sótão de Amesterdão, cidade para onde a sua família, que era alemã, fugiu para escapar à perseguição dos nazis. Se tivesse conseguido resistir um pouco mais, teria sido libertada e talvez tivesse feito a grande carreira de escritora com que tanto sonhou enquanto escrevia os seus textos sem poder fazer barulho para que a família e as outras pessoas que viviam naquele espaço apertado e quase irrespirável não fossem denunciadas à Gestapo.&lt;br /&gt;O pai aproveitou então para explicar que, para além de Buchenwalde, Auschwitz, de que já tinham falado, existiram outros campos igualmente terríveis, citando Dachau, Mauthausen, Treblinka, Maidanek, Chelmno, Ravensbruck e Sachesenhausen, ficando muito longe de esgotar a lista.&lt;br /&gt;Nesses campos foram assassinados, desde meados dos anos trinta e até praticamente ao fim da guerra, em 1945, milhões de judeus, de ciganos, de comunistas, de socialistas, de padres, de testemunhas de Jeová e ainda dezenas de milhares de doentes mentais. A cada um destes grupos correspondia uma estrela ou um pedaço de pano de outra forma, sempre com cores diferentes. A dos judeus era a amarela. Eles já sabiam que essa cor tinha, naquela situação, um significado trágico.&lt;br /&gt;Quase ao mesmo tempo, João e Sofia perguntaram aos pais se foi logo no princípio da guerra que Hitler decidiu exterminar os judeus.&lt;br /&gt;— Não — respondeu Francisco — embora já houvesse muitos internados nos campos, a sua eliminação sistemática começou em meados de 1941 e, no dia 20 de Janeiro de 1942, em Wannsee, nos arredores de Berlim, foi aprovado o que ficou tragicamente conhecido como “A Solução Final”, ou seja, o programa de extermínio em massa dos judeus.&lt;br /&gt;— É então a isso que se chama Holocausto? — quis saber Sofia.&lt;br /&gt;— Holocausto — respondeu Joana, tentando satisfazer a curiosidade da filha — quer dizer “sacrifício pelo fogo” e tornou-se uma expressão usada sobretudo pelos judeus norte-americanos. Há quem prefira chamar-lhe “genocídio; pois foi o extermínio sistemático de uma raça e há quem use o termo hebraico “shoah”, que é outra forma de dizer a mesma coisa, ou seja, de falar no genocídio.&lt;br /&gt;— E porquê este ódio aos judeus? Que mal é que eles fizeram exactamente? — perguntou João, cada vez mais espantado com o absurdo de uma situação para a qual não conseguia encontrar uma explicação lógica. E Francisco respondeu-lhe:&lt;br /&gt;— O ódio aos judeus não era uma coisa nova na Europa. Eles, historicamente, foram sempre vistos como responsáveis pela morte de Jesus Cristo. Essa perseguição que teve na Igreja Católica a sua principal base, manteve-se durante séculos. Os nazis retomaram-na com muito maior violência, tentando fazer dela uma causa nacional capaz de unir os alemães a quem tinha sido feita uma promessa de retorno à glória e à prosperidade.&lt;br /&gt;Os principais inimigos públicos dos nazis eram os judeus e os comunistas e, à volta desse ódio, foi feita uma imensa campanha de propaganda para aumentar a intolerância e justificar o genocídio. Portanto, os judeus não eram culpados de nada em concreto. Eram apenas um pretexto para uma campanha de extermínio sem paralelo na história da Humanidade.&lt;br /&gt;— Mas então — interrompeu João — os judeus não resistiram a essa perseguição?&lt;br /&gt;— Houve muitos — explicou a mãe — que resistiram, integrando-se nos grupos de resistência e de guerrilha que se opunham ao terror nazi, mas não se pode falar de um exército clandestino judaico, organizado para o combate. Por exemplo, muitos dos judeus que resistiram ao terror eram comunistas, para além de serem judeus. Quanto aos campos de concentração, como já vos disse, não os vejam apenas como campos de extermínio, mas também como campos de trabalhos forçados que ajudavam a manter, sem quaisquer custos para os nazis, uma economia de guerra que tinha que produzir armamento e outros bens a um ritmo infernal.&lt;br /&gt;Francisco aproveitou para falar aos filhos, de escritores importantes como o italiano Primo Levi, detido em Auschwitz, ou o espanhol Jorge Semprún, que sobreviveram e escreveram livros impressionantes dando testemunho do que foi essa experiência nas suas vidas de homens ainda muito jovens. Primo Levi acabou por se suicidar, já depois de ter completado 70 anos, por não poder continuar a viver com essa memória que nunca mais lhe deu paz.&lt;br /&gt;Durante a conversa, que se prolongaria sobre o tema, já em Portugal, nas semanas seguintes, também se falou da existência de guetos como o de Varsóvia, onde viviam em condições inqualificáveis dezenas de milhares de judeus, completamente à margem do resto da sociedade. Aí chegou mesmo a haver uma revolta que os nazis conseguiram prontamente abafar.&lt;br /&gt;Como tinham visto no cinema o filme de Steven Spielberg “A Lista de Schindler”, Sofia e João perguntaram aos pais se tinha havido mais pessoas a ajudarem os judeus a escapar ao seu destino trágico. O pai esclareceu-os:&lt;br /&gt;— Houve muito mais pessoas do que se pode imaginar. Para além de Schindler, que o cinema tornou famoso, houve o sueco Raoul Wallenberg e muitos diplomatas, com destaque para o cônsul português Aristides de Sousa Mendes que, em Bordéus e Bayonne, conseguiu, contra a vontade de Salazar e do regime fascista em Portugal, emitir vistos que permitiram salvar a vida a mais de 30 mil judeus. Infelizmente, não há ainda um filme sobre esse herói português do século XX, que foi afastado da carreira diplomática e morreu na miséria em Portugal. Ele obedeceu à sua consciência de ser humano com regras morais e salvou milhares de vidas.&lt;br /&gt;Essas pessoas que ajudaram a salvar milhares de judeus são hoje recordadas no museu Yad Vashem, também conhecido como Museu do Holocausto, em Jerusalém, onde cada uma delas é lembrada com uma árvore e com uma placa recordando o seu contributo para a salvação dos judeus.&lt;br /&gt;Durante a conversa, a pergunta inevitável acabou por surgir:&lt;br /&gt;— E não existe o perigo de uma coisa assim voltar a acontecer? Joana achou que esta poderia ser a melhor das respostas:&lt;br /&gt;— Em princípio não voltará a acontecer, mas como o ser humano é complexo e difícil de prever, nunca se sabe e, por isso, o melhor é estar atento e evitar, por todos os meios ao nosso alcance, que uma situação tão trágica se repita. E há casos recentes preocupantes na ex-Jugoslávia, no Ruanda ou na perseguição ao povo curdo. Depois, há que pensar que existem muitos grupos de neonazis em vários pontos do mundo, a começar pela Alemanha, que admiram Hitler, a Cruz Suástica e as teorias do ódio racial.&lt;br /&gt;Na Áustria, onde Hitler nasceu, há um partido que defende as suas ideias e que é chefiado por um tal Georg Haider. Já faz parte do governo, o que provocou uma forte e justa reacção da União Europeia, dos Estados Unidos e de Israel. Enquanto houver situações dessas, o perigo continuará a existir. Muitos desses grupos utilizam já hoje a Internet para divulgar as suas ideias e as suas acções.&lt;br /&gt;Mesmo em França, existe um partido chamado Frente Nacional que defende ideias contra os estrangeiros que vivem e trabalham naquele país, muito parecidas com as dos nazis. Por isso, toda a vigilância é pouca, na escola, nos sítios onde trabalhamos ou nas cidades onde vivemos.&lt;br /&gt;E também é bom não esquecer que os israelitas, herdeiros e descendentes dos judeus assassinados nos campos de concentração, têm utilizado com os palestinianos métodos que por vezes se assemelham aos que os nazis usaram contra o povo judeu, o que faz com que naquela zona do Médio Oriente se mantenha um clima de guerra que parece não ter fim à vista.&lt;br /&gt;O que uns sofreram não pode justificar o mal que fazem aos outros. A vingança nunca é o caminho.&lt;br /&gt;Tanto Francisco como Joana lembraram aos filhos que a primeira coisa que os nazis tiravam aos presos dos campos, antes mesmo da vida, era a dignidade humana, substituindo-lhes os nomes por números, rapando-os, separando pais de filhos, jovens de idosos, e enviando directamente para os campos de gás os considerados inaptos para o trabalho. Essa foi uma das maiores tragédias de toda a história da Humanidade e, seguramente, a vergonha maior do século XX.&lt;br /&gt;Uma vergonha que ninguém pode ou deve esquecer, sob pena de permitir que ela se repita. Antes de deixarem Weimar, de comboio, rumo a Frankfurt, onde apanharam o avião de regresso a Lisboa, tiveram oportunidade de ver que num país onde a cultura nunca deixou de ter força e uma presença constante na vida das pessoas também houve lugar para o horror, para o extermínio e para a destruição física e moral de milhões de pessoas.&lt;br /&gt;A ideia de terem perdido em Buchenwald alguém que a família nunca deixou de amar e de estimar fazia com que aquela terra distante onde trabalham muitos emigrantes portugueses passasse também a fazer parte das suas memórias e das suas vidas.&lt;br /&gt;Sofia pediu ao pai que, no regresso, a deixasse ler as cartas do bisavô Francisco. E ele prometeu que o faria e que organizaria a sua vida para publicar o livro com essas cartas que tanto o tinham comovido. Tentaria honrar esse compromisso.&lt;br /&gt;Sem se darem conta disso, Sofia e João voltaram mais crescidos e mais maduros daquela viagem de Verão, feita em nome da memória, no final de um século em que aconteceram coisas muito belas e outras assustadoras e tremendas.&lt;br /&gt;Durante a viagem de regresso, o pai leu-lhes um fragmento de um poema escrito por um prisioneiro de um campo de concentração que dizia: &lt;em&gt;Levantei a cabeça / as árvores estão em flor / pela primeira vez desde há trinta meses / chorei.&lt;/em&gt;Antes de partir, lembrando o avô e bisavô Francisco e a tragédia de Buchenwald, também eles, olhando as árvores floridas e as estátuas do poeta e ouvindo na rua a música de Mozart, tiveram também vontade de chorar, num misto de alegria e de tristeza que marcaria para sempre as suas vidas.&lt;br /&gt;Quem visita um campo de lágrimas, mas que foi habitado por uma dor sem nome, passa a conhecer melhor a condição humana. As palavras da guia Iolanda nunca mais lhes saíram da cabeça, nem a placa com uma temperatura permanente de 37 graus, que é a do corpo humano, seja de que raça for. Aquela lição foi a maior das suas ainda curtas vidas.&lt;br /&gt;Voltavam agora a Portugal com tanta coisa nova para contar e não iam faltar amigos para escutarem o relato da viagem. Ficou assente que iriam ver no cinema ou em vídeo o filme “A Vida é Bela” de Roberto Benigni, uma obra muito bela sobre os anos de tragédia e resistência, na Segunda Guerra Mundial.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;Era uma vez um português que, por ter lutado pela liberdade, deixou a mulher e um filho pequeno e acabou por morrer num campo de horrores onde as pessoas eram conhecidas por números e sabiam que cada dia podia ser o último das suas amargas vidas...&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Este bem podia ser, em poucas palavras, o princípio da história que traziam para contar. Uma história que se demora na memória como uma chama que o tempo e o vento não são capazes de apagar.&lt;/div&gt;&lt;div align="right"&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-size:85%;"&gt;José Jorge Letria&lt;br /&gt;&lt;em&gt;Campos de Lágrimas&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;Porto, Ambar, 2001&lt;br /&gt; &lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/3848387236642605066-7174170820674021020?l=olharaintolerancia.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://olharaintolerancia.blogspot.com/feeds/7174170820674021020/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=3848387236642605066&amp;postID=7174170820674021020' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/3848387236642605066/posts/default/7174170820674021020'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/3848387236642605066/posts/default/7174170820674021020'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://olharaintolerancia.blogspot.com/2007/06/campos-de-lgrimas-j-j-letria.html' title='Campos de lágrimas - J. J. Letria'/><author><name>Div. temas</name><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-3848387236642605066.post-8941655850876784383</id><published>2007-06-16T01:54:00.000-07:00</published><updated>2007-07-24T01:05:10.803-07:00</updated><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='Paz'/><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='Histórias'/><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='Violência'/><title type='text'>A casa que o amor construiu - William W. Price</title><content type='html'>&lt;div align="justify"&gt;&lt;em&gt;Esta história é verdadeira. Passou-se em França depois da Primeira Guerra Mundial, durante a qual uma aldeia inteira foi destruída pelos combates.&lt;/em&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;/div&gt;&lt;span style="font-size:120;"&gt;&lt;span style="LINE-HEIGHT: 160%"&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;Marie acordou sobressaltada na escuridão cerrada e sentiu o cheiro familiar da sujidade. O seu pequeno corpo estremeceu com o frio húmido. Enquanto se levantava para arranjar a cama feita de trapos e de serapilheira no chão sujo, o pesadelo que lhe tinha abalado o sono pairava sobre ela como uma nuvem negra. Era todas as noites o mesmo pesadelo.&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt; &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;span style="font-size:120;"&gt;&lt;span style="LINE-HEIGHT: 160%"&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;Começava sempre com um sonho agradável. Via a sua aldeia francesa muito amada. Depois via-se a sair com a Mãe e a Avó da casa velha e aconchegante, e a passar pela rua estreita. Debaixo de quase todas as janelas, havia floreiras garridas cujas flores se agitavam ao vento. O Sol resplandecia no campanário da igreja. Mas havia uma reverberação assustadora que vinha na direcção da aldeia: a reverberação das armas. Marie estremeceu de novo, à medida que sentia que o sonho feliz se tornava um terrível pesadelo. Vinham-lhe à cabeça recordações assustadoras. Aterrorizadas, a Mãe e a Avó tinham-na arrastado para as árvores. Aí, deitaram-se por terra. Soldados de uniforme azul passavam em colunas. Armas! Lutas! Explosões e gritos! Fogo! Quando tudo acabou, a aldeia deixara de existir. &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;À medida que a guerra se afastava, Marie, a Mãe e a Avó vasculharam, em lágrimas, o cascalho em que a sua casa se transformara. A pequena família mudou-se para uma antiga cave. “Como toupeiras nos buracos do chão”, pensara Marie com tristeza. &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;Enfiou-se nos trapos e voltou a cair num sono irregular. Na sua cabeça, os soldados continuavam a marchar. Depois dos soldados franceses em uniformes azuis, tinham vindo os soldados alemães em uniformes verdes. Para alívio de todos, depressa se foram embora. Depois vieram os uniformes caqui dos americanos. Os americanos riam-se e entregavam moedas francesas aos miúdos ávidos. Mas, quando partiram, a aldeia continuou em ruínas. &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;Quando Marie acordou de novo, o Sol brilhava através das fendas nas tábuas velhas que serviam de tecto. Ao ouvir sons estranhos, sentou-se num ápice. Algo de diferente estava a passar-se naquela manhã. Perguntava-se que sons seriam aqueles. &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;― Mãe, será que os soldados voltaram? ― perguntou ansiosamente. &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;― Não, minha querida. Vai lá acima ver quem chegou. &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;A Mãe parecia estranhamente contente. &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;Marie atirou com os trapos e subiu os degraus periclitantes da cave. Viu de imediato que outros homens, de uniforme cinzento, tinham vindo para a aldeia. &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;― Oh, Mãe! ― gritou excitada depois de os observar por algum tempo. ― Os soldados trazem serras e martelos, em vez de armas. Estão a construir casas. &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;Marie pensou que eram soldados porque traziam uniformes. Mas não eram soldados. Eram trabalhadores britânicos e americanos. &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;Marie pensou depressa. Desceu os velhos degraus a correr e pegou numa meia velha onde estavam seis cêntimos franceses que os soldados americanos lhe tinham dado. Era o único dinheiro que a sua família tinha. Enquanto voltava a subir as escadas, um misto de esperança e ansiedade fazia-a tremer a cada degrau. Correu para o chefe dos homens vestidos de cinzento. &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;Timidamente, estendeu a meia e mostrou-lhe os seis cêntimos.&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;― O senhor pode construir-me uma casa por seis cêntimos?&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;O homem pareceu surpreendido e pediu-lhe para repetir a pergunta. Quando finalmente compreendeu, não se riu nem sorriu, mas respondeu muito seriamente: &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;― Bem, Menina, veremos o que se pode fazer. &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;div align="justify"&gt;Não disse “Sim”, mas também não disse “Não”. Marie montou guarda todos os dias para ver o que aconteceria. &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;Uma por uma, foram-se construindo casas pequenas para outras pessoas. As casas eram pequenas e simples mas, para Marie, eram bonitas. Como ansiava por um chão de madeira limpo para varrer e um belo telhado de telhas vermelhas para impedir a chuva de entrar! &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;Será que se iriam embora sem construir uma casa para a família dela? Enquanto esperava e observava, a cave parecia-lhe mais escura e húmida do que nunca. &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;Quando estava quase a desistir de esperar, Marie obteve a sua resposta. A resposta era “Sim”.&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;div align="justify"&gt;A casa de Marie, tal como as outras, foi construída em apenas três dias. Para Marie era a casa mais bela do mundo.&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;No dia em que acabaram de a construir, o chefe dos homens de cinzento entregou, com muita cerimónia, a chave da porta de entrada a Marie, dizendo: ― Menina, a sua chave. &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;Marie pegou nela e abriu oficialmente a porta, enquanto a Mãe, a Avó e toda a aldeia a observavam. &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;Parou de repente, como se se recordasse de algo. Prometera-lhes os seis cêntimos pela casa, por isso esta ainda não era propriedade sua. &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;Voltou rapidamente a descer os velhos degraus da cave e, quando voltou, dirigiu-se ao chefe dos homens de cinzento. Agora que estava acabada, a casa parecia grande e os seis cêntimos pareciam pouco. Mas era tudo o que ela tinha, e foi-os contando à medida que os colocava na mão do chefe. &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;Será que chegava? Quase nem se atrevia a olhar para o homem. &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;Ele sorriu-lhe e disse solenemente (em Francês, claro): &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;― Obrigado, Menina, mas quatro cêntimos são suficientes. E devolveu-lhe dois cêntimos.&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="right"&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-size:85%;"&gt;William W. Price (Texto adaptado)&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;span style="font-size:85%;"&gt;&lt;em&gt;Lightning candles in the dark&lt;br /&gt;&lt;/em&gt;Philadelphia, FGC, 2001&lt;br /&gt;Texto traduzido e adaptado&lt;/span&gt; &lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/3848387236642605066-8941655850876784383?l=olharaintolerancia.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://olharaintolerancia.blogspot.com/feeds/8941655850876784383/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=3848387236642605066&amp;postID=8941655850876784383' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/3848387236642605066/posts/default/8941655850876784383'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/3848387236642605066/posts/default/8941655850876784383'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://olharaintolerancia.blogspot.com/2007/06/casa-que-o-amor-construiu.html' title='A casa que o amor construiu - William W. Price'/><author><name>Div. temas</name><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-3848387236642605066.post-6067656680824322625</id><published>2007-06-12T12:59:00.000-07:00</published><updated>2007-07-24T01:05:04.433-07:00</updated><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='Preconceito'/><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='Diferença'/><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='Histórias'/><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='Intolerância'/><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='Racismo'/><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='Violência'/><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='Cólera'/><title type='text'>A aluna estrangeira - Evelyne Stein-Fischer</title><content type='html'>&lt;div align="justify"&gt;&lt;span style="color:#003300;"&gt;&lt;span style="font-size:110;"&gt;&lt;span style="line-height: 155%"&gt;&lt;br /&gt;Chama-se Salima, a nova da turma.&lt;br /&gt;Não é uma menina calada e tímida, como Gabi. Salima faz-se notada em todo o lado.&lt;br /&gt;Fala mais alto do que os outros. Veste roupas mais garridas do que a maioria. E não deixa que lhe preguem partidas.&lt;br /&gt;Por isso, as crianças tentam constantemente arreliá-la. Diverte-as enfurecerem Salima, ouvi-la gritar, vê-la debater-se à volta delas.&lt;br /&gt;Troçam dos seus cabelos encarapinhados, das narinas grandes e da pele escura.&lt;br /&gt;Salima é negra.&lt;br /&gt;Fala bem alemão porque veio para a Europa com os pais quando ainda era bebé.&lt;br /&gt;Gabi acha graça a tudo na nova menina.&lt;br /&gt;Gosta dos olhos grandes, da voz gutural, da pele cor de chocolate.&lt;br /&gt;Quando Salima ri, ri-se com o corpo todo.&lt;br /&gt;Quando está furiosa, parece um vulcão, onde tudo ferve.&lt;br /&gt;Gabi emprestou logo o seu caderno à nova aluna, para ela copiar as lições.&lt;br /&gt;Com ela, Salima nunca é atrevida ou rude. Quando a deixam em paz, ela é igual aos outros.&lt;br /&gt;Mal a menina estrangeira chegou à turma, há um mês, a escaramuça começou imediatamente:&lt;br /&gt;— Uma preta! — disse Bettina bastante alto. Está sentada ao lado de Gabi e é a sua melhor amiga.&lt;br /&gt;— É negra! — disse Georg arregalando os olhos.&lt;br /&gt;— &lt;em&gt;A cozinheira negra já cá está… já, já, já…(&lt;/em&gt;1) — trauteou Inga baixinho, da penúltima carteira.&lt;br /&gt;Infelizmente, a pior é Bettina. Tem sempre alguma coisa a apontar à nova menina. A culpada disso é a mãe. Até a proibiu de voltar da escola para casa com “a tal preta”. A mãe nem conhece a menina estrangeira mas, mesmo assim, não gosta dela.&lt;br /&gt;— Não é de cá — diz. — Vê-se à distância de dez metros que é diferente de nós.&lt;br /&gt;Bettina também acha.&lt;br /&gt;Gabi não percebe. “Isso não é motivo para não se gostar de alguém”, pensa. “Até é feio excluir-se uma pessoa, só porque ela tem um aspecto diferente do nosso.”&lt;br /&gt;Gabi sabe o que é não pertencer ao grupo, porque também já foi nova na turma e ainda não há muito tempo. A nova, com grandes dentes da frente e um nariz demasiado comprido. “Peixe Espada”, foi como lhe chamaram na altura. Precisou de um ano inteirinho até conseguir aguentar, sem chorar, a troça dos outros.&lt;br /&gt;Mesmo assim, foi-lhe mais fácil do que o é agora para Salima. Porque Gabi é branca. Gradualmente, foi conseguindo ultrapassar o medo em relação aos outros.&lt;br /&gt;Mas Salima nunca conseguiria esconder a sua pele escura.&lt;br /&gt;Gabi gostava de dizer aos outros da classe que a nova só é atrevida porque tem de estar sempre a defender-se. Porque não a deixam em paz de uma vez por todas?&lt;br /&gt;Só que Gabi tem medo de se pôr claramente do lado da menina estrangeira. Bem lhe quer mostrar que gosta dela, mas os outros não podem notar.&lt;br /&gt;Não gostaria de vir a ter a maioria dos colegas contra ela, como antes, quando chegou como nova à turma.&lt;br /&gt;Mesmo assim…&lt;br /&gt;“Tenho de arranjar maneira de mostrar à Salima que estou do lado dela”, pensa Gabi. “E que gosto dela.”&lt;br /&gt;Às vezes, no fim das aulas, depois dos outros já terem saído, Gabi atrasa-se de propósito para ficar mais um pouco com Salima, que demora sempre muito tempo a arrumar as coisas e a metê-las na pasta.&lt;br /&gt;De repente, cai-lhe o estojo das mãos, e todos os lápis, os lápis de cor, duas borrachas e um pedaço de chocolate já mordido rolam para debaixo da carteira.&lt;br /&gt;— Vá, eu ajudo-te — oferece-se Gabi.&lt;br /&gt;Deitadas de barriga para baixo, tentam “pescar” o material escolar e o chocolate. Assim, ao tentarem chegar as duas ao mesmo lápis, chocam com os narizes uma na outra debaixo da carteira.&lt;br /&gt;— Ai! Ui! — exclamam em coro, esfregando os narizes amachucados. E desatam a rir.&lt;br /&gt;Salima diz de repente:&lt;br /&gt;— Tu és simpática, sabes, mas os outros… —E faz um gesto de desprezo com a mão, que mais parece uma tentativa de nadar, porque Salima ainda está deitada. Gabi levanta-se e sacode o pó das calças.&lt;br /&gt;Salima gatinha para fora da carteira mas fica sentada no chão.&lt;br /&gt;— Sabes — diz, apontando para a sala vazia — se não lhes fizer frente desde o início, acabam comigo. Aprendi isto quando ainda era pequena e nos mudámos para cá. Algumas pessoas comportam-se de forma muito estúpida só porque tenho a pele escura. Acham que tenho de me sujeitar a tudo! — Salima levanta-se e mantém-se direita.&lt;br /&gt;— Mas de mim não conseguem nada. De mim, não!&lt;br /&gt;Por momentos, parece que vai chorar, mas não.&lt;br /&gt;Gabi admira a menina estrangeira por ter a coragem de não se submeter. Ela própria tinha-se sempre escondido na sua casinha de caracol.&lt;br /&gt;Encolhida, amedrontada, magoada nos seus sentimentos.&lt;br /&gt;Salima, no entanto, é um pouco como um ouriço-cacheiro. Mal há sinal de perigo, fica logo eriçada. Ela até é bem-disposta e gosta de rir. “Só temos de afastar os picos um pouco para o lado e não a provocar,” pensa Gabi. “E também ser amáveis com ela. Porque é que a maioria não percebe isso?”&lt;br /&gt;A maior parte dos meninos não se deu sequer ao trabalho de tentar compreender a nova colega. Pensam que podem ofendê-la. Ela grita, mas ri logo a seguir.&lt;br /&gt;Podem pisá-la. Ela riposta, mas, quando vai para casa, já vai a cantar.&lt;br /&gt;Aguenta muita coisa. Podem fazer-lhe sentir que é diferente. É mesmo bom que haja cá uma aluna como ela. Ao menos, há mais animação.&lt;br /&gt;É sempre Bettina quem desafia a menina negra e quem provoca os outros. Como neste momento.&lt;br /&gt;Bettina faz pontaria com a borracha às costas de Salima. A borracha faz ricochete e salta de novo para a mesa. A brincadeira repete-se quatro, cinco vezes.&lt;br /&gt;Alguns riem.&lt;br /&gt;— Palerma! — grita Salima, que já começa a ficar farta.&lt;br /&gt;— Acalma-te — diz Paul, com uma voz zangada e dura, ele que nem tem nada a ver com o assunto.&lt;br /&gt;— Deixa-a em paz! — mete-se Alexa, que está sentada ao lado de Salima.&lt;br /&gt;Alexa tomou o partido de Salima. Pode dar-se ao luxo de dizer abertamente o que pensa.&lt;br /&gt;“Como ela é querida por todos, pode admitir que gosta da nova”, pensa Gabi.&lt;br /&gt;Com Gabi é mais do que “gostar”. Ela sente com Salima. Sabe, pelo que passou, o que Salima tem de aguentar. Tem pena dela. Lá por Salima, para quem vê de fora, reagir melhor do que ela reagiu, não quer dizer que não se sinta igualmente ferida.&lt;br /&gt;“Tenho mesmo de fazer alguma coisa”, pensa Gabi. “Tenho de lhe provar que sou sua amiga.”&lt;br /&gt;“A dois”, pensa Gabi, “dói tudo um pouquinho menos. A dois, pode-se partilhar a dor. Mas o que posso fazer sem pôr logo os outros contra mim?”&lt;br /&gt;Gabi decide deitar-se na varanda todas as tardes depois da escola e “torrar” ao sol. Uma hora inteirinha até ficar cor de chocolate. Assim, Salima deixaria de ser a única com a pele escura. No Verão, a mãe está sempre a dizer a Gabi:&lt;br /&gt;— Pareces uma negra!&lt;br /&gt;Assim, a partir de hoje, Gabi tornar-se-ia negra.&lt;br /&gt;— Que estupidez — diz em voz alta, afastando aquela ideia. — Uma pessoa não se torna negra só por se deitar umas horas ao sol. Não se fica, só por isso, com nariz largo, nem com lábios grossos, nem com carapinha. É preciso muito mais. E, principalmente, ter uma mãe ou um pai que sejam negros.&lt;br /&gt;Gabi continua a magicar. Tem os cotovelos fincados na mesa e a cara apoiada nas mãos. Nem repara no que está a passar-se à sua volta. Tem o olhar fixo no padrão verde das costas do casaco de Salima.&lt;br /&gt;De repente, um bico de lápis desliza para a frente, na diagonal. Pertence ao lápis que Bettina segura na mão.&lt;br /&gt;— O que estás outra vez a fazer? — Gabi desvia Bettina com um toque.&lt;br /&gt;— Deixa-me!&lt;br /&gt;Bettina segura no lápis afiado de forma a apontar a mina à nuca de Salima. Estica o braço até quase lhe tocar.&lt;br /&gt;— Será que ela sente? — segreda Bettina.&lt;br /&gt;— Pára com isso!&lt;br /&gt;Mas Bettina há muito que quer saber como é uma carapinha. Se é rija ou se é mole.&lt;br /&gt;Bettina estica o braço um pouco mais para a frente. Alguns observam a brincadeira. De repente, Salima começa a balançar-se na cadeira. Dá lanço na beira da mesa, inclina-se com força para trás e acerta com a nuca no bico do lápis.&lt;br /&gt;Um grito. Breve e cortante.&lt;br /&gt;Com a mão direita na nuca, Salima dá umas voltas sobre si mesma. Com a esquerda, dá uma bofetada a Bettina.&lt;br /&gt;— Estás maluca!! — grita Bettina — Não te fiz nada!&lt;br /&gt;— Picaste-me!&lt;br /&gt;— Não picou nada! — confirma Brigitte, que nem tinha prestado atenção ao que se passara.&lt;br /&gt;Que pena a professora ainda não estar na sala. Podia ter acalmado a discussão.&lt;br /&gt;— Vais pagar-me pela bofetada! — diz Bettina zangada.&lt;br /&gt;Gabi estende o braço. Quer afagar a menina negra.&lt;br /&gt;Mas Salima levantou-se de um salto e corre para a porta, a mão ainda na cabeça. Sobre a mão escorre um pouco de sangue. Antes de sair, Salima pára repentinamente. Devagar, muito devagarinho, vira-se para a turma, que a olha com curiosidade.&lt;br /&gt;A menina estrangeira chora. Em silêncio. Só o subir e descer do corpo e o fungar baixinho revelam a intensidade do choro. Os grandes olhos parecem ainda maiores sob as lágrimas.&lt;br /&gt;Fica por uns momentos parada, sem se mexer. Depois, fecha a porta com estrondo.&lt;br /&gt;Silêncio aflitivo.&lt;br /&gt;Salima chora. Já não ri. Não canta. Chora, como qualquer outra criança também teria chorado.&lt;br /&gt;Gabi está como que pregada à carteira. Muda com o susto. As pernas estão pesadas como se tivesse chumbo nos pés. Porque não se levanta? Porque não corre atrás de Salima? Ela própria não percebe. Era precisamente agora que Salima mais precisava dela.&lt;br /&gt;“Vocês são maus!”, quer gritar. Mas não lhe sai nada.&lt;br /&gt;— Vocês são maus! — grita Michael em vez dela. Está sentado na primeira fila. — Ela não vos fez nada. Se fosse comigo, tinhas apanhado logo duas bofetadas, Bettina.&lt;br /&gt;“Agora que Salima não está cá e não pode ouvir, é que ele diz isto”, pensa Gabi.&lt;br /&gt;E ela própria, que tanto queria ter corrido atrás dela, que queria tê-la agarrado, protegido… não conseguiu!!&lt;br /&gt;De repente começam todos a falar ao mesmo tempo.&lt;br /&gt;— Ela não tem culpa de ser preta — diz Alexa novamente, que foi a primeira a defender a menina estrangeira. — Imaginem-se o único branco numa turma de pretos. Gostavam que vos acontecesse o mesmo?&lt;br /&gt;— Salima pode não ter culpa de ser preta — diz Inga — mas no meu pão com fiambre é que nunca a deixaria trincar.&lt;br /&gt;— Ugh! — diz Helga, arrepiando-se.&lt;br /&gt;— Ugh! — diz Paul, arrepiando-se também.&lt;br /&gt;— A ti é que ninguém te deixava trincá-lo, com tantas borbulhas — grita Martin.&lt;br /&gt;— Saliva é saliva — diz Paul.&lt;br /&gt;— Exactamente! E com Salima não é a mesma coisa? — Alex bate com o punho na mesa.&lt;br /&gt;Gabi assusta-se. As vozes ressoam-lhe na cabeça. A pancada com o punho arrancou-a da confusão das palavras.&lt;br /&gt;Há pouco, quando Salima estava a chorar à porta, Gabi tinha tido uma oportunidade. Podia ter mostrado que achava horrível a forma como os outros se comportavam. Especialmente Bettina. Em vez disso, tentou apenas acariciar a nova menina. Medrosamente, do seu lugar, de onde não precisava de se levantar nem de sentir a turma atrás das costas. Mas novamente a mesma sensação… Não.&lt;br /&gt;O medo de tornar a ser ridicularizada é maior do que a ligação a Salima.&lt;br /&gt;Mesmo assim, Gabi diz, muito baixinho:&lt;br /&gt;— A Salima é querida. Porque é que és tão antipática com ela?&lt;br /&gt;Bettina ouviu.&lt;br /&gt;— Muito querida — diz, venenosa. — Mas cheira mal!&lt;br /&gt;— Que estupidez! — grita Michael, que só ouviu as últimas palavras. — Já alguma vez estiveste sentada ao lado do Markus? Ele cheira tão mal que até as minhas meias fogem dele!&lt;br /&gt;Markus, hoje, não veio às aulas. Por isso, a ofensa não o magoa. Se estivesse presente, ninguém teria dito aquilo.&lt;br /&gt;Mas à menina estrangeira diz-se-lhe tudo na cara.&lt;br /&gt;Bettina cala-se. A cara ainda está um pouco vermelha da bofetada. De repente, começa outra vez a barafustar:&lt;br /&gt;— Anda vestida como um papagaio. Só lhe faltam as penas no rabo.&lt;br /&gt;Risos abafados.&lt;br /&gt;— Cala a boca de uma vez por todas! — diz Gabi, agora em voz alta.&lt;br /&gt;A frase desapareceu na risota geral. Cada um grita à turma a sua opinião.&lt;br /&gt;— Acabou! Acabou! Já chega! — Gabi grita agora mais alto do que os outros. Grita e tapa os ouvidos ao mesmo tempo. Ninguém repara que a porta da sala se abre.&lt;br /&gt;Quando Salima se dirige em silêncio para o seu lugar, todos se calam de repente. Não olha para ninguém, tem os olhos pregados no chão e um grande penso na nuca.&lt;br /&gt;Gabi levanta-se antes de Salima se sentar. É automático, o chumbo dos pés desapareceu. Gabi nem precisa de pensar. Vai direita a Salima e, em frente de toda a turma, põe-lhe carinhosamente o braço à volta dos ombros. Não custou nada.&lt;br /&gt;— Lamentamos todos — diz Gabi em voz alta, de forma a que todos ouçam, especialmente Bettina.&lt;br /&gt;Salima não diz nada.&lt;br /&gt;Agora levantam-se também Alexa e Michael. Inga e Martina. Até Paul se chega à frente. O pequeno grupo cresce à volta de Bettina.&lt;br /&gt;— Não fiz de propósito! — diz esta baixinho.&lt;br /&gt;— Dói muito? — pergunta Gabi.&lt;br /&gt;Salima levanta finalmente os olhos e olha para Gabi. Põe o braço à sua volta.&lt;br /&gt;— Agora já não — diz.&lt;/div&gt;&lt;div align="right"&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;(1) Canção infantil austríaca (N.T.)&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-size:85%;"&gt;Evelyne Stein-Fischer&lt;br /&gt;&lt;em&gt;13 Geschichten vom Liebhaben&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;München, DTV Junior, 1990&lt;br /&gt;Tradução e adaptação&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/3848387236642605066-6067656680824322625?l=olharaintolerancia.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://olharaintolerancia.blogspot.com/feeds/6067656680824322625/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=3848387236642605066&amp;postID=6067656680824322625' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/3848387236642605066/posts/default/6067656680824322625'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/3848387236642605066/posts/default/6067656680824322625'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://olharaintolerancia.blogspot.com/2007/06/aluna-estrangeira-evelyne-stein-fischer.html' title='A aluna estrangeira - Evelyne Stein-Fischer'/><author><name>Div. temas</name><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-3848387236642605066.post-597630725411946517</id><published>2007-06-12T12:53:00.000-07:00</published><updated>2007-07-24T01:07:27.179-07:00</updated><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='Violência'/><title type='text'>Massacre virtual - João César das Neves</title><content type='html'>&lt;div align="justify"&gt;&lt;span style="font-size:110;"&gt;&lt;span style="LINE-HEIGHT: 140%"&gt;Que pensaria se lhe dissessem que há, entre nós, quem promova cultos pagãos, cheios de magias macabras e sacrifícios humanos? Que acharia se lhe descrevessem essas práticas de violência, ódio e vin&amp;shy;gança, mergulhadas em esoterismo e mistério? Como reagiria se lhe revelassem que as vítimas são sobretudo crianças e jovens em idade escolar? E se soubesse que o único propósito dessas actividades é encher os bolsos dos seus promotores? O seu repúdio e horror atingi&amp;shy;ria o máximo quando soubesse que isso se passa em nossas casas, com os nossos filhos. Este é o tema de boa parte dos desenhos animados, dos jogos de vídeo e das canções que fazem as delícias da nossa juventude. Hoje, o assunto das histórias para crianças, seja nos livros, filmes, séries, música rock ou programas de computador, é a bestialidade, o gro&amp;shy;tesco, a malícia e a superstição. Monstros, vampiros, extra-terrestres, mágicos e demónios são os heróis que os jovens acompanham ou encarnam nas suas aventuras. Poderes sobre-humanos são concedi&amp;shy;dos por liturgias elaboradas em castelos ou planetas longínquos e postos ao serviço de propósitos imperiais com requintes de violên&amp;shy;cia. Os uivos e combates são envolvidos em místicas exóticas e so&amp;shy;fisticadas, com espíritos, fantasmas e poções, num clima de religião bárbara e selvagem. &lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;span style="font-size:120;"&gt;&lt;span style="LINE-HEIGHT: 140%"&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;Nas histórias mais conservadoras, o bem ainda acaba por vencer. Mas as novidades têm como herói o mau, que se alegra com os gemi&amp;shy;dos das vítimas e os gritos de horror dos inocentes. Nelas, o propósito do jogo é comer mais escravos, atropelar peões, espancar adversários ou arrasar cidades. O realismo do sangue a espirrar e dos estertores da morte só se compara com o maquiavelismo dos planos de zombies, bruxas e dráculas. O diabo, que os pais consideram que não existe, está presente em nome, pessoa e efeitos nas histórias preferidas dos seus filhos. &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;Tudo isto ultrapassa em muito os filmes de acção e violência, que estão vedados a esse público por serem «interditos a menores de 18 anos». Mas passa aos domingos de manhã nos espaços infantis da televisão ou está acessível a qualquer momento nos livros, revistas, CD de jogos ou músicas satânicas. Os enredos e cultos mirabolantes são o tema de conversa nos recreios das escolas, com os pequenitos a identificarem-se com sádicos e a gabarem-se do número de mortes conseguidas. &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;É verdade que as histórias para crianças sempre viveram da magia e do sonho. Os tradicionais contos de fadas foram em todas as épocas a apoteose do imaginário. Mas há pouco de semelhante entre os ac&amp;shy;tuais desenhos animados e as histórias da Cinderela, João-sem-medo ou Gato das Botas dos nossos avós, ou até das nossas aventuras do Mickey, Tintim ou Zorro. A brutalidade perversa e a espiritualidade mitológica oferecida aos nossos filhos atinge níveis infra-humanos de miséria intelectual. As pessoas que os concebem, produzem e distri&amp;shy;buem são, simplesmente, criminosos de delito comum, que se apro&amp;shy;veitam da fraqueza de crianças e dos poderes viciantes da adrenalina para fazer fortuna. &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;Perante este crime não podemos contar com os poderes públicos. Se se tratasse de fumar em recinto fechado ou sujar monumentos, se fosse excesso de velocidade ou de polinsaturados poderíamos esperar uma acção decidida e empenhada dos ministérios. Como tem a ver com a educação moral das novas gerações, nada mais haverá do que tolerância e princípios retóricos contra a censura. O Governo já mostrou que nos assuntos importantes, como o aborto ou a droga, a sua regra é a balda. Nos EUA ou na Grã-Bretanha há classificações e regu&amp;shy;lamentações, mas isso é impensável num país avançado e liberal como Portugal. &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;Também nada podemos esperar das empresas e televisões. Há muito que se remeteram a um limbo de irresponsabilidade e inimputabilida&amp;shy;de, por estarem alegadamente ao serviço de valores perenes como a «informação», a «liberdade» e o «público». Sabemos bem que a luta pelas audiências não se compadece com aspectos laterais como a de&amp;shy;cência, a honra e o carácter. &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;Que podem os pais e educadores fazer perante esta terrível ameaça que ataca os nossos jovens e crianças? A resposta é difícil e os efeitos serão sempre graves. Mas há alguns princípios elementares que não podem ser esquecidos. Primeiro há que notar que as abordagens mais fáceis são as mais perigosas. Ignorar com indiferença ou proibir com horror é simples e rápido, mas gera as piores consequências. O proble&amp;shy;ma tem de ser enfrentado de forma prudente e dialogante. Aliás, a atracção que estas histórias têm sobre os jovens pode ser uma das grandes oportunidades de educação e crescimento. &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;Nesse diálogo precioso, o primeiro passo é destruir a imagem, es&amp;shy;sencial para o seu sucesso, que «não tem mal nenhum», «é só a brin&amp;shy;car» e «são jogos como outros quaisquer». É preciso que os jovens percebam que ninguém, por mais forte que seja, pode deixar de sofrer os efeitos de passar horas por dia a participar, mesmo de forma vir&amp;shy;tual, em torturas, assassínios e espancamentos, seguindo em porme&amp;shy;nor liturgias satânicas, cultos misteriosos e adoração de anéis, espa&amp;shy;das e cálices. &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;Esses filmes e jogos devem ser usados também para contrastar com a vida real. O normal é que os jovens que contemplam de forma tão viva horrores tão profundos ganhem uma insensibilidade emocional. Mas também é possível que, por reacção, sejam levados a compreender melhor a beleza, a bondade, a alegria e a felicidade. Cabe aos educadores conduzir e potenciar essa reacção. Estes horrores podem permitir adquirir critérios de julgamento e edificar o carácter, o essen&amp;shy;cial da educação. &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;O nosso tempo, que gosta de julgar e condenar, criticou muito as gerações antigas pelos seus métodos educativos. Os compêndios, as reguadas, as aulas magistrais e os castigos foram repelidos como prá&amp;shy;ticas perversas. Mas é difícil imaginar ambiente mais distorcido e desumano como aquele que conseguimos criar para os nossos filhos. As futuras gerações não deixarão de nos julgar por isso.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-size:85%;"&gt;15 de Janeiro de 2001&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;span style="font-size:85%;"&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;span style="font-size:85%;"&gt;João César das Neves&lt;br /&gt;&lt;em&gt;Acordar do Sonho &lt;/em&gt;&lt;br /&gt;Lisboa, Ed. Verbo, 2003&lt;/span&gt; &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;span style="font-size:120;"&gt;&lt;span style="LINE-HEIGHT: 140%"&gt;&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/3848387236642605066-597630725411946517?l=olharaintolerancia.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://olharaintolerancia.blogspot.com/feeds/597630725411946517/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=3848387236642605066&amp;postID=597630725411946517' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/3848387236642605066/posts/default/597630725411946517'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/3848387236642605066/posts/default/597630725411946517'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://olharaintolerancia.blogspot.com/2007/06/massacre-virtual-joo-csar-das-neves.html' title='Massacre virtual - João César das Neves'/><author><name>Div. temas</name><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-3848387236642605066.post-1080439250339712023</id><published>2007-06-12T00:25:00.000-07:00</published><updated>2007-06-22T11:33:48.241-07:00</updated><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='Histórias'/><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='História'/><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='Violência'/><title type='text'>Hiroshima no Pika (O Clarão de Hiroshima) - Toshi Maruki</title><content type='html'>&lt;div align="justify"&gt;&lt;span style="font-size:120;"&gt;&lt;span style="LINE-HEIGHT: 180%"&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="color:#000000;"&gt;Naquela manhã, o céu de Hiroshima estava azul e sem nuvens. O sol brilhava. Os eléctricos tinham começado o seu giro, apanhando as pessoas a caminho do trabalho. Os sete rios de Hiroshima deslizavam serenamente pela cidade. Os raios do sol estival cintilavam na superfície dos rios.&lt;br /&gt;Houvera ataques aéreos em Tóquio, Osaka, Nagoya e em muitas outras cidades japonesas. A população de Hiroshima perguntava-se por que motivo a sua cidade fora poupada. Haviam feito o que podiam para se prepararem para um eventual ataque.&lt;br /&gt;A fim de evitarem que o fogo se propagasse, tinham demolido os edifícios antigos e alargado as ruas. Tinham armazenado água e decidido onde deviam refugiar-se para escapar das bombas. Todos traziam consigo estojos de primeiros-socorros e, sempre que saíam de casa, usavam chapéus e capuzes para protegerem a cabeça dos ataques aéreos.&lt;br /&gt;Mii tinha sete anos e vivia em Hiroshima com a mãe e o pai. Ela e os pais estavam a tomar o pequeno-almoço: batatas-doces, trazidas no dia anterior por uns primos que moravam no campo. Nessa manhã, Mii estava com muita fome e comentava como lhe sabiam bem as batatas-doces. O pai concordava que era um delicioso pequeno-almoço, embora não se tratasse de arroz, o seu alimento preferido.&lt;br /&gt;Foi então que aconteceu. Um clarão terrível e repentino iluminou tudo à volta. A luz era de um cor-de-laranja claro, depois ficou branca, como se milhares de raios estivessem a cair todos ao mesmo tempo. Seguiram-se violentas ondas de choque, os edifícios estremeceram e começaram a desabar.&lt;br /&gt;Momentos antes do Clarão, o bombardeiro Enola Gay, da força aérea norte-americana, sobrevoara a cidade e lançara um explosivo ultra-secreto. O explosivo era uma bomba atómica, que a tripulação do B-29 baptizara de “Little Boy”&lt;/span&gt;&lt;a title="" style="mso-footnote-id: ftn1" href="http://www.blogger.com/post-create.g?blogID=3848387236642605066#_ftn1" name="_ftnref1"&gt;&lt;span style="color:#000000;"&gt;[1]&lt;/span&gt;&lt;/a&gt;&lt;span style="color:#000000;"&gt;.&lt;br /&gt;O “Little Boy” caiu em Hiroshima às 8:15 da manhã de 6 de Agosto de 1945.&lt;br /&gt;Mii caiu por terra, inconsciente, devido ao impacto do Clarão. Quando acordou, tudo à sua volta permanecia silencioso e escuro. A princípio não conseguia mexer-se e ouvia barulhos de crepitação que a assustaram. Ao longe, na escuridão, via um reluzir vermelho. A voz”da mãe penetrou na escuridão, chamando-a.&lt;br /&gt;Mii lutou para sair de debaixo das pesadas tábuas que lhe tinham caído por cima. A mãe precipitou-se para ela, puxou-a e abraçou-a.&lt;br /&gt;— Temos de nos despachar — disse. — O fogo… o teu pai ficou preso nas chamas!&lt;br /&gt;Mii e a mãe olharam para as chamas e começaram a rezar. Em seguida, a mãe saltou para as chamas e arrastou o marido até este ficar a salvo.&lt;br /&gt;Mii viu a mãe a examinar o pai.&lt;br /&gt;— Está gravemente ferido — disse. Desapertou a faixa do quimono e enrolou-a em volta do corpo do marido como uma ligadura. Em seguida, fez algo de espantoso. Pô-lo às costas e desatou a correr, levando Mii pela mão.&lt;br /&gt;— O rio. Temos de chegar ao rio — disse de forma determinada.&lt;br /&gt;Desceram os três aos tombos pela margem do rio até à água. Mii largou a mão da mãe.&lt;br /&gt;— Mii-chan! Agarra-te a mim! — gritou a mãe.&lt;br /&gt;Havia uma multidão de pessoas a fugir do fogo. Mii viu crianças com a roupa queimada, os lábios e as pálpebras inchados. Pareciam fantasmas, vagueando por ali, a chorar com voz fraca. Algumas pessoas, já sem forças, caíam de bruços e outras caíam-lhes por cima. Havia corpos empilhados por todo o lado.&lt;br /&gt;Mii, a mãe e o pai continuaram a fuga e atravessaram outro rio. Quando alcançaram a margem, a mãe pousou o marido e caiu por terra, ao lado dele.&lt;br /&gt;Mii sentiu uma coisa a passar-lhe aos pés. Hop… hop… Era uma andorinha. Tinha as asas queimadas e não podia voar.&lt;br /&gt;Viu um homem a boiar rio abaixo. Atrás dele, flutuava o corpo de um gato.&lt;br /&gt;Mii virou-se e viu uma mulher jovem a chorar, segurando um bebé.&lt;br /&gt;— Conseguimos fugir até aqui e então parei para lhe dar de comer — disse ela. — Mas ele não bebeu o leite. Está morto.&lt;br /&gt;Continuando a segurar o bebé, a mulher entrou pelo rio dentro. Avançou cada vez mais até que Mii deixou de a ver.&lt;br /&gt;O céu foi ficando escuro e ouviu-se o ribombar de um trovão. Começou a chover. Embora se estivesse em pleno Verão, o ar tornara-se muito frio e a chuva era negra e viscosa.&lt;br /&gt;Em seguida, apareceu no céu um arco-íris, afastando a escuridão. Resplandecia, brilhante, por sobre os mortos e os feridos.&lt;br /&gt;A mãe de Mii voltou a pôr o pai às costas. Tomou Mii pela mão e recomeçaram a correr. O fogo vinha na direcção deles, a grande velocidade. Correram por entre montes de telhas partidas, por sobre postes e fios de telefone caídos. Havia casas a arder de ambos os lados. Chegaram a outro rio e, já dentro de água, Mii sentiu-se de repente cheia de sono. Antes mesmo de se dar conta, já tinha engolido imensas goladas de água. A mãe puxou-lhe a cabeça e manteve-a fora de água. Chegaram à margem e continuaram a correr.&lt;br /&gt;Por fim, alcançaram a praia nos arredores de Hiroshima. Podiam ver a ilha de Miyajima envolta em neblina púrpura, do outro lado da água. A mãe de Mii tivera a esperança de poderem ir de barco até à ilha. Miyajima estava coberta por bonitos pinheiros e áceres e rodeada de água transparente.&lt;br /&gt;Pensando que a segurança não estava longe, Mii, a mãe e o pai, caíram no sono.&lt;br /&gt;O sol desapareceu. A noite veio e foi. O sol nasceu, voltou a pôr-se. Nasceu e pôs-se novamente. Nasceu pela terceira vez.&lt;br /&gt;— Por favor, diga-me que dia é hoje — pediu a mãe a um senhor que passava e que tinha estado a examinar as pessoas deitadas na praia.&lt;br /&gt;— É dia nove — respondeu.&lt;br /&gt;A mãe contou pelos dedos.&lt;br /&gt;— Quatro dias! — gritou, espantada. — Estamos aqui há quatro dias?&lt;br /&gt;Mii começou a chorar baixinho. Uma mulher idosa, deitada junto dela, levantou-se, tirou uma tigela de arroz do saco e deu-a a Mii. Quando Mii lhe pegou, a mulher tornou a cair. Desta vez não se mexeu.&lt;br /&gt;— Mii-chan! Ainda estás a segurar nos pauzinhos! — exclamou a mãe. — Dá-mos cá.&lt;br /&gt;Mas a mão de Mii não se abria. A mãe abriu-lhe os dedos à força, um a um. Quatro dias após a bomba, Mii largou finalmente os pauzinhos.&lt;br /&gt;Os bombeiros de uma aldeia vizinha vieram ajudar. Os soldados levaram os mortos. Uma escola, ainda de pé, fora transformada em hospital e foi para lá que levaram o pai. Não havia nem médicos, nem medicamentos, nem ligaduras. Era apenas um local de abrigo.&lt;br /&gt;Com o pai tão a salvo quanto possível no hospital, Mii e a mãe decidiram voltar à cidade para ver se tinha restado alguma coisa da sua casa.&lt;br /&gt;Não ficara nada em Hiroshima: nem erva, nem árvores, nem casas. Perante os seus olhos, uma terra devastada e queimada estendia-se a perder de vista. A única coisa que ficara para lhes lembrar que lá tinham vivido foi a tigela de arroz de Mii. Torcida e quebrada, continha ainda algumas batatas-doces.&lt;br /&gt;Nesse dia, 9 de Agosto de 1945, enquanto Mii e a mãe olhavam para os destroços do que fora Hiroshima, uma bomba atómica era lançada em Nagasáqui. Aí, tal como em Hiroshima, milhares de pessoas morreram e as que sobreviveram ficaram sem casa. Além das vítimas japonesas, havia pessoas de outros países como a Coreia, a China, a Rússia, a Indonésia e os Estados Unidos.&lt;br /&gt;A bomba atómica foi diferente de qualquer explosivo usado até então. A destruição causada pelo impacto era maior do que a de centenas de bombas convencionais explodindo ao mesmo tempo. A bomba também contaminou a área com radiações que durante muitos anos a seguir à explosão continuaram a causar mortes e doenças.&lt;br /&gt;Mii nunca mais cresceu a partir desse dia. Muitos anos se passaram mas ela conserva ainda o mesmo tamanho que tinha aos sete anos.&lt;br /&gt;— É por causa do Clarão da bomba — diz a mãe.&lt;br /&gt;Às vezes, Mii queixa-se de que tem comichão na cabeça. A mãe afasta o cabelo, vê qualquer coisa a brilhar e tira-lha da cabeça com uma pinça. É uma fibra de vidro, que penetrara no couro cabeludo quando a bomba explodiu, há anos, e que veio à superfície.&lt;br /&gt;O pai de Mii tinha sete feridas no corpo, mas estas sararam. Durante algum tempo, pensou que estava a ficar bom. Certo dia, no Outono a seguir ao Clarão, o cabelo caiu-lhe e começou a tossir sangue. Apareceram-lhe manchas púrpura por todo o corpo e acabou por morrer.&lt;br /&gt;Muitas das pessoas que disseram: “Graças a Deus que as nossas vidas foram poupadas”, ficaram mais tarde doentes devido à radiação. Embora isto tenha acontecido em 1945, algumas destas pessoas encontram-se ainda no hospital. Não há cura para as suas doenças.&lt;br /&gt;Todos os anos, a 6 de Agosto, os habitantes de Hiroshima escrevem em lanternas os nomes dos entes queridos que morreram devido à bomba. As lanternas são acesas e postas a flutuar nos sete rios que passam em Hiroshima. Os rios deslizam lentamente em direcção ao mar, levando as lanternas em memória dos que morreram.&lt;br /&gt;Mii, que após todos estes anos ainda é como uma criança pequena, escreve “Pai” numa lanterna e “Andorinha” noutra. A mãe tem já o cabelo branco e olha com tristeza, enquanto a filha põe as lanternas a flutuar.&lt;br /&gt;— Isto não volta a acontecer — diz — se ninguém deitar mais nenhuma bomba...&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;span style="font-size:120;"&gt;&lt;span style="LINE-HEIGHT: 180%"&gt;&lt;span style="color:#000000;"&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;&lt;span style="color:#000000;"&gt;SOBRE O LIVRO&lt;/span&gt;&lt;/strong&gt;&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;&lt;span style="color:#000000;"&gt;Em 1953, encontrava-me a fazer uma exposição com fotografias sobre a bomba atómica, “Genbaku no Zu”, numa pequena cidade em Hokkaido. Entre as pessoas que estavam na exposição, reparei numa mulher com uma expressão muito zangada, que fixava longamente as minhas fotografias. Algum tempo depois, dirigiu-se a mim.&lt;br /&gt;— Primeiro — disse — passei ao lado da sua exposição porque pensei que estava a fazer um espectáculo do sofrimento. Estava decidida a não entrar. Mas agora estou aqui e vi as suas fotografias. Quero contar-lhe a minha história.&lt;br /&gt;— Depois do Clarão, mudei-me para Hokkaido. As pessoas de Hokkaido não foram nem simpáticas nem compreensíveis em relação àquilo por que passei. Quando queria falar do Clarão, diziam que me estava a vitimizar ou que estava a exagerar a minha história. Passado algum tempo, deixei de querer contar a minha experiência fosse a quem fosse, e por isso nunca falei do Clarão.&lt;br /&gt;Quando acabou de falar, a mulher cerrou os olhos. Em seguida, aproximou-se do microfone e começou a gritar:&lt;br /&gt;— Vocês, que vieram até aqui, vão acreditar em mim. Por favor, acreditem em mim!&lt;br /&gt;A chorar e a sufocar nas próprias palavras, voltou a contar a história de como tentara escapar ao Clarão, carregando às costas o marido ferido e levando a filha pela mão. As pessoas escutaram-‑na. Algumas choraram. Quando terminou disse simplesmente:&lt;br /&gt;— Obrigada por me terem escutado.&lt;br /&gt;A lembrança desta cena não me deixou durante muito tempo, tendo acabado por penetrar no meu coração e na minha memória. Este livro é baseado na história dessa mulher e nele está entretecido tudo o que vi e ouvi da experiência de outras pessoas com a bomba atómica.&lt;/span&gt;&lt;/em&gt;&lt;/div&gt;&lt;em&gt;&lt;br /&gt;&lt;div align="center"&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="color:#000000;"&gt;* * *&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;span style="font-size:120;"&gt;&lt;span style="LINE-HEIGHT: 180%"&gt;&lt;span style="color:#000000;"&gt;Já fiz 70 anos. Não tenho nem filhos nem netos, mas escrevi este livro para os netos de toda a gente. Levei muito tempo a acabá-lo. É muito difícil contar aos jovens uma coisa terrível que aconteceu, na esperança de que, ao terem conhecimento dela, tudo façam para que não se repita.&lt;br /&gt;Agradeço aos meus editores, os irmãos Chiba, pela sua ajuda e encorajamento. Também agradeço aos meus muito bons amigos. E quero expressar o meu especial reconhecimento ao Sr. Jitsuo Tabuchi, da cidade de Hiroshima, e ao Sr. Kanji Kawade, director do serviço público da Companhia de Caminhos-de-ferro de Hiroshima, que me forneceram material valioso.&lt;/span&gt;&lt;/em&gt;&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;div align="right"&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-size:85%;color:#000000;"&gt;Toshi Maruki&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;span style="font-size:85%;"&gt;&lt;span style="color:#000000;"&gt;&lt;em&gt;Hiroshima no Pika&lt;br /&gt;&lt;/em&gt;New York, Lothrop, Lee&amp;amp; Shepard Books, 1980&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;div align="right"&gt;&lt;span style="font-size:85%;color:#000000;"&gt;tradução e adaptação&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;p&gt;&lt;span style="font-size:85%;"&gt;&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;a title="" style="mso-footnote-id: ftn1" href="http://www.blogger.com/post-create.g?blogID=3848387236642605066#_ftnref1" name="_ftn1"&gt;&lt;span style="color:#000000;"&gt;[1]&lt;/span&gt;&lt;/a&gt;&lt;span style="color:#000000;"&gt; Rapazinho &lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;br /&gt;&lt;p&gt;&lt;span style="color:#000000;"&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;br /&gt;&lt;p&gt;&lt;span style="color:#000000;"&gt;Retirado de &lt;strong&gt;&lt;a href="http://espaco-esperanca.blogspot.com/"&gt;Caminhos para a paz&lt;/a&gt;&lt;/strong&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/3848387236642605066-1080439250339712023?l=olharaintolerancia.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://olharaintolerancia.blogspot.com/feeds/1080439250339712023/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=3848387236642605066&amp;postID=1080439250339712023' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/3848387236642605066/posts/default/1080439250339712023'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/3848387236642605066/posts/default/1080439250339712023'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://olharaintolerancia.blogspot.com/2007/06/hiroshima-no-pika-o-claro-de-hiroshima.html' title='Hiroshima no Pika (O Clarão de Hiroshima) - Toshi Maruki'/><author><name>Div. temas</name><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-3848387236642605066.post-8800978823126136563</id><published>2007-06-12T00:01:00.000-07:00</published><updated>2007-07-07T12:37:17.809-07:00</updated><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='Paz'/><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='Histórias'/><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='Violência'/><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='Cólera'/><title type='text'>A guerra - Anaïs Vaugelade</title><content type='html'>&lt;span style="font-size:120;"&gt;&lt;span style="LINE-HEIGHT: 180%"&gt;&lt;span style="font-size:100%;"&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;Era a guerra. Todas as manhãs os homens partiam para os campos de batalha. Os que regressavam à noite traziam os mortos e os estropiados. Havia guerra há tanto tempo que já ninguém se lembrava da razão por que ela tinha começado.&lt;br /&gt;Vítor II, rei dos Vermelhos, contava e recontava os soldados do seu reino. “Dez mais vinte faz trinta; ainda posso acrescentar cinquenta… Oitenta homens! Oitenta homens não chegam para ganhar a guerra.” E começava a chorar. Felizmente para ele, Vítor II, rei dos Vermelhos, tinha um filho que se chamava Júlio. Júlio entrava na sala do trono e dizia: — Coragem, Pai! — E o rei tornava a ter coragem.&lt;br /&gt;Armando – XII, rei dos Azuis, também só tinha oitenta soldados e um filho. Mas, quando Armando XII ficava desanimado, o filho não sabia o que dizer. O filho de Armando XII chamava-se Fabiano e interessava-se pouco pela guerra. Passava os dias no parque, sentado num ramo. Um dia, Fabiano recebeu uma carta do príncipe Júlio:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;Os nossos pais já quase não têm soldados; portanto, se és homem, pega no teu cavalo e na tua armadura. Marco-te encontro para amanhã de manhã no campo de batalha; bater-nos-emos em duelo e aquele que ganhar o combate ganhará ao mesmo tempo a guerra.&lt;br /&gt;&lt;/em&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="right"&gt;&lt;em&gt;Assinado: Júlio&lt;/em&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt; Fabiano suspirou. Nem por isso gostava muito de montar a cavalo. No dia seguinte, Fabiano chegou ao encontro montado numa ovelha.&lt;br /&gt;— Em guarda! — disse Júlio.&lt;br /&gt;— Béééé! — fez a ovelha.&lt;br /&gt;Isto assustou o cavalo que se empinou na vertical. Júlio caiu.&lt;br /&gt;— Estás ferido? — perguntou Fabiano.&lt;br /&gt;Mas Júlio estava mais do que ferido, estava morto. Os soldados vermelhos berraram: — O combate foi falseado!&lt;br /&gt;Fabiano quis explicar-lhes que tinha sido um acidente, mas, como eles tinham piques e lanças, preferiu fugir.&lt;br /&gt;Armando XII, rei dos Azuis, esperava-o.&lt;br /&gt;— Devias ter vergonha! — ralhou ele.&lt;br /&gt;— Mas eu não fiz nada — disse Fabiano.&lt;br /&gt;— Justamente — respondeu o pai. — Vergonha e vergonha a dobrar; expulso-te do meu reino.&lt;br /&gt;Fabiano escondeu-se no parque. Era de tarde e os soldados tinham recomeçado a guerra; então, Fabiano decidiu fazer uma coisa: decidiu escrever duas cartas, uma para Armando XII e outra para Vítor II. As duas cartas diziam exactamente a mesma coisa:&lt;br /&gt;&lt;em&gt;Estou em casa do rei Amarelo, Basílio IV, que me deu um grande exército. Portanto, se sois homens, pegai nos vossos cavalos e nas vossas armaduras. Marco-vos encontro para amanhã de manhã no campo de batalha.&lt;br /&gt;&lt;/em&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="right"&gt;&lt;em&gt;Assinado: Fabiano&lt;/em&gt; &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;Armando XII recebeu a carta nessa noite. — A nulidade do meu filho, um grande exército? — disse ele. — Devem ser só para aí uns oito e eu faço picado deles.&lt;br /&gt;Quando Vítor II recebeu a carta, encolheu os ombros; declarou que esmagaria esse vencedor de combates falseados. Meteu a carta no bolso e foi deitar-se.&lt;br /&gt;Quando viu chegar o exército Azul, o rei dos Vermelhos exclamou:&lt;br /&gt;— Que fazeis vós aqui, Senhores? Nós temos encontro marcado com o exército Amarelo; portanto, abandonem este local.&lt;br /&gt;— Imaginai, Senhores, que nós também temos encontro marcado com o exército Amarelo.&lt;br /&gt;— Não compreendo — disse Vítor II, rei dos Vermelhos.&lt;br /&gt;— Eu também não — disse Armando XII, rei dos Azuis.&lt;br /&gt;Compararam as duas cartas.&lt;br /&gt;— Na sua opinião, quantos serão os soldados Amarelos?&lt;br /&gt;— Talvez oito ou oitenta ou, talvez, oitocentos…&lt;br /&gt;— Que importa, se os Azuis são verdadeiros heróis? — disse Armando XII.&lt;br /&gt;E Vítor II replicou: — Os Vermelhos não temem ninguém.&lt;br /&gt;Ao meio-dia, os Amarelos ainda não tinham chegado. Embora bravos e não receando ninguém, o que é certo é que a espera enerva:&lt;br /&gt;— Senhores — disse Armando XII — creio que, face a oitocentos homens, devíamos aliar os nossos exércitos.&lt;br /&gt;— É justo! — respondeu Vítor II.&lt;br /&gt;Esperaram ainda toda a tarde. Às sete, os reis discutiram se haviam de regressar aos seus castelos, mas decidiram que não, que era melhor ficar, para o caso de os Amarelos chegarem de noite; e mandaram vir sanduíches. No dia seguinte, os Amarelos continuavam sem chegar. Então, começaram a instalar tendas e a acender fogueiras. Ao terceiro dia, as mulheres dos soldados vieram com as suas caçarolas e colheres, porque não era possível sustentar dois exércitos a sanduíches. Ao quarto dia, trouxeram os bebés. E, ao quinto dia, as outras crianças, que se aborreciam sozinhas em casa. Os mais velhos montaram comércios. Ao décimo dia, o campo de batalha parecia uma aldeia.&lt;br /&gt;Fabiano pensou: “Não tenho exército nem nunca tive; mas, graças a mim, a guerra acabou.” Então Fabiano foi a casa de Basílio IV, rei dos Amarelos, para lhe contar a história. Basílio riu muito quando ele falou no exército imaginário, mas chorou um pouco pelo príncipe Júlio, morto tão estupidamente; e chorou até por todos os soldados dos quais nem mesmo sabia o nome.&lt;br /&gt;Basílio IV achou que Fabiano era o mais esperto e também o mais ajuizado; e, como não tinha filhos, pediu-lhe que fosse o príncipe dos Amarelos e que reinasse, mais tarde, no seu reino. O rei Fabiano foi um excelente rei. E, é claro, durante o seu reinado, nunca houve nenhuma guerra.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="right"&gt;Anaïs Vaugelade&lt;br /&gt;&lt;em&gt;A guerra&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;Porto, Editora AMBAR, 2002&lt;br /&gt;Adaptação&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Retirado com autorização de&lt;/span&gt; &lt;a href="http://verticalizar.blogspot.com/"&gt;VERTICALIZAR&lt;/a&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;span style="font-size:120;"&gt;&lt;span style="LINE-HEIGHT: 150%"&gt;&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/3848387236642605066-8800978823126136563?l=olharaintolerancia.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://olharaintolerancia.blogspot.com/feeds/8800978823126136563/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=3848387236642605066&amp;postID=8800978823126136563' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/3848387236642605066/posts/default/8800978823126136563'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/3848387236642605066/posts/default/8800978823126136563'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://olharaintolerancia.blogspot.com/2007/06/guerra.html' title='A guerra - Anaïs Vaugelade'/><author><name>Div. temas</name><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-3848387236642605066.post-529812922909743525</id><published>2007-06-11T23:09:00.000-07:00</published><updated>2007-06-21T13:53:58.610-07:00</updated><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='Preconceito'/><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='Paz'/><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='Histórias'/><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='Intolerância'/><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='Ambição'/><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='Racismo'/><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='Violência'/><title type='text'>Os três astronautas - Umberto Eco</title><content type='html'>&lt;span style="font-size:120;"&gt;&lt;span style="LINE-HEIGHT: 150%"&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="color:#000066;"&gt;Era uma vez a Terra.&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;span style="color:#000066;"&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;span style="color:#000066;"&gt;E era uma vez Marte. &lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;span style="color:#000066;"&gt;Ficavam muito longe um do outro, no meio do céu, e à volta havia milhões de planetas e de galáxias.&lt;br /&gt;Os homens que estavam na Terra queriam ir a Marte e aos outros planetas: mas estavam tão longe!&lt;br /&gt;Porém não descansaram. Primeiro lançaram satélites que andavam à roda da terra por dois dias e depois vinham de novo.&lt;br /&gt;Depois lançaram foguetões que davam algumas voltas à Terra mas, em vez de regressarem, acabavam por escapar à atracção terrestre e seguiam para o espaço.&lt;br /&gt;Primeiro, puseram cães nos foguetões: mas os cães não sabiam falar, e pela rádio só transmitiam “béu béu”. E os homens não percebiam o que eles tinham visto e até onde chegavam.&lt;br /&gt;Por fim arranjaram homens corajosos que quiseram ser cosmonautas. Os cosmonautas tinham este nome porque iam explorar o cosmos, que é o espaço infinito com os planetas, as galáxias e tudo o que têm à sua volta.&lt;br /&gt;Os cosmonautas partiam e não sabiam se voltariam ou não. Queriam conquistar as estrelas para que um dia todos pudessem viajar de um planeta para outro, porque a Terra se tornara demasiado apertada e os homens aumentavam de dia para dia.&lt;br /&gt;Numa bela manhã, partiram da Terra três foguetões de três pontos diferentes.&lt;br /&gt;No primeiro ia um americano, que, todo alegre, assobiava uma ária de jazz.&lt;br /&gt;No segundo ia um russo que cantava com voz profunda &lt;em&gt;Volga, Volga&lt;/em&gt;.&lt;br /&gt;No terceiro ia um chinês, que cantava uma belíssima canção, que os outros dois achavam desafinada.&lt;br /&gt;Cada um queria ser o primeiro a chegar a Marte, para mostrar que era o mais valente.&lt;br /&gt;Na verdade, o americano não gostava do russo e o russo não gostava do americano, e o chinês desconfiava dos dois.&lt;br /&gt;E isto, porque o americano, para dizer bom dia, dizia: &lt;em&gt;how do you do&lt;/em&gt;, o russo dizia &lt;em&gt;3дpacтвyйte&lt;/em&gt; e o chinês dizia bom dia em chinês. Não se percebiam e julgavam-se diferentes.&lt;br /&gt;Como os três eram todos valentes, chegaram a Marte quase no mesmo instante. Desceram das suas astronaves, de capacete e fato espacial... E descobriram uma paisagem maravilhosa e inquietante: o terreno era sulcado por longos canais cheios de uma água de cor verde-esmeralda. Havia estranhas árvores azuis com aves nunca vistas, de penas de cores estranhíssimas. Lá no horizonte viam-se montanhas vermelhas que emitiam estranhos brilhos.&lt;br /&gt;Os cosmonautas olhavam a paisagem, olhavam uns para os outros, e mantinham-se afastados, cada um desconfiado dos outros. Depois veio a noite.&lt;br /&gt;Havia à roda um estranho silêncio, e a Terra brilhava no céu como se fosse uma longínqua estrela.&lt;br /&gt;Os cosmonautas sentiam-se tristes e perdidos e o americano, na escuridão, chamou pela mãe. Disse &lt;em&gt;Mommy&lt;/em&gt;...&lt;br /&gt;E o russo disse: &lt;em&gt;Mama&lt;/em&gt;.&lt;br /&gt;E o chinês disse: &lt;em&gt;Ma-ma&lt;/em&gt;.&lt;br /&gt;Mas compreenderam logo que estavam a dizer a mesma coisa e tinham os mesmos sentimentos. E sorriram, aproximaram-se, acenderam juntos uma bela fogueira, e cada um cantou canções do seu país.&lt;br /&gt;Então encheram-se de coragem e, à espera da manhã, aprenderam a conhecer-se.&lt;br /&gt;Por fim, veio a manhã e fazia muito frio. E, de repente, de um tufo de árvores saiu um marciano. Tinha um aspecto horrível! Era todo verde, tinha duas antenas no sítio das orelhas, uma tromba, e seis braços. Olhou para eles e disse: &lt;em&gt;Grrr!&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;Na sua língua queria dizer: “Mãezinha, o que são estes seres horríveis?”&lt;br /&gt;Mas os terrestres não o compreenderam e julgaram que era um rugido de guerra. Era tão diferente deles que não foram capazes de o compreender e de o amar. Os três sentiram-se logo iguais e uniram-se contra ele.&lt;br /&gt;Perante aquele monstro, as suas pequenas diferenças desapareciam. Que importava se falavam uma linguagem diferente? Compreenderam que eram os três seres humanos. O outro não. Era demasiado feio, e os terrestres pensavam que quem é feio também é mau. Por isso resolveram matá-lo com os seus desintegradores atómicos.&lt;br /&gt;Mas, de repente, na grande geada da manhã, um passarinho marciano, que, evidentemente, fugira do ninho, caiu no chão, tremendo de frio e de medo. Piava desesperadamente, mais ou menos como um passarinho terrestre. Fazia mesmo pena. O americano, o russo e o chinês olharam-no e não conseguiram reter uma lágrima de compaixão.&lt;br /&gt;E então aconteceu uma coisa estranha. Também o marciano se aproximou do passarinho, olhou para ele, e deixou escapar da tromba dois fios de fumo.&lt;br /&gt;E os terrestres, de repente, compreenderam que o marciano estava a chorar à sua maneira, como fazem os marcianos.&lt;br /&gt;Depois viram-no baixar-se para o passarinho e segurá-lo nos seus seis braços, tentando aquecê-lo.&lt;br /&gt;O chinês voltou-se então para os dois amigos terrestres.&lt;br /&gt;— Compreenderam? — disse. — Nós julgávamos que este monstro era diferente de nós, e afinal ele também ama os animais, pode comover-se, tem um coração e certamente um cérebro! Ainda acham que devemos matá-lo?&lt;br /&gt;Nem era pergunta que se fizesse.&lt;br /&gt;Os terrestres agora tinham compreendido a lição: não basta que duas criaturas sejam diferentes para que tenham de ser inimigas.&lt;br /&gt;Por isso aproximaram-se do marciano e estenderam-lhe as mãos. E ele, que tinha seis, apertou de uma vez só a mão aos três, enquanto com as mãos livres fazia gestos de saudação.&lt;br /&gt;E, apontando para a Terra, lá em cima no céu, deu a entender que desejava fazer uma viagem para conhecer os outros habitantes e estudar com eles a maneira de fundar uma grande república espacial, em que todos vivessem com amor e concórdia.&lt;br /&gt;Os terrestres disseram que sim, todos contentes. E para festejar o acontecimento, ofereceram-lhe uma garrafinha de água fresquíssima trazida da terra. O marciano, muito feliz, meteu o nariz na garrafa, aspirou e disse que gostara muito daquela bebida, se bem que lhe fizesse andar a cabeça à roda. Mas agora os terrestres já não se espantavam. Tinham concluído que na Terra, tal como nos outros planetas, cada um tem os seus gostos, e é só questão de se compreenderem uns aos outros.&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;div align="right"&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-size:85%;color:#000066;"&gt;Umberto Eco; Eugenio Cami&lt;br /&gt;&lt;em&gt;Os três astronautas&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;Lisboa, Quetzal Editores, 1989&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="right"&gt;&lt;span style="font-size:85%;color:#000066;"&gt;adaptação&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/3848387236642605066-529812922909743525?l=olharaintolerancia.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://olharaintolerancia.blogspot.com/feeds/529812922909743525/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=3848387236642605066&amp;postID=529812922909743525' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/3848387236642605066/posts/default/529812922909743525'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/3848387236642605066/posts/default/529812922909743525'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://olharaintolerancia.blogspot.com/2007/06/os-trs-astronautas.html' title='Os três astronautas - Umberto Eco'/><author><name>Div. temas</name><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-3848387236642605066.post-4213884170259461550</id><published>2007-06-11T23:05:00.000-07:00</published><updated>2007-06-21T13:53:58.611-07:00</updated><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='Preconceito'/><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='Paz'/><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='Histórias'/><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='Intolerância'/><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='Ambição'/><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='Cólera'/><title type='text'>A ladeira - José Fanha</title><content type='html'>&lt;p align="justify"&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="color:#660000;"&gt;&lt;span style="font-size:120;"&gt;&lt;span style="LINE-HEIGHT: 160%"&gt;Era uma vez dois homens. Um era alto, outro baixo. Um era gordo, outro magro. Um moreno, o outro ruivo. Um tinha a voz muito grossa e outro uma borbulha na ponta do nariz. Um chamava-se Manuel Francisco e o outro Francisco Manuel. E muito mais coisas poderia dizer de cada um deles. Mas, o fundamental, é que eram muito diferentes um do outro. Só numa coisa se assemelhavam: ambos eram tremendamente teimosos.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;p align="justify"&gt;&lt;span style="font-size:120;"&gt;&lt;span style="LINE-HEIGHT: 160%"&gt;&lt;span style="color:#660000;"&gt;Na terra onde viviam havia uma ladeira íngreme, inclinada, cheia de pedras e calhaus. Uma ladeira daquelas que a gente só sobe ou desce quando não pode deixar de ser.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;p align="justify"&gt;&lt;span style="font-size:120;"&gt;&lt;span style="LINE-HEIGHT: 160%"&gt;&lt;span style="color:#660000;"&gt;Um dia, um dos homens ia a subir a ladeira quando o outro vinha a descê-la. Como é natural, encontraram-se a meio. Bem... A meio, a meio, exactamente a meio, não tenho a certeza se foi. Talvez tenha sido um bocadinho mais para cima ou um bocadinho mais para baixo. Para a nossa história esse pormenor não tem grande importância e, por isso, vamos fazer de conta que foi a meio.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;p align="justify"&gt;&lt;span style="font-size:120;"&gt;&lt;span style="LINE-HEIGHT: 160%"&gt;&lt;span style="color:#660000;"&gt;Mais ou menos a meio da ladeira, os dois homens encontraram-se, pararam à frente um do outro e desataram a discutir. Um ia a subir e, por isso, achava que a ladeira era uma subida. O outro vinha a descer e, pelo contrário, garantia que se tratava de uma descida.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;p align="justify"&gt;&lt;span style="font-size:120;"&gt;&lt;span style="LINE-HEIGHT: 160%"&gt;&lt;span style="color:#660000;"&gt;Sem chegar a acordo, sentaram-se ali mesmo no chão para tirar a questão a limpo. Quem os conhecesse, sabendo que eram homens de palavra fácil, capazes de inventar sólidas razões e grandes argumentos, logo via que aquela discussão ia demorar. E demorou.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;p align="justify"&gt;&lt;span style="font-size:120;"&gt;&lt;span style="LINE-HEIGHT: 160%"&gt;&lt;span style="color:#660000;"&gt;Passaram-se sete dias e sete noites e a discussão não parava. Veio a Lua e foi-se o Sol, veio o Sol e foi-se a Lua e os dois homens a discutir. Nem o frio, nem o calor, nem a chuva, os distraiu. Continuavam na mesma. Para um, aquela ladeira era uma subida porque subia de baixo para cima. Para o outro, era uma descida porque descia de cima para baixo.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;p align="justify"&gt;&lt;span style="font-size:120;"&gt;&lt;span style="LINE-HEIGHT: 160%"&gt;&lt;span style="color:#660000;"&gt;A discussão continuou e continuou. À sétima noite começou a soprar um vento muito forte. Um vento tão forte e violento que arrancava terras, árvores e pedras e as atirava de um sítio para outro. Um vento daqueles capazes de trabalhar lentamente, séculos e séculos a fio, para mudar a face da Terra e transformar montes em covas fundas e buracos de meter medo nas mais altas montanhas.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;p align="justify"&gt;&lt;span style="font-size:120;"&gt;&lt;span style="LINE-HEIGHT: 160%"&gt;&lt;span style="color:#660000;"&gt;O tempo passou. O vento mexeu com tudo. Mudou a paisagem. Transformou o mundo. Só os dois homens continuavam sentados no meio da ladeira sem darem por nada do que acontecia à sua volta. Estavam tão preocupados, cada um, em ganhar a discussão que não sentiram nem a chuva na pele, nem o frio nos ossos, nem o sol na moleirinha.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;p align="justify"&gt;&lt;span style="font-size:120;"&gt;&lt;span style="LINE-HEIGHT: 160%"&gt;&lt;span style="color:#660000;"&gt;Passaram-se sete mil noites e sete mil dias, os homens a discutir e o vento a trabalhar.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;p align="justify"&gt;&lt;span style="font-size:120;"&gt;&lt;span style="LINE-HEIGHT: 160%"&gt;&lt;span style="color:#660000;"&gt;A ladeira, a pouco e pouco, ia ficando diferente. A parte mais alta cada vez menos alta, e a parte mais baixa a crescer sem parar à custa de entulho, areia, calhaus e pedrinhas que a tornavam cada vez menos baixa.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;p align="justify"&gt;&lt;span style="font-size:120;"&gt;&lt;span style="LINE-HEIGHT: 160%"&gt;&lt;span style="color:#660000;"&gt;Um belo dia, a parte de baixo e a parte de cima da ladeira ficaram iguais, da mesma altura e, portanto, a ladeira desapareceu. A terra ficou direitinha, lisa, uma planície que se estendia até perder de vista.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;p align="justify"&gt;&lt;span style="font-size:120;"&gt;&lt;span style="LINE-HEIGHT: 160%"&gt;&lt;span style="color:#660000;"&gt;O vento, sem mais nada que fazer ali, foi trabalhar para outro lado. Os dois homens que, como eu já disse, eram muito teimosos, continuavam a discutir se a ladeira era uma subida que se descia ou uma descida que se subia.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;p align="justify"&gt;&lt;span style="font-size:120;"&gt;&lt;span style="LINE-HEIGHT: 160%"&gt;&lt;span style="color:#660000;"&gt;A certa altura, olharam em volta, para um lado e para outro, até onde a vista podia alcançar. Aperceberam-se então que a ladeira tinha desaparecido. Olharam um para o outro, levantaram-se, cumprimentaram-se e, cheios de orgulho, afastaram-se cada um em sua direcção, ambos seguros de que tinham ganho a discussão.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-size:85%;"&gt;&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;p align="right"&gt;&lt;span style="font-size:85%;color:#660000;"&gt;José Fanha&lt;br /&gt;&lt;em&gt;A noite em que a noite não chegou&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;Porto, Campo das Letras, 2001&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;span style="color:#660000;"&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/3848387236642605066-4213884170259461550?l=olharaintolerancia.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://olharaintolerancia.blogspot.com/feeds/4213884170259461550/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=3848387236642605066&amp;postID=4213884170259461550' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/3848387236642605066/posts/default/4213884170259461550'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/3848387236642605066/posts/default/4213884170259461550'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://olharaintolerancia.blogspot.com/2007/06/ladeira-jos-fanha.html' title='A ladeira - José Fanha'/><author><name>Div. temas</name><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-3848387236642605066.post-6855388440427109358</id><published>2007-06-11T15:56:00.000-07:00</published><updated>2007-07-07T12:39:32.346-07:00</updated><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='anti-semitismo'/><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='Histórias'/><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='Intolerância'/><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='História'/><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='Violência'/><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='Cólera'/><title type='text'>História de Robert - Jean-Pierre Guéno</title><content type='html'>&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="color:#000066;"&gt;Nasci no dia 11 de Novembro de 1929, onze anos após o dia oficial do fim da Primeira Guerra Mundial. A Segunda Guerra Mundial foi declarada quando eu ainda não tinha 10 anos e morava na cidade de Metz com os meus pais polacos, os meus dois irmãos e a minha irmã. O meu pai era caixeiro-viajante e a minha mãe cuidava dos quatro filhos. Em Metz, o nosso apartamento de cinco divisões não ficava situado no bairro judeu. Sempre que os habitantes de Metz falavam deste bairro, faziam-no de forma negativa. &lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="color:#000066;"&gt;Quando voltava de viagem, o meu pai trazia-nos drageias de chocolate Meunier. Curiosamente, não guardo nenhuma lembrança de gestos de ternura por parte da minha mãe. Não a revejo a inclinar-se para mim, não a revejo a dar-me alguma coisa, nem a partilhar comigo aqueles segredos que as mães partilham com os filhos. Mas sei que fui muito amado.&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="color:#000066;"&gt;Em Outubro de 1939, Metz foi evacuada e toda a comunidade judaica, os praticantes e aqueles que não o eram, partiram. Embarcaram todos no mesmo comboio e cada um recebeu um queijo camembert e 5 francos. Passámos por Paris para irmos para La Rochelle. A nossa família reencontrou‑se em Royan, onde ficámos onze meses. Depois da chegada dos alemães em Junho de 1940, fui tradutor nos grandes armazéns da cidade. Um dia, um nazi magro de óculos e rosto emaciado perguntou-me «onde tinha aprendido alemão». Respondi-lhe que era loreno. Ele disse-me: — És judeu. &lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="color:#000066;"&gt;Fugi e fiquei com muito medo.&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="color:#000066;"&gt;Num outro dia, a polícia francesa disse-nos, como a todas as famílias judaicas da cidade, para juntarmos as nossas coisas e irmos para a estação. Fomos agrupados com outros judeus e enviados para a Dordogne com termo de residência. &lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="color:#000066;"&gt;A nossa família foi alojada numa quinta abandonada desde 1914, sem água, sem electricidade, sem casa de banho.&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="color:#000066;"&gt;Recordo-me de ter vivido nesta aldeia da Dordogne os dois anos mais belos da minha infância, a partir de Outubro de 1940. Descobria a natureza, os animais, a vida simples. A água do poço estava sempre fresca e límpida. Pouco a pouco, o meu pai tornou-se camponês. Começou a revolver a terra diante da casa, plantou batatas, cenouras e alhos franceses. Eu ia à escola e ajudava-o na quinta. Havia árvores de fruto, flores, lilases; havia galinhas, patos e gansos a esgaravatar… Os meus pais eram pouco praticantes, mas rezavam.&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="color:#000066;"&gt;A partir de 1942, era preciso usar a estrela amarela… À excepção de duas raparigas que me perguntaram «o que os judeus tinham vindo cá fazer», a estrela não causava nenhuma reacção nos camponeses ou nos seus filhos. Muitos não compreendiam o que se passava. Nós morávamos dois quilómetros a norte da linha de demarcação&lt;/span&gt;&lt;span style="color:#000066;"&gt;[1]&lt;/span&gt;&lt;span style="color:#000066;"&gt;. Numa noite de Outubro de 1942, às duas da manhã, a polícia veio dizer-nos que tínhamos três horas para prepararmos as nossas trouxas e que uma camioneta viria buscar-nos. Todas as famílias judaicas foram exemplarmente dóceis.&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="color:#000066;"&gt;Chegados a Angoulême, juntaram 400 pessoas numa grande sala cujo chão estava coberto de palha. Ficámos ali quatro ou cinco dias. Alemães vestidos à civil recolhiam diariamente as nossas jóias, o nosso dinheiro, os nossos documentos, as nossas senhas de racionamento.&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="color:#000066;"&gt;Uma noite, os alemães informaram-nos de que as crianças que tinham sido declaradas francesas deveriam ser separadas das outras na manhã do dia seguinte. Eu era o único da minha família nessa situação. O meu pai entregou-‑me um porta-moedas com o seu relógio de bolso, o relógio da minha mãe, as alianças deles, o canivete e todo o dinheiro que tinha com ele: 700 francos.&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="color:#000066;"&gt;Chegou a manhã da separação. Éramos uma dezena de crianças de nacionalidade francesa. Curiosamente, os meus pais não tinham declarado os meus irmãos e irmã, que, ao que parece, não podiam ser salvos… Quis voltar para o meu pai, mas um tipo trajado à civil que gritava muito alto deu-me um violento pontapé no traseiro e disse: — Fica aí, porco judeu!&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="color:#000066;"&gt;O meu pai chorava. Abriu os braços para mim… Gritou: — Robert, nunca te esqueças de que és judeu…&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="color:#000066;"&gt;E eu comecei a rir. Porque nunca tinha visto o meu pai a chorar… Porque não me sentia nada bem… Hoje, sei que era um riso nervoso, mas sempre me perguntei se o meu pai teria visto aquele riso e percebido que não era bem um riso. E esta pergunta persegue-me. Pergunto-me que imagem guardou ele de mim… E a minha pergunta nunca terá resposta. Eu tinha treze anos. A minha irmã oito, os meus irmãos, quatro e seis anos. E nunca mais voltei a ver o meu pai, a minha mãe, a minha irmã ou os meus irmãozinhos.&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="color:#000066;"&gt;Ainda conservo os 700 francos do meu pai; nunca lhes toquei. As duas alianças dos meus pais serviram para o meu casamento e, quando as coisas não correm bem, olho para a da minha mãe. Guardei o porta-moedas, mas há vinte e cinco anos que não o abro. Tenho a fotografia dos meus pais no dia do casamento e uma foto de passe do meu pai na época em que nos separámos. Ele tinha 49 anos… Mas não tenho nenhuma recordação da cara da minha mãe nessa altura.&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="color:#000066;"&gt;Um pároco olhava pelas dez crianças que, como eu, tinham sido separadas dos pais. Recordo-me da minha pergunta: — Mas por que é que nos levam? Quando é que vamos voltar a vê-los?&lt;br /&gt;E o pároco dizia-nos: — Vocês voltarão a vê-los, não se preocupem. Agora vão comigo porque me pediram que vos alojasse… &lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="color:#000066;"&gt;Fomos então com ele. Era um padre que se ocupava de casos sociais, de crianças cuja mãe falecera, ou cujo pai estava preso: crianças, todas elas, com histórias familiares difíceis. Tínhamos entre os 4 e os 15 anos. &lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="color:#000066;"&gt;Lembro-me de uma longa caminhada para chegarmos a umas barracas nos subúrbios de Angoulême. Levávamos as nossas roupas numa carreta. Eu andava com um saco às costas e guardava no bolso o porta‑moedas do meu pai. Lembro-me de um conjunto de barracas que parecia um campo, onde havia irmãs trajadas à civil. O padre Le Bideau mostrou-nos o lugar onde íamos dormir e, de seguida, encontrámo-nos no refeitório. Recordo uma cena engraçada quando todas as crianças se levantaram à chegada do padre. Devíamos ser uns cinquenta ou sessenta e ouvi: «Bom dia, meu pai!&lt;/span&gt;&lt;span style="color:#000066;"&gt;[2]&lt;/span&gt;&lt;span style="color:#000066;"&gt;». Virei-me e disse para comigo: «Mas o que é que o meu pai tem a ver com isto?» Nunca tinha frequentado ambientes cristãos… Tínhamos de rezar antes das refeições e levantávamo‑nos todos de manhã à mesma hora, para irmos à missa numa pequena capela improvisada.&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="color:#000066;"&gt;Um dia, recebi uma carta dos meus pais. Já não tinha notícias deles há um mês… Na carta, que me entregaram já aberta, a minha mãe manifestava a sua indignação: Robert! Como é possível? Deixámos-te dinheiro, estamos aqui neste campo, a passar fome (era em Drancy&lt;/span&gt;&lt;span style="color:#000066;"&gt;[3]&lt;/span&gt;&lt;span style="color:#000066;"&gt;), mandei-te três cartas com três vales de encomendas! Os teus irmãos não têm que comer. Choram todo o dia. Porque é que não nos mandaste as encomendas com o dinheiro que o teu pai te deixou? Uma carta atroz. E no mesmo envelope vinha uma borboleta dactilografada: Partiram para endereço desconhecido, não enviar nem cartas, nem encomendas. Lembro-me de que senti algo em mim, como quando vamos vomitar. Como se o sangue deixasse de afluir à cabeça. Pus-me a gritar com o padre Le Bideau: &lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="color:#000066;"&gt;— Porque é que não me entregou as cartas e os vales? Tem consciência do que fez?&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="color:#000066;"&gt;E ele disse-me: &lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="color:#000066;"&gt;— Mas nós nunca recebemos essas cartas.&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="color:#000066;"&gt;Penso que ele não estava a dizer-me a verdade… Ainda hoje o responsabilizo por isso. Nas quarenta e oito horas seguintes fiquei com icterícia. Passei quase três semanas sem comer. Foi um grande choque. Recebi, pouco tempo depois, uma última carta da minha mãe: era um pequenino cartão de visita num envelope. Ela tinha-o atirado de um vagão, e alguém o tinha apanhado e posto no correio… Neste cartão tinha escrito com uma letra minúscula: Boubi, com a ajuda de Deus, espero que voltemos a ver-nos em breve. Não sabemos para onde vamos. Estamos com saúde, esperamos reencontrar-nos em breve. Depois disto, nunca mais recebi nada.&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="color:#000066;"&gt;O padre fazia-nos participar cada vez mais na vida religiosa da colectividade, até ao dia em que pegou em nós, nas dez crianças judias, e nos obrigou a confessar-nos. Fiquei em pânico…&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="color:#000066;"&gt;Entre as coisas que o meu pai me tinha confiado, estava a morada do rabino Bloch, o famoso rabino que tinha organizado a nossa partida de Metz, e que era o que os rabinos costumam ser nas pequenas comunidades: um verdadeiro deus que tudo conseguia, tudo sabia, que para tudo tinha resposta… O meu pai tinha-me dito: &lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="color:#000066;"&gt;— No dia em que alguma coisa não correr bem, escreve ao rabino.&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="color:#000066;"&gt;Escrevi então ao rabino Bloch, que morava em Poitiers. Quarenta e oito horas depois, chegou a secretária dele e levou-nos a todos, às dez crianças judias. Fomos para Poitiers e distribuíram-nos por famílias judias.&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="color:#000066;"&gt;Mandaram-me para uma primeira família em Châtellerault. Fiquei lá relativamente pouco tempo, porque era muito infeliz. No entanto, eram pessoas óptimas, que me acolheram muito cordialmente. Mas o filho deles não suportou a minha presença. Obrigou-me a dormir no chão, escondeu as minhas coisas, disse-me que fizera chichi na minha escova de dentes… Escrevi imediatamente ao rabino Bloch, dizendo-lhe que não podia ficar mais nessa família e que, se não viessem buscar-me, não sabia o que poderia acontecer-me. Quarenta oito horas depois, chegava a secretária, que me tirou daquela casa e me levou para outra família judia da qual o marido tinha sido levado, ao sair de casa, por não trazer a estrela. A senhora era cardíaca, uma pessoa extraordinária, muito calorosa, mas entrevada. Era uma das famílias mais ricas de Châtellerault, uma família de peleiros, com muitos criados. Fiquei lá com outra criança, Eva Nadel.&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="color:#000066;"&gt;Estávamos no Paraíso… Pus-me a estudar como um louco e a fazer os trabalhos de casa para recuperar o tempo perdido. No espaço de dois meses, acho que avancei dois anos. Era amigo de um outro rapaz judeu. Levávamos a estrela quando íamos para o liceu e vivemos juntos uma cena absolutamente incrível. Havia uma praça em Châtellerault que os judeus não podiam atravessar; para irmos para o liceu, tínhamos de fazer um desvio enorme, porque o liceu ficava do outro lado… Ficávamos muitas vezes num dos passeios em frente à praça e olhávamos para os carrocéis, encostados à montra de uma confeitaria… Um dia, passa uma senhora com um rapazinho, entra na confeitaria, sai e faz-nos sinal para a seguirmos…&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="color:#000066;"&gt;Seguimo-la: levou-nos até uma ruela e deu um bolinho a cada um, dizendo: &lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="color:#000066;"&gt;— Comam depressa e deitem fora os papéis.&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="color:#000066;"&gt;Ficámos tão estupefactos que nem lhe agradecemos. Só depois é que corri atrás dela para lhe agradecer…&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="color:#000066;"&gt;Fiquei em Châtellerault, nesta segunda família, durante seis meses. Um dia, a polícia francesa veio buscar todas as crianças cujos pais tinham sido deportados, e transferiram-nas para o campo de Poitiers. Era um campo de reagrupamento… Passámos lá uns dias totalmente surpreendentes: éramos cerca de sessenta crianças judias que vinham de toda a parte… Nunca como naquele lugar brinquei tanto com os meus pequenos companheiros. Dormíamos em barracas imensas; comíamos muito mal, mas a Cruz Vermelha enviou-nos uns pacotes, nomeadamente, um barril de bombons. Estes bombons, sem papel, estavam todos colados uns aos outros. No princípio, conseguíamos raspá-los e comê-los; juntávamo-nos à volta do barril; mas, no fim, era preciso ir para dentro dele a fim de chegar aos do fundo. Recordo-me de ter entrado na pipa e de não ter conseguido sair até me puxarem pelos pés.&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="color:#000066;"&gt;Juntaram-nos, de novo, alguns dias depois; meteram-nos em comboios e mandaram-nos para Paris, onde fomos acolhidos por responsáveis da UGIF&lt;/span&gt;&lt;span style="color:#000066;"&gt;[4]&lt;/span&gt;&lt;span style="color:#000066;"&gt;. Todo o grupo foi levado para um lar de crianças, em Lamarck. A rua Lamarck era óptima. É um facto que nos raparam o cabelo porque tínhamos piolhos, mas comia-se maravilhosamente bem; e a disciplina não era muito severa… Encontrei lá amigos da minha idade que tinha conhecido na Dordogne. Fiquei três ou quatro dias. Em seguida, como tinha mais de 13 anos, tive de partir, e mandaram-me para a escola profissional, no nº 4 bis, da rua de Rosiers. Guardo desta escola uma recordação horrível. Fui muito infeliz lá. Era um dos mais novos e os meus congéneres eram todos casos sociais. Alguns tinham roubado, outros tinham grandes dificuldades familiares. Juntavam assim os jovens a quem não sabiam o que fazer…&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="color:#000066;"&gt;De manhã, havia aulas do curso geral e, de tarde, ensino profissional. Eu tinha escolhido a carpintaria. Vivi neste lar onde não havia calor humano algum, onde estavam sempre a ameaçar-nos que nos batiam e que iam deportar-nos…&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="color:#000066;"&gt;Saí em 1944, nove meses mais tarde. Aprendi a lutar pela minha comida e pelo meu pão… Era uma luta permanente… A recordação que guardo deste período é a de uma espécie de nó no estômago, de um enorme vazio afectivo e de um sentimento de insegurança permanente.&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="color:#000066;"&gt;Em Fevereiro de 1944, um senhor misterioso que pertencia a uma rede clandestina tomou conta de mim. Tinha marcado encontro comigo num outro lar de crianças e disse-me: &lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="color:#000066;"&gt;— Já não voltas à escola profissional; é demasiado perigoso. Vais sair do circuito judeu, mudar de nome, ter novas senhas de racionamento e estudar. Mas, durante algum tempo, virei visitar-te regularmente para te informar do que vai acontecer-te.&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="color:#000066;"&gt;Era um lar de crianças protestantes de que não guardo nenhuma recordação em particular… Comia-se bem, lavavam a nossa roupa. Fiquei um mês. Um belo dia, o mesmo senhor voltou e disse-me: &lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="color:#000066;"&gt;— Vens comigo, vou levar-te para uma nova escola, mas é preciso que saibas desde já que não te chamas Robert Frank, mas Robert François, e que nasceste em tal dia e em tal sítio.&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="color:#000066;"&gt;Explicou-me que era uma câmara cujos arquivos tinham sido destruídos pelos bombardeamentos…&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="color:#000066;"&gt;Não deveria dizer a ninguém o meu verdadeiro nome…&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="color:#000066;"&gt;Entrei para o Instituto Voltaire.&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="color:#000066;"&gt;Fui acolhido pela Sra. Vallon, a directora, juntamente com um outro rapaz judeu, também escondido. Quem tomou conta de nós foi uma organização clandestina, dirigida pelo doutor Milhaud e a mulher, que conseguiu salvar uma dezena de crianças que estavam comigo na escola…&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="color:#000066;"&gt;A Sra. Vallon tomou-nos sob a sua protecção. Como era a directora da instituição, fomos normalmente às aulas até à Libertação. Em casa dela, continuei a chamar-me Robert François: não digo que ela tenha sido uma substituta da minha mãe, mas foi uma mulher de quem gostei muito; tinha um excelente coração; ligou-se muito a nós, e vivi com Georges Miliband em casa dela, como se fôssemos dois irmãos. Estávamos sob a sua protecção, ela velava por nós.&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="color:#000066;"&gt;Tinha uma casa em Raincy onde organizava colónias de férias. Georges tinha-lhe sido confiado em Julho de 1942 para participar numa dessas colónias. De volta a Paris no final de Julho, não conseguiu encontrar a mãe e as duas irmãs, presas na altura do Vel d’Hiv&lt;/span&gt;&lt;span style="color:#000066;"&gt;[5]&lt;/span&gt;&lt;span style="color:#000066;"&gt;. O pai dele tinha morrido antes da guerra. Foi então que a Sra. Vallon o acolheu. Eu não saberia dizer quantas crianças judias lhe passaram clandestinamente pelas mãos; corria um enorme risco, e fazia-o de forma totalmente consciente…&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="color:#000066;"&gt;Para mim, o facto de ter um nome que não era o meu foi, no início, uma espécie de jogo. Não sendo Robert Frank mas Robert François, achava que conseguiria esconder-me facilmente, que conseguiria esconder o que era, ou seja, mascarar as minhas dificuldades, a minha angústia, o meu vazio afectivo em relação aos outros. Este período não me permitiu, de forma alguma, expandir-me, mas apenas preservar-me tal como queria ser, Robert Frank, ou seja, o filho do meu pai e da minha mãe, guardando para mim a minha história dolorosa… Nunca falei disso na altura, e a minha máscara deu-me uma espécie de força, que perdi após a Libertação, sobretudo depois do fim da guerra, em 1945, quando foi necessário retomarmos os nossos verdadeiros nomes e ir à estação de Est acolher os que regressavam.&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="color:#000066;"&gt;Foi aí que voltei a sentir esperança: voltava a ser Robert Frank; esperava por Max Frank, o meu pai, Betty Frank, a minha mãe, e pelos meus irmãos e irmã… Não sabia o que lhes tinha acontecido. Não se sabia nada de Auschwitz&lt;/span&gt;&lt;span style="color:#000066;"&gt;[6]&lt;/span&gt;&lt;span style="color:#000066;"&gt;, dos fornos crematórios… E eu esperava, ia à estação e dizia para mim próprio: «Um dia destes, vou vê-los chegar.»&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="color:#000066;"&gt;Para mim, eles eram apenas prisioneiros. E os primeiros deportados chegaram… Foi então que a espera se tornou angustiante. Um dia, vi chegar Sylvain Kaufman, que vinha de Auschwitz. Era o filho do patrão do meu pai em Metz e conhecia toda a minha família. Não sei o que fez em Auschwitz, nem procurei saber, mas ele perguntou-me: &lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="color:#000066;"&gt;— Queres saber o que aconteceu à tua família? &lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="color:#000066;"&gt;Eu respondi:&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="color:#000066;"&gt;— Claro que sim.&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="color:#000066;"&gt;Disse-me que, à chegada, o meu pai tinha sido mandado para um lado e a minha mãe para outro. A minha mãe, os meus irmãos e irmã, foram directamente para a câmara de gás; o meu pai sobreviveu durante três meses, trabalhando arduamente. E um dia, como as suas pernas já não aguentavam, Sylvain Kaufman levou-o à câmara de gás juntamente com um grupo de pessoas… Não consegui acreditar nesta história; pensei que ele não queria dizer-me o quanto tinha sido mais terrível ainda. Não conseguia aceitar que eles tivessem morrido; conseguia aceitar a doença deles, o seu sofrimento, mas não o seu desaparecimento…&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="color:#000066;"&gt;Muitos anos depois da guerra, eu ia ainda atrás de pessoas em quem pensava reconhecer o meu pai. O momento mais dramático, vivi-o em 1947, dois anos depois do fim da guerra, quando, tendo obtido o diploma da escola básica, a Sra. Vallon me disse: &lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="color:#000066;"&gt;— Como recompensa, vou oferecer-te uma viagem a Metz.&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="color:#000066;"&gt;Era um desejo que eu tinha manifestado.&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="color:#000066;"&gt;Fui a Metz sozinho, e dirigi-me à rua onde morávamos; vi o prédio, o apartamento no quarto andar, não me atrevi a subir; passeei nos lugares que me eram familiares; sem pensar, fui ter ao lugar onde moravam os melhores amigos dos meus pais, a família Wiederspiel. Vi o nome deles na campainha de um prédio; louco de felicidade, toquei, mas ninguém respondeu. Deviam ser três horas da tarde; disse para comigo: «Vou dar um passeio, de certeza que foram a qualquer lado, e venho tocar de vez em quando.» E fui dar uma volta. A dado momento, deparei com uma campainha com o nome Frank. Pareceu-me reconhecer a letra do meu pai. Fiquei possesso e disse para comigo: «Não é possível que ele tenha voltado e não me tenha procurado! Como é possível ter voltado a Metz e ter-me deixado sozinho?» Toquei; ninguém respondeu. Voltei ao edifício dos Wiederspiel. Abriram-me a porta. Reconheceram-me e levaram algum tempo a convencer-me de que os Frank do bairro não tinham nada a ver com a minha família…&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="color:#000066;"&gt;Levei muitos e longos anos até ficar convencido do desaparecimento dos meus pais… E foi um sonho que me libertou. Em 1957, estava já casado, levantei-me da cama em sobressalto; acordei a minha mulher e disse-lhe: — Olha, acabei de enterrar os meus pais. Sonhei que estava em Festalemps, naquela aldeia onde vivemos juntos os últimos momentos, e no pátio, entre o portão e a quinta, vi cinco círculos, cinco grandes círculos, com uma cúpula por cima. E acordei nessa altura, dizendo a mim próprio: «O que quererá isto dizer?»&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="color:#000066;"&gt;Compreendi que o número cinco representava o meu pai, a minha mãe, o meu irmão, o meu outro irmão e a minha irmã. Tinha sofrido muito por não ter um túmulo para eles. Para mim, Auschwitz não fazia sentido. Morrer nos fornos crematórios é partir em fumo, enquanto que, no meu sonho, os tinha colocado num lugar que me era querido… E isso libertou-me, fez-me bem, porque, de seguida, senti-me bem, distendido, até recomeçar a colocar-me outras questões.&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="color:#000066;"&gt;Nos meses que se seguiram à guerra, tornei-me órfão de guerra; tomaram conta de mim financeiramente, a nível de alojamento, estudos, roupa. Materialmente, deixei de ter problemas. Restava o problema afectivo, bem mais difícil de aliviar… &lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="color:#000066;"&gt;Penso que a história dos filhos dos deportados traz consigo uma dor terrível. É dramático perder os pais; horrível perder os irmãos e as irmãs. Quando se perdem por doença, por acidente, é terrível. Mas perdê-los da forma como nós os perdemos, brutalmente, de um dia para outro, sem entender porquê nem como, sem certezas, é medonho. Já não tinha tios ou tias; sentia-me completamente só. Estava furioso com os meus pais. Primeiro, senti-me abandonado. Depois, senti-me culpado por estar vivo; restava-me acusá-los por me terem abandonado. Hoje, compreendo que era uma forma de me defender da dor da separação. Pouco a pouco, compreendi que eles não tinham culpa nenhuma. Quando retomei os estudos, fiquei durante muito tempo ensimesmado, sem falar, sem contactar com ninguém; sentia-me desinteressante, como alguém que não podia ser «reconhecido».&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="color:#000066;"&gt;Passei os meus dois exames de admissão à Faculdade. Nunca fui um aluno brilhante mas consegui desenvencilhar-me. Decidi tornar-me médico. Na altura das inscrições, conheci um rapaz que me propôs, alguns meses mais tarde, trabalhar em parceria com ele. Pouco tempo depois, apresentou-me à mãe; disse-lhe que tinha estado em Châtellerault durante a guerra e ela contou-me então a seguinte história: — Um dia, em 1943, estava eu num passeio com o meu filho, quando vimos dois rapazes com a estrela de David. Entrei com o meu filho numa confeitaria, comprei alguns bolos e disse aos dois rapazes judeus que me seguissem e dei-lhes dois bolos…&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="color:#000066;"&gt;A coincidência era impensável!... É claro que me tornei para ela mais um filho…&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="color:#000066;"&gt;No final dos meus estudos, tornei-me dentista. Conheci a minha mulher em 1952 e casámos em 1954. Casei com uma mulher judia, psicóloga, e retomei, de alguma forma, uma vida em família.&lt;br /&gt;Não posso dizer que seja uma pessoa fácil. Andei muito tempo deprimido, e ficava, por vezes, muitos dias sem abrir a boca, totalmente centrado em mim mesmo. Mas a minha mulher conseguiu fazer de mim aquilo que hoje sou. Quando me dizem demasiadas vezes que me amam, tenho alguma dificuldade de aceitar que isso seja verdade ou que tal se justifique. Além disso – e não estou agora a falar da minha mulher, falo sobretudo de todas as pessoas que me rodearam, que me ajudaram ou quiseram-me fazer bem – sempre tive um movimento de rejeição em relação às pessoas que foram boas comigo.&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="color:#000066;"&gt;Hoje, sinto mágoa em relação a isso, porque foram pessoas que, espontaneamente, quiseram exprimir a sua compreensão e a sua afeição. Mas bastava que isso fosse um pouco em demasia para me tornar agressivo e me retirar, cortando qualquer relação.&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="color:#000066;"&gt;Outras crianças escondidas conheceram as mesmas dificuldades: logo que alguém nos dava amor, logo que isso se tornava demasiado forte, a nossa forma de reagir era a ruptura. E a ruptura total. Evidentemente que hoje me penalizo muito por isso, mas é já demasiado tarde.&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="color:#000066;"&gt;Tive duas filhas maravilhosas com a minha mulher; durante muito tempo, pouco falei com elas; é escasso o que sabem a respeito do meu passado; apenas os grandes momentos, os momentos importantes…&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="color:#000066;"&gt;O meu sofrimento actual é de uma outra ordem. Tento imaginar o que os meus pais terão sentido antes de morrer… Não me atrevi, durante muito tempo, a imaginar aquilo que a minha família terá passado depois de nos termos separado. Tentei imaginar como teriam vivido a viagem até Auschwitz, através de tudo o que li sobre estes comboios e a descida dos vagões. Sei que estavam todos vivos quando desceram. Imagino os gritos dos SS&lt;/span&gt;&lt;span style="color:#000066;"&gt;[7]&lt;/span&gt;&lt;span style="color:#000066;"&gt; e a cara da minha mãe, dos meus irmãos e da minha irmã; estava frio; era em Novembro de 1942. Imagino os cães, os uivos, a selecção. «Tu, para ali! Tu, para acolá!» Creio que o meu pai já não devia pensar muito em mim naquela altura, ao ver a mulher e os filhos ali, do outro lado. Imagino-os a despir-se. Imagino os meus irmãos e a minha irmã de pé, nus, indo para o duche. Vi o filme Shoah, vi como contaram as diferentes etapas, imaginei o meu pai nas barracas onde a mulher e os filhos desapareceram; é tenebroso. Imagino-o a trabalhar. Imagino-o a dizer para si mesmo: «Para quem, para quê?» Talvez para mim, Robert… Imagino-o a morrer de fome, de frio. Um dia, não se aguentando mais de pé, vejo-o a ser levado num carrinho de mão, não consigo imaginar os golpes, vejo-o, sabendo onde vai; é tudo. E tudo isto é novo. Neste momento, recordo esta trajectória quase todas as noites.&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="color:#000066;"&gt;Robert&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="right"&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-size:85%;color:#000066;"&gt;Jean-Pierre Guéno&lt;br /&gt;&lt;em&gt;Les enfants du silence. Mémoires d’enfants cachés 1939-1945&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;Toulouse, Ed. Milan, 2003&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="right"&gt;&lt;span style="font-size:85%;color:#000066;"&gt;texto traduzido e adaptado&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="right"&gt;&lt;span style="font-size:85%;color:#000066;"&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;span style="color:#000066;"&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-size:85%;color:#ff0000;"&gt;[1]&lt;/span&gt;&lt;span style="font-size:85%;color:#000066;"&gt; Até Novembro de 1942, esta linha – que ia de Bayonne à Suiça – dividia a França livre, onde se exercia a autoridade do governo de Vichy, da França ocupada pelos Alemães. Só podia ser atravessada com uma autorização das autoridades alemãs. Em Novembro de 1942, os Alemães invadiram a «zona livre»…&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;span style="font-size:85%;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;span style="font-size:85%;color:#ff0000;"&gt;[2]&lt;/span&gt;&lt;span style="font-size:85%;color:#000066;"&gt; Em francês, no original, &lt;em&gt;père&lt;/em&gt; tanto significa pai como padre. Apesar de não ser tão frequente, é também possível chamar-se pai a um padre, em português. Por isso, a opção tradutiva respeita a duplicidade do vocábulo. (N.T.)&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;span style="font-size:85%;"&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;span style="font-size:85%;color:#ff0000;"&gt;[3]&lt;/span&gt;&lt;span style="font-size:85%;color:#000066;"&gt; Campo de internamento do governo de Vichy que funcionou como principal ponto de partida para os campos de concentração nazis: 67 dos 79 comboios de deportados judeus partirão de Drancy, cujo sobrenome era «antecâmara da morte».&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;span style="font-size:85%;"&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;span style="font-size:85%;color:#ff0000;"&gt;[4]&lt;/span&gt;&lt;span style="font-size:85%;color:#000066;"&gt; A &lt;em&gt;Union générale des israélites de Fran&lt;/em&gt;ce foi um organismo criado pelo governo de Vichy, sob pressão dos nazis, para reagrupar numa única organização as obras de ajuda e assistência aos judeus.&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;span style="font-size:85%;"&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;span style="font-size:85%;color:#ff0000;"&gt;[5]&lt;/span&gt;&lt;span style="font-size:85%;color:#000066;"&gt; Abreviatura de &lt;em&gt;Vélodrome d’Hiver&lt;/em&gt;, um estádio de competições de ciclismo, usado pela polícia francesa para juntar os 12 884 judeus presos na noite de 16 de Julho de 1942, em Paris e na região parisiense, e depois conduzidos para os campos de Drancy, Pithiviers e Beaune-la-Rolande, antes de serem deportados para Auschwitz.&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;span style="font-size:85%;"&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;span style="font-size:85%;color:#ff0000;"&gt;[6]&lt;/span&gt;&lt;span style="font-size:85%;color:#000066;"&gt; O mais conhecido dos campos de concentração criados pelos nazis, localizado a 60 Km de Cracóvia, na Polónia, e aberto em Junho de 1940. Três milhões de pessoas morreram aí: dois milhões e meio gaseadas e 500 000 de fome ou esgotamento. A partir de 1942, as câmaras de gás chegaram a matar 6000 pessoas por dia, essencialmente judeus.&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;span style="font-size:85%;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;span style="font-size:85%;color:#ff0000;"&gt;[7]&lt;/span&gt;&lt;span style="font-size:85%;color:#000066;"&gt; Abreviatura de Schutzstaffel: secção de protecção. Na origem, a guarda pessoal de Hitler; depois, tropas de elite fanáticas, dedicadas à guarda dos campos, ao extermínio e à «depuração» praticados pelo exército alemão.&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/3848387236642605066-6855388440427109358?l=olharaintolerancia.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://olharaintolerancia.blogspot.com/feeds/6855388440427109358/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=3848387236642605066&amp;postID=6855388440427109358' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/3848387236642605066/posts/default/6855388440427109358'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/3848387236642605066/posts/default/6855388440427109358'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://olharaintolerancia.blogspot.com/2007/06/histria-de-robert.html' title='História de Robert - Jean-Pierre Guéno'/><author><name>Div. temas</name><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-3848387236642605066.post-3726707302505106169</id><published>2007-06-11T15:32:00.000-07:00</published><updated>2007-06-21T13:54:49.468-07:00</updated><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='Preconceito'/><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='Intolerância'/><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='Racismo'/><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='História'/><title type='text'>O vírus do preconceito</title><content type='html'>&lt;span style="font-size:120;"&gt;&lt;span style="LINE-HEIGHT: 150%"&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="color:#663333;"&gt;A primeira vez que vi Mustafá foi no hospital onde acabava de fazer o meu trabalho de jornalista: entrevistar pessoas. A guerra terminara há pouco. &lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;span style="color:#663333;"&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;Entrou passo a passo na sala de reabilitação. Andava muito devagar, com dificuldade, e parecia bem mais velho do que os seus cinquenta anos. &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;Sentado em cima de um colchão de espuma, com as costas direitas, começou os exercícios: levantar acima da cabeça pequenos halteres de ferro fundido. O esforço era tão grande que os olhos se lhe enchiam de lágrimas. A respiração ofegante ressoava no silêncio da sala. Ao ver aquelas pernas rígidas e sem vida, como dois pedaços de madeira que faziam ângulo recto com o seu corpo, pensei numa marioneta desarticulada. &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt; &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;span style="color:#663333;"&gt;&lt;div align="justify"&gt;Apresentei-me e perguntei-lhe se aceitaria responder às minhas perguntas e dizer-me como tinha ido parar à ala dos deficientes motores do hospital Koševo de Sarajevo. &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;— Com certeza — respondeu-me a sorrir. &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;Eis o que me contou: &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;Antes da guerra, era lixeiro. Quando os bombardeamentos começaram, ficou desempregado. A administração municipal não funcionava e, embora os recipientes do lixo se amontoassem nas ruas da cidade sitiada, ele deixara de ter possibilidades de fazer o seu trabalho. Os combates intensificaram-se, e Mustafá passava a maior parte do seu tempo fechado em casa, com a mulher. Viviam no bairro do aeroporto, perto de uma linha da frente, onde a guerra estalara com uma violência muito particular. Para não arriscarem a vida, só saíam à noite. &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;Apesar dessas precauções, numa noite de Setembro de 1993, Mustafá foi atingido com uma bala nas costas à entrada do prédio. Tinha sido alvejado por um atirador. &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;— Tudo estava tão calmo — disse-me ele. — E de repente, pum! Deviam ser duas horas da manhã. O tipo que me fez isto tinha de certeza uma espingarda com infravermelhos. São práticas, permitem ver como em pleno dia. Acertou-me como se eu fosse um coelho, bem no meio das costas... &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;Voltei várias vezes ao hospital para ver Mustafá. Um dia, como lhe perguntasse o que tencionava fazer agora que a guerra terminara, olhou-me com ar incrédulo. A pergunta parecia-lhe absurda. &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;— A minha vida ficou estragada — respondeu-me. — A guerra deu cabo de mim. &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;Falava com uma voz monocórdica, como se fosse uma coisa evidente e não devesse inspirar nenhum tipo de compaixão. &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;Enquanto conversava com Mustafá, não parava de pensar na bala de espingarda que retirara da parede do meu apartamento. Um dia, de regresso a casa, fui encontrá-la cravada na parede. Por mero acaso não atingira o alvo: é que eu tinha saído. Tratava-se de um pequeno pedaço de metal brilhante e pontiagudo, exactamente igual àquele que se tinha alojado na coluna vertebral do meu interlocutor. &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;Voltei-me para a janela e olhei o céu cor de cinza. Respirei durante um bom momento e, antes de me virar para ele, retomei o meu ar de jornalista, o meu rosto profissional, como que talhado na pedra. Era todos os dias a mesma coisa: a tristeza das pessoas, a tragédia renovada das suas histórias pessoais. Nas ruas, os prédios conservavam as marcas, as cicatrizes do desastre que acabara de acontecer. E, pouco a pouco, apesar dos meus esforços, a tragédia dos outros infiltrava-se em mim, como por osmose. Os meus colegas ou amigos estrangeiros perguntavam-me com frequência: “Houve algum momento em que tenhas sentido medo?” Algum momento?... Não me lembro de um instante em que não tivesse tido medo. E, em certa medida, ainda hoje tenho. &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;Porque as perguntas que me fiz a mim próprio durante esta guerra não tinham quase nada a ver com a história da Jugoslávia, nem com a política internacional, que é, no entanto, a minha especialidade. A verdadeira pergunta, aquela que me obcecava, era a seguinte: como pode um ser humano fazer isto a outro ser humano? &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;Trata-se apenas de uma pergunta, e quem não conheceu o desastre e o horror da guerra poderá julgá-la ingénua. Porém, depois de tudo o que passei, afirmo que esta é a única questão que merece ser colocada. &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;Não temos necessidade de ler livros ou relatos sobre a história dos Balcãs para compreender o que se passou na Bósnia. Não temos necessidade de falar bósnio ou servo-croata. Basta, por exemplo, pensarmos em Mustafá e perguntarmo-nos: “Como é possível que, numa noite de Setembro, um atirador furtivo o tivesse atingido com uma bala nas costas?” &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;A resposta dá-se numa palavra: preconceito. &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;O preconceito, aquela paixão cega que pode transformar qualquer um de nós num assassino, é uma doença social que existe provavelmente desde a origem das sociedades. Será necessário enumerar as suas terríveis consequências? Os campos de concentração nazis, o genocídio dos arménios, as violências étnicas no Ruanda, a violência religiosa na Índia, na Irlanda, na Indonésia, a violência urbana diária nos Estados Unidos. &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;Por toda a parte, seres humanos massacram outros seres humanos sob o pretexto de que a língua destes, a cor da pele, a religião, são diferentes das suas. E os homens políticos bem podem proclamar “Nunca mais”, que o mal sempre regressa. Desta vez, na Bósnia. Este país – o meu país – fica doravante a fazer parte da lista daquelas regiões “malditas”, marcadas pelas devastações da guerra. &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;Vejo o preconceito como um vírus mortal que ameaça infectar todos os cérebros humanos deste planeta. O funcionamento do vírus é simples: precisa de um organismo onde possa desenvolver-se, e também precisa de vítimas. &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;Na Bósnia, as vítimas foram inumeráveis. O meu amigo Davor, por exemplo. Era estudante de medicina dentária quando o “vírus do preconceito” o atingiu. Era um bósnio croata, de religião católica. A família dele, tal como a minha, estava implantada em Sarajevo há quinhentos anos. A 8 de Outubro de 1994, soldados bósnio-sérvios dispararam tiros de metralhadora contra um eléctrico cheio de civis. Houve dois mortos e sete feridos, entre os quais Davor. Uma bala atravessou-lhe o braço direito, deixando-o paralisado e marcado com uma horrorosa cicatriz púrpura. &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;— Não percebi que estava ferido até ao momento em que vi a minha mão cheia de sangue — contava-me Davor. — E sabes uma coisa? Pior do que a dor, tinha uma pergunta a martelar-me a cabeça: porque é que eles me fizeram aquilo? Não estava no exército. Nem sequer os conhecia. &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;Ao evocarmos o fim da guerra, a “protecção” que a NATO tinha decidido conceder-nos, baixou a voz: &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;— Não tenho confiança nesta paz. Quero ir-me embora. Os meus pais recusam exilar-se, dizem que a nossa família se estabeleceu em Sarajevo há já muito tempo. Mas eu vou partir. Quero recomeçar a minha vida longe de tudo isto.&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;Não disse nada a Davor, mas perguntei-me se seria de facto possível encontrar uma terra prometida onde escapar ao “vírus do preconceito”. Recordo-me bem demais das minhas viagens ao estrangeiro. Daquele amigo australiano instalado em Londres, que me dizia: – Se vir um negro pôr um pé no meu relvado, dou-lhe um tiro. Ou daquela cena que testemunhei numa rua de Toulouse: dois rapazitos negros a perseguirem uma jovem, chamando-lhe branca mal-cheirosa... Por toda a Europa, a linguagem está contaminada pelo preconceito. Há o “negro”, a “mal-cheirosa”, o “judeu”, o “árabe nojento” ou o “chinoca”.&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;Antes da guerra, costumava encolher os ombros quando ouvia esta linguagem injuriosa. Dizia para comigo que as coisas eram assim mesmo, que muitas vezes as palavras ultrapassavam o pensamento, mas que, pelo menos na Europa, a situação nunca poderia degenerar. Mas pôde. Chegou até nós, na Bósnia, e também àquela pequena região que, não há muito, fazia parte do meu país: o Kosovo. &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;A guerra dos preconceitos faz vítimas em todo o lado. Deixa atrás de si feridos, estropiados para o resto da vida, e deixa também aqueles a quem se dá o nome de “refugiados”, um termo que se vulgarizou, e é usado para descrever o drama das pessoas que nunca mais poderão voltar para casa. &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;Lembro-me de Sandra, aquela jovem habitante de Sarajevo, de origem sérvia, que recusava todos os nacionalismos. Durante a guerra, os pais tinham deixado o apartamento deles no centro da cidade para se refugiarem no bairro de Grbavica, dominado pelo exército bósnio-sérvio, na esperança de escaparem às balas e aos obuses. Parece que estou a vê-la naqueles últimos dias de guerra, a tremer dentro de um velho casaco do exército, à espera de ser revistada pelos militares, para entrar no centro de Sarajevo e visitar os amigos do liceu que não via há três anos. Mal sabia o que o futuro lhe reservava. A família não podia ir viver para a Sérvia: sem dinheiro, sem parentes que os acolhessem, estavam condenados à errância. &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;— Hoje em dia, em Grbavica, as pessoas estão com medo — dizia-me. — Sentem-se ameaçadas. Não acreditam que o governo muçulmano vá protegê-las. Toda a gente está a fugir para as montanhas... Não sei o que fazer. &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;No dia seguinte, soube da notícia: os residentes sérvios de Grbavica tinham sido atacados por milícias sérvias nacionalistas, que lhes ordenaram que deixassem a cidade antes do governo bósnio voltar a tomar posse daquele bairro. Incendiavam os apartamentos e, sob a ameaça das armas, forçavam, uma vez mais, as famílias a exilar-se. O preconceito, nascido do medo e do pretexto de defender os interesses de um determinado grupo, estava a virar-se contra os seus próprios princípios! Nacionalistas sérvios destruíam casas sérvias e agrediam cidadãos sérvios para os “proteger”... de quê, na verdade? Do mal que lhes poderia fazer um governo de predominância muçulmana? &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;Julgo que aquele momento foi um summum de estupidez no meio de toda aquela loucura assassina... &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;Ainda hoje, a paisagem conserva as marcas: casas demolidas, aldeias inteiras riscadas do mapa, terras até há pouco cultivadas e de ora em diante desertas, campos fantasmas, infra-estruturas destruídas... O nosso país ficou mutilado como um ferido de guerra. Foi destruído, não por um ciclone ou um tremor de terra, mas pelo ódio dos homens. &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;E não consigo deixar de pensar em Mustafá. &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;Não tinha ligações políticas. Apesar da sua origem muçulmana, e tal como muitos muçulmanos da Bósnia, nem praticante era. Era apenas um lixeiro da Jugoslávia socialista que, depois da Bósnia ter proclamado a sua independência, estava prestes a ser um lixeiro da República da Bósnia. &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;Mas, um belo dia, um atirador cego pelo preconceito, transtornado pela ideia de que a identidade ou a fé do outro pudessem ameaçar a sua causa nacionalista, fez bascular o destino. Empunhou a arma, disparou e transformou Mustafá num enfermo. &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;No momento em que escrevo estas linhas, Mustafá deve estar a dormir na sua cama de hospital. Acordará amanhã de manhã, para fazer, como todos os dias, os seus dolorosos exercícios de reeducação. Mas, apesar de todos os esforços, nunca mais voltará a andar. Ficou paralítico para toda a vida. &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;Outra vítima de uma nação, mais uma, atingida pelo vírus do preconceito.&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;/span&gt;&lt;div align="right"&gt;&lt;span style="color:#663333;"&gt;S. K.&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;span style="color:#663333;"&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="right"&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-size:85%;color:#663333;"&gt;&lt;em&gt;Traduzido do inglês por Marianne Costa.&lt;/em&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="right"&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-size:85%;color:#663333;"&gt;Atelier Post-Scriptum&lt;br /&gt;&lt;em&gt;Une guerre en Europe&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;Paris, Hachette Jeunesse, 1999&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="right"&gt;&lt;em&gt;&lt;span style="font-size:85%;color:#663333;"&gt;Tradução e adaptação&lt;/span&gt;&lt;/em&gt;&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/3848387236642605066-3726707302505106169?l=olharaintolerancia.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://olharaintolerancia.blogspot.com/feeds/3726707302505106169/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=3848387236642605066&amp;postID=3726707302505106169' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/3848387236642605066/posts/default/3726707302505106169'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/3848387236642605066/posts/default/3726707302505106169'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://olharaintolerancia.blogspot.com/2007/06/primeira-vez-que-vi-mustaf-foi-no.html' title='O vírus do preconceito'/><author><name>Div. temas</name><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-3848387236642605066.post-8716678308079314879</id><published>2007-06-11T15:16:00.000-07:00</published><updated>2007-06-21T13:54:49.469-07:00</updated><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='Paz'/><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='anti-semitismo'/><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='Histórias'/><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='História'/><title type='text'>A estrela de Erika - Ruth Vander Zej</title><content type='html'>&lt;p align="justify"&gt;&lt;span style="color:#993300;"&gt;&lt;span style="font-size:120;"&gt;&lt;span style="LINE-HEIGHT: 155%"&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="color:#333300;"&gt;Nota da autora&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;p align="justify"&gt;&lt;span style="color:#993300;"&gt;&lt;span style="font-size:120;"&gt;&lt;span style="LINE-HEIGHT: 155%"&gt;&lt;em&gt;&lt;span style="color:#333300;"&gt;Em 1995, cinquenta anos depois do fim da Segunda Guerra Mundial, encontrei a mulher de que fala esta história. O meu marido e eu estávamos sentados na beira de um passeio em Rothenburg, na Alemanha. Observávamos uns trabalhadores a limparem as ruínas do telhado da Câmara. Na noite anterior, um tornado tinha-se abatido sobre esta bonita aldeia medieval. Havia entulho um pouco por todo o lado. Um velho comerciante disse-nos que os estragos causados por este tornado se assemelhavam aos da última ofensiva dos Aliados durante a guerra. O comerciante entrou na sua loja, e uma senhora, sentada perto de nós, apresentou-se como sendo Erika. &lt;/span&gt;&lt;/em&gt;&lt;/p&gt;&lt;p align="justify"&gt;&lt;em&gt;&lt;span style="color:#333300;"&gt;Perguntou-nos se tínhamos vindo fazer turismo naquela região. Quando lhe disse que vínhamos de Jerusalém, onde passáramos duas semanas a fazer pesquisas, confessou-nos, com um suspiro, que desejava muito lá ir mas que não tinha dinheiro para a viagem. Ao ver uma estrela de David pendurada ao seu pescoço, disse-lhe que, no regresso de Israel, tínhamos passado pelo campo de concentração de Mauthausen, na Áustria. Erika confessou-nos que, um dia, tinha tentado visitar o campo de Dachau, mas que não conseguira franquear a porta.&lt;/span&gt;&lt;/em&gt;&lt;/p&gt;&lt;p align="justify"&gt;&lt;em&gt;&lt;span style="color:#333300;"&gt;Depois, contou-nos a sua história…&lt;/span&gt;&lt;/em&gt;&lt;/p&gt;&lt;p align="justify"&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="color:#333300;"&gt;Entre 1933 e 1945, seis milhões de homens e mulheres do meu povo foram mortos. Muitos foram fuzilados. Muitos morreram de fome. Muitos foram incinerados nos fornos ou asfixiados nas câmaras de gás. Eu escapei. &lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;p align="justify"&gt;&lt;span style="color:#333300;"&gt;Nasci em 1944. &lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;p align="justify"&gt;&lt;span style="color:#333300;"&gt;Não sei o dia. &lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;p align="justify"&gt;&lt;span style="color:#333300;"&gt;Não sei como me chamava ao nascer. &lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;p align="justify"&gt;&lt;span style="color:#333300;"&gt;Não sei em que cidade nem em que país nasci. &lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;p align="justify"&gt;&lt;span style="color:#333300;"&gt;Não sei se tive irmãos ou irmãs.&lt;br /&gt;O que sei é que, apenas com alguns meses, escapei ao Holocausto. &lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;p align="justify"&gt;&lt;span style="color:#333300;"&gt;Imagino muitas vezes como seria a vida dos membros da minha família durante as últimas semanas que passámos juntos. Imagino o meu pai e a minha mãe, despojados de todos os seus bens, forçados a abandonar a sua casa, enviados para o gueto. &lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;p align="justify"&gt;&lt;span style="color:#333300;"&gt;Talvez depois tenhamos sido expulsos do gueto. De certeza que os meus pais tinham pressa de deixar o bairro rodeado de arame farpado para onde tinham sido relegados, de escapar ao tifo, ao excesso de pessoas, à imundície e à fome. Mas teriam alguma ideia do local para onde estavam a ser enviados? Ter-lhes-iam dito que iam para um local mais acolhedor, onde teriam comida e trabalho? Terão chegado até eles os rumores sobre os campos da morte? &lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;p align="justify"&gt;&lt;span style="color:#333300;"&gt;Pergunto-me o que terão sentido quando os conduziram à estação, juntamente com centenas de outros judeus. Amontoados num vagão de transporte de animais. De pé, uns contra os outros, por falta de espaço. Terão entrado em pânico quando ouviram correr os ferrolhos? &lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;p align="justify"&gt;&lt;span style="color:#333300;"&gt;De aldeia em aldeia, o comboio deve ter atravessado paisagens campestres estranhamente poupadas ao terror. Durante quantos dias ficámos naquele comboio? Quantas horas os meus pais passaram apertados um contra o outro? &lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;p align="justify"&gt;&lt;span style="color:#333300;"&gt;Imagino que a minha mãe devia ter-me bem encostada a ela para me proteger dos maus cheiros, dos gritos, do medo, que reinavam neste vagão lotado. Tinha de certeza compreendido que não íamos para um lugar seguro. &lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;p align="justify"&gt;&lt;span style="color:#333300;"&gt;Pergunto-me onde estaria exactamente. No meio do vagão? O meu pai estaria junto dela? Ter-lhe-á dito que fosse corajosa? Terão falado do que iam fazer? &lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;p align="justify"&gt;&lt;span style="color:#333300;"&gt;Quando teriam tomado aquela decisão? Será que a minha mãe disse “Desculpa. Desculpa. Desculpa.”? Terá aberto a custo um caminho por entre aquela mole humana até à janela do vagão? Terá murmurado o meu nome ao embrulhar-me num cobertor bem quente? Terá coberto a minha cara de beijos e dito que me amava? Terá chorado? Rezado? &lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;p align="justify"&gt;&lt;span style="color:#333300;"&gt;Logo que o comboio abrandou, ao atravessar uma aldeia, a minha mãe deve ter espreitado pela fresta do vagão. Ajudada pelo meu pai, deve ter afastado o arame farpado que ocultava a abertura. Deve ter esticado os braços para a luz pálida do dia. A única coisa que sei com certeza foi o que aconteceu a seguir. &lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;p align="justify"&gt;&lt;span style="color:#333300;"&gt;A minha mãe atirou-me pela janela do comboio. &lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;p align="justify"&gt;&lt;span style="color:#333300;"&gt;Atirou-me para cima de um pequeno quadrado de relva, junto de uma passagem de nível. Havia pessoas à espera de que o comboio passasse; viram-me cair do vagão de carga. No caminho que conduzia à morte, a minha mãe lançou-me à vida.&lt;br /&gt;Alguém pegou em mim e levou-me para casa de uma mulher que se ocupou de mim. Que arriscou a vida por mim. Calculou a minha idade e atribuiu-me uma data de nascimento. Decidiu que me chamaria Erika. Deu-me um lar. Alimentou-me, vestiu-me, mandou‑me à escola. Fez tudo por mim. &lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;p align="justify"&gt;&lt;span style="color:#333300;"&gt;Casei aos vinte e um anos com um homem maravilhoso. Ele aliviou muita da tristeza que me assaltava com frequência, percebeu o meu desejo de pertencer a uma família. Tivemos três filhos, que hoje têm os seus filhos também. No rosto deles, reconheço o meu. &lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;p align="justify"&gt;&lt;span style="color:#333300;"&gt;Dizia-se outrora que o meu povo seria um dia tão numeroso como as estrelas do céu. Entre 1933 e 1945 caíram seis milhões de estrelas do céu. Cada uma delas corresponde a um membro do meu povo, cuja vida foi rasgada, cuja árvore genealógica foi arrancada. &lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;p align="justify"&gt;&lt;span style="color:#333300;"&gt;A minha árvore lançou raízes.&lt;br /&gt;A minha estrela ainda brilha.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;p align="right"&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-size:85%;"&gt;&lt;span style="color:#333300;"&gt;Ruth Vander Zej ;Roberto Innocenti&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;span style="color:#333300;"&gt;&lt;em&gt;L’étoile d’Erika&lt;br /&gt;&lt;/em&gt;Toulouse, Milan Jeunesse, 2003&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;p align="right"&gt;&lt;span style="font-size:85%;color:#333300;"&gt;tradução e adaptação&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;p align="right"&gt;&lt;span style="font-size:85%;"&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;p align="justify"&gt;&lt;span style="font-size:85%;"&gt;&lt;span style="font-size:100%;color:#000000;"&gt;Retirado com autorização do blogue &lt;/span&gt;&lt;strong&gt;&lt;a href="http://planeta-eclipse.blogspot.com/2007/05/estrela-de-erika.html"&gt;Violência, que futuro para a humanidade? &lt;/a&gt;&lt;/strong&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;span style="color:#993300;"&gt;&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/3848387236642605066-8716678308079314879?l=olharaintolerancia.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://olharaintolerancia.blogspot.com/feeds/8716678308079314879/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=3848387236642605066&amp;postID=8716678308079314879' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/3848387236642605066/posts/default/8716678308079314879'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/3848387236642605066/posts/default/8716678308079314879'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://olharaintolerancia.blogspot.com/2007/06/estrela-de-erika.html' title='A estrela de Erika - Ruth Vander Zej'/><author><name>Div. temas</name><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-3848387236642605066.post-794833468731094939</id><published>2007-06-11T14:56:00.000-07:00</published><updated>2007-06-21T13:53:58.612-07:00</updated><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='Paz'/><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='Histórias'/><title type='text'>O soldadinho, a menina e a pomba - Leonel Neves</title><content type='html'>&lt;span style="font-size:120;"&gt;&lt;span style="LINE-HEIGHT: 155%"&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;O soldado marchava de cá para lá, de lá para cá, na rua sem mais ninguém, diante da porta aberta do quartel. De farda especial e capacete, com a mão direita no punho da espingarda automática encostada ao braço, marchava vinte passos para lá; então parava, batendo com as botas no chão, para fazer meia-volta; e depois marchava vinte passos para cá, para fazer outra meia-volta e continuar a andar os mesmos vinte passos.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Estava de sentinela. De guarda ao quartel, era sua obrigação ver muito bem a entrada e a saída de militares e atender alguma pessoa estranha que por ali aparecesse. &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;Chegara no seu posto meia-hora antes, ainda quase de noite. Como então havia nevoeiro e muito frio, marchara muitas vezes de cá para lá, de lá para cá, batendo com as botas no chão, com muita força, para se aquecer. E, de vez em quando, metera-se dentro da guarita, aquela casota de madeira de onde, mais abrigado, podia continuar a ver tudo o que perto dele acontecesse. Dentro de nevoeiro, parado ou só podendo andar os tais vinte passos, o soldado fazia lembrar um peixe num aquário. &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;Agora lá andava ele, de um lado para o outro, diante da porta aberta do quartel, onde ninguém entrava e de onde ninguém saía. A rua estava deserta. Nem sequer o Sol, que decerto já tinha nascido, conseguira furar o nevoeiro que toda a noite tinha sido uma manta a embrulhar a cidade. Agora era como um lençol quase transparente, esburacado, mas ainda mal deixava ver muitas casas, algumas árvores e mesmo parte daquela rua. &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;Ora, a certa altura, o soldado ouviu um leve rumor e viu um pequeno vulto que se aproximava. Logo interrompeu a sua marcha, mesmo junto da guarita, e, com muita atenção, ficou a olhar e foi como se, de repente, a manhã tivesse finalmente começado a descer a larga rua do quartel. Uma menina de bibe branco, boina e sandálias vermelhas, com uma malinha às costas, vinha andando na direcção dele, pulando às vezes, às vezes parando; e, batendo as asas em volta dela, um pombo cinzento rosado, da cor da madrugada, vinha voando com a menina. Mas ela, após três ou quatro passos, parava: e o pombo, então, procurava-lhe as mãos, como se quisesse beijá-las. Assim de longe, lembrava uma borboleta a querer poisar numa flor que tivesse começado a andar. &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;O soldado estacara junto da guarita, imóvel, em posição de descanso, com as pernas afastadas, as mãos cruzadas à sua frente, a segurar o punho da espingarda automática que parecia agora adormecida ao colo dele. &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;Com a menina e o pombo já mais perto, percebia melhor o que estava acontecendo. A pequenita trazia nas mãos um cartucho, donde tirava bagos de milho que o pombo lhe ia comendo na palma da mão. E, de súbito, veio correndo até junto do soldado e parou diante dele, com a ave empoleirada num dos ombros. Então disse: &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;— Bom dia! &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;Antes de responder, ele descruzou as mãos e ficou com a direita caída a segurar a arma ao longo do braço, e a esquerda muito esticada junto à coxa, ao mesmo tempo que unia os calcanhares, com um grande estalo das botas. Estava em sentido. E ia falar, quando o pombo começou a esvoaçar e a menina a rir. &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;Devia ter uns sete ou oito anos, muito pequeninos e alegres. Alguns caracóis de cabelo negro escapavam-se da boina vermelha, sobre uns grandes e lindos olhos verdes, num rosto de ar travesso, com um sinalzinho preto à esquerda do nariz arrebitado. E toda ela, desde a boina à boca, ria. &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;— É por mim que fazes isso? — perguntou, com o pombo empoleirado no outro ombro. &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;— Uma sentinela deve pôr-se em sentido quando fala com um civil — respondeu o soldado. &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;— Ai, eu sou um civil — exclamou ela, ainda a rir. — Pois não vês que sou uma menina? &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;— Bem vejo que é uma menina. Deseja alguma coisa? &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;— Sim. Quero saber se viste passar o meu avô. &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;— O seu avô? Não, não vi. Desde que aqui estou, ninguém entrou nem saiu. E há quase meia hora que ninguém passa por esta rua. &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;— Então, não viste o meu avô? — murmurou a pequenita, muito desgostosa. &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;E, enquanto tirava do cartucho um bago de milho para o pombo, lamentou-se: &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;— Sem o meu avô não sei como hei-de resolver o meu problema. Tu é que talvez possas ajudar-me... &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;— A menina precisa de ajuda? &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;Ela fez uma careta de impaciência: &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;— Ai, não faças tanta cerimónia! Porque é que continuas em sentido e a tratar-me por menina? Olha, eu sou a Renata. E esta é a Rita, acrescentou, dando à pomba outro bago de milho. E tu? &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;— Eu sou o 154. &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;— O 154? Ora! Trata-me por tu e diz-me o teu nome. &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;— Ernesto. Na tropa sou o 154, mas chamo-me Ernesto. Mas como é que a menina... &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;— Como é que tu... &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;— Está bem! Como é que tu sabes que é uma pomba? &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;— Como é que eu sei! — exclamou a pequenita, abanando a cabeça. — Sei porque sou muito amiga dela, porque fui eu que lhe pus o nome de Rita, porque é minha vizinha e porque anda a chocar uns ovos que eu quase a vi pôr. E esse é que é o problema! &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;— Que problema? &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;Então a Renata explicou qual o problema, acrescentando que era grave. A Rita andava a chocar os seus ovos, em breve ia ser mãe e precisava de comer muito bem, para poder criar uns pombinhos fortes e bonitos como ela. Por isso, todas as manhãs, antes de ir para a escola, costumava dar-lhe milho. Mas naquele dia acordara mais tarde e tinha-se visto obrigada a trazer a pomba com ela, porque a Rita estava habituada a comer bagos, um a um e pouco a pouco, nas mãos da sua amiga Renata. Ora ela tinha de ir já para a escola e só metera por aquela rua para encontrar o avô, que tinha vindo para ali poder dar à pomba o resto do milho... &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;E, com um ar muito contrariado, concluiu: &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;— Mas tu dizes que não viste o meu avô... Portanto, como não vejo aqui mais ninguém, só tu é que podes ajudar-me. &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;— Eu? Tenho muito pena, mas não pode ser. Eu estou de sentinela. &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;— Já sei! Mas tu mesmo disseste que ninguém tem passado por aqui. Por isso, ninguém pode ver. E eu não conto nada. Olha que já faltam poucos bagos — disse a Renata, dando mais um à pomba que não ficava quieta. &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;— Tenho muito pena... &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;— Ernesto, Ernesto! — exclamou a menina, olhando-o com uma expressão muito triste. — Pareces um rapaz muito simpático, mas afinal... &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;Ele tinha, de facto, um aspecto muito simpático. Baixo, loiro, de olhos azuis, corado e quase imberbe, era naturalmente risonho. Mas agora estava preocupado. &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;— Não posso, Renata. Se alguém me visse... Se o nosso sargento me apanhasse... &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;A pomba continuava a bater as asas, à roda do cartucho. A menina, abanando a cabeça, murmurava: &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;— E eu tenho de ir já para a escola! Tu bem podias, se quisesses... E agora? &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;Foi então que, vendo que duas lágrimas o espreitavam daqueles grandes e lindos olhos verdes, o soldado não resistiu mais. &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;— Pronto! Dá cá o milho e vai depressa para a escola. Eu cá trato da Rita... e seja o que Deus quiser! &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;Como o Ernesto se inclinava para ela, para melhor agarrar o cartucho, a menina pendurou-se-lhe ao pescoço e deu-lhe um grande beijo, dizendo: &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;— Eu juro que não conto nada a ninguém. Só hei-de dizer ao meu avô que encontrei hoje um soldadinho muito bom e muito bonito. Adeus, amigo Ernesto! &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;E deixando a pomba a esvoaçar em volta da sentinela, a Renata desatou a correr a caminho da escola, sem olhar para trás, mesmo de costas acenando adeus. &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;Risonho e pensativo, o soldado ficou a ver a menina desaparecer. Mas a pomba picava-lhe a mão... Despertou e só então desfez a posição de sentido, passando à de descanso: com a espingarda automática ao colo, as pernas afastadas e as mãos à frente, amparando o punho da arma... mas abertas, uma com o cartucho, a outra com a pomba.&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;Olhou à sua volta: ninguém! Até o nevoeiro parecia voltar de novo, a querer ajudá-lo. E o Ernesto deu à Rita mais um bago de milho. &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;De repente, vindo do quartel, um som de clarim estilhaçou o silêncio. Estremeceu, mas logo se acalmou, pensando: «É o toque do rancho, para o pequeno-almoço. Agora não é provável que alguém venha à porta.» &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;Continuou a dar o milho à Rita, contando os bagos que restavam: eram três. Pô-los na concha da mão, deitando fora o cartucho, logo arrastado pelo vento que acordara e desfazia os últimos farrapos de nevoeiro. O sol ia já doirando as coisas. E, quando havia um só bago de milho, o soldadinho, muito distraído, pressentiu de repente alguém que vinha já muito perto dele. Ao perceber quem era, quase desmaiou. &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;Como estava inclinado para a pomba, ao princípio só viu, pisando o chão, um par de botins ou botas altas. «Oficial ou sargento?» — pensou. Eram botas altas: «Oficial!». Depois, nos ombros, muitos galões amarelos, um largo e três estreitos: «Coronel! Coronel?». Por fim, um monóculo a faiscar ao Sol agora todo descoberto: «O nosso Comandante!» &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;Ora tudo isso, o que ele via e o que ele ia pensando, não demorou mais do que um segundo. E, nesse segundo, o soldado compreendeu que aquele oficial muito alto e magro, sempre sério e de monóculo, que estava quase junto dele, era nem mais nem menos do que o excelentíssimo senhor coronel Rijo, o Comandante do Regimento! &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;Imediatamente se pusera em sentido. A pomba, assustada com o bater dos calcanhares, afastara-se um pouco. E o último bago de milho, que não deixara cair no chão, não fosse o coronel vê-lo, ficara bem apertado pela mão encostada à perna esquerda. Mas agora, como o Comandante do Regimento tinha chegado ao quartel, era sua obrigação de sentinela dar um grito de alarme: «Às armas!» &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;Era assim: ele bradava às armas, a guarda vinha logo, a correr, e formava junto da sentinela; o corneteiro tocava, de maneira que, em qualquer parte do quartel, toda a gente ficava sabendo que chegara o Comandante, e por isso devia pôr-se em sentido; e a guarda apresentava armas, o Comandante fazia a continência, e só então entrava.&lt;br /&gt;Ora já ele ia abrindo a boca, pronto a gritar, quando o coronel fez com a mão um gesto muito claro e firme, a dizer-lhe que não, que se mantivesse calado. E ele ficou de boca aberta, atrapalhado, com a pomba, que voltara logo, empoleirada num ombro. Resolveu então fazer o movimento de «apresentar armas»: a espingarda vertical, com a ponta em frente do nariz, segura pela mão direita no punho e pela mão esquerda um pouco mais para acima. Já manejava a arma, quando novamente o Comandante lhe fez um sinal para ficar quieto. Obedeceu, retomando a posição de sentido. E, aproveitando a confusão dos seus próprios gestos, com a boca ainda aberta, para lá atirou o bago de milho. &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;«Se for preciso, engulo-o...», pensou. &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;Mas não foi preciso. O Comandante manteve-se por momentos parado diante da sentinela em sentido e com a pomba no ombro esquerdo. Depois disse, em voz baixa: &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;— Descansar! &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;O soldado hesitou um pouco... mas, como os comandantes é que mandam, executou o movimento. A pomba, essa, limitou-se a passar para o ombro direito. O coronel olhou-os mais uns segundos. Depois, sem uma palavra, dirigiu-se para a porta do quartel. &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;Na boca de Ernesto, o bago de milho era agora como um bago de chumbo. Por isso, empurrou-o com a língua, até o entalar entre os dentes. Mas, antes que tivesse tempo de soprá-lo para o chão, a pomba saltou-lhe do ombro e foi comer-lhe, na boca, aquele último bago. &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;Ora o Comandante, que ia mesmo a entrar, voltou-se nesse instante. E viu, junto da guarita, o soldado em descanso, de cabeça parada, com a pomba a tocar-lhe os lábios com o bico, exactamente como se estivesse a beijá-lo. &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;Então a sentinela agitou levemente as mãos (seria um gesto de adeus?) e a pomba voou para longe, no momento em que o Comandante entrava finalmente no quartel.&lt;/div&gt;&lt;div align="right"&gt;&lt;br /&gt;Leonel Neves&lt;/div&gt;&lt;div align="right"&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-size:85%;"&gt;Manuela Fonseca e outros (org.)&lt;br /&gt;&lt;em&gt;Lá longe, a paz&lt;/em&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="right"&gt;&lt;span style="font-size:85%;"&gt;Porto, Edições Afrontamento, 2001&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;span style="font-size:85%;"&gt;&lt;span style="color:#cc0000;"&gt;Texto retirado com autorização do blogue &lt;strong&gt;&lt;a href="http://espaco-esperanca.blogspot.com"&gt;Caminhos para a paz&lt;/a&gt;&lt;/strong&gt;&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/3848387236642605066-794833468731094939?l=olharaintolerancia.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://olharaintolerancia.blogspot.com/feeds/794833468731094939/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=3848387236642605066&amp;postID=794833468731094939' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/3848387236642605066/posts/default/794833468731094939'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/3848387236642605066/posts/default/794833468731094939'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://olharaintolerancia.blogspot.com/2007/06/o-soldadinho-menina-e-pomba-leonel.html' title='O soldadinho, a menina e a pomba - Leonel Neves'/><author><name>Div. temas</name><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-3848387236642605066.post-109535516552425092</id><published>2007-06-11T14:22:00.000-07:00</published><updated>2007-06-21T13:53:58.612-07:00</updated><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='Histórias'/><title type='text'>Os mil pássaros de Sadako - Eleanor Coerr</title><content type='html'>&lt;div align="justify"&gt;&lt;em&gt;Prólogo&lt;/em&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;span style="font-size:120;"&gt;&lt;span style="LINE-HEIGHT: 155%"&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="color:#660000;"&gt;&lt;span style="font-size:100%;"&gt;O livro &lt;em&gt;Os Mil Pássaros de Sadako&lt;/em&gt; é baseado na vida de uma menina que viveu no Japão de 1943 a 1955. &lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;span style="font-size:120;"&gt;&lt;span style="LINE-HEIGHT: 155%"&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-size:100%;color:#660000;"&gt;Sadako morava em Hiroshima quando a aviação americana largou uma bomba atómica sobre a cidade. Morreu dez anos depois, devido às radiações emitidas pela bomba.&lt;br /&gt;Graças à sua coragem, Sadako tornou-se uma heroína para todas as crianças japonesas. Esta é a sua história.&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;span style="color:#660000;"&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;&lt;span style="font-size:100%;"&gt;Um dia de sorte&lt;/span&gt;&lt;/em&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;span style="color:#660000;"&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-size:100%;"&gt;Sadako tinha nascido para correr. A mãe gostava de dizer que Sadako sabia correr mesmo antes de saber andar…&lt;br /&gt;Nessa manhã de Agosto de 1954, no Japão, mal Sadako acabou de se vestir, desatou a correr para a rua. O sol nascente fazia realçar os reflexos de cobre dos seus cabelos pretos. Nenhuma nuvem escurecia o céu azul. «É bom sinal», disse para consigo Sadako, que estava atenta ao menor presságio.&lt;br /&gt;De regresso a casa, viu que os irmãos ainda dormiam, deitados nos seus pequenos colchões. Sacudiu Masahiro, o irmão mais velho:&lt;br /&gt;— Levanta-te, preguiçoso, é o Dia da Paz!&lt;br /&gt;Masahiro resmungou e bocejou. Como qualquer rapaz de catorze anos, gostava de se levantar tarde. Só que a fome já apertava e da cozinha vinha um delicioso aroma de sopa de peixe. Masahiro levantou-se, seguido de Mitsue e Eiji.&lt;br /&gt;Sadako ajudou Eiji a vestir-se. Eiji tinha seis anos mas, às vezes, ainda perdia uma meia ou a camisola interior. Em seguida, ajudada pela irmã, Mitsue, Sadako dobrou os colchões e arrumou-os no armário. Entrou depois na cozinha, como se fosse um turbilhão, e disse à mãe:&lt;br /&gt;— Mamã, estou tão impaciente por ir ao carnaval! Será que poderíamos tomar o pequeno-almoço mais cedo?&lt;br /&gt;A mãe de Sadako estava a cortar cuidadosamente rabanetes marinados, para servir com o arroz e a sopa. Lançou-lhe um olhar severo e ralhou com ela:&lt;br /&gt;— Tens onze anos, minha filha. Na tua idade, já não devias chamar “carnaval” a este dia de recolhimento. Todos os anos, a 6 de Agosto, celebramos a memória daqueles que morreram quando a bomba atómica foi lançada sobre a nossa cidade.&lt;br /&gt;O senhor Sasaki entrou pela porta das traseiras e secundou o que dissera a esposa:&lt;br /&gt;— É verdade. Tens de mostrar respeito. A tua avó foi morta nesse dia funesto.&lt;br /&gt;Sadako protestou:&lt;br /&gt;— Mas eu respeito a avó. Rezo por ela todas as manhãs. Só que hoje estou tão contente…&lt;br /&gt;O pai interrompeu-a:&lt;br /&gt;— A propósito, é tempo de fazermos as nossas orações.&lt;br /&gt;A família Sasaki reuniu-se em torno do pequeno altar onde se encontrava a fotografia da avó, colocada numa moldura dourada. Sadako ergueu os olhos para o tecto e perguntou-se se o espírito da avó estaria a pairar sobre eles.&lt;br /&gt;O pai interpelou-a:&lt;br /&gt;— Sadako!&lt;br /&gt;A rapariga baixou a cabeça imediatamente. Dançou com os dedos do pé enquanto o pai rezava em voz alta. O senhor Sasaki pediu que o espírito dos seus antepassados estivesse em paz. Agradeceu o salão de cabeleireiro e os filhos maravilhosos que tinha. Rezou para que a leucemia, a chamada “doença da bomba”, não afectasse a família.&lt;br /&gt;Muitos Japoneses ainda morriam devido a esta doença, embora a bomba tivesse sido lançada nove anos antes. A atmosfera tinha ficado saturada de radiações, e as pessoas, como que envenenadas para o resto das suas vidas.&lt;br /&gt;Ao pequeno-almoço, Sadako engoliu a sopa e o arroz. Masahiro falou de raparigas que pareciam dragões esfomeados, mas a irmã nem o ouviu. Estava a pensar no que se tinha passado no ano anterior: os banhos de multidão, a música, o fogo de artifício. Ainda sentia o gosto do algodão-doce na boca.&lt;br /&gt;Foi a primeira a acabar o pequeno-almoço e quase virou a mesa ao levantar-se. Era alta para a idade e as suas pernas compridas atravessavam-se no seu caminho.&lt;br /&gt;— Anda lá, Mitsue, ajuda-me a lavar a louça, para podermos sair mais depressa.&lt;br /&gt;Depois da cozinha limpa e arrumada, Sadako atou fitas vermelhas à ponta das suas tranças e saltitou junto à porta da entrada.&lt;br /&gt;A mãe disse-lhe, num tom gentil:&lt;br /&gt;— Sadako, só saímos às sete e meia. Senta-te e espera, sossegada, que estejamos todos prontos.&lt;br /&gt;Sadako sentou-se na esteira. Os pais nunca estavam com pressa! De repente, uma aranha aveludada atravessou a sala. Era um bom presságio. Sadako tinha a certeza de que aquele ia ser um dia fantástico. Colocou a aranha na palma da mão e deitou-a fora com cuidado.&lt;br /&gt;— Digam o que disserem, as aranhas nunca deram sorte! — disse Masahiro.&lt;br /&gt;— É o que veremos! — respondeu-lhe Sadako, alegremente.&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;/span&gt;&lt;span style="color:#660000;"&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;&lt;span style="font-size:100%;"&gt;O Dia da Paz&lt;/span&gt;&lt;/em&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;span style="color:#660000;"&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-size:100%;"&gt;A família Sasaki pôs-se a caminho. O dia estava quente e as ruas encontravam-se cheias de gente e de pó. Sadako correu ao encontro de Chizuko, a sua melhor amiga. Conheciam-se desde o infantário. Sadako sentia que iriam ser sempre muito boas amigas.&lt;br /&gt;Chizuko fez-lhe sinal e aproximou-se, sem pressa. Sadako suspirou. Se ao menos a amiga fosse mais rápida.&lt;br /&gt;— Que tartaruga! Despacha-te ou vamos perder tudo!&lt;br /&gt;— Sadako, anda mais devagar por causa do calor — avisou a mãe.&lt;br /&gt;Mas as raparigas já estavam no fim da rua. A senhora Sasaki franziu o sobrolho.&lt;br /&gt;— A Sadako tem sempre tanta pressa que nunca pára para me ouvir.&lt;br /&gt;— Já a viste caminhar, se podia correr, andar a pé coxinho, ou aos saltos? — perguntou-lhe o marido, orgulhoso da filha, que conseguia correr tão longe e tão depressa.&lt;br /&gt;À entrada do Parque da Paz, as pessoas, em silêncio, fizeram fila indiana. Nas paredes do monumento aos mortos estavam expostas fotografias das vítimas, tiradas um pouco por toda a cidade devastada. A bomba atómica, também chamada “bola de luz”, transformara Hiroshima num deserto.&lt;br /&gt;Sadako recusou-se a ver aquelas imagens assustadoras. Atravessou o edifício, apertando com força a mão de Chizuko.&lt;br /&gt;— Lembro-me da “bola de luz” — murmurou Sadako ao ouvido da amiga. O céu parecia iluminado por mil sóis. O calor trespassou-me como se mil agulhas estivessem a espetar-me!&lt;br /&gt;— Mas tu não passavas de um bebé! Como podes lembrar-te? — perguntou Chizuko.&lt;br /&gt;— Claro que me lembro! — teimou Sadako.&lt;br /&gt;Os sacerdotes budistas e o Presidente da Câmara pronunciaram discursos e depois alguém soltou centenas de pombas brancas, que fizeram um círculo em roda do templo de Genbaku. Para Sadako, estas pombas simbolizavam as almas dos mortos a elevarem-se, livres, no céu. Logo que as cerimónias acabaram, Sadako encaminhou a família para a senhora que vendia algodão-doce. A guloseima ainda sabia melhor do que no ano passado. O dia passou depressa, como sempre! Sadako observou tudo o que estava exposto nas prateleiras e cheirou a comida deliciosa. Havia lojas que vendiam de tudo, desde bolos de soja a grilos.&lt;br /&gt;Seria tudo perfeito se não tivesse de se cruzar com pessoas cheias de cicatrizes esbranquiçadas. Tinham ficado tão queimadas pela bomba que já quase não tinham aparência humana. Sadako não pôde impedir-se de virar a cara à primeira que se aproximou dela.&lt;br /&gt;O barulho da multidão aumentava à medida que a noite caía. Logo que o brilho do último fogo de artifício se esbateu no céu, a multidão dirigiu-se para o rio Ohta com lanternas de papel na mão. O senhor Sasaki tivera o cuidado de acender as velas no interior dos seis lampiões, um para cada membro da família. As lanternas ostentavam os nomes dos familiares mortos pela “bola de luz”. Sadako escolheu pôr o nome da avó na sua. Quando todas as chamas iluminaram a margem, cada um depôs a sua lanterna no rio Ohta, que as conduziria ao mar, como se fossem milhares de pirilampos a flutuar nas águas escuras.&lt;br /&gt;Nessa noite, Sadako demorou a adormecer. Tentou lembrar-se de tudo o que se tinha passado durante o dia. Afinal, Masahiro estava errado. No dia seguinte, Sadako iria dizer ao irmão que a aranha lhe tinha dado sorte.&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;/span&gt;&lt;span style="color:#660000;"&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;&lt;span style="font-size:100%;"&gt;O Segredo de Sadako&lt;/span&gt;&lt;/em&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;span style="color:#660000;"&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-size:100%;"&gt;No início do Outono, Sadako recebeu uma notícia tão boa que mal podia esperar para a contar à família. Quando chegou a casa, descalçou os sapatos e abriu a porta com grande alarido.&lt;br /&gt;— Cheguei!&lt;br /&gt;A senhora Sasaki preparava o jantar na cozinha.&lt;br /&gt;— Nem vais acreditar no que tenho para te dizer! Adivinha!&lt;br /&gt;— Passam-se tantas coisas maravilhosas na tua vida, Sadako. Desisto.&lt;br /&gt;— Lembras-te da corrida para a festa das escolas? Fui escolhida pela Turma Bambu para fazer parte da equipa de estafetas.&lt;br /&gt;Sadako dançava na cozinha e fazia voltear a pasta.&lt;br /&gt;— Se ganharmos, serei seleccionada para fazer parte da equipa do colégio!&lt;br /&gt;É o que Sadako mais desejava na vida.&lt;br /&gt;Ao jantar, o senhor Sasaki discorreu longamente sobre o orgulho e a honra familiares. Até Masahiro se sentiu emocionado. Sadako, demasiado excitada para engolir o que quer que fosse, sorria extasiada.&lt;br /&gt;A partir daquele momento, só pensava na corrida de estafetas. Treinava todos os dias e, às vezes, até vinha para casa a correr. Um dia, Masahiro cronometrou-a com o grande relógio do pai e o tempo de Sadako surpreendeu toda a gente. “Quem sabe”, sonhava, “se virei a ser a melhor corredora da escola?”&lt;br /&gt;O grande dia chegou por fim. Uma multidão de pais, familiares e amigos foi assistir às provas. Sadako estava tão nervosa que temia que as pernas não lhe obedecessem. As colegas de equipa pareciam-lhe, de repente, mais pequenas e menos fortes do que as adversárias. A menina confiou os seus receios à mãe, que a tranquilizou:&lt;br /&gt;— É natural que tenhas medo, filha. Mas não te preocupes. Quando estiveres na pista, vais sentir-te forte outra vez.&lt;br /&gt;Chegou a hora da prova.&lt;br /&gt;— Faz o melhor que puderes — disse o senhor Sasaki, pegando na mão da filha. — Temos muito orgulho em ti.&lt;br /&gt;Graças aos ternos encorajamentos dos pais, Sadako sentiu-se menos receosa. “Não importa se ganho ou perco; a minha família gosta de mim”, pensou.&lt;br /&gt;Quando deram o sinal de partida, Sadako concentrou-se. Logo que lhe entregaram o testemunho, correu até perder o fôlego. No fim da prova, o coração doía-lhe de tanto bater. Sadako sentiu-se mal. Tinha vertigens e quase não ouvia o anúncio da vitória da sua equipa. Em volta dela, toda a Turma Bambu aplaudia e gritava de alegria. Sacudiu a cabeça uma ou duas vezes e o mal-estar dissipou-se.&lt;br /&gt;Sadako passou o Inverno a tentar melhorar o seu tempo. Tinha de treinar todos os dias se quisesse entrar na equipa do colégio. Às vezes, depois de ter corrido muito, sentia vertigens, mas decidiu não falar disso a ninguém. Tentou convencer-se de que tudo estava bem, e de que as tonturas iriam desaparecer tão depressa quanto tinham aparecido. Mas não melhorou. Cheia de medo, escondeu este segredo de todos, inclusive da sua melhor amiga, Chizuko.&lt;br /&gt;Na véspera do ano novo, Sadako pediu que o seu mal-estar desaparecesse como por encanto. Tudo seria perfeito se não tivesse de carregar aquele fardo. À meia-noite, confortavelmente coberta com um edredão de penas, ouviu os sinos do templo. Dizia-se que, a cada badalada, os demónios do ano que findava eram expulsos para darem lugar ao novo ano. Sadako repetiu doze vezes o seu desejo.&lt;br /&gt;Na manhã seguinte, como de costume, a família Sasaki juntou-se à multidão que ia homenagear os mortos. A senhora Sasaki estava muito elegante no seu quimono de seda com flores estampadas. Prometeu a Sadako:&lt;br /&gt;— Quando puder, hei-de oferecer-te um lindo quimono. Uma rapariga da tua idade deve ter sempre um no guarda-roupa.&lt;br /&gt;Sadako agradeceu educadamente mas, naquele momento, ter um quimono era a menor das suas preocupações. Estava obcecada pelas corridas e pela equipa do colégio. No meio de tantas pessoas felizes, conseguiu, por instantes, esquecer o seu terrível segredo. A alegria daquele dia de Inverno afastou as suas inquietações. Ao regressar a casa, fez uma corrida com o irmão mais velho e bateu-o. A senhora Sasaki pendurou por cima da porta os símbolos de prosperidade, que protegeriam a casa ao longo do ano. Um ano que começava tão bem dificilmente acabaria mal.&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;/span&gt;&lt;span style="color:#660000;"&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;&lt;span style="font-size:100%;"&gt;Um segredo desvendado&lt;/span&gt;&lt;/em&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;span style="color:#660000;"&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-size:100%;"&gt;Durante várias semanas, as orações e os sinais de bom augúrio pareciam surtir efeito. Sadako sentia-se bem e corria cada vez mais longe e mais depressa.&lt;br /&gt;Mas o seu sonho terminou num dia de Fevereiro, frio e cruel. Sadako estava a correr no recreio da escola quando, de repente, começou a ver tudo à roda e caiu ao chão. Um professor precipitou-se para a ajudar.&lt;br /&gt;— Penso… penso que estou um pouco cansada — disse-lhe Sadako, com uma voz fraca.&lt;br /&gt;Quando tentou levantar-se, as pernas tremeram e cederam. O professor pediu a Mitsue que fosse para casa e prevenisse o senhor Sasaki.&lt;br /&gt;Este fechou imediatamente o salão de cabeleireiro e levou a filha ao hospital da Cruz Vermelha. Ao entrar no hospital, Sadako sentiu muito medo. Uma parte do edifício era reservada às pessoas que sofriam da doença da bomba.&lt;br /&gt;Alguns minutos mais tarde, Sadako foi admitida: uma enfermeira fez-lhe uma radiografia aos pulmões e tirou-lhe sangue para análise. O Dr. Numata examinou-lhe as costas e fez-lhe várias perguntas. Três outros médicos vieram também examiná-la. Um deles sacudiu a cabeça e passou-lhe a mão pelos cabelos.&lt;br /&gt;Toda a família de Sadako foi visitá-la. Os pais falavam com o médico em voz baixa. De repente, a senhora Sasaki exclamou:&lt;br /&gt;— Uma leucemia! Não pode ser!&lt;br /&gt;Mal ouviu aquela palavra aterradora, Sadako tapou os ouvidos. Como podia ela sofrer da doença, se a bomba nem lhe tocara? Uma enfermeira, a senhora Yasunaga, acompanhou-a ao quarto e deu-lhe uma espécie de quimono feito de algodão. Mal Sadako se deitou, a família entrou no quarto.&lt;br /&gt;A senhora Sasaki abraçou a filha.&lt;br /&gt;— Tens de ficar aqui durante algum tempo — disse-lhe, num tom de voz que se esforçava por ser alegre. — Virei ver-te todas as noites.&lt;br /&gt;— Nós… nós vimos depois da escola — prometeu Masahiro.&lt;br /&gt;Assustados, Mitsue e Eiji assentiram.&lt;br /&gt;— É verdade que tenho a doença da bomba? — perguntou Sadako ao pai.&lt;br /&gt;O olhar do senhor Sasaki toldou-se, mas tranquilizou a filha:&lt;br /&gt;— Os médicos querem fazer exames suplementares, é tudo! Penso que terás de ficar aqui duas ou três semanas.&lt;br /&gt;Duas ou três semanas! Mas isso era uma eternidade. Já não iam aceitá-la no colégio. Pior ainda: já não ia poder fazer parte da equipa de estafetas. Com um nó na garganta, Sadako reteve as lágrimas.&lt;br /&gt;A senhora Sasaki sacudiu as almofadas e ajustou a coberta. O pai tossicou.&lt;br /&gt;— Precisas…precisas de alguma coisa?&lt;br /&gt;Sadako abanou a cabeça. Do que ela precisava era de regressar a casa. Mas quando? Sente um nó no estômago. Ouviu dizer que muitas das pessoas que eram internadas nunca regressavam a casa.&lt;br /&gt;A senhora Yasunaga disse que Sadako tinha de descansar e que a hora das visitas terminara. Depois de todos se irem embora, a menina enfiou a cara na almofada e chorou. Nunca se tinha sentido tão só e infeliz na vida.&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;/span&gt;&lt;span style="color:#660000;"&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;&lt;span style="font-size:100%;"&gt;A grua dourada&lt;/span&gt;&lt;/em&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;span style="color:#660000;"&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-size:100%;"&gt;Na manhã seguinte, Sadako despertou devagar. Tentou ouvir os barulhos habituais da casa: a mãe a preparar o pequeno almoço…mas só lhe chegaram aos ouvidos os sons novos e diferentes do hospital. Suspirou fundo. Tinha desejado tanto que a véspera não tivesse passado de um sonho mau. Mas a chegada da senhora Yasunaga obrigou-a a encarar a realidade. Vinha dar-lhe a primeira injecção.&lt;br /&gt;— As injecções fazem parte da vida no hospital — cantarolou a enfermeira roliça. — Tens de te habituar.&lt;br /&gt;— Eu quero é ficar boa…para poder regressar a casa.&lt;br /&gt;De tarde, Sadako recebeu a sua primeira visita: Chizuko. A amiga sorria misteriosamente e trazia algo escondido atrás das costas.&lt;br /&gt;— Fecha os olhos — pediu Chizuko. Sadako obedeceu prontamente. A amiga colocou algumas folhas de papel e um par de tesouras em cima da cama.&lt;br /&gt;— Já podes abri-los.&lt;br /&gt;— O que é?&lt;br /&gt;Chizuko sorria. Estava muito contente com a surpresa que acabava de fazer à amiga.&lt;br /&gt;— Pensei muito naquilo que te faria sentir melhor — disse com orgulho. — Olha!&lt;br /&gt;Cortou um grande quadrado de papel dourado e, depois de o dobrar algumas vezes, mostrou o pássaro magnífico que tinha feito: era uma grua.&lt;br /&gt;— Mas como posso melhorar com um origami? — inquiriu Sadako, perplexa.&lt;br /&gt;— Não te lembras da lenda das gruas? — perguntou-lhe Chizuko. — Diz-se que vivem mil anos. Se uma pessoa doente fizer mil, os deuses escutarão as suas preces e curá-la-ão.&lt;br /&gt;Estendeu a grua à amiga.&lt;br /&gt;— Ofereço-te a primeira.&lt;br /&gt;Os olhos de Sadako encheram-se de lágrimas. Chizuko era tão gentil em lhe oferecer este talismã, logo ela que não acreditava em augúrios. Sadako pegou na grua dourada e formulou um desejo. Experimentou uma sensação esquisita no momento em que tocou no pássaro: devia ser um bom sinal!&lt;br /&gt;— Obrigada, Chizuko. Nunca hei-de separar-me dela.&lt;br /&gt;Sadako tentou fazer um pássaro, mas não era tão fácil quanto parecia. Chizuko explicou-lhe as partes difíceis. Em cima da mesa-de-cabeceira, ao lado da grua dourada, Sadako colocou os primeiros dez pássaros que fez. Não eram todos perfeitos, mas para começar…&lt;br /&gt;— Já só faltam novecentos e noventa — disse Sadako.&lt;br /&gt;Sentia-se bem com a grua-talismã junto dela. Dentro de algumas semanas, já teria certamente feito mil. Nessa altura, estaria pronta para regressar a casa.&lt;br /&gt;Nessa tarde, Masahiro trouxe-lhe os deveres da escola. Quando viu todos os origami, exclamou:&lt;br /&gt;— Mas estes pássaros estão a ocupar espaço demais. Deixa-me pendurá-los no tecto.&lt;br /&gt;Sadako sorriu abertamente.&lt;br /&gt;— Prometes que penduras todos os que eu fizer?&lt;br /&gt;Masahiro prometeu.&lt;br /&gt;— Muito bem! — disse Sadako, com os olhos a brilhar de malandrice. — Então vais ter de pendurar mil!&lt;br /&gt;— Mil? Estás a brincar, espero — resmungou o irmão.&lt;br /&gt;Sadako contou-lhe a lenda das mil gruas. Masahiro coçou a cabeça.&lt;br /&gt;— Enganaste-me bem — disse, fazendo uma careta. — Mas vou cumprir a minha promessa.&lt;br /&gt;Pediu fio e tachas à enfermeira e pendurou os primeiros pássaros. A grua dourada continuava na mesa-de-cabeceira. Quando a senhora Sasaki chegou, acompanhada de Mitsue e de Eiji, ficaram os três surpreendidos ao ver os pássaros no tecto. A mãe lembrou-se de um velho poema:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;Em papel colorido&lt;/em&gt;&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;span style="font-size:100%;color:#660000;"&gt;&lt;em&gt;Aves entraram voando&lt;/em&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;span style="font-size:100%;color:#660000;"&gt;&lt;em&gt;Na nossa casa.&lt;/em&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;span style="color:#660000;"&gt;&lt;em&gt;&lt;br /&gt;&lt;/em&gt;&lt;span style="font-size:100%;"&gt;Mitsue e Eiji gostavam mais do pássaro dourado. A mãe escolheu o mais pequeno, feito em papel verde com guarda-sóis cor-de-rosa.&lt;br /&gt;— Escolho este porque os mais pequenos são os mais difíceis de fazer.&lt;br /&gt;Depois das visitas saírem, os doentes sentiam-se muito sozinhos no hospital. Para se manter ocupada e optimista, Sadako fez mais alguns pássaros.&lt;br /&gt;Onze…Vou ficar boa depressa…&lt;br /&gt;Doze…Vou ficar boa depressa…&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;/span&gt;&lt;span style="color:#660000;"&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;&lt;span style="font-size:100%;"&gt;Kenji&lt;/span&gt;&lt;/em&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;span style="color:#660000;"&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-size:100%;"&gt;Todos punham pedaços de papel de lado para as gruas de Sadako. Chizuko trouxe-lhe o papel que a Turma Bambu tinha oferecido; o senhor Sasaki recuperava todo o papel que podia no salão de cabeleireiro. Até a senhora Yasunaga lhe oferecia embalagens de medicamentos. Conforme prometera, Masahiro pendurou todos os pássaros no tecto do quarto. Às vezes, ficavam vários suspensos do mesmo fio.&lt;br /&gt;Durante os meses seguintes, Sadako sentiu-se um pouco melhor. No entanto, o Dr. Numata preferiu que ela continuasse no hospital. A menina sabia que estava com leucemia, mas também sabia que algumas pessoas se curavam. Tinha esperança de vir a ser uma delas. Nos dias que corriam bem, o tempo passava depressa entre os deveres da escola, as visitas que ela distraía com jogos, adivinhas e canções, e as cartas que escrevia a amigos e correspondentes. As noites eram consagradas às gruas de papel. Sadako já tinha mais de trezentas, impecavelmente dobradas. Os seus dedos já se tinham habituado à tarefa: trabalhavam depressa e nunca se enganavam.&lt;br /&gt;Nos dias que corriam mal, tinha dores. Pouco a pouco, a doença da bomba tirara-lhe todas as energias. Quando não estava prostrada, com enxaquecas horríveis que a impediam de ler e escrever, tinha a sensação de que os seus ossos estavam a arder. As vertigens, cada vez mais frequentes, mergulhavam-na num torpor imenso. Sentia-se fraca demais para fazer o que quer que fosse. Ficava então sentada junto da janela e olhava com inveja o ácer do pátio. Passava horas a observá-lo, com a grua dourada no regaço. Naquele dia estava particularmente cansada, mas a senhora Yasunaga insistiu em levá-la na cadeira de rodas até ao pórtico cheio de sol. Aí, Sadako encontrou Kenji pela primeira vez. Tinha nove anos e era pequeno para a idade. A cara era magra e os seus olhos negros brilhavam.&lt;br /&gt;— Olá! Chamo-me Sadako.&lt;br /&gt;Kenji saudou-a docemente, numa voz apagada. Em breve estavam a falar como se se conhecessem desde sempre. Kenji já estava no hospital há muito tempo, mas tinha poucas visitas. Era órfão e morava com uma das tias numa cidade próxima.&lt;br /&gt;— É tão velhinha que só vem ver-me uma vez por semana — confessou a Sadako. — Passo a maior parte do tempo a ler.&lt;br /&gt;Sadako virou a cabeça quando viu o rosto de Kenji ensombrar-se.&lt;br /&gt;— Não é grave — suspirou o menino — porque vou morrer em breve. Tenho a doença da bomba.&lt;br /&gt;— Mas isso é impossível — replicou Sadako. — Nem sequer eras nascido quando a bomba caiu.&lt;br /&gt;— O veneno contaminou o corpo da minha mãe e ela transmitiu-mo.&lt;br /&gt;Sadako gostaria de o reconfortar, mas nem sabia o que dizer. De repente, lembrou-se da lenda das gruas.&lt;br /&gt;— Podias fazer origami como eu — sugeriu-lhe. — Ainda pode acontecer algum milagre!&lt;br /&gt;— Já conheço a história das gruas — respondeu Kenji, tranquilamente — mas é demasiado tarde. Nem mesmo os deuses podem ajudar-me…&lt;br /&gt;A enfermeira juntou-se a eles e perguntou ao menino, num tom severo:&lt;br /&gt;— Kenji, como podes falar assim?&lt;br /&gt;O rapaz lançou-lhe um olhar intenso:&lt;br /&gt;— Não sou nenhum idiota! Além do mais, sei ler. Os resultados das minhas análises estão cada vez piores.&lt;br /&gt;A enfermeira ficou perturbada.&lt;br /&gt;— Com essa tagarelice vais cansar-te ainda mais…&lt;br /&gt;Levou Kenji de volta para o interior do hospital.&lt;br /&gt;Quando Sadako voltou para o quarto, estava pensativa. Tentou imaginar-se doente e sem família. Achava que Kenji era um menino muito corajoso. Fez uma grua no seu papel mais bonito e lançou-a para dentro do quarto do menino, que ficava em frente ao seu. Será que o pássaro iria dar-lhe sorte? Sadako dobrou mais alguns origami para a sua colecção.&lt;br /&gt;Trezentos e noventa e oito…&lt;br /&gt;Trezentos e noventa e nove…&lt;br /&gt;No dia seguinte, Kenji não estava no pórtico. Sadako tinha ouvido barulho no corredor a altas horas da noite, o barulho de uma cama a ser deslocada. A senhora Yasunaga veio anunciar-lhe a morte do amigo. Sadako virou-se para a parede e deixou correr as lágrimas. A enfermeira colocou-lhe suavemente a mão no ombro com gentileza.&lt;br /&gt;— Vem sentar-te junto da janela para falarmos um pouco — convidou-a.&lt;br /&gt;Sadako parou de soluçar e pôs-se a olhar o luar.&lt;br /&gt;— Acha que o Kenji está lá em cima, no mar de estrelas?&lt;br /&gt;— Onde quer que esteja, estou certa de que está feliz — respondeu-lhe a enfermeira. — Já se libertou do corpo fatigado e doente. O seu espírito é agora livre.&lt;br /&gt;Em silêncio, Sadako escutava o rumorejar das folhas do ácer.&lt;br /&gt;— Sou eu a seguir, não sou?&lt;br /&gt;— Claro que não! — respondeu-lhe a enfermeira, sacudindo energicamente a cabeça. — Trouxe-te um pedacinho de papel colorido. Vais fazer uma grua para mim antes de te deitares. Quando tiveres acabado os teus mil pássaros, já serás velhinha.&lt;br /&gt;Sadako queria muito acreditar no que a enfermeira lhe disse e pôs-se a fazer mais pássaros.&lt;br /&gt;Quatrocentos e sessenta e três…Vou ficar boa depressa…&lt;br /&gt;Quatrocentos e sessenta e quatro…Vou ficar boa depressa…&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;/span&gt;&lt;span style="color:#660000;"&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;&lt;span style="font-size:100%;"&gt;Centenas de desejos&lt;/span&gt;&lt;/em&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;span style="color:#660000;"&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-size:100%;"&gt;Chegou o mês de Junho e com ele os aguaceiros. Dia após dia, uma chuva tão cinzenta como o céu fustigava as janelas. A água escorria ao longo das folhas da árvore do pátio. O quarto começou a cheirar a mofo. Até os lençóis estavam húmidos.&lt;br /&gt;Sadako empalidecia a olhos vistos e perdera totalmente as forças. As únicas visitas autorizadas eram as dos pais e as de Masahiro, o irmão mais velho. A turma ofereceu-lhe uma boneca Kokeshi para a animar. Sadako gostava muito do sorriso melancólico da boneca de madeira, bem como das rosas vermelhas pintadas no quimono. Pô-la na mesa-de-cabeceira, ao lado da grua dourada.&lt;br /&gt;A senhora Sasaki sentia-se inquieta porque a filha não se alimentava devidamente. Um dia, trouxe-lhe uma surpresa, embrulhada num furoshiki. No quadrado de tecido vinha tudo aquilo de que Sadako mais gostava: paté imperial, frango e arroz, ameixas em calda e bolos de soja.&lt;br /&gt;Sadako reclinou-se nas almofadas e tentou comer. Mas em vão: as gengivas inflamadas doíam-lhe tanto que não conseguia mastigar. Acabou por desistir. Afastou a comida com as mãos. Os olhos da mãe brilhavam como se fosse chorar. Sadako exclamou:&lt;br /&gt;— Sou lenta como uma tartaruga.&lt;br /&gt;Não queria que a mãe se sentisse mal. Sabia que a família não podia dar-se ao luxo de comprar comida tão cara. As lágrimas ardiam-lhe nos olhos, mas apressou-se a limpá-las.&lt;br /&gt;— Não te aflijas — tranquilizou-a a mãe, abraçando-a. — Em breve estarás melhor. Nessa altura…&lt;br /&gt;A senhora Sasaki leu poemas, com a filha aninhada no colo dela. Quando Masahiro chegou, a irmã estava mais tranquila e feliz. Masahiro contou-lhe as últimas novidades da escola e debicou o jantar-surpresa. Antes de se ir embora, disse:&lt;br /&gt;— Já me esquecia! O Eiji manda-te uma prenda.&lt;br /&gt;Enfia a mão no bolso e tira um pedaço de papel prateado e amarrotado.&lt;br /&gt;— Diz que é para fazeres uma grua.&lt;br /&gt;Sadako cheirou o papel.&lt;br /&gt;— Hum… Cheira-me a açúcar cristalizado. Espero que os deuses gostem.&lt;br /&gt;Desataram os três a rir. Há vários dias que Sadako não se ria. Era bom sinal. Será que a magia da grua dourada já tinha começado a fazer efeito? Alisou o papel e fez um pássaro. Quinhentos e quarenta e dois… Mas estava demasiado cansada para continuar. Estendeu-se na cama e fechou os olhos. Ao sair do quarto em bicos de pés, a senhora Sasaki murmurou um poema que recitava a Sadako quando esta era bebé:&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="center"&gt;&lt;span style="color:#660000;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;&lt;span style="font-size:100%;"&gt;Oh! Nuvem de gruas celestes&lt;/span&gt;&lt;/em&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="center"&gt;&lt;span style="font-size:100%;color:#660000;"&gt;&lt;em&gt;Protegei o meu filho&lt;/em&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="center"&gt;&lt;span style="color:#660000;"&gt;&lt;span style="font-size:100%;"&gt;&lt;em&gt;Com as vossas asas.&lt;/em&gt; &lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;span style="color:#660000;"&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;span style="font-size:100%;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;em&gt;&lt;/em&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;em&gt;&lt;span style="font-size:100%;"&gt;Os últimos dias&lt;/span&gt;&lt;/em&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-size:100%;"&gt;Naquele fim de Julho, o sol brilhava e fazia calor. Sadako parecia estar melhor.&lt;br /&gt;— Já ultrapassei as quinhentas gruas — disse a Masahiro. Sinto que vai acontecer algo de bom.&lt;br /&gt;Com efeito, o apetite voltara e as dores eram agora menos fortes. Contente com os progressos de Sadako, o Dr. Numata anunciou que Sadako ia poder ir passar uns dias a casa. Nessa noite, Sadako estava tão excitada que não conseguia dormir. Continuou a fazer gruas para que a magia perdurasse.&lt;br /&gt;Seiscentas e vinte e uma…&lt;br /&gt;Seiscentas e vinte e duas…&lt;br /&gt;Que bom era estar em casa, com a família, a passar as férias grandes! Celebrava-se o O Ban, a festa dos mortos, que regressavam à terra para visitar os seus entes queridos. A senhora Sasaki e Mitsue limparam a casa com desvelo. Havia flores sobre a mesa. A grua dourada e a boneca também lá estavam. Cheirava às iguarias deliciosas dos dias de festa. No altar havia bolos de soja e bolas de arroz dispostos em pratinhos, para os espíritos que estavam de visita. Ao cair da tarde, a senhora Sasaki pendurou uma lanterna por cima da porta para que eles não se perdessem na escuridão. Sadako suspirou de alegria. Talvez não tivesse de regressar ao hospital.&lt;br /&gt;Durante vários dias, os amigos e familiares visitaram-na continuamente. No fim-de-semana, a menina estava de novo pálida e cansada. Contentava-se em ficar sentada, sem se mexer, a olhar para os estavam à sua volta.&lt;br /&gt;— A Sadako é agora uma menina muito educada — disse o pai. — A avó deve estar contente ao ver a neta comportar-se tão bem.&lt;br /&gt;— Como podes falar assim? — insurgiu-se a esposa. — Dava tudo para ter de volta a nossa filha irrequieta.&lt;br /&gt;Precipitou-se para a cozinha enquanto enxugava as lágrimas.&lt;br /&gt;“Estão todos tristes por minha causa”, pensou Sadako “Gostava tanto de voltar ser com dantes. A mamã ficava tão contente!”&lt;br /&gt;Como se lesse os pensamentos da filha, o senhor Sasaki disse-lhe num tom sacudido:&lt;br /&gt;— Então, vá lá… Não te preocupes. Depois de uma boa noite de sono, vais sentir-te melhor.&lt;br /&gt;No dia seguinte, Sadako teve de voltar ao hospital. Pela primeira vez, sentiu-se feliz por regressar à tranquilidade do seu quarto. Os pais ficaram com ela durante muito tempo. De vez em quando, Sadako mergulhava numa estranha sonolência.&lt;br /&gt;— Quando morrer — pediu-lhes — prometem que colocam os meus bolos de soja preferidos no altar, para acolherem o meu espírito?&lt;br /&gt;Demasiado emocionada para falar, a senhora Sasaki apertou com força a mão da filha.&lt;br /&gt;— Chut…— murmurou o pai, numa voz estranha. — Ainda falta muito tempo para que isso aconteça. Não desistas, filha. Só faltam algumas centenas de gruas.&lt;br /&gt;A enfermeira trouxe calmantes. Antes de fechar os olhos, Sadako tocou ao de leve na grua dourada.&lt;br /&gt;— Em breve estarei boa — sussurrou à boneca — e um dia vou correr tão depressa como o vento.&lt;br /&gt;O Dr. Numata fazia-lhe transfusões e dava-lhe injecções quase todos os dias.&lt;br /&gt;— Sei que tens dores, mas não podemos baixar os braços.&lt;br /&gt;A menina anuiu com a cabeça. Nunca se queixava, apesar das dores quase permanentes. Um sofrimento ainda mais horrível a dominava: o medo da morte. Felizmente que a grua dourada a ajudava a resistir, lembrando-lhe de que era preciso manter a esperança.&lt;br /&gt;A senhora Sasaki passava cada vez mais tempo no hospital. Todas as tardes, Sadako ouvia o barulho familiar dos sapatos de plástico que as visitas do hospital tinham de calçar. Os da mãe faziam um barulho particular. Sadako tinha consciência da profunda inquietação da mãe.&lt;br /&gt;As folhas do ácer estavam revestidas de tons de ferrugem e ouro quando os Sasaki vieram fazer uma das últimas visitas a Sadako. Eiji entregou à irmã um embrulho em papel dourado, atado com uma fita vermelha. Sadako abriu-o lentamente e encontrou um quimono em seda estampada com flores de cerejeira. É a prenda que a mãe tanto queria oferecer-lhe. A menina ficou os olhos cheios de lágrimas.&lt;br /&gt;— Nunca vou poder usá-lo e é tão caro!&lt;br /&gt;— Sadako — disse-lhe o pai, num tom de voz doce — a tua mãe deitou-se ontem muito tarde para acabar de o coser. Que tal se o experimentasses, para ela ver se te fica bem?&lt;br /&gt;Sadako teve muita dificuldade de sair da cama. A mãe ajudou-a a enfiar o quimono e a colocar a banda à cinta. A menina ficou contente por ninguém ver as suas pernas inchadas. Atravessou o quarto num passo hesitante e foi sentar-se no sofá junto da janela. Todos se extasiaram diante daquela bela princesa.&lt;br /&gt;Chizuko entrou nesse momento. O Dr. Numata deu-lhe permissão para uma curta visita.&lt;br /&gt;— Fica-te melhor do que o uniforme da escola! — exclamou.&lt;br /&gt;Todos se riram, incluindo Sadako.&lt;br /&gt;— Então, quando estiver melhor, levo-o todos os dias para a escola — brincou.&lt;br /&gt;Mitsue e Eiji riram-se da ideia. Todos tinham a impressão de reviver os bons momentos passados em família. Entretiveram-se com jogos de letras e trautearam as canções favoritas de Sadako. Esta nem se mexia no sofá e tentava por tudo esconder-lhes o seu sofrimento.&lt;br /&gt;A presença deles valia o sacrifício. Quando se foram embora, os pais pareciam quase alegres.&lt;br /&gt;Antes de adormecer, Sadako só conseguiu fazer uma grua. Seiscentas e quarenta e quatro… Seria a última. &lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;p&gt;&lt;span style="font-size:100%;color:#660000;"&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;p&gt;&lt;span style="color:#660000;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;&lt;span style="font-size:100%;"&gt;Correr tão veloz como o vento&lt;/span&gt;&lt;/em&gt;&lt;/p&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-size:100%;"&gt;Enquanto enfraquecia a olhos vistos, Sadako pensava cada vez mais na morte. Será que iria viver numa montanha celeste? Será que morrer doía? Será que apenas adormecíamos?&lt;br /&gt;“Se ao menos pudesse deixar de pensar na morte”, disse Sadako para consigo mesma. Mas isso seria como impedir a chuva de cair. A menina não conseguia concentrar-se em nada muito tempo seguido: a morte vinha-lhe constantemente à ideia.&lt;br /&gt;Em meados de Outubro, Sadako começou a perder a noção do tempo. Quando acordou uma manhã, viu a mãe a chorar.&lt;br /&gt;— Não chores, peço-te.&lt;br /&gt;Sadako gostaria de a reconfortar, mas não conseguia mexer nem a boca nem a língua. Uma lágrima deslizou-lhe pela face. A família sofria tanto por sua causa! Talvez bastasse dobrar mais algumas gruas e esperar por um milagre? Ainda pegou num quadrado de papel, mas os seus dedos inchados já não conseguiam fazer nada. “Sou mesmo uma tartaruga. Nem um pássaro consigo fazer.” Sadako tentou dobrar o papel, antes de desfalecer.&lt;br /&gt;Alguns minutos, que pareceram horas, mais tarde, o Dr. Numata entrou e pôs-lhe a mão na testa. Tirou-lhe o papel das mãos com cuidado. Sadako já quase não o ouviu dizer:&lt;br /&gt;— Tens de descansar. Amanhã continuas.&lt;br /&gt;A menina disse que sim com a cabeça. Amanhã…Como amanhã vem longe…&lt;br /&gt;Quando acordou, a família estava reunida em volta dela. Sadako sorriu‑lhes. Sentia que fazia e faria sempre parte daquele círculo cheio de amor e carinho, e que isso nunca iria alterar-se. De repente, começou a ver luzes a dançar diante dos olhos. Estendeu uma mão trémula em direcção à grua dourada. As forças fugiam-lhe, mas o pássaro de papel transmitia-lhe uma grande energia.&lt;br /&gt;Sadako ergueu os olhos para todas as gruas suspensas do tecto. Nesse mesmo instante, uma ligeira brisa de Outono fê-los ondular. Pareciam vivas e dir-se-ia que queriam sair pela janela. Que beleza! Que liberdade! Sadako suspirou e fechou os olhos.&lt;br /&gt;Para não mais os abrir.&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;/span&gt;&lt;span style="color:#660000;"&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-size:100%;"&gt;Epílogo &lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;span style="color:#660000;"&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-size:100%;"&gt;Sadako Sasaki morreu a 25 de Outubro de 1955. Os seus colegas de turma dobraram trezentas e cinquenta e seis gruas para que ela fosse enterrada com mil pássaros. O seu desejo de viver longamente foi assim, de alguma forma, realizado, uma vez que viverá para sempre no coração de todos.&lt;br /&gt;Depois das exéquias, a Turma Bambu publicou um livro com as cartas de Sadako, e intitularam-no &lt;em&gt;Kokeshi&lt;/em&gt;, em memória da boneca que lhe tinham oferecido no hospital. O livro viajou por todo o Japão e celebrizou a história de Sadako e dos mil pássaros de papel. Os seus amigos sonhavam construir um monumento que eternizasse a memória de Sadako e de todas as crianças mortas pela bomba atómica. Jovens de todo o país uniram esforços e ajudaram-nos a recolher fundos para esse projecto. Em 1958, o seu sonho tornou-se realidade: no Parque da Paz, em Hiroshima, foi descerrada uma estátua de Sadako, que aparece no topo de uma montanha celeste em granito, com uma grua de ouro nas mãos.&lt;br /&gt;Um clube de gruas feitas em &lt;em&gt;origami&lt;/em&gt; foi fundado em sua honra e, todos os anos, no dia 6 de Agosto, os seus membros depõem junto da estátua milhares de gruas em papel. Nesse dia, o Dia da Paz, aproveitam para formular um desejo. Esse desejo encontra-se gravado na base da estátua:&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="center"&gt;&lt;span style="color:#660000;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;&lt;span style="font-size:100%;"&gt;Eis o nosso clamor&lt;/span&gt;&lt;/em&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="center"&gt;&lt;span style="font-size:100%;color:#660000;"&gt;&lt;em&gt;Eis a nossa prece&lt;/em&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="center"&gt;&lt;span style="color:#660000;"&gt;&lt;span style="font-size:100%;"&gt;&lt;em&gt;Para construir a paz no mundo.&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;p align="right"&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-size:85%;"&gt;Eleanor Coerr&lt;br /&gt;&lt;em&gt;Les mille oiseaux de Sadako&lt;/em&gt;&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-size:85%;"&gt;Toulouse, Éditions Milan, 2003&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;p align="right"&gt;&lt;span style="font-size:85%;"&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;p align="right"&gt;&lt;/p&gt;&lt;p align="left"&gt;&lt;span style="font-size:85%;"&gt;&lt;span style="color:#330033;"&gt;Texto publicado sob autorização do blogue &lt;strong&gt;&lt;a href="http://espaco-esperanca.blogspot.com"&gt;Caminhos para a paz&lt;/a&gt;&lt;/strong&gt;&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;a href="http://espaco-esperanca.blogspot.com"&gt;&lt;span style="color:#330033;"&gt; &lt;/span&gt;&lt;/a&gt;&lt;/p&gt;&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/3848387236642605066-109535516552425092?l=olharaintolerancia.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://olharaintolerancia.blogspot.com/feeds/109535516552425092/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=3848387236642605066&amp;postID=109535516552425092' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/3848387236642605066/posts/default/109535516552425092'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/3848387236642605066/posts/default/109535516552425092'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://olharaintolerancia.blogspot.com/2007/06/os-mil-pssaros-de-sadako-eleanor-coerr.html' title='Os mil pássaros de Sadako - Eleanor Coerr'/><author><name>Div. temas</name><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-3848387236642605066.post-368698082312580115</id><published>2007-06-11T14:14:00.000-07:00</published><updated>2007-06-21T13:54:49.469-07:00</updated><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='anti-semitismo'/><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='Histórias'/><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='Intolerância'/><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='História'/><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='Violência'/><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='Cólera'/><title type='text'>Anne Frank - Josephine Poole</title><content type='html'>&lt;div align="right"&gt;&lt;br /&gt;Segunda-feira, à noite, 8 de Novembro de 1943&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;Querida Kitti&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;[…]&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Vejo-nos aos oito, aqui no anexo, como se fôssemos um pedaço de céu azul rodeado por ameaçadoras nuvens negras. O local perfeitamente circular onde nos encontramos ainda é seguro, mas as nuvens estão a avançar sobre nós, e o anel que nos separa do perigo que se aproxima é cada vez mais estreito. Estamos rodeados por escuridão e perigo e, na nossa busca desesperada de uma saída, vamos constantemente de encontro uns aos outros. Olhamos para a guerra por baixo de nós e para a paz e beleza por cima. Entretanto fomos isolados pela massa escura de nuvens e não podemos subir nem descer. Esta ergue-se à nossa frente como uma parede impenetrável, tentando esmagar-nos, mas ainda sem o conseguir. Posso apenas gritar e implorar: &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;– Oh, anel, anel, abre-te e deixa-nos sair!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="right"&gt;Tua, Anne&lt;/div&gt;&lt;div align="right"&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Diário de Anne Frank, versão portuguesa definitiva de Livros do Brasil, p. 199, Lisboa, 2004&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;A história da Anne Frank começa por nos apresentar uma menina vulgar – alguém que tu podias encontrar a teu lado, na sala de aulas. A Anne tinha uns olhos largos, expressivos, e cabelos escuros, encaracolados. &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;Em geral, sentia-se como quem está no melhor dos mundos. Mas, por vezes, tinha medo. E havia uma razão, bem forte, para tal: Adolf Hitler governava a Alemanha naquela época e tinha jurado que iria acabar com os Judeus. &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;Ora a Anne Frank era judia, de origem alemã.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="center"&gt;&lt;br /&gt;*&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A Anne Frank nasceu na Alemanha, na cidade de Francoforte – Frankfurt, em alemão – a 12 de Junho de 1929. Ainda muito pequena, já queria comunicar com todos, de modo expressivo. Assim, chorava muito. Mas, se Margot, a irmãzinha, lhe lançava um olhar, quando a Anne estava no berço, então esta ria-se muito. Em bebé, a Anne tinha cabelo escuro e orelhas espetadas como as de um duende. &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;A família da Anne Frank tinha sorte. Era abastada. E o pai da Anne possuía uma pequena empresa. Mas, para muita gente, na Alemanha dessa época (desde que os nazis chegaram ao poder, em Janeiro de 1933), a vida era muito difícil. &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;Quando a Primeira Guerra Mundial acabou, em 1918, a Alemanha foi acusada de ter sido responsável por essa terrível guerra e foi obrigada a pagar uma enorme indemnização para compensar as destruições e as mortes que causou. Foi um castigo violento e, dez anos depois de ter sido restabelecida a paz, a Alemanha encontrava-se numa situação de extrema pobreza. Muitos alemães não tinham emprego. Muita gente passava fome. Mas todos sabiam que a Alemanha, antes da guerra, era um país rico e poderoso. Era mesmo uma das nações mais importantes. Deste modo, os Alemães sentiam-se cada vez mais revoltados e infelizes. E muitos deles pensavam que alguém tinha a culpa de tudo isso: foi então que tudo começou a mudar, em especial e de modo assustador, para os Judeus. Havia um homem que se tornara muito conhecido. Chamava-se Hitler, era baixo, muito rígido e usava um pequeno bigode. Falava muito e fazia grandes promessas. Conseguia reunir multidões à sua volta, em especial pessoas sem emprego e sem esperança. Portanto, não era de admirar que elas aplaudissem, quando ele prometia tornar a Alemanha novamente rica e forte. &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;Hitler odiava os Judeus e não se preocupava com as enormes mentiras que dizia acerca deles. Quem é que era responsável por todos os males que afligiam a Alemanha? Hitler tinha a resposta. Acusava os Judeus: eram eles que arranjavam os melhores empregos, que tiravam o pão da boca dos trabalhadores. Isso não era justo, porque os Alemães eram especiais: eram a melhor raça do mundo! &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;Assim, aparecia cada vez mais gente a escutar os seus discursos e a votar pelo partido de Hitler – o Partido Nazi. A princípio, não era uma grande ameaça, era apenas uma faísca. Mas esta faísca iria transformar-se numa chama e esta chama num incêndio. E este incêndio iria consumir quase toda a Europa, antes de ser extinto. &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;Havia muitas maneiras de fazer sentir aos Judeus que eram indesejáveis, e de os aterrorizar. Mesmo quando eram ainda muito novos. Na escola, as crianças começavam a perceber o que era ser judeu. Alguns e algumas, dentre os colegas, faziam troça dos alunos judeus e até os perseguiam. Era muito duro para uma criança de origem judaica ser alvo da agressividade física ou verbal de colegas que deixaram de ser seus amigos. E não tardou que os alunos judeus tivessem de ficar sentados à parte, na sala de aulas. &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;Mas era pior no mundo dos adultos. As pessoas deixavam de falar aos vizinhos judeus. As lojas que pertenciam a judeus eram saqueadas. E qualquer judeu podia ser hostilizado e até agredido na rua por jovens ou adultos vestidos com a farda das «tropas de assalto» nazis – como lhes chamava o próprio Hitler. E se algum judeu tentava defender-se, logo era escorraçado. &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;No começo, os Judeus ficavam desorientados com todo este ódio. Mas, em breve, ficaram amedrontados. Muitos abandonaram a Alemanha. E o Sr. Frank estava preocupado com a família. Foi assim que conseguiu arranjar trabalho na Holanda, na cidade de Amesterdão, onde alugou uma casa, não muito cara, para toda a família. &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;A Anne ficou com a avó, durante a mudança para Amesterdão. Acabou por se juntar à família, no dia em que a sua irmã, Margot, fez oito anos. Que surpresa! Lá estava a pequena Anne: parecia um gnomo encarrapitado nos presentes da Margot! &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;A casa onde vivia a família Frank tinha um jardim. Todas as crianças do quarteirão brincavam lá, quando o tempo estava bom: faziam o pino, escondiam-se atrás dos arbustos, patinavam e saltavam à corda ao longo do passeio. Quando estavam na rua e queriam chamar os amigos, não batiam às portas nem tocavam às campainhas. Assobiavam, de um modo especial – só a Anne é que não conseguia assobiar. Por isso, tinha de cantar. &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;Numa manhã invernosa, levaram-na ao escritório do pai, onde ficou a conhecer uma senhora, a Miep, que trabalhava lá. A Miep ajudou a Anne a tirar o casaco branco, de peles, e deu-lhe um copo de leite. E ensinou-lhe a escrever à máquina. A Anne era exactamente o tipo de menina inteligente que a própria Miep gostava de ter como filha! &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;A Miep não imaginava que, um dia, iria ficar entre a vida e a morte por causa da família Frank, mas logo ficou a gostar muito da Anne. &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;A Anne e a Margot foram para escolas diferentes. Isso era bom, porque a Anne não se portava muito bem nas aulas. Não era nada parecida com a irmã, que era uma aluna aplicada. Gostava era de contar anedotas e de fazer caretas, de tal maneira que toda a gente, incluindo os próprios professores, desatava a rir. &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;Os amigos das duas irmãs adoravam regressar a casa com elas, porque a Sr.ª Frank fazia deliciosas merendas. Mas, quando se juntava à festa, o Sr. Frank tornava-se o centro da atenção. Tinha sempre uma história gira para contar ou então um jogo que acabara de inventar. Era adorado por todas as crianças. &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;Todavia, ninguém conseguia esquecer-se da campanha de ódio lançada por Hitler contra os Judeus. Nesta época, muitos judeus alemães já tinham fugido para Amesterdão, e o Sr. e a Sr.ª Frank escutavam, com ansiedade, as terríveis histórias que eles tinham para contar: impiedosas intimidações, campos de concentração onde aprisionavam as pessoas, sem haver qualquer justificação, e trabalho obrigatório e gratuito para os nazis. &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;Mas agora os poderosos exércitos de Hitler estavam em marcha. &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;A Grã-Bretanha e a França declararam guerra à Alemanha nazi. No entanto, as tropas alemãs continuavam a arrasar tudo. E, pouco tempo depois, os próprios Holandeses assistiam, impotentes, à entrada de soldados alemães em Amesterdão. &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;Uma vez mais, os Judeus eram perseguidos implacavelmente e os Holandeses depressa aprenderam que era perigoso fazer algo em sua defesa. &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;Todo o judeu com mais de seis anos era obrigado a usar uma estrela amarela com a palavra&lt;em&gt; Jood&lt;/em&gt; (Judeu, em holandês). Até as crianças podiam ser impedidas de entrar em lugares públicos, como os parques, os cinemas e as piscinas. &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;A Anne gostava muito de ir ao cinema. Deste modo, porém, já não a deixavam entrar. E não era fácil continuar a coleccionar bilhetes-postais e recortes de jornais e revistas com as suas «estrelas» preferidas. Infelizmente, já era demasiado tarde para fugir para outro país. E tudo podia ainda piorar. &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;O Sr. Frank trabalhava num prédio, alto e já velho, junto de um dos canais de Amesterdão. No último andar, havia algumas assoalhadas vazias, na parte das traseiras. Pouco a pouco, com todo o cuidado, secretamente, o Sr. Frank foi mudando para lá peças de mobília e alimentos, fazendo aí um anexo que também tinha lavatório e sanita. Se os nazis descobrissem o esconderijo, a família Frank e os corajosos amigos holandeses que os ajudavam teriam um trágico fim. &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;Mas tudo tinha corrido bem, até aqui. Tudo estava preparado para uma emergência, que não tardou. &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;A Margot já tinha dezasseis anos. Num dia do Verão de 1942, recebeu uma carta com ordem de se apresentar no serviço de trabalho obrigatório – o que queria dizer que tinha de ir trabalhar para os Alemães. Provavelmente, a sua família nunca mais a veria. &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;Assim, todos tinham de desaparecer, depressa. Os pais disseram à Anne e à Margot que podiam meter nas malas alguns dos seus «tesouros» pessoais que não quisessem perder. Com o coração a bater, a Anne atafulhou a sacola com os seus objectos mais «preciosos»: livros da escola, cartas, um pente, rolinhos para o cabelo e, acima de tudo, o diário que lhe ofereceram no dia de anos. Comprimiu tudo com as mãos a tremerem, numa série de movimentos desajeitados. &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;No dia seguinte, de manhã cedo, esforçou-se por vestir alguns casacos sem mangas e umas calças, uns pares de meias, um vestido, uma saia, um colete, um impermeável, uns sapatos resistentes, um gorro e um cachecol. Era esta a única maneira de transportar roupa: qualquer judeu, de mala na mão, se tornava logo suspeito. &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;Saíram de casa, deixando as camas em desordem e os pratos sujos no lava-louça. E também um pedaço de papel com o sarrabisco de uma morada falsa, para enganar os vizinhos. A Anne teve de despedir-se do Moortje – o gato que ela adorava. Chorou amargamente, pois sabia lá se voltariam a encontrar-se? &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;A Miep estava à espera deles, no escritório do Sr. Frank. Rapidamente, mas em silêncio, seguiram-na através de um corredor estreito que conduzia a uma escada de madeira, por onde se chegava ao sótão – o anexo secreto. &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;Espantada, a Anne olhou à volta. O pai tinha organizado tudo, tinha pensado em tudo, mas sem nunca dizer uma palavra que fosse! Mas que grande confusão! Caixas e caixotes, pilhas e montes de coisas! A Sr.ª Frank e a Margot sentiram-se incapazes de fazer alguma coisa, perante aquele cenário: estavam simplesmente aterradas e excitadas. Portanto, a Anne e o pai é que tiveram de pôr tudo aquilo em ordem. &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;Desde aquela manhã, dia após dia, semana após semana, eles os dois não podiam fazer ruídos durante as horas de trabalho no prédio. Tinham de permanecer, no anexo, calados como ratos. Não podiam sequer abrir uma torneira ou puxar o autoclismo. Estavam sempre a correr o risco de serem localizados e denunciados à polícia. Esperavam, com grande ansiedade, pela chegada da Miep, logo após a saída dos empregados da empresa. Ela aparecia sempre com um ar alegre e trazia papel e livros para os ajudar a passar o tempo. E também trazia as notícias do dia, além de pequenas compras. &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;Ter de ficar calada todo o dia – isso é que era quase insuportável para alguém como a Anne! &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;O relógio da igreja vizinha dava-lhe algum alento, pois batia as horas cada quarto de hora, lembrando-lhe que ainda havia lá fora um mundo em que as crianças iam à escola, brincavam umas com as outras e não ficavam aterrorizadas com o medo de serem vistas ou ouvidas. &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;Juntou-se a nós um outro casal mais o respectivo filho, o Peter. Então, éramos sete pessoas a viver escondidas, num anexo tão acanhado. Não era de admirar que as pessoas se enervassem umas com as outras! (E ainda veio uma oitava pessoa – o Dr. Dussel, dentista!) &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;A Anne era a mais nova e quem mais sofria com a situação. Era inteligente e imaginativa, inquieta e o seu crescimento não estava a ser fácil. Achava que era culpada de tudo o que corria mal, e ninguém criticava a Margot. Amava o pai, mais do que qualquer outra pessoa, mas até ele, por vezes, a criticava – coisa que ela não conseguia suportar. Às vezes, de noite, quando já estava deitada, chegava a chorar. &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;Precisava desesperadamente de alguém com quem pudesse falar, de alguém que a compreendesse. Não a Margot e também não o Peter, que era preguiçoso e mimado – no princípio, não gostava nada dele. Voltou-se então para o seu diário, no qual escrevia cartas à Querida Kitty, uma rapariga que tinha conhecido, havia já muito tempo. Agora, escrevia no diário até os seus pensamentos mais íntimos, porque a verdadeira Kitty jamais iria lê-los. Assim, não precisava de inventar histórias. E aquele pequeno livro era o mais escondido de todos os segredos. &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;A Anne escrevia nele a vida no anexo, as discussões e os dramas. Escrevia também acerca do seu amor pela natureza – que, para ela, era apenas uma nesga de céu e o topo do castanheiro que via através da janela do sótão. Além de escrever acerca do terror, do medo que provocava pânico. &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;Mas os seus sentimentos em relação ao Peter mudaram com o tempo. Começou a compreendê-lo. E, à medida que passaram a gostar um do outro, a Anne ia escrevendo também sobre o amor e a esperança. &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;Quando o diário chegou à última página, a Miep trouxe-lhe mais papel. &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;Todas as noites, os habitantes do anexo desciam, com o máximo cuidado, até ao velho escritório do Sr. Frank, para ouvirem a rádio. Às vezes, a Anne aproximava-se da janela e espreitava, por entre as cortinas. Era estranho ver assim as pessoas na rua, como se ela fosse invisível e estivesse vestida com um manto de conto de fadas. As pessoas pareciam apressadas, preocupadas e mal-vestidas. Silenciosa, a Anne – ela própria vestida como se fosse um espantalho – sentia que nada podia fazer em relação a toda aquela realidade. &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;A Alemanha estava a perder a guerra. Após anoitecer, passavam lá no alto vagas de aviões bombardeiros britânicos e americanos que iam destruir as cidades alemãs. O céu escuro da noite vibrava com o lúgubre rugido que eles faziam. Se o anexo fosse bombardeado, todos morreriam.&lt;br /&gt;Nesta época, a Anne estava – quase – apaixonada pelo Peter. Sentia-se feliz, quando se sentava a seu lado no sótão e sentia o conforto do braço dele nas suas costas. Falavam então daquilo que iriam fazer, depois da guerra; noutras ocasiões, permaneciam sentados, silenciosamente, enquanto o tempo ia passando, até chegar o amanhecer. Era um amor cheio de suavidade, mas também de fragilidade – tal como as flores do castanheiro, do outro lado da janela. &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;Agora que a guerra estava quase a acabar, talvez as pessoas do anexo já não fossem tão cuidadosas como anteriormente: alguém se apercebeu de que havia gente escondida naquela casa, alguém que foi a correr fazer a denúncia às autoridades alemãs que ocupavam a Holanda e pagavam uma recompensa a quem denunciasse judeus. &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;E foi assim que o pesadelo começou. &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;De repente, o estrondo de portas que rebentam, de coisas estilhaçadas, desfeitas. Ruído de botas nas escadas, homens fardados, rudes e de pistola na mão. As pessoas do anexo não tinham para onde fugir, não havia qualquer outra hipótese de esconderijo. &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;Depressa aquele espaço, aquela luz e aquele ar do anexo se tornaram um horror para aquelas pessoas, ali encerradas durante mais de dois anos. &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;Foi a 4 de Agosto de 1944: os oito clandestinos foram presos. O anexo foi assaltado e saqueado. &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;Quando a Miep subiu as escadas, nesse terrível entardecer, tudo era um autêntico caos. Como o diário da Anne estava espalhado pelo chão, então a Miep recolheu e juntou as páginas todas e escondeu o diário numa gaveta, na quase impossível esperança de que aquela família de judeus um dia voltasse. &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;Mas, de todos, o Sr. Frank foi o único que de facto voltou, no fim da guerra. Tinha sido separado da mulher e das filhas. Sabia que a mulher tinha morrido e rezava para ter boas notícias sobre a Anne e a Margot. &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;Infelizmente, ambas tinham morrido, de tifo, num campo de concentração alemão. Quando chegou a má notícia, o Sr. Frank foi ao escritório e sentou-se à sua secretária. Sentia-se absolutamente só. Já nada lhe restava na vida. &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;Mas a Miep lembrava-se do diário. Encontrou-o e entregou-o ao Sr. Frank, dizendo: &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;— Isto é para si! Era da sua filha Anne! &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;A Anne Frank era apenas uma rapariga, mas a sua vida, tão curta, tinha chegado ao fim. &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;No entanto, a sua história estava ainda a começar.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="center"&gt;* *&lt;br /&gt;&lt;em&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O que aconteceu, depois da guerra, ao diário de Anne Frank?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;/em&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;em&gt;Otto Frank foi incitado por alguns amigos a publicar o diário da filha. A primeira edição, de 1500 exemplares apenas, foi publicada, em Amesterdão e em holandês, pela editora Contact, em 1947. A primeira tradução saiu na Alemanha em 1950. Sucessivamente, o livro foi traduzido para mais de sessenta línguas, atingindo assim uma cobertura mundial – mais de 25 milhões de exemplares vendidos. Teve uma adaptação teatral em 1955 e uma primeira adaptação cinematográfica em 1959.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A casa em que Anne Frank viveu escondida, durante mais de dois anos, foi transformada em museu e como tal abriu ao público em 1960. É lá que o diário está exposto permanentemente. Esta casa-museu, conhecida pelo seu nome inglês de Anne Frank House, recebe cerca de um milhão de visitantes por ano. Pode ser visitada todos os dias – a entrada faz-se pelo nº 267 da rua Prinsengracht, em Amesterdão.&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="right"&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-size:85%;"&gt;Josephine Poole/Angela Barret&lt;br /&gt;&lt;em&gt;Anne Frank&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;Lisboa, Terramar, 2005&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/3848387236642605066-368698082312580115?l=olharaintolerancia.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://olharaintolerancia.blogspot.com/feeds/368698082312580115/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=3848387236642605066&amp;postID=368698082312580115' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/3848387236642605066/posts/default/368698082312580115'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/3848387236642605066/posts/default/368698082312580115'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://olharaintolerancia.blogspot.com/2007/06/anne-frank-josephine-poole.html' title='Anne Frank - Josephine Poole'/><author><name>Div. temas</name><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-3848387236642605066.post-3593892691673128353</id><published>2007-06-11T08:10:00.000-07:00</published><updated>2007-06-21T13:53:58.613-07:00</updated><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='Preconceito'/><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='Paz'/><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='Histórias'/><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='Intolerância'/><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='Racismo'/><title type='text'>O baile das flores - Sigrid Laube</title><content type='html'>&lt;div align="justify"&gt;&lt;span style="font-size:120;"&gt;&lt;span style="LINE-HEIGHT: 155%"&gt;&lt;span style="color:#003300;"&gt;— Hoje vou ao baile das flores — anunciou o repolho. — Quem quer vir comigo?&lt;br /&gt;— Ao baile das flores? — sussurrou a cebola, horrorizada. — Para que é que temos o nosso Baile da Salada Russa? É muito mais divertido!&lt;br /&gt;— Tu ficas bem entre iguais — disse a alface. — O teu lugar é aqui e tudo mantém a sua devida ordem.&lt;br /&gt;O pepino anuiu sabiamente com a cabeça.&lt;br /&gt;— Cautela com as flores do jardim do outro lado da cerca — continuou a alface. — Andam de nariz levantado e olham-nos de cima para baixo. Não passam de ervas sentadas em vasos!&lt;br /&gt;— Não queremos ter nada a ver com elas — disseram as ervilhas. Um arrepio percorreu-lhes as vagens e tilintaram, venenosas:&lt;br /&gt;— Aquelas perfumadas da horta não passam de umas campainhas de enfeite…&lt;br /&gt;— Mas o que é que vocês todos têm contra as flores? — suspirou o repolho tristemente. — Eu gostava muito de ir ao baile delas mas, sozinho, não me atrevo.&lt;br /&gt;— Eu não tenho nada contra as flores. Só têm um aspecto diferente do nosso e às vezes não cheiram tão bem como nós — disse a cenoura pensativa. E calou-se por um momento.&lt;br /&gt;— Sabes que mais? Também vou contigo — decidiu, com um estremecimento da raiz à ponta das folhas.&lt;br /&gt;— Óptimo!&lt;br /&gt;O repolho limpou as folhas e enfeitou-se com uma peninha. A cenoura encontrou uma linda máscara para si.&lt;br /&gt;— Mas que bonitos que vocês estão! — elogiaram os rabanetes e, de repente, deixaram de ter caras coradas e alegres.&lt;br /&gt;O repolho empertigou-se e ofereceu à cenoura um braço forte.&lt;br /&gt;— A menina vem?&lt;br /&gt;Ela acenou com a cabeça, animada, e, de pé leve, deixaram a horta.&lt;br /&gt;No baile, a animação já tinha começado. As flores tinham pedido ajuda ao galo, às galinhas e ao salgueiro. Os grilos cantavam com afinco e os pardais chilreavam ritmos quentes. A água espumava e borbulhava. Alguém tinha aberto a pipa da água da chuva e o escaravelho servia-a aos convidados.&lt;br /&gt;Sentado à entrada, o cão de guarda meneava a cabeça. — Os convidados já estão um bocadinho tocados!…&lt;br /&gt;Repolho e cenoura passeavam pelo baile e iam cumprimentando à direita e à esquerda.&lt;br /&gt;— Quem são estes? — cochichava um cravo a uma tulipa mais velha.&lt;br /&gt;Esta olhou por cima dos óculos e torceu o nariz.&lt;br /&gt;— Legumes, diria eu…&lt;br /&gt;O cravo ficou sem poder respirar e coçava as pétalas, atónito.&lt;br /&gt;— Mas que horror! — exclamou. — Legumes crus no nosso baile. Que indecência!&lt;br /&gt;— Mas o que é que eles têm de vir aqui fazer? Foram ao menos convidados? — queria saber uma rosa.&lt;br /&gt;— Mas que gente tão simplória, não acha, minha querida?&lt;br /&gt;O rosmaninho fez uma vénia perfeita em frente da rosa e levou-a para a pista de dança. Ela ainda era jovem e vermelha.&lt;br /&gt;— Devíamos pô-los daqui para fora. Onde é que já se viu, legumes desconhecidos no nosso baile! — a rosa canina endireitava-se, pronta a picar. — Que gentinha miserável, que ervas insignificantes!&lt;br /&gt;— Nem mais! Não passam de mergulhadores de sopa sem graça, e de pastéis mal-cheirosos — um malmequer arrepiava-se todo, já meio enjoado.&lt;br /&gt;O repolho ouvia o falatório e os cochichos, e reparava como as rosas se encolhiam, os cravos tremiam de indignação e um amor-perfeito até tivera um ataque de soluços.&lt;br /&gt;— Parece eles não gostam de nós — disse à cenoura.&lt;br /&gt;— É pena. A música deles é tão bonita — respondeu a cenoura, sonhadora. Cheirou o ar à sua volta. — E há um perfume no ar. É fantástico!&lt;br /&gt;Pensou um pouco.&lt;br /&gt;— Fizemos-lhes algum mal? — perguntou ao repolho.&lt;br /&gt;— Não. Fizeram-nos eles algum mal? — perguntou ele.&lt;br /&gt;— Não — respondeu a cenoura.&lt;br /&gt;— Então pronto, ninguém tem razões para estar zangado.&lt;br /&gt;O repolho sentiu-se mais tranquilo e confiante. Compôs a pena e fez uma vénia à cenoura.&lt;br /&gt;— Estou tão só, menina — disse. — Dá-me a honra?&lt;br /&gt;A cenoura sentiu-se feliz. A noite estava morna, a luz era suave e os pirilampos estavam bem-dispostos. A lua rolou no céu e apareceram estrelas, curiosas. Era uma noite perfeita.&lt;br /&gt;A cenoura piscou-lhe um olho através da máscara. — Será um prazer — disse, estendendo-lhe uma folha delicada.&lt;br /&gt;Misturaram-se com os bailarinos. Um gladíolo recuou quando os viu, e chegaram a pisar os pés de uma dália.&lt;br /&gt;— Se ao menos fossem ervas daninhas — suspirou uma glicínia — ainda floriam quase como nós — mas calou-se, admirada.&lt;br /&gt;O repolho tinha agarrado a cenoura pela cintura e dançavam uma animada rumba-feijoca. Em seguida, deslizaram um maravilhoso tango-pepino e, por fim, saltaram ainda um elegante cha-cha-cha-piri-piri. A cenoura ia ficando sem fôlego, mas seguiu-o corajosamente e não caiu uma única vez. Os dois formavam um par bonito de se ver e as flores aplaudiram, a contra-gosto.&lt;br /&gt;Depois de ver isto, lírio ousou por fim dirigir-se à cenoura e o repolho convidou uma margarida para dançar. Tocou-se uma valsa encantadora. Depois, a cenoura dançou um galope com um manjerico e o repolho foi buscar a gerbera para uma animada polca.&lt;br /&gt;Foi uma bela noite.&lt;br /&gt;Todos puderam conversar, conhecer-se e cheirar-se.&lt;br /&gt;— Nós vamos convidar-vos para a nossa Salada Russa — prometeu o repolho ao despedir-se.&lt;br /&gt;— E vocês voltam no próximo baile, não é? — perguntou o lírio diligente, que tinha deitado uns olhinhos à cenoura.&lt;br /&gt;Os dois entraram em casa em bicos de pés. Estavam felizes, muito cansados e não queriam acordar ninguém.&lt;br /&gt;Quando o repolho estava quase a adormecer murmurou:&lt;br /&gt;— Quem diria? Tenho de escrever a história desta noite para nunca a esquecer.&lt;br /&gt;— E eu desenho-te algumas imagens — sussurrou a cenoura — e ficamos com um livro.&lt;br /&gt;Os olhos fecharam-se-lhe. — E um dia mais tarde havemos de lê-lo aos nossos netos.&lt;br /&gt;E começou a ressonar baixinho.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;div align="right"&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="color:#003300;"&gt;Sigrid Laube; Silke Leffler&lt;br /&gt;&lt;em&gt;Der Blumenball&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;Wien, Annette Betz Verlag, 2005&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="right"&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="color:#003300;"&gt;Texto adaptado&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;/div&gt;&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/3848387236642605066-3593892691673128353?l=olharaintolerancia.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://olharaintolerancia.blogspot.com/feeds/3593892691673128353/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=3848387236642605066&amp;postID=3593892691673128353' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/3848387236642605066/posts/default/3593892691673128353'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/3848387236642605066/posts/default/3593892691673128353'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://olharaintolerancia.blogspot.com/2007/06/o-baile-das-flores-sigrid-laube.html' title='O baile das flores - Sigrid Laube'/><author><name>Div. temas</name><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-3848387236642605066.post-8923465878883421472</id><published>2007-06-11T08:02:00.000-07:00</published><updated>2007-06-21T13:53:58.613-07:00</updated><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='Preconceito'/><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='Paz'/><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='Histórias'/><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='Intolerância'/><title type='text'>O Macarronete - Willi Fährmann</title><content type='html'>&lt;div align="justify"&gt;&lt;span style="font-size:120;"&gt;&lt;span style="LINE-HEIGHT: 155%"&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="color:#660000;"&gt;A Sr.ª Joana estava de vigia durante o intervalo grande.&lt;br /&gt;Da zona dos quartos de banho, soava em coro:&lt;br /&gt;“Tónio Macarronete tem lêndeas e uma pulga no barrete.” &lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;span style="color:#660000;"&gt;Correu para o magote de crianças que se acotovelavam num círculo fechado à volta de Tónio Zuccarelli.&lt;br /&gt;Tónio tinha as mãos enfiadas nos bolsos das calças, a cabeça encolhida e os olhos pregados no chão. Era um palmo mais alto do que as restantes crianças da terceira classe.&lt;br /&gt;— “Tónio Macarronete…” — recomeçava Carlos Blum a cantar.&lt;br /&gt;— Acabou! — gritou a Sr.ª Joana, separando as crianças. — É muito feio andarem sempre a aborrecer o Tónio — ralha à sua classe.&lt;br /&gt;— Ele é engraçado quando fica furioso — diz Carlos Blum.&lt;br /&gt;— Fica parecido com um cão que farejou um gato — grita Sílvia.&lt;br /&gt;— Calados! Ninguém se parece com um cão.&lt;br /&gt;— Quando Tónio se enfurece, fica parecido com o nosso cão. —replica Sílvia.&lt;br /&gt;— É isso mesmo! — confirma Carlos, embora nunca tenha visto o cão de Sílvia.&lt;br /&gt;Carlos está zangado com Tónio. Antes do Italianito ter vindo para a turma, Carlos era o mais forte. Mas Tónio suplantou-o. E o Sr. Blum também dizia: “ Os Esparguetes aqui só nos tiram os postos de trabalho.”&lt;br /&gt;Por que é que a Sr.ª Joana tinha de ter sentado o Italianito precisamente na mesa de Carlos? O pai também tinha dito: “Nem deviam deixar os estrangeiros frequentar as escolas alemãs.”&lt;br /&gt;Depois do intervalo, a Sr.ª Joana faz uma proposta:&lt;br /&gt;— Como estamos no Advento, vamos fazer um jogo bonito — diz.&lt;br /&gt;— Escrevi o vosso nome em papelinhos. Cada um vai tirar um nome mas ninguém deve dizer o que lhe saiu.&lt;br /&gt;— Não se pode dizer a ninguém? — pergunta Sílvia.&lt;br /&gt;— A ninguém. Depois cada um de vocês vai fazer as vezes de gnomo para aquele menino cujo nome lhe saiu.&lt;br /&gt;— Gnomo? Que disparate! O que é isso? — gritam as crianças numa grande confusão.&lt;br /&gt;— Eu não inventei o nome nem o jogo — diz a Sr.ª Joana. — Mas posso explicar-vos o que é. Cada gnomo deve pensar, para cada dia, como fazer uma surpresa ao outro. Tudo tem de ser feito em segredo. Ninguém deve dizer a quem é que vai fazer essa surpresa durante o Advento.&lt;br /&gt;— Disparate — diz Carlos. — Gnomices, mas que disparate!&lt;br /&gt;— Não é disparate nenhum — retorquiu a Sr.ª Joana. — A alegria é muito mais bonita quando é proporcionada a outro.&lt;br /&gt;— E se eu tirar o nome deste aqui? Vou ter então de lhe dar alguma coisa todos os dias? — Carlos aponta para Tónio.&lt;br /&gt;“Isso é que seria óptimo para o Carlos!”, pensa a Sr.ª Joana.&lt;br /&gt;Mas Carlos não tirou o nome de Tónio. No seu papel estava escrito Miguel.&lt;br /&gt;No primeiro dia, Carlos encontrou no bolso do anoraque uma bolachinha de canela. Quem é que sabia que bolachas de canela eram as suas preferidas? Teria sido o seu amigo João que lhas oferecera?&lt;br /&gt;No segundo dia encontrou no estojo um cromo de colecção do famoso futebolista brasileiro Pelé. Era mesmo aquele que lhe faltava. O gnomo parecia conhecer Carlos muito bem. Mas quem seria?&lt;br /&gt;Nos dias seguintes, recebeu imensas coisinhas que já há muito tempo queria ter: um pequeno aguça em forma de globo, uma pastilha elástica enorme, um berlinde minúsculo, um anzol e, de uma vez, até uma coisa com a qual toda a turma se admirou. Carlos metera muito naturalmente a mão à pasta e retirou-a logo, assustado. Alguma coisa se mexia lá dentro. Com cuidado, tira então um pequenino novelo castanho que era afinal um ratinho hamster.&lt;br /&gt;Talvez Carlos descobrisse agora quem lho teria oferecido. Quem é que tinha em casa um goldhamster? Mas por mais que investigasse, não foi muito longe. Embora João tivesse um goldhamster, onde já se viu um hamster macho ter filhotes?&lt;br /&gt;No último dia de aulas antes das férias de Natal, a maior parte dos alunos já adivinhara quem tinha sido o seu gnomo.&lt;br /&gt;Fora uma bonita época de adivinhas e surpresas. Só Carlos não fazia a menor ideia de quem lhe tinha dado os presentes. Até que encontrou no caderno, depois do intervalo grande, uma magnífica série de selos italianos. Selos? Italianos? Carlos olhou Tónio com um olhar duvidoso.&lt;br /&gt;Este olhou-o com medo.&lt;br /&gt;— Tu, Macarr…? — Carlos engoliu em seco. — Foste tu, Tónio?&lt;br /&gt;Tónio acenou com a cabeça.&lt;br /&gt;— Eh, pá! — disse Carlos, dando-se conta de como tinha sido mau.&lt;br /&gt;— Obrigado!&lt;br /&gt;— Foi bonito — respondeu Tónio.&lt;br /&gt;Na noite de Natal, o carteiro trouxe um postal de boas festas gigante para o aluno Tónio Zuccarelli, onde estava escrito:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;Querido Tónio, desejo de todo o coração que tenhas um Feliz Natal.&lt;br /&gt;&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;Carlos&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Tónio pregou o postal por cima da cama.&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;/span&gt;&lt;div align="right"&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="color:#660000;"&gt;&lt;span style="font-size:85%;"&gt;Willi Fährmann&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;span style="font-size:85%;color:#660000;"&gt;Jutta Modler (org.)&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;span style="font-size:85%;"&gt;&lt;span style="color:#660000;"&gt;&lt;em&gt;Frieden fängt zu Hause an&lt;br /&gt;&lt;/em&gt;Munique, DTV, 1989&lt;br /&gt;Tradução e adaptação&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/3848387236642605066-8923465878883421472?l=olharaintolerancia.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://olharaintolerancia.blogspot.com/feeds/8923465878883421472/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=3848387236642605066&amp;postID=8923465878883421472' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/3848387236642605066/posts/default/8923465878883421472'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/3848387236642605066/posts/default/8923465878883421472'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://olharaintolerancia.blogspot.com/2007/06/o-macarronete-willi-fhrmann.html' title='O Macarronete - Willi Fährmann'/><author><name>Div. temas</name><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-3848387236642605066.post-141883678517429096</id><published>2007-06-11T07:49:00.000-07:00</published><updated>2007-07-07T08:44:01.794-07:00</updated><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='Preconceito'/><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='anti-semitismo'/><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='Histórias'/><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='Intolerância'/><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='Racismo'/><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='História'/><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='Violência'/><title type='text'>Recordar para não esquecer - Norman H. Finkelstein</title><content type='html'>&lt;div align="justify"&gt;&lt;span style="font-size:120;"&gt;&lt;span style="LINE-HEIGHT: 170%"&gt;Jerusalém, Israel. É Primavera. Visitantes de todos os credos, vindos de vários países do mundo, acorreram a esta cidade santa para celebrar a Páscoa cristã e a Páscoa judaica. Um homem alto e bem parecido entra numa loja de lembranças na Rua de Jaffa. A loja está cheia de clientes. O homem aproxima-se do dono, um senhor idoso, e pergunta-lhe:&lt;br /&gt;— Fala alemão?&lt;br /&gt;O velho responde, num alemão impecável:&lt;br /&gt;— Falo, sim. Seja bem-vindo à minha loja. Está a gostar do nosso país?&lt;br /&gt;— Estou a gostar muito — responde o turista. — Procuro um daqueles candelabros judaicos, que são como que um símbolo do vosso país. Gostaria de levar um comigo, como recordação da minha visita.&lt;br /&gt;— Ah, quer um menorah. — Claro que tenho. Venha ver alguns.&lt;br /&gt;Depois de o jovem alemão ter escolhido um candelabro e de o ter pago, o lojista apertou-lhe a mão e desejou-lhe uma boa viagem de regresso. Quando o homem esticou o braço, viu-se neste um número púrpura tatuado, sinal de que o homem tinha sido condenado à morte por alemães, num tempo não muito remoto.&lt;br /&gt;Entre 1933 e 1945 seis milhões de judeus, homens, mulheres e crianças, foram assassinados na Alemanha e noutros países europeus.&lt;br /&gt;Embora a maioria tenha morrido durante a Segunda Guerra Mundial, não morreram no campo de batalha como soldados. Também não eram culpados de crime algum. Morreram pela simples razão de que eram judeus.&lt;br /&gt;Como pôde isto acontecer? Para responder a esta pergunta, temos de recuar na história.&lt;br /&gt;Há dois mil anos os judeus viviam na sua terra. No ano 70 da era cristã, Jerusalém, a capital do país, foi atacada e destruída e os judeus foram forçados a abandonar as suas casas e o seu país. Durante os dois mil anos que se seguiram, os judeus viveram como nómadas e estrangeiros em muitos países do mundo. E durante séculos, o mundo assistiu ao eclodir de uma nova doença: o anti-semitismo.&lt;br /&gt;Anti-semitismo significa ódio pelos judeus, pela sua religião e pela sua cultura. As suas causas são o medo e a falta de compreensão. Os seus sintomas são os insultos, a discriminação e a violência. Mesmo quando a doença do anti-semitismo parece curada, os sintomas podem irromper a qualquer momento.&lt;br /&gt;Nos países onde viviam, como estrangeiros que eram, os judeus funcionavam facilmente como bodes expiatórios para tudo o que corria mal. Problemas como a doença, a fome, a guerra e o desemprego eram todos imputados aos judeus.&lt;br /&gt;Durante dois mil anos, os judeus rezaram pela paz e pelo direito de voltarem a viver em liberdade. A nível exterior, tiveram de suportar a solidão, o medo e o ódio. A nível interior, reconfortavam-se com o seu orgulho, as suas tradições e a sua religião.&lt;br /&gt;Entre 1933 e 1945, o anti-semitismo funcionou como lei oficial na Alemanha e nos países europeus conquistados pela Alemanha. Sob o lema “Os judeus são a causa do nosso infortúnio”, Adolf Hitler e o seu Partido Nazi delinearam uma série de planos destinados a erradicar o que eles chamavam de “problema judeu”.&lt;br /&gt;Primeiro vieram as humilhações e as expulsões.&lt;br /&gt;Os judeus deixaram de ser considerados como cidadãos. Os seus negócios foram boicotados e não lhes era permitido exercer as suas profissões ou ofícios. As crianças judias deixaram de poder ir à escola pública e todos os judeus foram forçados a usar em público uma estrela amarela simbólica.&lt;br /&gt;Os judeus viviam na Alemanha há centenas de anos e tinham-se tornado participantes activos em todos os sectores da sociedade. Fossem soldados, advogados, homens de negócios ou professores, os judeus consideravam-se, em primeiro lugar, cidadãos alemães.&lt;br /&gt;Embora sempre tenha havido uma vertente anti-semita na sociedade alemã, quando os nazis conquistaram o poder e começaram a ameaçar abertamente os judeus, estes não acreditavam que algum mal pudesse acontecer-lhes. Quando foram promulgadas leis anti-semitas, alguns judeus reconheceram os sinais de perigo e fugiram da Alemanha. Mas muitos outros ficaram para trás. Quando o perigo se tornou real, era demasiado tarde para fugirem.&lt;br /&gt;Depois das humilhações, multiplicaram-se as cenas de violência contra os judeus e contra os seus bens.&lt;br /&gt;Em 1938, durante dois dias em Novembro, foram presos trinta mil judeus. As sinagogas, os edifícios e todas as lojas pertencentes a judeus foram destruídas. Chamou-se a este período Kristallnacht ou “Noite de Cristal”, por causa dos vidros partidos que, no dia seguinte, havia em todas as ruas da Alemanha. Aconteceu o mesmo por toda a Europa, à medida que o exército nazi ia anexando países.&lt;br /&gt;Mas a discriminação e a violência eram apenas o começo; os guetos e os campos de concentração seguiram-se logo depois.&lt;br /&gt;Os nazis construíram uma série de cidades-prisão chamadas campos de concentração, para onde as pessoas que fossem declaradas “inimigas do Estado” eram enviadas. Mas ser judeu apenas era suficiente para se ser enviado para Buchenwald, Auschwitz ou Treblinka.&lt;br /&gt;Para lhes tornarem a vida ainda mais insuportável, os nazis obrigaram os judeus a saírem das suas casas e aldeias e a concentrarem-se em zonas de grandes cidades rodeadas de muros, arame farpado e soldados. Estas áreas vigiadas eram conhecidas como “guetos”. Aí, em condições de higiene deploráveis, os judeus tentavam manter-se vivos e conservar a sua dignidade.&lt;br /&gt;Aqueles que não morreram de fome ou de doença foram condenados à morte nos campos de concentração, que se transformaram nos palcos da morte de seis milhões de judeus e de milhões de vítimas inocentes dos nazis.&lt;br /&gt;Poucos escaparam.&lt;br /&gt;Não importava se se era rico ou pobre, novo ou velho, crente ou ateu, ignorante ou instruído ─ se se fosse judeu, estava-se condenado à morte.&lt;br /&gt;À medida que os nazis conquistavam a Europa, forças especiais do exército prendiam os judeus e levavam-nos para matas ou valas, onde os matavam a sangue-frio. Mais tarde, não satisfeitos com a rapidez das execuções, introduziram o uso do gás venenoso e aumentaram o tamanho dos campos de concentração, a fim de receberem o cada vez maior número de judeus presos por toda a Europa. Conceberam assim um método inédito na história da humanidade ─ a destruição de um povo inteiro através de um plano de extermínio extensivo e preciso.&lt;br /&gt;Quando terminou a Segunda Guerra Mundial, mais de dois terços dos judeus europeus estavam mortos, e o mundo, chocado, perguntava-se como tal podia ter acontecido. Foi uma tragédia inconcebível e medonha. Foi um incêndio selvagem de uma intensidade devastadora ─ um Holocausto.&lt;br /&gt;Algumas pessoas acreditam que a passagem do tempo é, em si mesma, uma forma de curar o sofrimento. A longa história do povo judeu comporta muitos episódios dolorosos. Embora o passar do tempo possa amortecer alguma da dor original, os judeus nunca permitirão que a recordação destas tragédias iniciais se apague. Da mesma forma, nunca esquecerão o Holocausto.&lt;br /&gt;Em 1948, nasceu o Estado de Israel. Ao fim de dois mil anos, os judeus recuperaram a sua terra. Muitos dos que regressaram a Israel eram sobreviventes do Holocausto. Embora fossem estes que carregavam pessoalmente as cicatrizes profundas do sofrimento, muitos outros judeus espalhados pelo mundo compartilhavam a sua dor.&lt;br /&gt;Às vezes, é difícil exprimir publicamente os nossos sentimentos mais íntimos. Queremos poupar aqueles que amamos ao sofrimento, à dor e à vergonha. A tragédia do Holocausto foi tão grande que algumas pessoas não quiseram falar sobre ela ou sequer lembrarem-se do que vivenciaram durante aqueles anos trágicos.&lt;br /&gt;Mas outros sentiram a necessidade de manter viva a memória do Holocausto para impedir que algo de semelhante pudesse voltar a acontecer. Nos últimos dez anos, o Holocausto tem vindo a ser estudado nas escolas e nas universidades. Muitos livros e artigos de revista foram escritos, muitos filmes e documentários produzidos, para darem testemunho das experiências de muitas pessoas que viveram o Holocausto.&lt;br /&gt;Em 1953, uma lei especial aprovada no Knesset, o parlamento israelita, criou uma instituição nacional chamada Yad Vashem, consagrada a estudos e pesquisas sobre o Holocausto.&lt;br /&gt;A tarefa principal do Yad Vashem é documentar todos os acontecimentos do Holocausto, em especial a luta pela vida que os judeus empreenderam por toda a Europa. Os arquivos e a biblioteca do Yad Vashem contêm os arquivos da luta infrutífera travada por milhões de judeus, homens, mulheres e crianças. Fora do edifício, existe um caminho bordejado de árvores, para honrar aqueles que, não sendo judeus, arriscaram as suas vidas para salvar os seus vizinhos judeus.&lt;br /&gt;Desde o fim da Segunda Guerra Mundial, têm-se realizado diversos eventos e programas para honrar os mortos. Só faltava uma data simbólica para que a importância do Holocausto fosse reconhecida e para que a memória dos milhões de pessoas que morreram fosse honrada.&lt;br /&gt;Em 1959 o parlamento israelita promulgou uma lei que criou o Yom Hashoa, o Dia do Holocausto, que se celebra no dia 27 do mês de Nisan, de acordo com o calendário judaico. Esta data coincide com a revolta heróica ocorrida no Gueto de Varsóvia em 1943, que opôs judeus a nazis. Geralmente, tem lugar em Abril.&lt;br /&gt;A comunidade judaica internacional seguiu o exemplo de Israel e, agora, as comunidades judaicas espalhadas pelo mundo celebram essa data para honrar a memória de seis milhões de judeus mortos.&lt;br /&gt;A forma de a comemorar varia de comunidade para comunidade. Em Israel faz-se uma celebração nacional no enorme pátio do Yad Vashem. Às oito horas da manhã, as sirenes de alarme aéreo tocam por todo o país. Todos interrompem as suas actividades para observarem dois minutos de silêncio em memória dos que morreram.&lt;br /&gt;Noutros países, incluindo os Estados Unidos, o dia é assinalado com acontecimentos especiais e com serviços religiosos. Estes podem ser ao ar livre, se o público for numeroso, ou em pequenas sinagogas. Sobreviventes do Holocausto participam com frequência como convidados de honra.&lt;br /&gt;À medida que os anos passam, aqueles que conseguiram sobreviver à brutalidade nazi vão envelhecendo e morrendo. Em breve, não haverá mais ninguém vivo que tenha experimentado pessoalmente o Holocausto. Por isso se torna cada vez mais importante lembrar não só aqueles anos terríveis e a forma como começaram, mas também como a crueldade, o ódio e a discriminação conduziram à violência, à morte e à destruição.&lt;br /&gt;Todos os anos, no Yom Hashoa, judeus de todo o mundo pararão para se lembrarem… de recordar para não esquecer.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-size:85%;"&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="right"&gt;&lt;span style="font-size:85%;"&gt;Norman H. Finkelstein&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;span style="font-size:85%;"&gt;&lt;em&gt;Remember Not To Forget&lt;br /&gt;&lt;/em&gt;Philadelphia, The Jewish Publication Society, 2004&lt;br /&gt;Tradução e adaptação &lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/3848387236642605066-141883678517429096?l=olharaintolerancia.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://olharaintolerancia.blogspot.com/feeds/141883678517429096/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=3848387236642605066&amp;postID=141883678517429096' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/3848387236642605066/posts/default/141883678517429096'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/3848387236642605066/posts/default/141883678517429096'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://olharaintolerancia.blogspot.com/2007/06/recordar-para-no-esquecer.html' title='Recordar para não esquecer - Norman H. Finkelstein'/><author><name>Div. temas</name><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-3848387236642605066.post-2151310011315274128</id><published>2007-06-11T07:46:00.000-07:00</published><updated>2007-06-11T15:53:31.922-07:00</updated><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='Preconceito'/><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='Racismo'/><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='Violência'/><title type='text'>O rapaz e o preconceito - Elisabeth Alexander</title><content type='html'>&lt;span style="font-size:110;"&gt;&lt;span style="LINE-HEIGHT: 155%"&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="color:#333300;"&gt;A cabine telefónica estava temporariamente fora de serviço. Zangado, o rapaz deu um pontapé à porta e gostou de ouvir o barulho que provocou. Chovia a cântaros e o anoraque estava encharcado. &lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="color:#333300;"&gt;Voltou a montar na bicicleta e foi à procura da cabine mais próxima. Estava alguém lá dentro. Assim que chegou mais perto, viu que era um imigrante. Deu-lhe mais dois minutos e depois bateu à porta.&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;span style="color:#333300;"&gt;&lt;br /&gt;Só que o imigrante não fez menção de parar o seu telefonema. Abriu um pouco a porta e fez sinal ao rapaz para entrar. &lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="color:#333300;"&gt;O rapaz encostou a bicicleta à parede amarela, ao lado, e entrou. Não estava com medo nenhum do imigrante. Eles, os imigrantes, é que podiam ter medo dele. Afinal, era um ginasta de primeira classe e também sabia boxe. Além do mais, tinha um canivete. Não era grande nem aguçado, mas quando brilhava, metia medo. &lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="color:#333300;"&gt;O rapaz não conseguia perceber em que língua o homem falava. Talvez turco, talvez servo-croata. O homem falava muito depressa. O rapaz estava admirado que alguém conseguisse falar assim tão rápido, mas provavelmente só soava rápido aos ouvidos dele. &lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="color:#333300;"&gt;O homem afastou o cabelo da testa do rapaz e estendeu-lhe um lenço que tirou do bolso interior. O rapaz pegou mesmo no lenço e secou a cara e as mãos. O estrangeiro exalava um cheiro agradável. &lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="color:#333300;"&gt;Por acaso, ele fazia outra ideia dos emigrantes.&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="right"&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="color:#333300;"&gt;&lt;em&gt;Elisabeth Alexander&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;span style="color:#333300;"&gt;&lt;span style="font-size:85%;"&gt;Hans-Joachim Gelberg&lt;br /&gt;&lt;em&gt;Die Erde ist mein Haus&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;Weinheim, Belz Verlag, 1988&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-size:78%;"&gt;Tradução e adaptação&lt;/span&gt; &lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/3848387236642605066-2151310011315274128?l=olharaintolerancia.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://olharaintolerancia.blogspot.com/feeds/2151310011315274128/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=3848387236642605066&amp;postID=2151310011315274128' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/3848387236642605066/posts/default/2151310011315274128'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/3848387236642605066/posts/default/2151310011315274128'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://olharaintolerancia.blogspot.com/2007/06/o-rapaz-e-o-preconceito-elisabeth.html' title='O rapaz e o preconceito - Elisabeth Alexander'/><author><name>Div. temas</name><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-3848387236642605066.post-7012698944419929350</id><published>2007-06-11T07:33:00.000-07:00</published><updated>2007-06-19T03:25:01.284-07:00</updated><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='Preconceito'/><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='Paz'/><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='Violência'/><title type='text'>A ponte - N. Oettli</title><content type='html'>&lt;div align="justify"&gt;&lt;span style="font-size:110;"&gt;&lt;span style="LINE-HEIGHT: 155%"&gt;&lt;br /&gt;Max e Pedro eram alunos da terceira classe. Moravam em frente um do outro, na mesma rua de uma pequena cidade. Já tinham sido grandes amigos, mas, por um motivo qualquer, tiveram um dia uma discussão e passaram a odiar-se.&lt;br /&gt;Quando Max saía da porta do pátio, gritava para o outro lado da rua:&lt;br /&gt;— Ó palerma! — E mostrava o punho ao ex-amigo.&lt;br /&gt;Pedro respondia:&lt;br /&gt;— Quantos escaravelhos como tu são precisos para fazer um quilo? — E ameaçava-o também com o punho.&lt;br /&gt;Os colegas da turma tinham já tentado reconciliá-los por várias vezes, mas todos os esforços haviam sido vãos. Eram mesmo dois teimosos! Da última vez, acabaram a atirar bolas de lama um ao outro.&lt;br /&gt;Um dia, tinha chovido muito. Depois, as nuvens afastaram-se e o sol voltou a brilhar, mas a rua ficara inundada. Quem queria atravessar tentava, a medo, medir a profundidade da água com a ponta do pé, e recuava.&lt;br /&gt;Max saiu de casa, parou na frente do pátio e olhou satisfeito à sua volta. Tudo fresco e lavado pela chuva, brilhava agora ao sol. De repente, o seu rosto tornou-se sombrio. Do outro lado da rua, estava Pedro parado à porta de casa. E Max reparou que ele tinha na mão uma grande pedra.&lt;br /&gt;“Ah!”, pensou Max. “Então queres atirar-me com uma pedra! Isso também eu sei fazer!”&lt;br /&gt;Correu novamente em direcção ao pátio, procurou um tijolo e voltou para a rua, pronto para se defender.&lt;br /&gt;Mas Pedro não lhe atirou a pedra. Baixou-se na beira do passeio e depô-la na água com cuidado. Depois, experimentou com o pé para ver se oscilava, e desapareceu.&lt;br /&gt;A pedra parecia uma pequena ilha.&lt;br /&gt;“Ah!”, pensou Max. “Isso também eu sei fazer!” E colocou o seu tijolo na água.&lt;br /&gt;Pedro voltou a aparecer, carregando uma segunda pedra. Pôs o pé com cuidado em cima da primeira e colocou a segunda pedra na água, alinhada com o tijolo do seu inimigo. Max trouxe então três tijolos de uma só vez.&lt;br /&gt;E assim foram construindo uma passagem sobre a água.&lt;br /&gt;Nos dois lados da rua, as pessoas observavam-nos e esperavam. Por fim, ficou apenas a distância de um passo entre o último tijolo e a última pedra. Max e Pedro estavam em frente um do outro. Era a primeira vez, desde há muito tempo, que se olhavam novamente nos olhos.&lt;br /&gt;— Tenho uma tartaruga no meu pátio — diz Max. — Queres vir vê-la?&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="right"&gt;N. Oettli&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Jutta Modler (org.)&lt;br /&gt;&lt;em&gt;Brücken Bauen&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;Wien, Herder, 1987&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/3848387236642605066-7012698944419929350?l=olharaintolerancia.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://olharaintolerancia.blogspot.com/feeds/7012698944419929350/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=3848387236642605066&amp;postID=7012698944419929350' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/3848387236642605066/posts/default/7012698944419929350'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/3848387236642605066/posts/default/7012698944419929350'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://olharaintolerancia.blogspot.com/2007/06/ponte-n-oettli.html' title='A ponte - N. Oettli'/><author><name>Div. temas</name><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-3848387236642605066.post-707456255484570403</id><published>2007-06-08T07:56:00.000-07:00</published><updated>2007-06-22T11:30:26.197-07:00</updated><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='Preconceito'/><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='Paz'/><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='Violência'/><title type='text'>Os conquistadores - David McKee</title><content type='html'>&lt;div align="justify"&gt;&lt;span style="LINE-HEIGHT: 200%;color:#000000;" &gt;Era uma vez um vasto país governado por um General.&lt;br /&gt;Os habitantes acreditavam que o seu modo de vida era o melhor.&lt;br /&gt;Tinham um exército muito forte e dispunham de canhões.&lt;br /&gt;De tempos a tempos, o General reunia o exército e atacava um país vizinho.&lt;br /&gt;“É para o bem deles,”dizia. “Para que possam ser como nós.”&lt;br /&gt;Os outros países resistiam, mas acabavam sempre por ser conquistados.&lt;br /&gt;Com o tempo, o General acabou por dominar todos os países. Todos, excepto um…&lt;br /&gt;Tratava-se de um país tão pequeno que o General nunca se tinha dado ao incómodo de o invadir. Só que agora era o único que restava. Assim, o General e o seu exército puseram-se a caminho.&lt;br /&gt;O pequeno país surpreendeu o General.&lt;br /&gt;Não tinha exército nem ofereceu resistência.&lt;br /&gt;As pessoas saudaram os soldados invasores como se fossem convidados bem-vindos.&lt;br /&gt;O General instalou-se na casa mais confortável do país e os soldados ficaram em casa dos habitantes.&lt;br /&gt;Todas as manhãs, o General levava os soldados para a parada e, depois, escrevia cartas à mulher e ao filho.&lt;br /&gt;Os soldados falavam com as pessoas, jogavam com elas, escutavam as suas histórias, cantavam as suas canções e riam-se das suas piadas.&lt;br /&gt;A comida era diferente da deles.&lt;br /&gt;Viam-na a ser preparada e depois comiam-na. Era deliciosa.&lt;br /&gt;Como não tinham mais nada que fazer, ajudavam as pessoas no seu trabalho.&lt;br /&gt;Quando o General se apercebeu do que se estava a passar, ficou furioso.&lt;br /&gt;Mandou os soldados para casa e substituiu-os por outros.&lt;br /&gt;Mas os novos soldados comportaram-se como os outros o tinham feito.&lt;br /&gt;O General percebeu que não precisava de um grande exército.&lt;br /&gt;Decidiu regressar a casa e deixar apenas alguns soldados a ocupar o país.&lt;br /&gt;Logo que o General partiu, os soldados penduraram os uniformes e juntaram-se à população nas tarefas do quotidiano.&lt;br /&gt;O General regressou triunfante a casa, com os soldados a cantarem, como era hábito:&lt;br /&gt;Somos os conquistadores.&lt;br /&gt;Somos os conquistadores.&lt;br /&gt;O General estava contente por ter regressado, embora sentisse que algo mudara.&lt;br /&gt;Os cozinhados cheiravam aos cozinhados do pequeno país.&lt;br /&gt;As pessoas jogavam os jogos do pequeno país.&lt;br /&gt;Até algumas roupas eram iguais às roupas do pequeno país.&lt;br /&gt;Sorriu e pensou: “Ah! Os despojos da guerra.”&lt;br /&gt;Nessa noite, quando foi deitar o filho, o menino pediu-lhe que cantasse para ele.&lt;br /&gt;O General cantou-lhe as únicas canções de que se lembrava.&lt;br /&gt;Eram as canções do pequeno país.&lt;br /&gt;O pequeno país que ele conquistara. &lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="right"&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-size:85%;color:#000000;"&gt;David McKee&lt;br /&gt;&lt;em&gt;The Conquerors&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;London, Anderson Press, 2004 &lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="right"&gt;&lt;em&gt;&lt;span style="font-size:85%;color:#000000;"&gt;tradução e adaptação&lt;/span&gt;&lt;/em&gt;&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;div align="right"&gt;&lt;em&gt;&lt;span style="font-size:85%;color:#000000;"&gt;&lt;/span&gt;&lt;/em&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="right"&gt;&lt;em&gt;&lt;span style="font-size:85%;color:#000000;"&gt;&lt;/span&gt;&lt;/em&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="right"&gt;&lt;em&gt;&lt;span style="font-size:85%;color:#000000;"&gt;&lt;/span&gt;&lt;/em&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="right"&gt;&lt;em&gt;&lt;span style="font-size:85%;color:#000000;"&gt;&lt;/span&gt;&lt;/em&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="right"&gt;&lt;em&gt;&lt;span style="font-size:85%;color:#000000;"&gt;&lt;/span&gt;&lt;/em&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="right"&gt;&lt;em&gt;&lt;span style="font-size:85%;color:#000000;"&gt;&lt;/span&gt;&lt;/em&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="left"&gt;&lt;span style="font-size:85%;"&gt;&lt;span style="color:#000000;"&gt;Texto retirado com autorização do blogue&lt;strong&gt; &lt;/strong&gt;&lt;/span&gt;&lt;a href="http://planeta-eclipse.blogspot.com/2007/05/os-conquistadores.html"&gt;&lt;strong&gt;&lt;span style="color:#000000;"&gt;Violência, que futuro para a humanidade?&lt;/span&gt;&lt;/strong&gt;&lt;/a&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/3848387236642605066-707456255484570403?l=olharaintolerancia.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://olharaintolerancia.blogspot.com/feeds/707456255484570403/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=3848387236642605066&amp;postID=707456255484570403' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/3848387236642605066/posts/default/707456255484570403'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/3848387236642605066/posts/default/707456255484570403'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://olharaintolerancia.blogspot.com/2007/06/os-conquistadores-david-mckee.html' title='Os conquistadores - David McKee'/><author><name>Div. temas</name><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-3848387236642605066.post-5801135460995932174</id><published>2007-06-08T07:50:00.000-07:00</published><updated>2007-06-19T03:25:14.170-07:00</updated><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='Preconceito'/><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='Paz'/><title type='text'>A verdadeira e maravilhosa história do dragão Samuel - José Fanha</title><content type='html'>&lt;span style="font-size:115;"&gt;&lt;span style="LINE-HEIGHT: 155%"&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="color:#333300;"&gt;Para lá das montanhas onde o dia acaba, por trás da noite e do escuro, num sítio escuro e muito perigoso, fica o terrível país dos dragões. &lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;span style="color:#333300;"&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;Foi aí que nasceu o pequeno Samuel, que logo revelou ser um dragão muito especial, embora quem o visse pela primeira vez o achasse igualzinho a todos os outros dragões. &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;Na aparência geral, Samuel era um bebé lindo e sem nenhum defeito. Muito verde, tinha umas lindas escamas a cobrirem-lhe o corpo, uns olhos enormes, vermelhos e flamejantes, e sete cabeças enormes como é normal entre os dragões. &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;Quando começou a crescer é que as coisas se tornaram muito complicadas para o nosso pobre Samuel. &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;Como nós sabemos, desde pequeninos que os dragões aprendem a meter medo às pessoas e aos outros animais. E para isso não lhes basta ser verdes e horrendos. Todos os dias têm de comer enormes quantidades de carvão para, depois, deitarem pela boca grandes labaredas que queimam tudo em redor e mantêm à distância os homens e todos os outros animais. &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;Todos os dragões eram assim. Todos menos o Samuel. O nosso pequeno dragãozinho era igual aos outros dragões em tudo menos numa coisa. Não era capaz de comer carvão. Nem de o cheirar. Mal lhe chegava à boca tinha vómitos e tonturas. Samuel, o pequeno dragãozinho só gostava de comer nuvens. &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;A princípio ninguém deu grande importância ao assunto. Mas, quando chegou à idade de aprender a deitar labaredas pela boca, foi com grande espanto que os pais e todos os outros dragões se aperceberam de que o Samuel, em vez de fogo, deitava rios e rios de água pela boca. &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;O pobre do Samuel tornou-se alvo da risota de todos os outros dragõezinhos da sua idade. Todos se riam dele e o empurravam e diziam que ele nunca havia de ser um dragão como deve ser. &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;Samuel, o pequeno dragãozinho, vivia muito infeliz. Queria ser igual aos outros e deitar fogo e queimar tudo em redor como faziam os seus camaradas de escola. Mas não era capaz. Só sabia deitar água pela boca. Um fiozinho fino e delicado de água que em vez de assustar as árvores e os arbustos só lhes dava alegria e felicidade. &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;Definitivamente, Samuel não era um dragão como todos os outros. &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;Um dia, o Conselho dos Velhos Dragões resolveu mandar chamá-lo. Samuel apresentou-se cheio de medo perante aquele friso solene de velhos dragões onde pontuavam os mais sábios, os mais valentes e os mais fortes de todos os dragões. &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;O mais velho olhou para ele e com a sua voz de trovão ribombante perguntou-lhe severamente: — É verdade que tu, em vez de fogo, deitas água pela boca? &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;— É sim... — respondeu Samuel, que não era capaz de mentir mas sentia as pernas a tremer e o chão a tremer e o céu parecia mesmo que ia cair-lhe em cima da cabeça. &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;Os velhos dragões olharam uns para os outros, desataram a falar baixinho e depressa, e tomaram uma terrível decisão: resolveram expulsá-lo para sempre do país dos dragões.&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;Triste e muito solitário, o pobre dragãozinho Samuel teve de abandonar a sua terra e foi pelo mundo fora sem ter casa para onde voltar, nem cama onde dormir nem sopa quente que o esperasse à noite. &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;Correndo mundo, passaram muitos anos. Samuel vagueava por montes e florestas sem meter medo a ninguém, comendo uma nuvem aqui, outra acolá, deitando água pela boca e tornando-se no amigo preferido das gazelas, dos patos, dos peixes e de todos os animais que vivem ao pé da água. &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;Entretanto, na terra de onde tinha vindo Samuel, os dragões continuavam a comer carvão e a deitar labaredas pela boca. E tanto carvão comeram, e tanto fogo espalharam à sua volta que, a pouco e pouco, acabaram por queimar tudo em seu redor. As flores murcharam, árvores morreram, os rios secaram e o país dos dragões tornou-se num deserto. &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;Sem flores, nem árvores, nem rios, os dragões perceberam que iam acabar por morrer. &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;O seu fim aproximava-se a passos largos e o desespero era já muito grande quando um dos dragões mais velhos e mais sábios se lembrou do Samuel, o dragão que deitava água pela boca e que por isso mesmo tinha sido expulso para sempre daquela terra. Só ele é que podia salvar os dragões. &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;Partiram vários emissários que correram montes e montanhas, vales e florestas até que encontraram o dragão Samuel.&lt;br /&gt;Não foram precisos muitos pedidos para fazer o dragão Samuel voltar. É verdade que sentiu uma dor no peito quando encontrou de novo aqueles que o tinham expulsado da sua terra. Mas, como não era capaz de guardar raiva no coração, dispôs-se a ajudar os seus irmãos. &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;O dragão Samuel desatou a comer nuvens e a deitar água pela boca. E, num ápice, inundou de água o país dos dragões. Os lagos voltaram a encher-se, os rios voltaram a correr caudalosos, as árvores voltaram a crescer grandes e frondosas, as flores voltaram a sorrir ao orvalho da manhã. &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;Os dragões não tinham ficado muito diferentes. Continuavam a deitar fogo pela boca. Se não o fizessem não eram dragões. Mas aprenderam a não queimar mais árvores do que aquelas que eram necessárias e, assim, não deixar a água chegar ao fim. &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;Encontrado o equilíbrio, os dragões viveram de novo felizes e, no meio de um lago redondo, ergueram uma estátua de homenagem ao dragão Samuel. Da boca da estátua sai um fio de água que está sempre a correr, e aos domingos todos os dragões vão atirar bolinhas de pão aos peixes vermelhos que nadam em redor muito satisfeitos. &lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;span style="color:#333300;"&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="right"&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="color:#333300;"&gt;&lt;span style="font-size:85%;"&gt;José Fanha&lt;br /&gt;&lt;em&gt;A noite em que a noite não chegou&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;Porto, Campo das Letras, 2001&lt;/span&gt; &lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/3848387236642605066-5801135460995932174?l=olharaintolerancia.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://olharaintolerancia.blogspot.com/feeds/5801135460995932174/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=3848387236642605066&amp;postID=5801135460995932174' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/3848387236642605066/posts/default/5801135460995932174'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/3848387236642605066/posts/default/5801135460995932174'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://olharaintolerancia.blogspot.com/2007/06/verdadeira-e-maravilhosa-histria-do.html' title='A verdadeira e maravilhosa história do dragão Samuel - José Fanha'/><author><name>Div. temas</name><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-3848387236642605066.post-9108995911507671217</id><published>2007-06-08T07:40:00.000-07:00</published><updated>2007-06-08T08:08:23.788-07:00</updated><title type='text'>Uma decisão importante - Judith Kerr</title><content type='html'>&lt;div align="justify"&gt;&lt;span style="font-size:110;"&gt;&lt;span style="LINE-HEIGHT: 155%"&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="color:#663366;"&gt;&lt;em&gt;Quando, em 1933, os nazis sobem ao poder e começa a perseguição aos cidadãos judeus, os pais de Anna e Max consideram que o mais seguro será fugir. Neste excerto, Anna e Max vivem num hotel, na Suíça, onde travam amizade com Vrenelli e com Franz, os filhos dos donos, até ao dia em que chegam duas crianças alemãs. De início brincam todos juntos, mas essa situação não se prolonga por muito tempo.&lt;/em&gt; &lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;span style="color:#663366;"&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;span style="font-size:110;"&gt;&lt;span style="LINE-HEIGHT: 155%"&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="color:#663366;"&gt;Brincavam todos juntos à apanhada. Antes nunca tinha sido muito divertido, porque eles eram só quatro. (Trudi não contava, porque, como não conseguia correr depressa, era logo apanhada e depois gritava sempre). Mas as duas crianças alemãs eram muito velozes e, pela primeira vez, a brincadeira era mesmo emocionante. Vreneli acabara de apanhar o menino alemão e ele apanhou Anna, por isso agora era a vez da Anna apanhar alguém, e ela correu atrás da menina alemã. Elas corriam às voltas pelo pátio da hospedaria, aos ziguezagues, para trás e para a frente, pulando sobre as coisas, até que Anna julgou que estava quase a apanhá-la – mas uma senhora alta e magra, com uma expressão desagradável, barrou-lhe subitamente o caminho. A senhora apareceu tão de repente, como que saída do nada, que, por pouco, Anna não tinha tempo de parar e quase chocou com ela.&lt;br /&gt;— Desculpe — disse Anna, mas a mulher não lhe respondeu.&lt;br /&gt;— Siegfried! — chamou, com voz estridente. — Gudrun! Já disse que não quero que brinquem com estas crianças!&lt;br /&gt;Agarrou a menina alemã e arrastou-a consigo. O menino seguiu-as, mas quando a mãe não estava a olhar, olhou para Anna, fez uma cara engraçada e acenou com as duas mãos, como que a pedir desculpa. Depois desapareceram os três no interior da hospedaria.&lt;br /&gt;— Que mulher tão mal-encarada! — disse Vreneli.&lt;br /&gt;— Ela deve pensar que nós somos mal-educados — disse Anna.&lt;br /&gt;Tentaram continuar a brincar sem os meninos alemães, mas a brincadeira assim já não prestava. E acabou na confusão do costume, com Trudi em lágrimas, por ter sido apanhada.&lt;br /&gt;Anna só voltou a ver os meninos alemães ao fim da tarde. Eles devem ter andado às compras em Zurique, porque cada um deles trazia um embrulho e a mãe trazia vários, grandes. Quando estavam quase a entrar na hospedaria, Anna pensou que aquela era a sua oportunidade de mostrar que não era mal-educada. Com um salto, passou-lhes à frente e abriu-lhes a porta.&lt;br /&gt;Mas a senhora alemã não parecia estar, de todo, agradada.&lt;br /&gt;— Gudrun! Siegfried! — disse ela, empurrando rapidamente os filhos para dentro. Depois, com um ar carrancudo e mantendo-se o mais afastada possível de Anna, comprimiu-se ela própria para passar. Foi difícil. Os embrulhos quase tapavam a entrada. Finalmente, ela lá entrou e desapareceu. «Sem sequer dizer obrigada», pensou Anna. «A senhora alemã é que é mal-educada!»&lt;br /&gt;No dia seguinte, Anna e Max tinham planeado ir ao bosque com os meninos Zwirn, no segundo dia choveu e no terceiro dia foram com a mãe a Zurique para comprar meias – por isso não voltaram a ver os meninos alemães. Mas depois do pequeno-almoço, na manhã seguinte, quando Anna e Max saíram para o pátio, lá estavam eles outra vez a brincar com os meninos Zwirn. A Anna correu logo em direcção a eles.&lt;br /&gt;— Vamos brincar à apanhada? — perguntou.&lt;br /&gt;— Não — respondeu Vreneli, meio-corada. — E tu nem sequer podes brincar.&lt;br /&gt;Anna ficou tão admirada que, por alguns momentos, não conseguiu pensar em nada para dizer. Será que Vreneli tinha outra vez o menino ruivo na cabeça? Mas ela já não o via há tanto tempo...&lt;br /&gt;— Porque é que a Anna não pode brincar? — perguntou Max. Franz estava tão envergonhado como a irmã.&lt;br /&gt;— Nenhum de vocês pode — respondeu e, apontando para os meninos alemães, acrescentou: — Eles dizem que não podem brincar convosco.&lt;br /&gt;Pelos vistos, não só tinham sido proibidos de brincar com eles, como também de lhes falar, porque o menino parecia querer dizer alguma coisa, mas acabou por fazer apenas a mesma cara engraçada, com ar de quem pede desculpa, e encolheu os ombros.&lt;br /&gt;Anna e Max olharam um para o outro. Nunca se tinham visto numa situação daquelas. Então Trudi, que tinha estado à escuta, começou a cantarolar:&lt;br /&gt;— A Anna e o Max não brincam! A Anna e o Max não brincam!&lt;br /&gt;— Oh! Cala-te! — disse Franz. — Vamos! — e começou a correr com Vreneli em direcção ao lago, com os meninos alemães atrás deles. Durante um momento Trudi ficou surpreendida. Depois cantarolou um último e desafiador «A Anna e o Max não brincam!» e, com as suas curtas perninhas, rompeu em correria atrás deles.&lt;br /&gt;Atrás, ficaram especados Anna e Max.&lt;br /&gt;— Porque é que eles não podem brincar connosco? — perguntou Anna, mas Max também não sabia. Parecia nada mais haver a fazer do que voltar para a sala de jantar, onde o pai e a mãe ainda acabavam de tomar o pequeno-&lt;br /&gt;¬-almoço.&lt;br /&gt;— Pensei que estivésseis a brincar com o Franz e a Vreneli — disse a mãe.&lt;br /&gt;Max explicou o que sucedera.&lt;br /&gt;— Isso é muito estranho — disse a mãe.&lt;br /&gt;— Talvez a mamã pudesse falar com a mãe deles — disse Anna. Ela acabara de reparar na senhora alemã e num homem, que certamente era o marido, sentados numa mesa ao canto.&lt;br /&gt;— Com certeza que falo — disse a mãe.&lt;br /&gt;Nesse preciso momento, a senhora alemã e o marido levantaram-se para sair da sala de jantar e a mãe de Max e de Anna foi ao encontro deles. Estavam muito longe para que Anna pudesse ouvir o que diziam, mas a mamã ainda só tinha dito algumas palavras quando a senhora alemã respondeu alguma coisa que a fez mãe corar de raiva. A senhora alemã disse mais qualquer coisa e fez tenções de ir embora, mas a mamã agarrou-lhe o braço.&lt;br /&gt;— Ai não, não é! — gritou a mãe numa voz que ecoou por toda a sala. — Não é o fim, não senhora. — E rodou sobre os calcanhares, voltando para a mesa, enquanto a senhora alemã e o marido saíram, cabisbaixos.&lt;br /&gt;— Toda a sala te ouviu — disse o pai zangado, quando a mãe se sentou. Ele odiava cenas.&lt;br /&gt;— Ainda bem! — disse a mamã num tom tão alto que o papá sussurrou:&lt;br /&gt;— Chiu! — e acenou para a acalmar.&lt;br /&gt;Ter de falar baixo fez com que a raiva da mãe aumentasse ainda mais, a ponto de mal conseguir falar.&lt;br /&gt;— Eles são nazis — disse ela por fim. — E proibiram os filhos deles de brincar com os nossos, porque os nossos são judeus — o tom da voz dela aumentava com a indignação. — E tu queres que eu fale baixo?! — gritou de tal modo, que uma velha senhora ainda a acabar de tomar o pequeno-almoço ficou tão assustada que quase entornou o café.&lt;br /&gt;O pai cerrou os lábios e disse:&lt;br /&gt;— Eu também jamais permitiria que a Anna e o Max brincassem com filhos de nazis. Por isso não vejo qualquer problema.&lt;br /&gt;— Então, e Vreneli? E Franz? — perguntou Max — Isso significa que se eles brincam com os meninos alemães não podem brincar connosco?&lt;br /&gt;— Eu acho que Franz e Vreneli terão de decidir quem são os amigos deles — disse o pai. — A neutralidade suíça é muito boa, mas pode ir longe demais — e levantou-se da mesa. — Agora sou eu quem vai falar com o pai deles.&lt;br /&gt;Pouco depois, o pai voltou. Ele dissera ao senhor Zwirn que os seus filhos tinham de decidir se queriam brincar com Anna e Max ou com os visitantes alemães. Eles não podiam brincar com os dois. O pai pediu-lhes que não decidissem apressadamente, mas que lhe transmitissem a decisão nessa noite.&lt;br /&gt;— Acho que nos vão escolher a nós — disse Max. — Afinal de contas, nós vamos continuar aqui depois de aqueles meninos se irem embora.&lt;br /&gt;Mas foi difícil saber o que fazer com o resto do dia. Max foi para a beira do lago com a cana de pesca, minhocas e pedaços de pão. Anna não sabia o que havia de fazer. Por fim decidiu escrever um poema sobre uma avalanche que engolira uma cidade inteira, mas não se saiu muito bem. Quando chegou ao desenho ficou tão aborrecida com a ideia de ter de pintar tudo de branco, que desistiu de o fazer. Max, como de costume, não pescou qualquer peixe. A meio da tarde estavam os dois tão deprimidos que a mãe lhes deu meio-franco para irem comprar chocolates –apesar de já ter dito que eram demasiado caros.&lt;br /&gt;No caminho da loja de doces para casa, viram Vreneli e Franz a falar com um ar muito sério à entrada da hospedaria e a seguir passaram por eles com uma expressão embaraçada, olhando em frente, o que os fez sentir pior do que nunca.&lt;br /&gt;Então, Max voltou para a sua pescaria e Anna decidiu ir tomar banho para tentar salvar alguma coisa do dia. Flutuou de costas, coisa que aprendera muito recentemente, mas nem isso a animou. Parecia tudo tão absurdo. Porque é que ela e Max e os meninos Zwirn e os meninos alemães não podiam brincar todos juntos? Porque é que era preciso toda esta história das decisões e de tomar partidos?&lt;br /&gt;De repente, ouviu-se um chape na água ao lado dela. Era Vreneli. As suas tranças compridas estavam atadas num totó no cimo da cabeça, para não se molharem, e o rosto comprido estava mais cor-de-rosa e mais preocupado que nunca.&lt;br /&gt;— Desculpa por esta manhã — disse Vreneli sem fôlego. — Decidimos que preferimos brincar convosco, mesmo que isso signifique não podermos brincar com o Siegfried e a Gudrun.&lt;br /&gt;Depois apareceu Franz na margem.&lt;br /&gt;— Olá Max — gritou. — As minhocas estão a gostar do banho?&lt;br /&gt;— Eu teria apanhado um peixe enorme agora mesmo, se tu não o tivesses espantado com o barulho que fizeste — disse Max, muito satisfeito mesmo assim.&lt;br /&gt;Nessa noite, ao jantar, Anna viu os meninos alemães pela última vez.&lt;br /&gt;Eles estavam sentados, muito direitos, com os pais na sala de jantar. A mãe falava com eles, pausada e insistentemente, e nem mesmo o menino se voltou para olhar para Anna e Max, uma única vez que fosse. No final da refeição, ele passou pela mesa deles, como se os não visse. Toda a família se foi embora na manhã seguinte.&lt;br /&gt;— Lamento que tenhamos feito perder alguns clientes ao senhor Zwirn — disse o papá.&lt;br /&gt;A mãe estava triunfante.&lt;br /&gt;— É uma pena — disse Anna. — Tenho a certeza de que aquele menino gostava mesmo de nós.&lt;br /&gt;Max abanou a cabeça.&lt;br /&gt;— No fim, já não gostava de nós. Depois da a mãe ter falado com ele, ele deixou de gostar de nós.&lt;br /&gt;«É verdade», pensou Anna. Ela imaginou o que o menino estaria a pensar agora, o que a mãe lhe teria dito acerca dela e de Max, e como seria ele quando crescesse.&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="right"&gt;&lt;em&gt;&lt;span style="color:#663366;"&gt;Judith Kerr &lt;/span&gt;&lt;/em&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="right"&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-size:85%;color:#663366;"&gt;Manuela Fonseca e outros (org.)&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;span style="font-size:85%;"&gt;&lt;span style="color:#663366;"&gt;&lt;em&gt;Lá longe, a paz&lt;br /&gt;&lt;/em&gt;Porto, Edições Afrontamento, 2001 &lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Texto retirado com autorização de &lt;a href="http://espaco-esperanca.blogspot.com/2007/05/uma-deciso-importante-judith-kerr.html"&gt;&lt;strong&gt;Caminhos para a paz&lt;/strong&gt;&lt;/a&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/3848387236642605066-9108995911507671217?l=olharaintolerancia.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://olharaintolerancia.blogspot.com/feeds/9108995911507671217/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=3848387236642605066&amp;postID=9108995911507671217' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/3848387236642605066/posts/default/9108995911507671217'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/3848387236642605066/posts/default/9108995911507671217'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://olharaintolerancia.blogspot.com/2007/06/uma-deciso-importante-judith-kerr.html' title='Uma decisão importante - Judith Kerr'/><author><name>Div. temas</name><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-3848387236642605066.post-8560526034444271127</id><published>2007-06-08T07:26:00.000-07:00</published><updated>2007-06-19T03:26:38.502-07:00</updated><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='Intolerância'/><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='Ambição'/><title type='text'>Colares de pérolas - António Torrado</title><content type='html'>&lt;div align="justify"&gt;&lt;span style="color:#003300;"&gt;&lt;span style="font-size:110;"&gt;&lt;span style="line-height: 155%"&gt;&lt;br /&gt;Joanina e Lionídia eram duas jovens que se preparavam para o primeiro baile.&lt;br /&gt;Vestiam vestidos de seda branca com muita goma e roda, todos enfeitados de lacinhos azuis e cor-de-rosa.&lt;br /&gt;Não haverá hoje raparigas que consintam em usar vestidos destes, mas isto passou-se há muito tempo.&lt;br /&gt;Diante do toucador, ajeitaram ao espelho os caracóis e canudos de cabelo, que as faziam parecer bonecas de porcelana. Sentiam-se lindas. E, efectivamente, sinceramente, estavam.&lt;br /&gt;Chegou a altura dos últimos adornos. Brincos, anéis pulseiras e um diadema no toucado. Até o espelho pestanejou com tanto brilho.&lt;br /&gt;— Falta o colar — lembrou a Lionídia, enquanto procurava, na sua caixinha de guarda-jóias, o ornamento essencial à perfeição do quadro.&lt;br /&gt;Já Joanina tinha tirado do respectivo guarda-jóias e posto com todo o cuidado ao espelho o seu colar de pérolas, sorrindo, feliz, porque era a primeira vez que o punha. Sentia-se uma senhora, uma dama, um modelo para um retrato a óleo.&lt;br /&gt;Lionídia tinha um colar igual. Ou quase.&lt;br /&gt;— O teu colar é de pérolas falsas — disse Lionídia, olhando de esguelha para o colar de Joanina.&lt;br /&gt;— Como é que tu sabes? — indignou-se ela. — Este colar está na nossa família há várias gerações e sempre foi tomado como verdadeiro.&lt;br /&gt;— É falso. Digo e torno a dizer, porque as tuas pérolas não têm a perfeição nem a transparência leitosa, nacarada, aveludada das minhas.&lt;br /&gt;Isto dito por Lionídia era uma afronta para Joanina.&lt;br /&gt;— E se for ao contrário? — ripostou ela. — Está-me a parecer que as tuas pérolas é que são uma perfeita imitação das minhas.&lt;br /&gt;Enervaram-se. Zangaram-se. Descompuseram-se.&lt;br /&gt;Brigaram. Não fosse estarem tão alinhadas para a festa e, quase de certeza, ainda acabariam por se agarrar aos caracóis uma da outra e espatifar os vestidos brancos, engomados e rodados, com lacinhos azuis e cor-de-rosa…&lt;br /&gt;Uma réstia de boa educação e de bom senso conteve-as.&lt;br /&gt;Para decidirem de uma vez para sempre qual tinha razão lembrou-se uma delas.&lt;br /&gt;— Só há uma prova a fazer. O vinagre!&lt;br /&gt;Quem não souber que aprenda que o vinagre desfaz as pérolas naturais, as legítimas, as fabricadas com sossego e demora, dentro da concha paciente das ostras.&lt;br /&gt;Muito exaltadas e avinagradas, foram buscar à cozinha uma tigela de vinagre.&lt;br /&gt;— Queres ver que o teu colar pelintra não se desfaz — disse a Joanina à Lionídia.&lt;br /&gt;— A porcaria do teu colar é que não vai desfazer-se — disse Lionídia à Joanina.&lt;br /&gt;O resto está-se mesmo a ver. Dissolveram-se no banho de vinagre as pérolas de ambos os colares. Só sobraram para amostra fios e fechos, tão valiosos como duas espinhas de peixe.&lt;br /&gt;E as duas jovens, depois de chorarem muitas lágrimas, abraçadas uma à outra, lá tiveram de ir para o baile sem os seus preciosos colares.&lt;br /&gt;Pobres das ostras que tanto trabalharam a acrescentar, a arredondar e a aprimorar as suas maravilhosas pérolas, para que assim se perdesse o labor de tantos anos num bochecho de vinagre. Dá que pensar. &lt;/div&gt;&lt;div align="right"&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;António Torrado&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;a href="http://www.historiadodia.pt/pt/index.aspx"&gt;www.historiadodia.pt &lt;/a&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/3848387236642605066-8560526034444271127?l=olharaintolerancia.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://olharaintolerancia.blogspot.com/feeds/8560526034444271127/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=3848387236642605066&amp;postID=8560526034444271127' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/3848387236642605066/posts/default/8560526034444271127'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/3848387236642605066/posts/default/8560526034444271127'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://olharaintolerancia.blogspot.com/2007/06/colares-de-prolas-antnio-torrado.html' title='Colares de pérolas - António Torrado'/><author><name>Div. temas</name><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-3848387236642605066.post-8162327559140190083</id><published>2007-06-08T07:04:00.000-07:00</published><updated>2007-06-19T03:27:09.964-07:00</updated><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='Preconceito'/><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='Intolerância'/><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='Cólera'/><title type='text'>A cerca - Wilhelm Meissel</title><content type='html'>&lt;div align="justify"&gt;&lt;span style="color:#003300;"&gt;&lt;span style="font-size:110;"&gt;&lt;span style="line-height: 150%"&gt;A Sr.ª Vitória vivia nos arrabaldes da cidade. À volta da sua pequena casa havia um jardim com árvores de fruto e canteiros de flores e legumes. Não morava sozinha. Tinha um cão, um Schnauzer preto e cinzento que, quando ladrava, mais parecia um barril de metal cheio de pedras a rolar por uma encosta. Chamava-se Tasso, e era com ele que a Sr.ª Vitória falava quando estava só, o que, aliás, acontecia muitas vezes. Não tinha filhos nem demais família, e já era tão idosa que dificilmente poderia fazer novos amigos. Só tinha o seu Tasso, a quem adorava. Ai de quem dissesse mal do Tasso! A fúria trazia-lhe à boca palavras feias e a ira subia-lhe aos olhos.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A Sr.ª Maria morava também nos arrabaldes da cidade. À volta de casa havia igualmente um lindo jardim bem arranjado, com relva e abetos brancos, bétulas e salgueiros. A Sr.ª Maria tinha filhos, filhas e netos, mas estes não se preocupavam com ela, porque era idosa e tristonha, e não possuía bens. E, tal como a Sr.ª Vitória, tinha também um cão, um baixote a que dera o nome de Niki. Quando Niki ladrava, parecia que cem garotos traquinas estavam a brincar com apitos… todos ao mesmo tempo! Mas, para a Sr.ª Maria, o ladrar do seu cãozinho era maravilhoso e os olhos brilhavam-lhe quando ele, com o focinho cheio de terra, parava a ladrar em frente de algum buraco de ratos.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A Sr.ª Vitória e a Sr.ª Maria eram vizinhas. Os jardins estavam separados por uma cerca de ripas de madeira, mas nem a Sr.ª Vitória nem a Sr.ª Maria se aproximavam dela, se a outra estivesse no fundo do jardim. Não gostavam uma da outra. Nunca tinham tentado trocar uma palavra, e os culpados disso eram Tasso e Niki.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Todas as manhãs, mal as portas das duas casas se abriam, Tasso e Niki precipitavam-se para o jardim, corriam para a cerca e, de dentes arreganhados, corriam de um lado para o outro, para cima e para baixo ao longo da cerca, latindo furiosamente: o barril de metal rouco e o apito estridente. Com o pêlo eriçado e os beiços a espumar, prontos a saltar ao pescoço um do outro a qualquer momento. E, todas as manhãs, a Sr.ª Vitória e a Sr.ª Maria apareciam à porta com má cara e de mãos trémulas, a chamar os seus queridos.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;— Tasso! Tasso! Querido! Já aqui! Deixa esse cão mau — chamava a Sr.ª Vitória indignada.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;— Niki, Niki! Já para aqui! Vem comer a tua carninha. Deixa esse selvagem! — gritava a Sr.ª Maria, fora de si.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Quando os cães se separavam e voltavam para as donas, eram recebidos com muita efusão, acariciados e conduzidos às tigelas da comida. As portas fechavam-se com estrondo, e a Sr.ª Maria e a Sr.ª Vitória voltavam a ficar a sós com os seus cães.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;— És um cão muito bonito — dizia a Sr.ª Vitória ao seu Tasso, enquanto lhe passava a mão pelo pêlo. — Isso! Ralha àquele cão mau! Tem um ladrar tão feio! Tu não! Tu és um bom cão, um cão muito bonito.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Do outro lado da cerca, a conversa era a mesma:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;— Anda, Nikinho, aqui tens a tua carninha. É assim mesmo! Mostra àquele feio que aqui não há-de fazer o que quer. Um selvagem daqueles! — dizia a Sr.ª Maria ao seu cão.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A Sr.ª Maria ia em seguida ao quarto de banho, fingia que sacudia as cortinas e espreitava para o jardim. A Sr.ª Vitória ia igualmente ao quarto de banho, subia a um banquinho e, com cautela, deitava uma olhadela por cima da cerca. Depois, as duas senhoras abandonavam os seus postos de observação e ficavam satisfeitas quando não viam ninguém no jardim.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Certa noite, uma tempestade passou por aquela zona, lançou rajadas de vento sobre o jardim, sacudiu as árvores e os arbustos, abanou a velha cerca e partiu-lhe um pedaço.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O dia seguinte amanheceu calmo e sereno. Só a chilreada dos pássaros era a do costume, e assim esteve, até as portas das duas casas se abrirem e Tasso e Niki se precipitarem para fora.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Atiçaram-se um ao outro, lançaram-se contra a cerca, ladraram, espumaram, arreganharam os dentes, correram ofegantes ao longo da cerca tentando apanhar-se, voltaram para trás e voltaram a correr até à outra ponta. Até ao local onde a tempestade a tinha derrubado.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Os cães pararam. O ladrar morreu. De um momento para o outro, encontravam-se frente a frente, sem a cerca a separá-los, assustados, surpreendidos, quietos. Durante uns segundos, olharam-‑se, desconfiados, sem se mexerem, até que, aos poucos, as orelhas caídas se foram levantando, o pêlo eriçado se acalmou, as caudas começaram a mexer-se e a abanar. Depois, tocaram-se levemente nos focinhos, farejaram-se e começaram a andar em círculo, cada vez mais depressa, até que Tasso entrou a correr pelo jardim de Niki, com este atrás. Desataram a correr à volta da casa, de início sem fazerem barulho, tentando apanhar-se um ao outro, e passaram para o jardim de Tasso. Empurravam-se, davam cambalhotas, rolavam na relva, latiam baixinho de prazer e alegria para depois continuarem naquela perseguição desenfreada.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Quando chegou à porta, a Sr.ª Vitória estranhou o silêncio. A Sr.ª Maria, quando se preparava para chamar o seu queridinho, também abriu a boca de admiração não pelo silêncio em que o jardim se encontrava, mas por ver dois cães com a língua de fora, a correr em círculo à volta das bétulas e dos salgueiros.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;— Niki! — gritou indignada a Sr.ª Maria.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Os dois cães correram até junto dela, deitaram-se aos seus pés, rodearam-na, roçaram-se-lhe nas pernas, lamberam-lhe as mãos. Dispersaram em seguida, voltaram a para correr à volta da casa e passaram para o outro jardim, subindo os degraus da porta das traseiras, de onde a Sr.ª Vitória, decepcionada, assistia àquela correria desenfreada. Confusa, desceu ao jardim, e foi imediatamente cercada pelos cães, que corriam à sua volta, saltando e latindo, rebolando-se e batendo com o focinho nas mãos dela. Depois afastaram-se. Tasso procurou a maior macieira, no tronco da qual levantou a pata, e correu para o seu jardim, seguido por Niki, que escolheu o salgueiro do jardim da Sr.ª Maria para deixar a sua marca.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A Sr.ª Vitória aproximou-se devagar da cerca do jardim, para ver os estragos provocados pela tempestade.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A Sr.ª Maria apareceu à esquina da casa e parou, mas lá se foi aproximando da cerca, hesitante.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;— A trovoada desta noite… — disse a Sr.ª Vitória.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A Sr.ª Maria assentiu.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;— A tempestade — acrescentou.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;— Foi uma sorte não ter havido mais estragos — disse a Sr.ª Vitória.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;— E não terem caído árvores, graças a Deus — disse a Sr.ª Maria.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;— E não se terem estragado telhados — acrescentou a Sr.ª Vitória.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Depois olharam à sua volta.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;— Mas onde é que estão os cães? — perguntou a Sr.ª Vitória.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;— Talvez em minha casa. Deixei a porta aberta — disse a Sr.ª Maria, dirigindo-se rapidamente para casa.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A Sr.ª Vitória também queria segui-la para ir buscar o seu Tasso, mas não se atrevia a passar a cerca. Ficou a olhar para a vizinha, que se afastava. A Sr.ª Maria virou-se de repente.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;— Venha — disse. — Vamos procurar os cães!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A Sr.ª Vitória passou a cerca estragada. Estava com uma sensação esquisita. Era como se estivesse a penetrar num mundo totalmente estranho e desconhecido.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Os cães estavam de facto em casa, em frente de um prato com carne, onde comiam ambos, um ao lado do outro. As duas senhoras pararam atrás e observavam, caladas.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;— Bem, mas agora já chega! — disse a Sr.ª Vitória a Tasso, algum tempo depois. — Não vais comer tudo ao Niki! Além disso, tens de o convidar para vir a nossa casa!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Agarrou-lhe na coleira e levou-o. A Sr.ª Maria acompanhou-a até ao buraco na vedação.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;— Já que sou eu a responsável pela vedação — disse — vou mandar arranjá-la.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;— Isso vai custar muito dinheiro — disse a Sr.ª Maria.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;— O que tem de ser, tem de ser — respondeu a Sr.ª Vitória.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Niki saiu de casa a correr em direcção ao jardim da Sr.ª Vitória.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;— Estes cães não respeitam fronteiras nenhumas — disse a Sr.ª Maria, sorrindo, embaraçada. — Por mim, não precisa de mandar já compor a cerca.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;— Está bem, mas o que é que eu faço com ela?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;— Está tão podre. Deixe-a lá!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;— Os cães iam gostar… — disse a Sr.ª Vitória.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;— Hum… já deixaram de ladrar. E as fronteiras não tornam maus só os animais — disse a Sr.ª Maria.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Por uns instantes, a Sr.ª Vitória olhou em volta, e depois perguntou:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;— Já tomou o pequeno-almoço?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;— Eu não, só o cão — respondeu a Sr.ª Maria.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;— Então venha! O meu café ainda está quente.&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="right"&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;&lt;span style="color:#003300;"&gt;Wilhelm Meissel&lt;/span&gt;&lt;/em&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="right"&gt;&lt;span style="color:#003300;"&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="right"&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-size:85%;color:#003300;"&gt;Jutta Modler (org.)&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;span style="font-size:85%;"&gt;&lt;span style="color:#003300;"&gt;&lt;em&gt;Brücken Bauen&lt;br /&gt;&lt;/em&gt;Wien, Herder, 1987&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/3848387236642605066-8162327559140190083?l=olharaintolerancia.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://olharaintolerancia.blogspot.com/feeds/8162327559140190083/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=3848387236642605066&amp;postID=8162327559140190083' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/3848387236642605066/posts/default/8162327559140190083'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/3848387236642605066/posts/default/8162327559140190083'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://olharaintolerancia.blogspot.com/2007/06/cerca-wilhelm-meissel.html' title='A cerca - Wilhelm Meissel'/><author><name>Div. temas</name><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>0</thr:total></entry></feed>
